domingo, 19 de Julho de 2009

Notícias em néon

Seria desejável que as notícias do PÚBLICO não se confundissem com marketing, mas às vezes acontece





Se a jornalista considera o Kindle vantajoso, é admissível que o reconheça sem constrangi-
mentos






A chamada da pág. 1 dizia: “Leitor de e-books. Cuidado, o novo Kindle vicia”. A capa do P2 anunciava: “Rendidos ao Kindle 2, o novo leitor de livros electrónicos”. E a entrada do artigo propriamente dito, nas págs. 4-6 do P2 de 30 de Junho, relatava que a autora, a jornalista Isabel Coutinho, “está completamente rendida pelo leitor de livros electrónicos da Amazon [empresa de venda de livros online]”. O texto não deixava lugar a dúvidas: “Quando se tem um Kindle nas mãos mais do que cinco minutos fica-se apaixonado por ele (...). Não queremos mais saber de outros leitores de e-books. (...) Foi isso que me aconteceu”.

O leitor Nuno Brandão não apreciou esta linguagem: “À medida que ia lendo o artigo já não sabia se se tratava de um texto publicitário ou jornalístico, tal o tom elegíaco adoptado por quem assina. Passagens há que se assemelham à ficha técnica do produto (...). Contava que no final se escrevesse qualquer coisa como ‘viagem patrocinada pela Amazon’, mas nem isso aparece”. E questionou: ”O teor deste artigo coaduna-se com os deveres de isenção e de distanciamento comercial? Deveres esses que, presumo, são impostos pela deontologia jornalística e seguramente constam do Livro de Estilo do PÚBLICO”.

Numa primeira impressão, o provedor sentiu o mesmo desconforto do leitor, com todas as setas de néon, desde a primeira página, a apontarem para a excelência de um produto comercial. Mas Isabel Coutinho esclareceu-o: “Que fique muito claro que no final de Maio fui aos Estados Unidos de férias (viagem paga do meu bolso), comprei um Kindle 2 através do site da Amazon (pago do meu bolso) e nunca tive nenhum contacto com qualquer director de marketing ou com seja quem for da Amazon para fazer este trabalho. O texto (...) é um relato na primeira pessoa da minha experiência com o Kindle que comprei por minha iniciativa. Não é a primeira vez que no PÚBLICO escrevo sobre o Kindle ou outros aparelhos que servem para ler livros electrónicos. Mas foi a primeira vez que escrevi sobre este aparelho depois de o usar diariamente. Tenho aliás um outro aparelho para ler livros em formato electrónico, um Sony Reader, que também comprei (pago com dinheiro do meu bolso), e por isso tenho termo de comparação. Sei quais são as vantagens do Kindle em relação aos seus concorrentes e quais as desvantagens na óptica do utilizador. (...) Apesar do meu entusiasmo – que é genuíno – , vou referindo essas desvantagens no meu texto (...). Na minha coluna Ciberescritas (...) tenho escrito sobre estes aparelhos (alguns desses textos estão acessíveis no blogue Ciberescritas). Em 1 de Dezembro de 2007, escrevi o tema de capa do suplemento ‘Digital’ onde se discutia ‘se o futuro do livro passa pelo Kindle’ e fazia uma cronologia sobre todos os outros leitores de e-books (vantagens e desvantagens). Quem acompanha o meu trabalho sabe as reservas que sempre tive em relação ao Kindle, mas depois de o comprar e utilizar todos os dias mudei de opinião”.

Mais do que uma opinião, o provedor considera o artigo, na verdade, um testemunho de quem testa um produto comercial e fornece um ponto de vista individual sobre as suas virtudes e os seus defeitos (no caso vertente, mais aquelas do que estes). Sendo assim, é admissível que, se a jornalista considera o produto vantajoso, o possa reconhecer sem constrangimentos e sem perder a isenção, no âmbito do registo pessoal utilizado.

Ao contrário do que pressupõe o leitor, nem o Livro de Estilo do PÚBLICO nem o Código Deontológico dos jornalistas portugueses contêm disposições limitando este estilo de escrita, que alguns considerarão “promocional” se a apreciação for positiva, mas que poderá ser demolidora se o jornalista achar o teste decepcionante.
É claro que existem disposições sobre objectividade jornalística (“pluralidade das fontes, investigação cuidada” – estipula o Livro de Estilo) e que o artigo em causa se baseia sobretudo na subjectividade da repórter, que não confronta a sua experiência com a de outros utilizadores do aparelho. Mas, aplicada à letra, essa regra eliminaria o género de jornalismo testemunhal que pode enriquecer os media. O tema não se esgota no texto de Isabel Coutinho, e o PÚBLICO poderá cumprir tal desiderato procurando outros pontos de vista e acompanhando a evolução do sector.

De um artigo extenso para uma notícia de um parágrafo, mantém-se o risco de se confundir marketing e jornalismo. É o caso da nota não assinada inserida na pág. 15 de 3 de Julho anunciando que "a Visão Junior, da Impresa, única revista nacional dedicada à faixa etária 6-14 anos, é a primeira publicação periódica a integrar o Plano Nacional de Leitura". Para a leitora Claudia S. V., a notícia “está completamente errada”, por três razões: “1. Esta revista não é nem nunca foi a única revista nacional dedicada ao público infanto-juvenil; posso pelo menos mencionar seis títulos, dedicados ao mesmo target (...). 2. Por mais abrangente que se queira ser (...), quem é que não acha estranho que uma revista seja direccionada a um target de 6 aos 14 anos? (...) Os interesses em comum entre estas idades são zero (...). 3. Lamento informar, mas esta revista não é a primeira publicação periódica a ter o apoio do Plano Nacional de Leitura. Acredito que seja bom querer passar a mensagem de que foram os primeiros, mas outros (...) já o fizeram anteriormente. A primeira publicação periódica foi um suplemento do jornal O Primeiro de Janeiro, ‘O Janeirinho’, dirigido a crianças, e das revistas (...) foi a Giggle, para o target juvenil”.

Ana Fernandes, que editou a notícia, explica que se tratava de um versão sintética da que fora difundida na véspera pelo PUBLICO.PT: “Como tive de a reduzir muito (...), cortei um dado essencial, como se pode ver comparando com o original: ‘Única revista nacional de informação dedicada à faixa etária 6-14 anos’. Este dado muda muito (...). O erro foi meu, assumo-o e lamento. (...) Em relação aos outros dois pontos, não me parece que a leitora tenha razão – o target é definido pela Visão Júnior, não temos nada a ver com isso (lembro-me que a Tintin se apresentava como uma revista para um público dos 7 aos 77) (...)”.

Quanto ao suposto pioneirismo da revista visada, esclarece Ana Machado, a autora das duas notícias (online e papel): “Sobre o facto de ser a primeira, é verdade, uma vez que a tal Giggle é uma publicação exclusivamente electrónica, dedicada a crianças e famílias, coisa que a leitora não refere. E sobre o ‘Janeirinho’ não é uma revista, é um suplemento”.

Se toda a gende lesse notícias pelo Kindle, talvez o problema não se colocasse, já que se dispensava o resumo da notícia. De todo o modo, tanto na versão electrónica como na impressa o provedor detecta dois problemas: assume-se como facto que a revista se destina mesmo ao público dos 6-14 anos (o que não passará de um slogan comercial, tal como os 7-77 da antiga Tintin) e não existe a necessária menção à fonte ou fontes que transmitiram os dados, o que salvaguardaria melhor a posição do jornal.


CAIXA:

A síndrome da bica

Por que será que, tão amiúde, os jornalistas não acertam na concordância entre sujeito e predicado em casos de quantidade (singular/plural)? Parece que suspenderam a frase a meio para tomar um café ou fumar um cigarro e, no regresso, continuaram a escrever sem ler o que estava atrás. Casos recentes do PÚBLICO: “a forma como reagiu ontem (...) às notícias sobre as trapalhadas do recenseamento eleitoral mostram que mantém o estilo” (13 de Julho, pág. 32); “A derrota dos socialistas nas eleições para o Parlamento Europeu levaram o secretário-geral do PS, José Sócrates, a tomar uma decisão inédita” (6/7, pág. 1); “A leitura das primeiras páginas desse livro lembraram-lhe a descrição da Belém do Pará” (P2, 6/7, pág. 4); “O mediatismo à volta das acções da mãe de Martim podem ter pesado” (legenda, 1/7, pág. 6); “As imagens do vaivém Atlantis a ser transportado por um avião no Centro Espacial Kennedy chocou o Vaticano” (Inimigo Público, 11/6, pág. 6); “o alargamento definitivo dos passeios e a redução do trânsito na Praça do Comércio tem sido elogiada” (2/6, pág. 23); “os Verdes, presididos por Daniel Cohn-Bendit, que reforçaram fortemente a sua presença no PE com 52 deputados, defendeu pelo contrário uma frente ‘anti-Barroso’” (9/6, pág. 9); “BPN e envolvimento do PSD volta em força ao discurso socialista” (título, 2/6, pág. 8); “O paradigma da sociedade da abundância e do desperdício, do consumo fácil, (...) não trouxeram a felicidade” (P2, 15/5, pág. 3); “Críticas à lei do financiamento incomoda socialistas” (título, 7/5, pág. 6); “A intensificação dos atentados e o aumento significativo do número de vítimas mortais da violência em Abril no Iraque mostra um regresso em força da insurreição sunita” (4/5, pág. 12); “Suspeitas de maus tratos e de alegada negligência médica leva Ministério Público a levantar corpo da urna” (entrada, 18/4, pág. 18); “o cariz de intervenção e alerta social marcaram sempre presença” (15/4, pág. 6); “Novas regras de colocação de professores faz crescer procura de diplomas de Espanhol” (título, 30/3 pág. 7); “O primeiro-ministro José Sócrates, acompanhado pelo ministro da Economia Manuel Pinho, visitaram ontem a Energie” (P2, 25/3, pág. 2); “Cada vez mais o nosso destino pessoal e de nossos filhos (...) estão da dependência do Estado” (26/3, pág. 33); “Os julgamentos na praça pública, feitos através da comunicação social que dá voz apenas aos intervenientes que decide defender, tornou-se um hábito em Portugal” (26/3, pág. 34); “Livre-trânsito de 23 quadros de serviço de informações foram reproduzidos num sistema acessível a centenas de pessoas” (entrada, 14/2, pág. 6); “as reacções do treinador a cada um dos falhanços dos avançados mostrava a todos os que seguiam o jogo o estado de espírito dominante” (P2, 13/2, pág. 2); “A Media Capital viu os seus lucros cair 36 por cento” (13/2, pág. 33); “para ver se algum voto de protesto e o prestígio local de muitos presidentes de câmara safa o partido” (13/2, pág. 37); “o apelo, em campanhas eleitorais, ao voto emanadas de organizações religiosas” (P2, 12/2, pág. 3); “manjava conquilhas com um à-vontade que fariam James Bond parecer um matarruano” (10/2, pág. 35). Mas que fazer, se o próprio Livro de Estilo do jornal está afectado da mesma síndrome: “A capa dos suplementos e da Pública não incluirão publicidade” (pág. 172)?

Publicada em 19 de Julho de 2009

DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR:

Explicações da jornalista Isabel Coutinho:

Depois de ler a carta do leitor Nuno Brandão e o comentário de Rui Monteiro no PÚBLICO online, quero que fique muito claro que no final de Maio fui aos Estados Unidos de férias (viagem paga do meu bolso), comprei um Kindle 2 através do site da Amazon (pago do meu bolso) e nunca tive nenhum contacto com qualquer director de marketing ou com seja quem for da Amazon para fazer este trabalho.

O texto que escrevi para o P2 é um relato na primeira pessoa da minha experiência com o Kindle que eu comprei por minha iniciativa. Não é a primeira vez que no PÚBLICO escrevo sobre o Kindle ou outros aparelhos que servem para ler livros electrónicos. Mas foi a primeira vez que escrevi sobre este aparelho depois de o usar diariamente. Tenho aliás um outro aparelho para ler livros em formato electrónico, um Sony Reader, que também comprei (pago com dinheiro do meu bolso) e por isso tenho termo de comparação. Sei quais são as vantagens do Kindle em relação aos seus concorrentes e quais as desvantagens na óptica do utilizador. Penso que apesar do meu entusiasmo - que é genuíno - , vou referindo essas desvantagens no meu texto (a dificuldade com os PDF, o ser um aparelho caro, o teclado demasiado pequeno para os dedos masculinos, ser incipiente a ligação à Wikipedia e à internet básica, existir pouca diversidade na loja online, faltar poesia, etc).

Conheço também - de ver nas feiras de livro internacionais, mas não tenho um - outro e-book reader concorrente destes, o iLiad. Na minha coluna Ciberescritas, ao longo de mais de uma década, tenho escrito sobre estes aparelhos (alguns desses textos estão acessíveis no blogue Ciberescritas). No dia 1 de Dezembro de 2007, escrevi o tema de capa do suplemento "Digital" onde se discutia "se o futuro do livro passa pelo Kindle", e fazia uma cronologia sobre todos os outros leitores de e-books (vantagens e desvantagens). Quem acompanha o meu trabalho sabe as reservas que sempre tive em relação ao Kindle, mas depois de o comprar e utilizar todos os dias mudei de opinião. O aparelho nesta sua segunda versão melhorou muito e, quando usado nos Estados Unidos, bate a concorrência por causa da sua ligação sem fios. Como escrevi, trocava este aparelho por outro: a cores, ecrã táctil e caneta (ainda não existe à venda). É a minha opinião.

Isabel Coutinho

sábado, 18 de Julho de 2009

O manipulador assumido



Na última página da edição do PÚBLICO de sábado 11 de Julho, afirma-se em título [remetendo para a pág. 8] "New York Times - Edgar Martins nega ter manipulado fotos".

Em contraste, na entrevista da pág. 8, lê-se claramente que Edgar Martins reconhece ter recorrido a um técnico de photoshop para alterar as suas imagens, ou seja manipulou as imagens.

Existe portanto uma contradição absoluta entre o título e a entrevista. Não se entende a posição do PÚBLICO, já que é um facto que Edgar Martins tenta desculpar o indesculpável: alterou imagens quando disse claramente ao New York Times que o não fazia. Esta afirmação encontra-se também no seu site e em outras várias entrevistas. Como consequência o New York Times retirou o portfolio, já que tem uma linha editorial rígida no que respeita ao documentário, que era o caso, e fotojornalismo.

É uma história deprimente, que está a agitar o mundo da fotografia.

José Paulo Andrade

Por um melhor PUBLICO.PT

Sou assinante do PÚBLICO online. Ao ler o jornal, com muitíssima frequência encontro erros quase diariamente, dando a sensação de que o site é feito com pouco cuidado.

Erros mais frequentes no "Jornal do Dia" - "Ultra-Leve": no menu da esquerda, é frequente aparecerem rubricas repetidas, por exemplo, "Portugal Mundo Portugal Mundo Portugal Mundo"; alguns títulos de notícias conduzem a textos de letras sem sentido (veja-se a notícia de hoje [23 de Junho] "Processos polémicos em Portugal", que leva ao texto "sdfs Loreet ullan ex essequis eriure delessis nit, cortio corperos", etc. etc; em quase todas as notícias aparecem, à direita, quatro links de opções, "Comente este artigo", "Leia os comentários", "Estatísticas" e "Tops", todos eles com espaço para imagens à esquerda, imagens que nunca lá estão; na página http://static.publico.clix.pt/homepage/nos/contactos.aspx, ao clicar em "Envio de Sugestões", "Mais informação" a resposta é: "A página que pediu não se encontra disponível".

Convido o Provedor dos Leitores a navegar diariamente no PÚBLICO online. Por certo de que ficará surpreendido com a falta de qualidade do serviço que é vendido aos leitores.

Vasco Nunes da Silva

sexta-feira, 17 de Julho de 2009

As costas largas da imprensa

No dia 20 de Junho, o PÚBLICO publicou com grande destaque na primeira página um manifesto com o título "PAREM. E ESTUDEM", em que 28 economistas alertaram o país para a situação de gravíssimo endividamento em que nos encontramos, e aconselharam a interrupção, por um periodo, dos grandes projectos públicas planeados pelo Governo. Referiram-se no entanto a eles de um modo muito genérico e sem os analisar caso a caso.

Dias depois surgiu outro manifesto, e depois um outro, em que outros economistas, contestando os primeiros, diziam, essencialmente, que a suspensão dos investimentos seria uma decisão altamente inconveniente.

O PÚBLICO, embora com menos destaque, noticiou e comentou estes dois manifestos que foram, inclusivé, objecto alguma polémica no interior do jornal.

Muitos leitores queixaram-se ao Provedor do modo desigual como os dois manifestos tinham sido tratados pelo jornal, e estas queixas foram analisadas no seu texto publicado no dia 5 de Julho sob o título "O combate dos economistas".

O Provedor do PÚBLICO, ao escrever este texto, actuou, sem dívida, no âmbito das suas funções, mas escapou-lhe, a meu ver, uma questão fundamental.

O papel de um provedor não deve ser, a meu ver, como disse, preocupar-se unicamente com o tratamente equilibrado dos textos publicados no jornal, mas, também, e talvez sobretudo, preocupar-se com os textos não publicados e que seriam importantes para esclarecer os leitores.

Ora eu, no dia 22 de Junho, na sequência do manifesto publicado no dia 20, enviei ao PÚBLICO o email que agora lhe retransmito, com um texto a que pus o nome " INFORMEM-SE POR FAVOR!".

Neste momento peço-lhe que, com um mínimo de atenção, se debruce sobre este meu texto e, depois, intimamente ou nas páginas do PÚBLICO, responda à questão: "Os leitores do jornal teriam tido interesse em ler este texto e o país ficaria mais validamente esclarecido se ele fosse publicado?"

O texto: INFORMEM-SE POR FAVOR! pode ser considerado dirigido aos autores dos três manifestos e, como tal, continua actual.

As informações nele referidas foram discutidas numa dezena de encontros promovidos pela Sociedade de Geografia de Lisboa e pela ADFER sobre grandes obras públicas, nomeadamente: a Terceira Travessia Ferroviária do Tejo (TTT) e a sua integração na futura rede ferroviária portuguesa de bitola europeia, as ligações ferroviárias a Espanha e o problema das mercadorias, o fecho da Golada, a construção do novo Aeroporto de Lisboa e outros.

A generalidade dos economistas que assinaram os citados manifestos (há algumas raríssimas excepções) nada sabe sobre elas, e a imprensa diária quase não se referiu a estes encontros.

Penso que, um dia, quando as escolas de jornalismo estudarem o papel que teve neste periodo em que vivemos a imprensa sobre a vida do país, descobrirão muitas lacunas. Descobrirão, por exemplo, que os "combates de economistas" resultam, numa larga medida, de uma insuficiente informação dos próprios economistas, da qual, numa larga medida, a própria imprensa é responsável.

Felizmente há, actualmente, meios de divulgação da informação que nos tornam menos dependentes do que noutras épocas da imprensa tradicional, que continua, no entanto, a ter um papel fundamental e pela qual podemos continuar a aferir a liberdade de um país. Por isso continuarei sempre a ler os jornais.

António Brotas

Jornalismo literário

Abri com grande interesse [no PUBLICO.PT] o artigo "Radiografia de um golpe de charme", sobre Palma Inácio, no dia da morte deste último (14/07/09).

Qual não foi o meu espanto ao:

1) encontrar inúmeras gralhas (p. ex.: "Há 40 anos, grupo de Palma Inácio realizou o primeiro desvio de avião comercial Há 40 anos, um grupo de seis operacionais anti-fascistas portugueses realizou o primeiro desvio de um avião comercial da História"; "Náo"; "combustível ajusta para a travessia"; "uma edição liceal de um Atias", "era procurado pela Polida", "disse José Paulo aos boquiabertos polidas", etc.);

2) encontrar não um artigo de informação sobre Palma Inácio, mas uma crónica romanceada do seu golpe: "E... surpresa! Quem, num afã, se recreava pacificamente com uma beldade semipubescente?" ou " Uma noite, chegou a dançar com Amândio à frente deles, provocadora, bamboleando a cintura cheia de pólvora", "háde ir", além do uso constante de "os pides".

Compreendo que também os jornalistas tenham aspirações literárias (?!) ou de entretenimento do leitor, mas do PÚBLICO espero, ainda, um pouco mais informação e menos romance.

Bárbara Santos

NOTA DO PROVEDOR. A leitora refere-se à publicação online, a propósito da morte de Hermínio da Palma Inácio, de um artigo originalmente impresso na "Pública" de 28 de Outubro de 2001.

Em cima do joelho

O artigo (interessantíssimo), sobre a desconhecida agressividade do vírus da gripe A, que faz manchete no PÚBLICO de 4ª feira 15 de julho, com chamada para a página 6, afinal está na página 10....

Desleixo na paginação? Incúria? Uma notícia tão importante tratada em cima do joelho? De tudo um pouco, creio.

Seria útil o jornal prestar, futuramente, mais atenção a estes pormenores.

José Oliveira

Mil a mais

Não, não venho falar do recente qui pro quo de as más notas em exames de matemática terem sido atribuídas à influência negativa dos jornais, televisões, professores, etc.

Queria só perguntar o que é que está a fazer a palavra "mil" na expressão "...até ao valor de 44.800 mil euros...", na notícia referente à legalização do Oceanário do Porto (PÚBLICO, 16 de Julho, p. 28 , Local).

Assim, os estudantes aprendem asneira...

José Maria M.Pereira da Rocha

Pedir desculpa

Queria pedir o favor de recomendarem aos srs. redactores que não escrevam "pedir desculpas", assim, no plural. Esta está a ser uma versão recorrente. A expressão "pedir desculpa" é uma frase idiomática, e como tal não aceita variantes. "Desculpas", assim, no plural, apresentam-se ou exigem-se. No primeiro caso para justificar, esperando ser-se desculpado; no segundo, normalmente, para depois se perdoar a quem pede.

José Maria Macedo Pereira da Rocha

O papel do provedor

Quero frisar que continuo a considerar o PÚBLICO como o melhor jornal diário de referência que temos, depois do 25 Abril, e que tem tentado manter uma linha, com “estilo”, fugindo dentro do possivel ao sensacionalsmo para apostar e bem na qualidade. Sabemos as dificuldades sentidas por parte dos media escritos, mas isso não implica, bem pelo contrário, faz com que a qualidade, a diferença positiva, seja o mote, sempre a orientação do PÚBLICO.

Lendo e vendo que o actual Provedor do Leitor aposta nesta linha, parece que usa um pouco a atitude de grande defesa em situações que se repetem, sejam erros ortográficos, situações menos próprias no on-line ou informações por vezes não tão bem fundamentadas.

Não que o Provedor, deixe de dar relevo a estes pequenos lapsos do nosso PÚBLICO, mas por vezes parece não querer levar um forçoso esforço em determinados temas, para de todo serem sanados.

Augusto Küttner de Magalhães
Assinante! Leitor!

domingo, 12 de Julho de 2009

Vicissitudes de um cirurgião plástico

Alguém que dá uma identidade à repórter e outra ao provedor queixa-se de maus tratos ao seu amigo médico

A imprensa cor-de-rosa promove Mendia ignorando os processo judiciais de que é alvo por alegada negligência clínica

“Médico do jet-set tem quatro processos em tribunal”, titulava o PÚBLICO de 23 de Março último (pág. 3), no âmbito de um dossiê na secção Destaque dedicado à cirurgia estética, alertando para a falta de controlo da Ordem dos Médicos sobre a actividade clínica nesta área. O médico em questão era José Mendia, anto-intitulado “especialista em cirurgia plástica e reconstrutiva”. No artigo, era entrevistado pela jornalista Catarina Gomes (C.G.) a propósito dos quatro processos judiciais e das oito queixas na Ordem dos Médicos que diversos pacientes (ou seus familiares) apresentaram contra ele por supostas irregularidades em operações plásticas (incluindo a morte de uma mulher, objecto de participação do Ministério Público por negligência médica, de que já resultou em tribunal cível uma absolvição em primeira instância e uma condenação no Tribunal da Relação, aguardando-se o desfecho do recurso para o Supremo).

A jornalista informava que durante a entrevista o médico fora auxiliado por um amigo, que se manteve sempre ao seu lado. José Mendia não reagiu ao artigo, mas o amigo, que se identifica como Nuno Olim Marote Ferreira (N.F.), escreveu ao provedor contestando diversos tópicos do artigo. O provedor solicitou explicações a C.G., e de ambas as posições resultou este “contraditório”:

N.F.: “A entrevista mais parece um ataque pessoal ao Dr. José Mendia”

C.G.: “As afirmações que faço são sustentadas pela gravação da entrevista que fiz ao Dr. José Mendia, com a sua autorização”

N.F.: “Logo no inicio da entrevista se diz que o ‘Dr. José Mendia é o alvo de boa parte das queixas’. Parece que em jornalismo rigoroso se deve definir o que é ‘boa parte das queixas’. Segundo dados da Ordem dos Médicos, esta recebe cerca de 20 casos por ano na área da cirurgia estética. Assim, tendo o Dr. José Mendia quatro casos em julgamento [um referente a 1999, outro a 2005 e os restantes dois a 2007], não se percebe esta quantificação. (...) Apresentar a notícia deste modo mais parece um processo de desinformação”.

C.G.: “[Essa] frase (...) não consta do texto (...), mas sim na chamada à primeira página, redigida pelo director de fecho nesse dia (...). Em parte nenhuma dos textos assinados (...) se diz que o médico acumula ‘boa parte das queixas’. Antes se diz (...) que o médico em causa tem [na Ordem dos Médicos] oito queixas pendentes (...). Os textos interiores referem ainda quatro processos judiciais contra o médico, que estão devidamente datados e contextualizados”.

N.F.: “A notícia (...) tenta de um modo grosseiro ridicularizar um profissional com inscrição nº 30557 na Ordem dos Médicos. Saliento (...) que [C.G.] parece ter feito a entrevista já com o intuito de fazer um julgamento distorcido e tendencioso da actividade do Dr. José Mendia (...) Faz uma analogia muito pouco feliz quando mistura a vida privada com casos sérios decorrentes da actividade profissional do médico”.

C.G.: ‘José Mendia confessa (...): Acredito que vou reencontrar o amor. Viúvo desde 2004, o conhecido cirurgião plástico assume ser muito vaidoso e reafirma que não é homem para viver sozinho’, é apenas o último título de uma revista de sociedade (a Caras) onde o médico aparece a falar da sua vida privada. (...) É o próprio quem voluntariamente expõe a sua vida privada na esfera pública (...). É através da sua exposição mediática em revistas como a Lux e a Caras que faz publicidade à sua clínica, que, não por acaso, tem o seu nome. Quando lhe coloquei uma pergunta sobre a entrevista que deu à Caras admitiu que o seu único objectivo era ‘a promoção da clínica’. Não tenhamos dúvidas de que o facto de expor a sua vida privada e ser uma figura pública atrai clientes, como diz uma das queixosas (...) que decidiram recorrer a José Mendia: ‘Era uma pessoa tão famosa, tão conhecida’ (...). Este facto é de tal forma relevante que alguns artigos de revistas constam do processo judicial que consultei. Relevante é ainda o facto de em lado nenhum dos artigos sobre José Mendia nas revistas cor-de-rosa se falar dos processos que (...) tem pendentes, e por isso falo de ‘vida dupla’”.

N.F.: “[C.G.] faz questão em salientar que o médico estava visivelmente nervoso e se fazia acompanhar de um amigo, seu suposto auxiliar de memória. O facto de fazer esta alusão parece desde logo que tenta ridicularizar o Dr. José Mendia, não acrescentando valor nenhum aos factos que se queria noticiar ou analisar”.

C.G.: “Quando fui recebida pelo Dr. José Mendia na sua clínica, este estava acompanhado de um senhor a quem pedi que se identificasse, julgando tratar-se do seu advogado. O senhor, que se apresentou como ‘amigo’ do Dr. José Mendia e se identificou como António Amaral, afirmou mais do que escrevi, e que transcrevo: ‘Acompanho o Dr. José Mendia nestes processos desde 1999 como amigo, e, como deve imaginar, isto afecta uma pessoa, e eu tenho memória em relação a algumas coisas que o Dr. José Mendia, porque está obviamente afectado por todos estes processos em termos pessoais... Estou aqui para servir de grilinho de memória’. (...) Se quisesse ‘ridicularizar’ o Dr. José Mendia, ter-me-ia sido mais fácil citar a expressão usada pelo seu amigo, ‘grilinho de memória’, em vez da mais inócua ‘auxiliar de memória’. Não poderia esconder ao leitor que alguns dos factos foram dados pelo seu amigo e que, facto que omiti da notícia, disse desconhecer um dos processos contra ele e que nunca tinha ouvido falar de uma das doentes queixosas (...). A referência ao nervosismo serve para estabelecer a relação com o facto de, tal como refere o próprio amigo, o Dr. José Mendia se encontrar abalado por estes casos”.

N.F.: “Outra notória acção de desinformação e distorção da notícia foi referir completamente fora de contexto e sem encaixe apropriado supostas declarações do Dr. José Mendia, tais como a que foi usada como chavão no cabeçalho [antetítulo] da notícia [‘Pacientes são emocionalmente desequilibrados, diz José Mendia’]. Nunca e em momento algum nenhum médico se refere aos seus pacientes como ‘emocionalmente desequilibrados’”.

C.G.: “A citação usada no texto é ‘muitas vezes lidamos com uma população completamente desequilibrada emocionalmente’. O antetítulo não é da responsabilidade da jornalista, mas sim do director de fecho (...). De qualquer forma, na entrevista, o Dr. José Mendia também disse: ‘A gente muitas vezes lida com doentes completamente desequilibrados emocionalmente’.

N.F.: “Este comentário surgiu em comentário directo ao ataque por parte da paciente [D.], que tem prestado declarações desapropriadas. Salienta-se que o caso desta paciente decorre em julgamento, aguardando-se para início de Maio [passado] a leitura da sentença”.

C.G.: “O comentário do Dr. José Mendia que citei não veio na sequência de qualquer comentário de uma paciente, mas sim à questão que lhe coloquei sobre como reagia ao facto de ter sido processado por três doentes. As declarações pouco abonatórias do médico sobre D. foram bastante mais longe, tendo referido que seria ‘viciada em cirurgias’, que tomava antidepressivos e ainda, entre outras considerações que me abstenho de transcrever: ‘Esta mulher é completamente desequilibrada, coitada’. (...) Eis a sentença a que alude [N.F.], de acordo com notícia da Lusa publicada no PÚBLICO: [Título:] ‘Médico condenado por causa de cirurgia plástica’; [texto:] ‘O Tribunal Cível de Lisboa condenou o médico José Mendia a pagar uma indemnização de oito mil euros a uma cliente que o acusava de más práticas clínicas após ter efectuado um ‘lifting facial’. Os juízes deram como ‘parcialmente provados’ os factos da acusação (...). O clínico foi ainda condenado a pagar futuros tratamentos de lipoinjecção na zona cervical que a sua antiga cliente venha a fazer e ainda 300 euros pelo crime de violação do direito à imagem, ao tê-la apresentado numa revista como um caso de sucesso, sem a sua autorização. (...) José Mendia, que o Colégio da Especialidade de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética da Oordem dos Médicos não reconhece como cirurgião plástico e reconstrutivo, tem vários processos disciplinares a decorrer na Ordem (...)’”.

N.F.: “No que se refere às habilitações do Dr. José Mendia, foram fornecidos (...) à jornalista pareceres do Dr. Marcelo Rebelo de Sousa e do Dr. Pedro Bleck que justificavam o pedido de equiparação de qualificações e inscrição no colégio. O Dr. José Mendia tem a especialidade de cirurgia plástica e reconstrutiva do Rio de Janeiro, serviço prof. Ivo Pitanguy. Sendo esta uma das mais consagradas escolas de cirurgia plástica do mundo, não parece correcto dizer-se sequer que o Dr. José Mendia não tem habilitações na área da cirurgia plástica”.

C.G.: “Apenas me foi fornecido um parecer e não dois (...). Há dezenas de notícias sobre os processos do Dr. José Mendia na imprensa, a questão do seu não-reconhecimento pela Ordem dos Médicos como cirurgião plástico arrasta-se há dez anos e o parecer que me foi fornecido tem 10 anos e tem por base um acordo cultural entre Brasil e Portugal de 1966. Como não havia dados novos nem do lado do Dr. José Mendia nem da Ordem dos Médicos, não entrei pelos pormenores desta contenda, apenas disse que ela existia (...).

N.F.: “Referente aos retoques [operações posteriores de ajustamento em relação à primeira], apresentou-se a frase ‘a gente não tem de dizer, as pessoas sabem a priori’ também (...) sem contextualizar. O facto de se assinar pré-consentimentos torna do conhecimento dos pacientes todos os riscos decorrentes das cirurgias bem como da necessidade de serem efectuados retoques. Esta informação está muita explícita nos pré-consentimentos.”

C.G.: “O consentimento pré-operatório diz que os doentes aceitam riscos, referindo-se problemas de cicatrização e hematomas. Nenhuma das três doentes com quem falei diz ter sido informada de que poderia precisar de nova operação para obter o resultado pretendido, nem estava disso ciente. Por isso coloquei a pergunta ao Dr. José Mendia e transcrevi a sua resposta”.

Remata a jornalista: “As acusações que me são feitas não têm qualquer fundamento e são pouco rigorosas”. O provedor corrobora esta conclusão, e do que leu acrescenta mais outra, preocupante: a cirurgia estética em Portugal está mesmo sem controlo da parte de quem tem esse dever.

Publicada em 12 de Julho de 2009

DOCUMENTAÇÂO COMPLEMENTAR:

Carta de Nuno Olim Marote Ferreira

Na passada edição de dia 23 de Março e sob o título “Ordem incapaz de controlar cirurgia estética” encontrei vários desvios que em muito comprometem o rigor jornalístico e a clareza de informação.

Sendo o PÚBLICO direccionado para um público com capacidade autónoma de analisar a informação, cabe ao jornalista apresentar essa mesma informação de uma forma clara.

A entrevista mais parece um ataque pessoal ao Dr. José Mendia depois de este e a pedido das jornalistas se ter disponibilizado a receber na sua clínica as jornalistas Catarina Gomes e Alexandra Campos.

Nesta entrevista discutia-se e analisava-se alguns casos em julgamento do Dr. José Mendia bem como o seu pedido de equiparação perante o colégio da especialidade de cirurgia plástica em Portugal.

Logo no inicio da referida entrevista se diz que o “Dr. José Mendia é o alvo de boa parte das queixas”. Parece que em jornalismo rigoroso se deve definir o que é ser “boa parte das queixas”. Segundo dados da Ordem dos Médicos esta recebe cerca de 20 casos por ano na área da cirurgia estética. Assim, tendo o Dr. Mendia quatro casos em julgamento não se percebe esta quantificação, uma vez que o caso da Ana Maria Sonnekalb se refere a 1999, o da [D.] a 2005 e os outros dois processos a 2007. Deste modo pode-se e deve-se fazer uma abordagem mais esclarecedora e menos metafórica, apresentando dados concretos. Apresentar a notícia deste modo mais parece um processo de desinformação.

Na parte em que só se faz referência exclusiva ao Dr. José Mendia a notícia revela-se ainda menos esclarecedora, tentando de um modo grosseiro ridicularizar um profissional com inscrição nº 30557 na Ordem dos Médicos. Saliento, e fazendo uma análise do texto da jornalista Catarina Gomes, que a mesma parece ter feito a entrevista já com o intuito de fazer um julgamento distorcido e tendencioso da actividade do Dr. Mendia.

Mistura e faz uma analogia muito pouco feliz quando mistura a vida privada com casos sérios decorrentes da actividade profissional do médico.

Quando nos propusemos a receber as jornalistas o objectivo era esclarecer os conteúdos das notícias que tinham saído na imprensa acerca dos casos em julgamento, bem como do pedido de equiparação das habilitações do Dr. Mendia e na sua inscrição no colégio da especialidade em Portugal.

Na notícia a jornalista faz questão em salientar que o médico estava visivelmente nervoso e se fazia acompanhar de um amigo, seu suposto auxiliar de memória. O facto de fazer esta alusão parece desde logo que tenta ridicularizar o Dr. José Mendia, não acrescentando valor nenhum aos factos que se queriam noticiar ou analisar.
Outra notória acção de desinformação e distorção da notícia foi o referir completamente fora de contexto e sem encaixe apropriado supostas declarações do Dr. Mendia tais como a que foi usada como chavão no cabeçalho da notícia. Nunca e em momento algum nenhum médico se refere aos seus pacientes como “emocionalmente desequilibrados”. Este comentário surgiu em comentário directo do ataque por parte da paciente [D.] que tem prestado declarações desapropriadas. Salienta-se o seu caso desta paciente decorre em julgamento, aguardando-se para inicio de Maio a leitura da sentença.

No que se refere às habilitações do Dr. Mendia foi fornecido por cortesia à jornalista pareceres do Dr. Marcelo Rebelo de Sousa e do Dr. Pedro Bleck que justificavam o pedido de equiparação de qualificações e inscrição no colégio. O Dr. José Mendia tem a especialidade de cirurgia plástica e reconstrutiva do Rio De Janeiro, serviço prof. Ivo Pitanguy. Sendo esta uma das mais consagradas escolas de cirurgia plástica do mundo não parece correcto dizer-se sequer que o Dr. Mendia não ter habilitações na área da cirurgia plástica.

Podia deste modo a jornalista ter aproveitado para analisar esta matéria tão interessante, que é o mecanismo do Colégio da Especialidade de Cirurgia Plástica. Mas a jornalista nada apresentou acerca deste tema.

Outro ponto importante de salientar foi o facto de se sublinhar que referente aos retoques se apresentou a frase “a gente não tem de dizer, as pessoas sabem a priori” também é dado sem contextualizar. O facto de se assinar pré-consentimentos torna do conhecimento dos pacientes de todos os riscos decorrentes das cirurgias bem como da necessidade de serem efectuados retoques. Esta informação está muita explícita nos pré-consentimentos.

Agradeço deste modo que se reponha a seriedade da noticia e da informação sem distorções. Não é correcto nem suposto haver preconceitos claros nas notícias bem como distorções da realidade por razões que nos ultrapassa.

Nuno Olim Marote Ferreira

Explicações da jornalista Catarina Gomes (e parcialmente da jornalista Alexandra Campos)

As afirmações que faço são sustentadas pela gravação da entrevista que fiz ao Dr José Mendia, com a sua autorização, e que posso disponibilizar de bom grado.
Em resposta à queixa apresentada contra o artigo de 23/03/09 intitulado: "Ordem incapaz de controlar cirurgia estética”, passo a esclarecer cada uma das questões levantadas:

1-“A entrevista mais parece um ataque pessoal ao Dr. José Mendia depois de este e a pedido das jornalistas se ter disponibilizado a receber na sua clínica as jornalistas Catarina Gomes e Alexandra Campos.”

R: Um esclarecimento: Por lapso, refere-se que as duas jornalistas estiveram presentes na entrevista. Haverá uma confusão com a fotojornalista porque eu era a única redactora presente. Apesar de ambas as jornalistas referidas assinarem o texto principal da contextualização.

2-“Logo no inicio da referida entrevista se diz que o “Dr. José Mendia é o alvo de boa parte das queixas”. Parece que em jornalismo rigoroso se deve definir o que é ser “boa parte das queixas”. Segundo dados da Ordem dos Médicos esta recebe cerca de 20 casos por ano na área da cirurgia estética. Assim, tendo o Dr. Mendia 4 casos em julgamento não se percebe esta quantificação, uma vez que o caso da Ana Maria Sonnekalb se refere a 1999, o da [D.] a 2005 e os outros 2 processos a 2007. Deste modo pode-se e deve-se fazer uma abordagem mais esclarecedora e menos metafórica, apresentando dados concretos. Apresentar a notícia deste modo mais parece um processo de desinformação.”

R: A frase a que alude o queixoso não consta do texto escrito pelas jornalistas mas sim na chamada à primeira página e estas não tiveram qualquer intervenção neste texto que foi redigido pelo director de fecho nesse dia, Manuel Carvalho, como é prática no jornal.

Em parte nenhuma dos textos assinados pelas autoras se diz que o médico acumula "boa parte das queixas". Antes se diz que a Ordem dos Médicos (OM) recebe uma estimativa de 20 queixas por ano na área da cirurgia plástica e que o médico em causa tem oito queixas pendentes (cujas datas a OM não forneceu). Os textos interiores referem ainda quatro processos judiciais contra o médico que estão devidamente datados e contextualizados.

Catarina Gomes e Alexandra Campos

3-“Na parte em que só se faz referência exclusiva ao Dr. José Mendia a notícia revela-se ainda menos esclarecedora, tentando de um modo grosseiro ridicularizar um profissional com inscrição nº30557 na Ordem dos médicos. Saliento e fazendo uma análise do texto da jornalista Catarina Gomes que a mesma parece ter feito a entrevista já com o intuito de fazer um julgamento distorcido e tendencioso da actividade do Dr. Mendia. Mistura e faz uma analogia muito pouco feliz quando mistura a vida privada com casos sérios decorrentes da actividade profissional do médico.”

R: “José Mendia, viúvo desde 2004, o conhecido cirurgião plástico, confessa aos 47 anos: Acredito que vou reencontrar o amor” é apenas o último título de uma revista de sociedade (...) onde o médico aparece a falar da sua vida privada. Todos os dados “privados” que ponho na notícia são retirados das revistas Caras e Lux, como se refere. Ou seja, é o próprio quem voluntariamente expõe a sua vida privada na esfera pública em muitíssimas circunstâncias (...).

Parece-me óbvio que a vida privada de Mendia é um dos aspectos mais relevantes deste artigo porque é através da sua exposição mediática em revistas como a Lux e a Caras que faz publicidade à sua clínica que, não por acaso, tem o seu nome. Quando lhe coloquei uma pergunta sobre a entrevista que deu à Caras admitiu que o seu único objectivo era "a promoção da clínica" (gravação).

Não tenhamos dúvidas de que o facto de expor a sua vida privada e ser uma figura pública atrai clientes, como diz uma das queixosas de um dos processos citados (designada como D.) que decidiu recorrer a José Mendia: “Era uma pessoa tão famosa, tão conhecida” (vide artigo). Este facto é de tal forma relevante que alguns artigos de revistas constam do processo judicial que consultei. Relevante é ainda o facto de em lado nenhum dos artigos sobre José Mendia nas revistas cor-de-rosa se falar dos processos que o médico tem pendentes e por isso falo de “vida dupla”.

4-“Quando nos propusemos a receber as jornalistas o objectivo era esclarecer os conteúdos das notícias que tinham saído na imprensa acerca dos casos em julgamento, bem como do pedido de equiparação das habilitações do Dr. Mendia e na sua inscrição no colégio da especialidade em Portugal.”

R: Ficou cristalinamente claro que a questão das habilitações era para a jornalista uma questão lateral, até porque é um processo que se arrasta desde 1999, e que o motivo da entrevista que aceitou dar eram os quatro processos em tribunal, nomeadamente aquele que se encontrava, nessa altura, em fase de julgamento. Foi aliás o advogado de defesa de um dos processos que me deu o contacto do Dr. Mendia.

5-“Na notícia a jornalista faz questão em salientar que o médico estava visivelmente nervoso e se fazia acompanhar de um amigo, seu suposto auxiliar de memória. O facto de fazer esta alusão parece desde logo que tenta ridicularizar o Dr. José Mendia, não acrescentando valor nenhum aos factos que se queriam noticiar ou analisar.”

R: Quando fui recebido pelo Dr. Mendia na sua clínica, este estava acompanhado de um senhor a quem pedi que se identificasse, julgando tratar-se do seu advogado. O senhor, que se apresentou como “amigo” do Dr. Mendia e se identificou como António Amaral, afirmou mais do que escrevi e que passo a transcrever (gravação): "Eu acompanho o Dr José Mendia nestes processos desde 1999 como amigo e, como deve imaginar, isto afecta uma pessoa e eu tenho memória em relação a algumas coisas que o Dr. José Mendia, porque está obviamente afectado por todos estes processos em termos pessoais... Eu estou aqui para servir de grilinho de memória" e, mais à frente, diz que está presente "para relembrar alguns factos".

Se quisesse “ridicularizar” o Dr. Mendia ter-me-ia sido mais fácil citar a expressão usada pelo seu amigo, “grilinho de memória”, em vez da mais inócua expressão “auxiliar de memória”. Não poderia esconder ao leitor que alguns dos factos foram dados pelo seu amigo e que, facto que omiti da notícia, disse desconhecer um dos processos contra ele e que nunca tinha ouvido falar de uma das doentes queixosas, como também atesta a gravação. A referência ao nervosismo serve para estabelecer a relação com o facto de, tal como refere o próprio amigo, o Dr. Mendia se encontrar abalado por estes casos.

6-“Outra notória acção de desinformação e distorção da notícia foi o referir completamente fora de contexto e sem encaixe apropriado supostas declarações do Dr. Mendia tais como a que foi usada como chavão no cabeçalho da notícia. Nunca e em momento algum nenhum médico se refere aos seus pacientes como ‘emocionalmente desequilibrados’”.

R: A citação usada no texto é “muitas vezes lidamos com uma população completamente desequilibrada emocionalmente”. O antetítulo não é da responsabilidade da jornalista mas sim do director de fecho a quem coube paginar o trabalho. De qualquer forma, na entrevista o Dr. Mendia também disse: "a gente muitas vezes lida com doentes completamente desequilibrados emocionalmente" (gravação).

7-“Este comentário surgiu em comentário directo do ataque por parte da paciente [D.] que tem prestado declarações desapropriadas. Salienta-se que o caso desta paciente decorre em julgamento, aguardando-se para início de Maio a leitura da sentença”.

R: O comentário feito pelo Dr. Mendia, que citei no número 6, não veio na sequência de qualquer comentário de uma paciente, mas sim à questão que lhe coloquei sobre como reagia ao facto de ter sido processado por três doentes. As declarações pouco abonatórias do médico sobre a doente em causa foram bastante mais longe, tendo referido que D. seria "viciada em cirurgias", que tomava antidepressivos e: "esta mulher é completamente desequilibrada, coitada", entre outras considerações que me abstenho de transcrever. Perante estas declarações, decidi confrontar a senhora visada com as mesmas, que respondeu: "Disse-lhe que tomava Xanax. Se toda a gente que toma Xanax fosse maluca, metade do mundo estava nessa situação." (vide artigo). É essa, aliás, uma das alegações no caso que estava a ser julgado no tribunal cível de Lisboa: o Dr Mendia diz que D. tinha problemas psiquiátricos e que as operações tiveram óptimos resultados.

A sentença a que alude a carta de acordo com notícia da Lusa publicada no Público:

Publicação: PÚBLICO , Edição: 6993 , Caderno: Caderno Principal Terça, 26 de Maio de 2009 Pág.7

Médico condenado por causa de cirurgia plástica

O Tribunal Cível de Lisboa condenou o médico José Mendia a pagar uma indemnização de oito mil euros a uma cliente que o acusava de más práticas clínicas após ter efectuado um "lifting facial". Os juízes deram como "parcialmente provados" os factos da acusação, tendo condenado Mendia por danos não patrimoniais, acrescidos de juros de mora.O clínico foi ainda condenado a pagar futuros tratamentos de lipoinjecção na zona cervical que a sua antiga cliente venha a fazer e ainda 300 euros pelo crime de violação do direito à imagem, ao tê-la apresentado numa revista como um caso de sucesso, sem a sua autorização. A queixosa, actualmente com 63 anos, pedia uma indemnização de 25 mil euros, por sequelas que disse ter ficado após as três operações plásticas a que foi sujeita.O médico José Mendia, a quem o Colégio da Especialidade de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética da Ordem dos Médicos não reconhece como cirurgião plástico e reconstrutivo, tem vários processos disciplinares a decorrer na Ordem, por práticas associadas a esta especialidade. Lusa

8-“No que se refere às habilitações do Dr. Mendia foi fornecido por cortesia à jornalista pareceres do Dr. Marcelo Rebelo de Sousa e do Dr. Pedro Bleck que justificavam o pedido de equiparação de qualificações e inscrição no colégio. O Dr. José Mendia tem a especialidade de cirurgia plástica e reconstrutiva do Rio De Janeiro, serviço prof. Ivo Pitanguy. Sendo esta uma das mais consagradas escolas de cirurgia plástica do mundo não parece correcto dizer-se sequer que o Dr. Mendia não ter habilitações na área da cirurgia plástica.”

R: Apenas me foi fornecido um parecer e não dois, e não “por cortesia”, mas sim depois de eu ter pedido uma fotocópia após ter sido referido em conversa. Há dezenas de notícias sobre os processos do Dr José Mendia na imprensa, a questão do seu não reconhecimento pela OM como cirurgião plástico é uma questão que se arrasta há dez anos e o parecer que me foi fornecido tem 10 anos e tem por base um acordo cultural entre Brasil e Portugal de 1966. Como não havia dados novos nem do lado do Dr Mendia nem da Ordem dos Médicos não entrei pelos pormenores desta contenda, apenas disse que ela existia. O que se diz é que o médico, que não está inscrito em qualquer colégio de especialidade em Portugal e “explica que desde 1999 que tenta que a OM lhe reconheça as habilitações obtidas no Brasil, sem sucesso”.

9- “Outro ponto importante de salientar foi o facto de se sublinhar que referente aos retoques se apresentou a frase “ a gente não tem de dizer, as pessoas sabem a priori” também é dado sem contextualizar. O facto de se assinar pré-consentimentos torna do conhecimento dos pacientes de todos os riscos decorrentes das cirurgias bem como da necessidade de serem efectuados retoques. Esta informação está muita explícita nos pré-consentimentos.”

R: O consentimento pré-operatório diz que os doentes aceitam riscos, referindo-se problemas de cicatrização e hematomas. Nenhuma das três doentes com quem falei diz ter sido informada de que poderia precisar de nova operação para obter o resultado pretendido, nem estava disso ciente. Por isso coloquei a pergunta ao Dr Mendia e transcrevi a sua resposta.

Em suma, as acusações que me são feitas não têm qualquer fundamento e são pouco rigorosas.

Catarina Gomes

domingo, 5 de Julho de 2009

O combate dos economistas

Responder a opiniões antes de as noticiar soa ao provedor como as guerras preventivas de George W. Bush























A manchete, já difundida na véspera pelos meios electrónicos, sabia a requentada

A manchete que desencadeou o caso hoje em análise deixou o provedor algo perplexo. “Parem. E estudem”, dizia o título principal do PÚBLICO de sábado 20 de Junho, sobre o recente manifesto de 28 economistas questionando os grandes projectos de obras públicas planeados pelo governo.

Havia várias razões para a perplexidade: o sabor a requentado da notícia, difundida na véspera pelas rádios, as televisões e a internet; o tom imperioso da manchete, como se representasse uma adesão implícita do jornal à mensagem do documento; a maquete, com a retrato de 26 dos subscritores (e os dois ausentes substituídos por uma silhueta negra), esteticamente muito inferior à habitual linha gráfica do PÚBLICO; a «descodificação», em toda a terceira página, de partes substanciais da declaração, à maneira de uma pitonisa do oráculo de Delfos; a ausência de opiniões contrárias, que os jornalistas não cuidaram de recolher; e a publicação integral do próprio manifesto na quinta página como publicidade paga (apenas uma coincidência - acredita o provedor -, mas que não deixava de causar desconforto a quem lesse o jornal).

Toda esta enorme redundância, para além do seu tom inegavelmente promocional (um “frete”, como se diz na gíria jornalística), soou ao provedor como jornalismo pífio, muito abaixo dos padrões a que o PÚBLICO habituou os leitores. Mas sabemos bem que a actividade informativa é feita de altos e baixos, e que nem sempre se consegue a manchete bombástica com que os editores da imprensa sonham todos os dias.

As complicações vieram depois. Na semana seguinte, 51 economistas e académicos de orientação oposta difundiram outro manifesto de clara réplica ao primeiro onde, pelo contrário, defendiam as virtudes do investimento público no combate à crise. O PÚBLICO impresso não deu dele notícia quando seria lógico fazê-lo, em 27 de Junho (outro sábado), mas nesse dia saía um editorial assinado pelo director, José Manuel Fernandes, desancando o novo documento que os leitores desconheciam e, por comparação, enaltecendo a proposta de debate apresentada pelo primeiro.

Mais estranho ainda, a notícia – sintética – do segundo manifesto aparecia apenas na pág. 19 da edição seguinte, de forma algo envergonhada (se a primeira era requentada, esta eram restos da véspera retirados do congelador). Ou seja, os leitores souberam primeiro dos argumentos de José Manuel Fernandes contra o manifesto e só um dia depois do seu conteúdo.

Um dia mais tarde, Rui Tavares, na sua crónica da última página, polemizava com José Manuel Fernandes pelo seu editorial e com o próprio jornal pela desigualdade na abordagem dos dois manifestos. Mas duas páginas antes, na mesma edição, José Manuel Fernandes replicava já em editorial ao colunista do PÚBLICO. Ou seja, de novo os leitores souberam primeiro dos argumentos de José Manuel Fernandes contra Rui Tavares do que dos que lhes haviam dado origem.

O director desculpará, mas estas atitudes soam ao provedor como as guerras preventivas de George W. Bush: “Vamos arrasá-los já, antes que façam qualquer coisa”. Não resultou na ordem internacional. Fará sentido num jornal que advoga a imparcialidade, a objectividade e a pluralidade de pontos de vista?

Evidentemente, não se discute aqui os méritos ou deméritos de cada manifesto – a que se juntou esta quinta-feira um terceiro, também "obreirista", de economistas e empresários, desta vez (por rebate de consciência?) noticiado na pág. 1 do PÚBLICO – com o competente editorial de José Manuel Fernandes, anunciando a abertura pelo jornal na internet de um espaço de debate sobre os três documentos. O provedor reconhece até que, em termos puramente jornalísticos, o primeiro manifesto mereceria maior destaque, pois a iniciativa foi dos autores, limitando-se os outros a uma atitude reactiva. Mas houve um nítido desequilíbrio de tratamento que não se coaduna com a linha editorial do PÚBLICO.

Assim o sentiram muitos leitores, que reagiram em grande número. Há longos meses, aliás, que o provedor não recebia tantas reclamações a propósito de um só caso. Seriam necessárias pelo menos quatro páginas para albergar aqui a totalidade dos protestos e das explicações de José Manuel Fernandes, que entretanto o provedor solicitou. Por isso se remete a documentação integral para o blogue do provedor e se aconselha a sua leitura, já que este debate ajuda a reflectir sobre como o PÚBLICO está a aplicar o seu estatuto editorial.

“O tratamento desigual dado aos dois manifestos causou-me, confesso, algum transtorno”, escreveu por exemplo Hélio Paulo Lopes. “A intromissão opinativa de José Manuel Fernandes em editorial (...) mostra algo que me transtornou: os leitores do PÚBLICO ainda não viram a opinião dessas 51 pessoas no papel de jornal mas já estão a ser inoculadas contra ela”, disse por seu lado Eunice Ferreira. E Luís Filipe Lopes considerou: “Foram consagradas páginas da edição impressa (...) a um dos documentos e não ao outro; essas páginas tinham mesmo uma feição exegética, explicativa, das teses defendidas”.

“A diferença de destaque parece-me tão desproporcionada que não é suficientemente explicada por razões de ordem noticiosa, pressupondo razões editoriais que depois são tornadas claras em editorial”, defendeu Sandro Mendonça, docente universitário de Economia (não subscritor de nenhum manifesto). “Ao ‘manifesto dos 28’ são dados ténis para esta corrida, enquanto os outros 51 têm de correr descalços e por sua própria conta”.

“O director do PÚBLICO ultrapassou neste episódio os limites do aceitável”, acusa José Castro Caldas, um dos subscritores do segundo manifesto. Outro deles, Pedro Adão e Silva, afirma: “O que me parece questionável é o facto de o manifesto ter relevância para ser objecto de um editorial mas não para ser tratado como notícia. Esta assimetria teve consequências: negou, por um lado, o acesso a uma notícia factual sobre o conteúdo do manifesto e, por outro, impossibilitou que os leitores tomassem conhecimento com o assunto de que tratava o editorial”.

“O director sentir-se-á confortável em comentar dois textos que tiveram tratamento tão desigual no seu jornal?”, pergunta João Miguel Geirinhas Rocha. “Ou ele espera que os leitores comprem dois jornais para terem acesso a todas as notícias? Ou terá José Manuel Fernandes a ideia de que os seus leitores já dispensam as notícias e se contentam com os seus comentários sobre as mesmas? Estaremos condenados a ver o jornalismo substituido por um catecismo?” E João Sousa André explica a sua insatisfação: “Não discuto a opinião de José Manuel Fernandes, que a deve ter e a deve transmitir, mas considero a sua forma de abordar o debate, pela via pessoal e da desvalorização pessoal, como indigna de um director de um jornal como o PÚBLICO, (...) [a quem se ] exige respeito e educação. José Manuel Fernandes não demonstrou nenhuma destas qualidades”.

José Manuel Fernandes justifica o maior destaque dado ao manifesto dos 28: “Era assinado por menos pessoas mas por economistas muito mais conhecidos do que os académicos que assinam o segundo (...). A força dos nomes e o facto de ser o primeiro levar-nos-iam sempre a dar-lhe mais destaque. Mas essa questão nem se colocou, apesar de a repercussão pública dos dois manifestos ter sido radicalmente diferente: um suscitou inúmeras reacções políticas, o outro (...) passou quase despercebido”.

O director explica que houve combinações prévias com os autores dos dois manifestos e que “os representantes do [segundo] actuaram de forma, no mínimo, mais confusa”, além de ter ocorrido um imprevisto: “O valor-notícia do manifesto ficou prejudicado entretanto, pois chegou às mãos do i, que lhe deu grande destaque. A novidade perdera-se, nunca seria possível dar-lhe o mesmo tratamento que se dá a um exclusivo”.

“Apesar de as regras terem sido quebradas, decidimos manter a combinação original”, continua José Manuel Fernandes, e aqui ter-se-á dado um imponderável: “[Um membro da direcção] fez seguir o texto para a secção de Economia, onde deveria ser tratado, mas não acompanhou mais o caso (...). Na secção de Economia (...) não foi entendida a urgência da publicação, pelo que deixaram o tema para a edição de domingo. Foi uma avaliação errada, porventura derivada de algum equívoco na transmissão da mensagem. Para além disso, os editores (...) não sentiram a urgência jornalística. Sexta à noite, depois de escrever o editorial e já bastante tarde, pedi para me indicarem em que página saía o texto e qual era o link na internet. Para minha surpresa, não tinha sido paginado nenhum texto nem o manifesto tinha sido colocado online. (...) No editorial mantive a chamada de atenção para a publicação integral na internet e tratei eu próprio de (...) colocar o texto online. Está lá desde as 00h09 de sábado. (...) No domingo fez-se uma notícia e remeteu-se de novo para o nosso site (onde, esclareça-se, o outro manifesto nunca foi reproduzido na íntegra)”.

O provedor interroga-se sobre se a falha relatada por José Manuel Fernandes não terá sido potenciada por falta de “vontade política”, isto é, aconteceu com o manifesto dos 51 mas nunca aconteceria com o dos 28. E isso diz do grau de empenho do jornal numa notícia e na outra, ou seja, da opinião que, sem o declarar, o PÚBLICO expressa sobre os manifestos.

Quanto à resposta antecipada de José Manuel Fernandes a Rui Tavares, explana o director: “Não por acaso, abri o ponto 2 desse editorial assim: ‘Tenho por regra não responder a colunistas no dia em que estes escrevem, e procuro mesmo nunca lhes responder’. Ou seja, ao responder ia abrir uma excepção. Porquê? Porque soube por acaso do conteúdo do texto de Rui Tavares (ele não me telefonou, como é regra os colunistas fazerem, e eu não estava a fechar o jornal) (...). Daí ter entendido responder logo, sob pena de aceitar uma discussão que laborava num equívoco: a de que tinha havido uma intenção censória do jornal”. E com uma nota suplementar: “Os nossos estudos indicam que a maioria dos leitores dos textos de opinião começa a lê-los pela última página (...). Não me parece provável que se possa demonstrar que (...) a maioria dos leitores leu o editorial antes da crónica de Rui Tavares” (basta que alguns leitores o façam – como aliás o provedor – para esta explicação não ser aceitável).

O jornal reconhece a existência de erros neste processo e tem procurado emendar a mão, dando agora o mesmo relevo aos três manifestos no seu site (que José Manuel Fernandes defende ser tendencialmente mais lido do que a edição em papel – embora todos saibamos que o jornal impresso ainda é o espaço de referência por excelência). O problema é que não existe segunda oportunidade para se causar uma boa primeira impressão.

Publicada em 5 de Julho de 2009

DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR:

Carta do leitor Sandro Mendonça

Escrevo-lhe pela primeira vez. E faço-o na qualidade de leitor, mas também de cidadão com profissão de economista. Refiro este último aspecto para ligar a minha motivação de lhe escrever a uma polémica recente que o Director do PÚBLICO abraçou na avaliação e comparação que fez entre os recentes manifestos "de economistas".

PONTO 1.
Desejo partilhar com o Provedor do Leitor a minha estranheza por ver, recorrentemente, o espaço do Editorial a ser utilizado como se se tratasse um normal espaço de opinião de um colunista residente. Seria mais convencional, admitiria eu, o Director do PÚBLICO ter o seu próprio espaço de opinião, se o seu fim é tão somente ter uma via para canalizar as suas opiniões pessoais naquele que é um espaço cimeiro no jornal.

No pressuposto de um "Editorial" não ser exactamente o mesmo que "coluna de opinião", eis a minha pergunta: quais são os fins e os deveres concretos da apropriação do Editorial por parte de quem é o Director?

PONTO 2.
A estranheza que relato acima está associada à incomodidade que sinto pela permanente tensão que perpassa no espaço Editorial. O Director do PÚBLICO já, em ocasiões passadas, teve oportunidade de dizer que a sua visão do jornalismo passa pela metáfora watchdog. Permita-me pegar nesta metáfora para dar conta da minha apreensão na mesma linguagem:

- parece-me que a ideia do "cão de guarda" é útil para lembrar que o papel dos órgãos de imprensa na esfera pública é garantir que os poderes (o poder público e os poderes privados) são colocados sob escrutínio e vigilância para que os cidadãos não sejam ultrapassados nos seus direitos e na informação de que dispõem em relação aos factos

- a metáfora do "cão de guarda" está a ser ultrapassada quando o órgão de informação decide ultrapassar o papel de vigilante (descrever e relatar o que se passa) para começar a "morder" (julgar e prescrever tomando o lado de determinadas forças que pretendem ler a realidade de determinada maneira).

Questão: um "jornal de referência" deve tentar abrir o leque do transparente para discussão na sociedade civil ou por auto-recriação perseguir activamente linhas de debate específicas que condicionam os parâmetros do debate e minam a confiança do leitor?

PONTO 3.
Tudo isto para enquadrar a minha profunda perplexidade sobre as insistentes posições e escolhas editoriais sobre a actual questão dos "manifestos". É sobretudo enquanto leitor-economista que me sinto na obrigação de:

- transmitir ao Provedor a minha percepção sobre o desequilíbrio no tratamento dos dois manifestos (“manifesto dos 28” e “manifesto dos 51”) em questão, pois:

- esse desiquilíbrio é mensurável pela chamada à primeira página do primeiro manifesto (com uma peça sobre a mesma matéria na página 2 e página 3 no mesmo dia 20 de Junho de 2009) em contraste com a chamada a hiper-ligação no website do jornal do segundo manifesto...; a diferença de destaque parece-me tão desproporcionada que não é suficientemente explicada por razões de ordem noticiosa, pressupondo razões editoriais que depois são tornadas claras em editorial;

- outro desiquilíbrio claro está na carga valorativa associada aos manifestos quando em editorial se representa o primeiro manifesto como “um grupo economistas de variadas sensibilidades políticas propõe que se discuta melhor um conjunto de investimentos públicos” e o outro como “um conjunto de académicos propõe uma política económica radicalmente ancorada à esquerda” (Editorial, 27 de Junho).

Pergunto ao Provedor: num importante debate público, como reconhece o Director do PÚBLICO, será este o modo mais amplo e equilibrado de permitir que um debate leal e competitivo se inicie?

Enquanto não-subscritor de nenhum manifesto já publicado ou em circulação, e leitor frequente do PÚBLICO, tenho de demonstrar a minha preocupação: parece-me que ao “manifesto dos 28” são dados ténis para esta corrida, enquanto os outros 51 têm de correr descalços e por sua própria conta. Temo que o PÚBLICO não esteja a conseguir contribuir para o esclarecimento das questões de fundo que afectam a economia portuguesa.

Sandro Mendonça
(docente no Departamento de Economia do ISCTE; fui colunista no suplemento de Economia do PÚBLICO enquanto ele existiu, e sempre fui muitíssimo bem tratado pelo jornal)

Carta do leitor Pedro Adão e Silva

Foi com espanto que li a edição do PÚBLICO do passado sábado [27 de Junho], nomeadamente o editorial do director. Não tanto pelo conteúdo do mesmo, que não só não me espantou como acho que faz parte de opções editoriais absolutamente legítimas, mas porque era exclusivamente dedicado a um tema que o jornal na sua edição impressa pura e simplesmente ignorava: o manifesto pelo emprego de que – devo fazer uma declaração de interesses – fui um dos subscritores.

Ao contrário do que tem sido sugerido, não me parece que apenas por um anterior manifesto ter sido manchete do PÚBLICO, uma semana antes, este devesse automaticamente ter tratamento similar. Respeito os critérios editoriais e parece-me legítimo que o segundo manifesto não fosse motivo de notícia. O que me parece questionável é o facto de o manifesto ter relevância para ser objecto de um editorial, mas não para ser tratado como notícia. Esta assimetria teve consequências: negou, por um lado, o acesso a uma notícia factual sobre o conteúdo do manifesto e, por outro, impossibilitou que os leitores tomassem conhecimento com o assunto de que tratava o editorial.

A questão que coloco é, por isso, simples: tendo em conta que o texto foi apenas conhecido naquele dia, e aliás divulgado por vários jornais, é aceitável que os leitores do PÚBLICO não tenham tido acesso a nenhuma notícia sobre o mesmo, mas, ainda assim, o jornal dedique o editorial ao assunto, oferecendo apenas o que é uma leitura simultaneamente legítima e subjectiva feita pelo seu director?

Pedro Adão e Silva (subscritor do "manifesto dos 28")

Carta do leitor João Miguel Neves Geirinhas Rocha

Sou um leitor do Publico desde a primeira hora, mas venho constatando que o "meu" jornal nos últimos tempos está a perder isenção e imparcialidade, atributos que reputo indispensáveis para uma imprensa que se requer de referência.

Sei que não é da nossa tradição os jornais fazerem declarações de apoio ou de oposição a governos ou tendências ideológicas, preferindo os mesmos jornais apresentarem-se perante a opinião pública como formalmente não envolvidos no jogo e na disputa política. No caso do PÚBLICO, o que observamos porém, na linha das posições que o seu director, José Manuel Fernandes, tem tomado nos textos que escreve no jornal e nas decisões editorias que implementa, é uma clara e sistemática valorização de todas as notícias, factos e acontecimentos que se julgam prejudiciais para o actual governo e para o presente primeiro-ministro e, por outro lado, uma clara desvalorização daqueles que lhe poderiam ser positivos. Não está em causa o dever de escrutínio da imprensa sobre os actos e omissões do poder político. Mas a ideia que dá lendo o PÚBLICO todos os dias é que existe uma "agenda" politica de feroz oposição a esta solução governativa ainda em funções.

O recente editorial em que José Manuel Fernandes "analisa" os dois manifestos dos economistas sobre os grandes investimentos do Estado é, a esse propósito, um caso paradigmático. José Manuel Fernandes comenta os dois manifestos e manifesta a sua opinião a favor de um deles, enquanto arrasa as sugestões do manifesto oponente. Até aqui, tudo normal, já que se trata afinal de um texto de opinião. O problema é que eu compro o PÚBLICO todos os dias e fiquei com curiosidade de ler no meu jornal afinal o que dizia o manifesto dito de "esquerda". E não é que não encontrei? Nem o texto, nem a notícia, nem o resumo. Apenas as referências indirectas de alguns textos que falavam do manifesto mas nunca sobre o manifesto em si. O director sentir-se-á confortável em comentar dois textos que tiveram tratamento tão desigual no seu jornal? Ou ele espera que os leitores comprem dois jornais para terem acesso a todas as notícias? Ou terá José Manuel Fernandes a ideia de que os seus leitores já dispensam as notícias e se contentam com os seus comentários sobre as mesmas? Estaremos condenados a ver o jornalismo ser substituído por um catecismo?

João Miguel Neves Geirinhas Rocha

Carta da leitora Eunice Ferreira

Trabalho no sector das telecomunicações há mais de 30 anos, uma área da economia que, como se sabe, depende continuamente de fortes investimentos de capital. Embora sem ser economista, creio que a minha experiência me habilita a dois comentários sobre mais recente polémica encabeça pelo Director do PÚBLICO. Refiro-me aos manifestos escritos por várias individualidades do mundo da economia.

- a partir dos seus Editoriais, José Manuel Fernandes lamentavelmente promove uma estrutura interpretativa que é sistematicamente negativa em relação a investimentos públicos;

- José Manuel Fernandes esquece que o investimento opera mutações no tecido produtivo que tornam cálculos custo-benefício feitos a priori necessariamente limitados;

Neste momento há uma certeza: o mercado desregulado implodiu. Neste momento há uma esperança: o Estado, como mobilizador de accção colectiva, pode (deve) reverter o declínio. A situação actual, parece-me, exige humildade perante as actuais incertezas económicas. O valor desejável parece-me ser o pragmatismo, enquanto a intolerância intelectual parece-me ser um obstáculo.

A intromissão opinativa de José Manuel Fernandes em Editorial no último sábado, 27 de Junho (em que apareceu uma nova posição de 51 individualidades), mostra algo que me transtornou, ou seja, os leitores do PÚBLICO ainda não viram a opinião dessas 51 pessoas no papel de jornal mas já estão a ser inoculadas contra ela.

Não só do ponto de vista comunicacional isto é confuso como, aparentemente, temos aqui uma situação que importa esclarecer:

- o Director tira partido de acesso privilegiado a esse texto (inside trading, segundo a gíria dos economistas) e contra-ataca a opinião desses 51 antes que esta tenha de facto hipótese de vir a terreno;

- a ser assim, isto não terá sido a primeira vez.

Mais: A falta de perspectiva, a diminuição do pluralismo e a diminuição de qualidade parecem estar também associadas ao cancelamento do suplemento de Economia [do PÚBLICO] justamente quando a economia é o assunto do dia.

Sem dar oportunidade a outras opiniões no PÚBLICO, o jornal não está a contribuir para dissipar a confusão sobre a realidade e sobre a estratégia nacional num dos piores momentos vividos pela economia portuguesa.

Eu compro o PÚBLICO e sinto-me lesada por perdas de qualidade que afectem o produto quando o trago para casa. Agradeço esclarecimento sobre o que terá realmente acontecido ultimamente no processo de produção do jornal (por exemplo, no último sábado) que explique a actual falta de várias perspectivas sobre o estado da economia actual nas suas páginas.

A crise moral na liderança editorial do PÚBLICO, que me parece ter antecido as eventuais dificuldades financeiras do jornal, continua a agravar-se. Como posso continuar a pagar o mesmo por um jornal cuja qualidade está a diminuir a olhos vistos precisamente na altura mais crítica?

Eunice Ferreira

Carta do leitor Hélio Paulo Lopes

Noto que enquanto Provedor se tem preocupado com a identificação dos erros factuais que o jornal vai publicando. Imagino que seja bem mais delicado ao jornal confrontar-se com o problema dos erros de conduta da sua chefia operacional - refiro-me à pessoa do Director do PÚBLICO. Mas o espaço do Editorial também é espaço jornalístico, e por isso mais cedo ou mais tarde este assunto tem de ser encarado de frente

Mais do que qualquer outro factor recente (a emergência da internet, a concorrência dos jornais gratuitos, etc.), deve-se a José Manuel Fernandes a crescente quebra de ligação entre os leitores e o jornal. A razão é fácil de determinar: a posição sempre doutrinal do Director, que já não discute argumentos mas antes posições contra ou a favor.

Não se pede neutralidade nos Editoriais, mas há qualquer coisa de sistematicamente negativo em relação ao papel da política pública, a que só posso dar o nome de ideologia. Por que razão haverão os leitores de ser incomodados com as opções pessoais e simpatias políticas do Director?

O caso mais recente é o ataque cerrado, mas velado, ao manifesto dos 51 economistas e outros profissionais preocupados com a economia. Leio no Livro de Estilo do jornal que é dever do mesmo "informar sem manipular, difamar ou intoxicar". O tratamento desigual dado aos dois manifestos de economistas causou-me, confesso, algum transtorno. Vide vários Editoriais desde Sábado passado [20 de Junho].

Gostaria de confrontar o Provedor com uma dúvida, para a qual muito agradecia resposta: É prerrogativa do Director do PÚBLICO ser ele o único a ferir de morte esta norma orientadora do Livro de Estilo? Tem ele direito a sugerir implicitamente que uns são mais economistas que outros, ou que uns são mais respeitáveis que outros?

Hélio Paulo Lopes

Carta do leitor José Castro Caldas

Nada como os procedimentos do PÚBLICO relativamente aos dois manifestos económicos para justificar a necessidade de uma provedoria num jornal.

Primeiro (no sábado, 27 de Junho) um editorial do Director desvalorizando um texto de que não era dada notícia no corpo do jornal. Depois (no domingo) uma notícia breve sobre o texto omitido na véspera sem aproveitar para corrigir o erro. Por último (na segunda-feira), de novo o Director, com uma referência inexacta a algo que teria sido “combinado com os subscritores” mas que efectivamente não foi. Em contrapartida, um colunista, Rui Tavares, a quem o absurdo da situação não passou desapercebido.

Não comentaremos aqui as opiniões do Director ao texto não divulgado, porque os procedimentos são o que agora mais importa. O Director do PÚBLICO ultrapassou neste episódio os limites do aceitável. A questão que lhe deixamos é simples: que pode um provedor num caso como este?

José Castro Caldas (subscritor do "manifesto dos 28")

NORA DO PROVEDOR: O provedor não possui, logicamente, qualquer poder executivo, o que seria uma intromissão na liberdade editorial da redacção. Limita-se a lançar alertas para certas situações e a emitir recomendações, que os jornalistas são livres de ter ou não em consideração.

Carta do leitor Luís Filipe Lopes ao director, com conhecimento ao provedor

O Editorial da edição de hoje [29 de Junho] continua a não me satisfazer quanto á razão que justificou a disparidade de tratamento dado pelo seu jornal aos dois "manifestos" de economistas divulgados recentemente. A verdade é que foram consagradas páginas da edição impressa (que é a mais importante e de maior difusão, não sendo o PÚBLICO, que eu saiba, um jornal digital) a um dos documentos e não ao outro; essas páginas tinham mesmo uma feição exegética, explicativa, das teses defendidas.

Quanto ao outro documento, só o seu Editorial se lhe referia - aliás, em termos críticos, que são legítimos -, remetendo a consulta para um linque digital. Quem não tenha lido o Editorial poderá ter ignorado a existência do "manifesto", pelo menos no imediato. Foi o meu caso: só a leitura de blogues me revelou, dias depois, a sua existência.

Há, então, uma distribuição de notícias e temas por suportes diferentes (papel, digital)? Nesse caso, qual é o critério dessa distribuição? Não aceito obviamente uma explicação do tipo "falta de espaço" na edição de papel, pois o PÚBLICO tem multiplicado ultimamente a ocupação de espaço com trivialidades e futilidades, em detrimento de coisas importantes - tendência geral dos media portugueses, claro. A sua afirmação de que a edição digital do jornal contém linque para o documento "ocultado" e não para o primeiro não me satisfaz. Os leitores tiveram a possibilidade de ler integralmente o "dos 28", inserido como publicidade, e de o mastigar adicionalmente na exegese preparada pela redacção. E tal não sucedeu com o outro. Porquê?

Luís Filipe Lopes

Carta do leitor João Sousa André

Escrevo motivado pelo editorial de hoje [2 de Julho], da autoria do Director, José Manuel Fernandes. O motivo que me leva a escrever é a questão dos três manifestos, como os denomina José Manuel Fernandes, "sobre política económica e investimentos públicos". Estes manifestos têm recebido da parte da comunicação social (na qual englobo os blogues) um dose elevada de atenção nas últimas semanas. A forma como o PÚBLICO e o seu director trataram o segundo dos manifestos levantou até uma polémica, considerando muitos (onde me incluo, embora com menos veemência) que José Manuel Fernandes procedeu de forma incorrecta quanto à forma como o noticiou e comentou. Não vou, contudo, entrar agora por este caminho. A única nota que deixo prende-se com a forma como decidiu responder ao seu próprio colunista Rui Tavares, na edição onde este atacava a situação. Isso demonstrou falta de respeito, de coragem e até de cultura democrática.

Aquilo que desencadeou este comentário, no entanto, é o tratamento dado aos manifestos (agora três) dado por José Manuel Fernandes no seu editorial. Escreve a dada altura: "O importante é centrar o debate nas propostas feitas e não em quem as formula, mesmo sabendo que uma foi avançada por economistas de vários espectros políticos, outra por académicos que se situam entre a ala esquerda do PS e a esquerda radical e esta por um grupo de pessoas de diferentes proveniências que procuram, sobretudo, apoiar as escolhas do Governo".

Ou seja, apesar de José Manuel Fernandes pretender não centrar o assunto nas pessoas, acaba por o fazer à partida. Aponta o segundo manifesto à esquerda radical (presumo que qualquer partido à esquerda do PS seja "radical"). Pior, a "académicos", ou seja, usa um termo que é identificado frequentemente com pessoas desligadas da realidade, que se sentam nos seus gabinetes e analisam abstractamente os textos e relatórios escritos por outras pessoas como eles. Ou seja, gente que vive num outro microcosmos. Não é esta a interpretação de português mas é, sem ingenuidades, esta a intepretação que lhe é dada.

Já o terceiro manifesto virá de pessoas que poderão ser de diversas proveniências mas que serão essencialmente pessoas ligadas ao governo (em si não desqualifica nada). O pior é que, antes, cola este manifesto ao lobby das obras públicas, ao escrever: "[O manifesto preenche o espaço de] alguns empresários ligados às obras públicas: (...) [o] actual presidente da Associação Nacional de Empreiteiros de Obras Públicas está entre os seus subscritores".

Comparemos isto com o primeiro manifesto, subscrito por "economistas de vários espectros políticos", formulação sóbria, "respeitável" (peçamos emprestada a formulação de Vítor Constâncio) e neutra, que certamente só quererão o bem do país.

Em resumo, temos que o primeiro manifesto é bom, o segundo é mau e o terceiro menos mau. Não discuto a opinião de José Manuel Fernandes, que a deve ter e a deve transmitir, mas considero a sua forma de abordar o debate, pela via pessoal e da desvalorização pessoal, como indigna de um director de um jornal como o PÚBLICO.

Ao longo dos anos tenho visto o PÚBLICO a ser um espaço de debate aberto, plural e desassombrado. Recordo o editorial de Vicente Jorge Silva, quando inaugurou a expressão "geração rasca" para se referir a uma geração da qual faço, tangencialmente, parte. Não tenho, mesmo hoje, razão para me incomodar com aquele editorial. Foi escrito em face de factos e com uma argumentação. Discorde-se ou não, era correcto e assumia uma postura de acordo com o que defendia no texto.

Não é o caso do que tem surgido no PÚBLICO, jornal que tem publicado cada vez mais textos de opinião de qualidade duvidosa, com critérios editoriais que seguem o mesmo caminho (recordo que, no passado, questionei a razão de ser do destaque dado a um livro de João Carlos Espada, conhecido liberal, opinião partilhada por José Manuel Fernandes). Admito, são avaliações pessoais. Já o editorial de hoje não o é. É um editorial que propõe fazer algo, não pessoalizar uma discussão, e faz de imediato o oposto. Tem uma atitude que, mais do que indigna, é vergonhosa, para mais quando surge no seguimento de uma polémica sobre o mesmo tema. A um director do PÚBLICO (de um jornal em geral, mas falo do PÚBLICO por ser o "meu" jornal há década e meia) exige-se respeito e educação. José Manuel Fernandes não demonstrou nenhuma destas qualidades, antes as descartou completamente.

Pois bem, esta terá sido a gota de água. A minha assinatura do PÚBLICO online (com acesso ao PÚBLICO em PDF) expira nos próximos dias. Não a renovarei. Custa, é verdade, deixar de comprar o jornal que leio há tanto tempo, mas quando o jornal deixa de ser "o meu jornal" creio que é a melhor atitude. Continuarei a lê-lo, mas não mais a assinar. Será indiferente para os senhores, apenas uma gota no oceano, mas é para mim um acto simbólico (e não é pelo dinheiro, o qual posso facilmente dispensar). Lamento fazê-lo, mas o declínio na qualidade e a falta de respeito do director do PÚBLICO para com as pessoas sobre quem escreve, para com os seus leitores ou simplesmente para com quem não está no mesmo campo ideológico leva-me a tal decisão.

As melhores felicidades para um PÚBLICO que espero que entre por outros caminhos.

João Sousa André

PS - uma pena que tenha que escrever este texto quando no próprio editorial surgia um conjunto de ideias com o qual geralmente concordava.

Explicações do director do PÚBLICO, José Manuel Fernandes

Não por acaso, abri o ponto 2 do Editorial [de segunda-feira 29 de Junho] assim: "Tenho por regra não responder a colunistas no dia em que estes escrevem, e procuro mesmo nunca lhes responder". Ou seja, ao responder ia abrir uma excepção. Porquê? Porque soube por acaso do conteúdo do texto de Rui Tavares (ele não me telefonou, como é regra os colunistas fazerem, e eu não estava a fechar o jornal) e, depois, verifiquei que o tema andava por todo o lado na internet. Daí ter entendido responder logo, sob pena de aceitar uma discussão que laborava num equívoco: a de que tinha havido uma intenção censória do jornal. Apesar de muitos não terem aceite a explicação, ela ficou dada.

(Pequena nota: apesar de o editorial sair numa página anterior do jornal, os nossos estudos indicam que a maioria dos leitores dos textos de opinião começa a lê-los pela última página, que é de resto uma página mais nobre do que qualquer página interior; não me parece provável que se possa demonstrar que com aquele alinhamento a maioria dos leitores leu antes o editorial do que a crónica de Rui Tavares, só porque esta vinha antes).


Quanto aos critérios editoriais:

1. Não vale a pena disfarçar: o primeiro manifesto que publicámos, para além de ser o primeiro, era assinado por menos pessoas mas por economistas muito mais conhecidos do que os académicos que assinam o segundo (basta olhar para as respectivas listas). A força dos nomes e o facto de ser o primeiro levar-nos-iam sempre a dar-lhe mais destaque. Mas essa questão nem se colocou, como se verá, apesar de a repercussão pública dos dois manifestos ter sido radicalmente diferente: um suscitou inúmeras reacções políticas, o outro, mesmo noticiado no sábado nas edições em papel de vários jornais e colocado na íntegra no nosso online, passou quase despercebido.

2. Representantes de ambos os manifestos contactaram o jornal sobre o nosso interesse em publicá-los. Só que o fizeram de forma muito diferente. Os do primeiro comunicaram que iriam publicar anúncios em vários de órgãos de informação a partir de sábado dia 22, dizendo que estavam disponíveis para nos entregar o manifesto com antecedência para o tratarmos jornalisticamente, o que só fariam com o Expresso. Quando recebemos o texto e vimos a sua contundência e lista de assinaturas, percebemos de imediato que ter junto aquele grupo de pessoas para dizer aquelas coisas era uma grande notícia. Assim a tratámos.

Já os representantes do outro manifesto actuaram de forma, no mínimo, mais confusa. Primeiro propuseram publicar o texto nas páginas de opinião, mas assumindo que o iriam fazer no mesmo dia noutros jornais. Ora, nas páginas de opinião editamos textos exclusivos para Portugal, não textos partilhados. Passou-se então para outra alternativa, que seria colocar o texto na íntegra no nosso site e noticiá-lo no mesmo dia. Porém o valor-notícia do manifesto ficou prejudicado entretanto, pois chegou às mãos do i, que lhe deu grande destaque. A novidade perdera-se, nunca seria possível dar-lhe o mesmo tratamento que se dá a um exclusivo ou, se se preferir, um exclusivo partilhado a dois, como sucedera com o PÚBLICO e o Expresso no caso do primeiro manifesto.

3. Mesmo assim, apesar de as regras terem sido quebradas, decidimos manter a combinação original. Assim, na sexta-feira, [o membro da direcção que ficara responsável por tratar deste tema] recebeu o seguinte email do primeiro subscritor do segundo manifesto, José Reis: ”Envio-lhes o texto de que falei (...), a propósito do debate sobre o investimento público. O que temos combinado com os jornais aos quais o estamos a dar é que o publicarão amanhã e não antes online. É isso que gostaríamos igualmente de fazer com o PÚBLICO, até por ser um dos jornais que mais atenção têm dado a este debate. Como não estamos a fazer uma difusão generalizada, pressupomos que isso possibilita que cada jornal lhe dê mais atenção”.

4. O [referido membro da direcção, que o director pede para não ser noemado] fez seguir o texto para a secção de Economia, onde deveria ser tratado, mas não acompanhou mais o caso, pois saiu antes do fim do dia para ir de férias. Na secção de Economia, apurei na segunda-feira, não foi entendida a urgência da publicação, pelo que deixaram o tema para a edição de domingo. Foi uma avaliação errada, porventura derivada de algum equívoco na transmissão da mensagem. Para além disso, os editores, não sendo o essencial do conteúdo do manifesto novo (as suas linhas gerais haviam sido divulgadas pelo i), não sentiram a urgência jornalística.

5. Sexta à noite, depois de escrever o editorial e já bastante tarde, pedi para me indicarem em que página saía o texto e qual era o link na internet. Para minha surpresa, não tinha sido paginado nenhum texto nem o manifesto tinha sido colocado online. Que fazer, estando o jornal quase fechado e ninguém da secção presente? Tratar de mitigar a falha. Foi o que fiz. No editorial mantive a chamada de atenção para a publicação integral na internet e tratei eu próprio de fazer o que não tinha sido feito: colocar o texto online. Está lá desde as 00h09 de sábado. Mais: fiz uma chamada na homepage do jornal, em lugar destacado, e como manchete da página de Economia. No domingo fez-se uma notícia e remeteu-se de novo para o nosso site (onde, esclareça-se, o outro manifesto nunca foi reproduzido na íntegra).

6. Em síntese: um conjunto de erros de que me apercebi tarde de mais levaram a que, sábado, dia 27, a notícia não fosse editada em papel nem tivesse chamada de capa, como estava previsto. De qualquer das formas, mesmo que esse erro não tivesse ocorrido, a actualidade do dia e o facto de a existência do manifesto e as suas linhas gerais já serem conhecidas nunca permitiria que tivesse na primeira página destaque semelhante ao do primeiro manifesto. A aposta informativa nesse sábado foi o follow-up da morte de Michael Jackson, tema que continuou a dominar as primeiras páginas dos grandes jornais internacionais. Se Jackson tivesse morrido uma semana antes, teria sido o outro manifesto a ser prejudicado, mas por certo ninguém sugerirá que o timing da morte foi por mim determinado para que o segundo manifesto passasse despercebido. E digo isto porque, nos blogues, já me têm apelidado de tudo.

7. Pelo explicado se percebe que o atraso de um dia na notícia na edição papel do segundo manifesto se deveu a um erro, mas o resto do compromisso foi cumprido online, dando-lhe mesmo mais destaque do que ao anterior manifesto. Não houve qualquer opção editorial de carácter político relativamente aos manifestos. Mas, mesmo se não tivesse havido esse erro, puros critérios jornalísticos (actualidade do dia no desenho da primeira página e força dos nomes que subscreviam os dois manifestos) levariam sempre a que, no papel, fossem tratados com destaques diferentes.

José Manuel Fernandes

Nota adicional do director

Na semana passada, também por erro dos editores e distracção dos directores, o PÚBLICO foi o único diário, incluindo os gratuitos, que no papel não noticiou a entrevista de Manuela Ferreira Leite à SIC, ao contrário do que fizera com o primeiro-ministro. Por esta lógica, também fazemos feroz oposição a Ferreira Leite...
Houve motivação política? Não, houve erro, até porque a notícia foi escrita e saiu online.

José Manuel Fernandes

Segunda nota adicional do director

Já agora, um dado interessante: só uma das muitas notícias online que fizemos sobre a morte de Michael Jackson teve mais de 56 mil pageviews. Não há nenhum dia da semana em que o jornal venda 56 mil exemplares. Por outras palavras: sem querer desculpar a falha da falta de notícia em papel no sábado, hoje o número de leitores únicos do PÚBLICO online aproxima-se, se é que já não ultrapassou, o número dos leitores em papel, mesmo considerando que cada exemplar é lido por mais de uma pessoa. Mas repito que não é uma desculpa para o erro, apenas uma chamada de atenção para uma realidade nova.

José Manuel Fernandes

Terceira nota adicional do director

Chamo a atenção para o facto de, quando saiu o terceiro manifesto (que fora anunciado pelo i ao mesmo tempo que o segundo), colocámos os três em linha numa página destinada ao debate público online (isto além da notícia que, dessa vez, não falhou sobre o manifesto. Pode-se ver os três textos aqui.Há também uma chamada a rodar no topo da homepage.

José Manuel Fernandes

Troca de emails entre o provedor e o director

Presumo que o manifesto dos 28 ter aparecido em publicidade paga na pág. 5 da edição que o noticiou nas pgs. 1, 2 e 3 terá sido coincidência, não?
Joaquim Vieira

Ter saído na pág. 5 foi coincidência, e a direcção editorial desconhecia. Não vemos as páginas inteiras de PUB, que seguem directas para a gráfica. Já agora, a ideia da nossa capa [de 20 de Junho], com as caras, começou a ser trabalhada de antevéspera, para podermos procurar as fotos, e não a alterámos mesmo quando também descobrimos que a Rádio Renascença estava a dar uma pequena notícia sobre o manifesto.
José Manuel Fernandes

E já que tiveram tanto tempo para preparar a notícia sobre o manifesto dos 28 não seria normal procurar ouvir opiniões contrárias?
Joaquim Vieira

Havia o compromisso do embargo, que era partilhado com o Expresso e a Renascença, que tinham o documento em exclusivo. Ir pedir opiniões contraditórias implicava correr o risco de quebrar o embargo, pois esse conceito é mal entendido fora da profissão (basta ver que nem um dos subscritores teve cuidado de manter o segredo…). Mas a partir de domingo [28 de Junho] quase todos os dias publicámos textos, ora na opinião, ora nas cartas, ora nas páginas de noticiário, onde se dava voz às críticas. Chegou mesmo a ser preparado um destaque sobre aqueles investimentos públicos, mas depois tivemos de desviar os recursos que temos para a polémica que estalou em torno da venda da TVI. É um destaque que não está esquecido, mas que a sucessão de outros eventos ainda não nos permitiu montar, com os elementos gráficos, as peças explicativas e as opiniões contraditórias que planeámos.
José Manuel Fernandes

Mas se a existência do manifesto já tinha sido noticiada na véspera nos meios electrónicos, como é possível falar-se na manutenção do embargo?
Joaquim Vieira

Por motivo idêntico ao que nos levou a divulgar só depois da meia-noite o manifesto dos 51 apesar da notícia do i: uma coisa é um texto onde se cita brevemente um documento com base no que dizem os seus autores, outra é divulgá-lo na íntegra. O tema foi discutido e, após assegurarmo-nos de que a Rádio Renascença não o faria, guardando as peças mais desenvolvidas para sábado, decidimos manter a programação original, pois assim as televisões poderiam citar apenas essas notícias que remetiam para o desenvolvimento no papel. Ficou combinado recolher as reacções no sábado.
José Manuel Fernandes