domingo, 8 de Novembro de 2009

Da excepção à regra

Instituiu-se, e não só no PÚBLICO, o vício de não invocar fontes de notícias

“Apurou o PÚBLICO”, sem o atribuir a qualquer fonte, que Ferreira Leite queria “uma renovação profunda” da bancada do PSD

Relatou o provedor na crónica anterior que solicitara ao jornalista António Arnaldo Mesquita explicações sobre duas notícias de primeira página publicadas nos dias 22 e 24 de Outubro, ambas sem imputação da informação a qualquer fonte e sendo a segunda (“Caso Freeport – ingleses ainda não enviaram documentos”) um desmentido da primeira (“Documentos sobre o Freeport pedidos aos ingleses já estão nas mãos dos investigadores”), mas que não recebera resposta (cumprido o prazo de 72 horas previsto para a reacção dos jornalistas às interpelações do provedor).

Já após publicada a crónica, o provedor recebeu de António Arnaldo Mesquita a explicação de que só na altura abrira a sua caixa de correio electrónica, por na semana anterior ter tido “dificuldades informáticas”. Dispôs-se então a responder, e, apesar de diferido no calendário, vale a pena atentar ao que escreveu: “Uma fonte que me pediu o anonimato disse-me que os documentos já tinham chegado e que o oficial de ligação da embaixada lhe tinha dito que vinham a caminho. Um dia depois, alegando dificuldades nos contactos com os magistrados titulares do inquérito Freeport, a mesma fonte disse-me que, afinal, os documentos não tinham sido recebidos no DCIAP [Departamento Central de Investigação e Acção Penal] e que os britânicos alegavam ‘falha informática’ para justificar a suspensão da remessa da documentação. Esta é uma situação limite de uma fonte que já me forneceu dezenas de informações que nunca [palavra sublinhada] foram desmentidas... A lealdade da mesma fonte ficou comprovada no dia seguinte, quando verificou que me tinha induzido em erro. Como na primeira notícia não citei a fonte, pareceu-me que também o não devia fazer na segunda, em que me auto-desmentia”.

Num aparte, o provedor repara que nos tempos actuais, com o advento da tecnologia digital, a informática tem as costas largas. Entendendo evidentemente que a identidade da fonte teria de ser preservada, perguntou a António Arnaldo Mesquita se não seria possível “pelo menos identificar a sua área, tipo ‘fonte judicial’ ou coisa do género”, havendo ainda outras possibilidades: “E por que não, em caso limite, falar em ‘fonte que solicita o anonimato’, ou ‘fonte conhecedora do processo que solicita o anonimato’? No fundo, é isso: se a fonte não conhecesse o processo a notícia seria impossível ou não teria credibilidade. Não se deveria também ter dito que a fonte que desmentiu a informação foi a mesma que antes a fornecera ao PÚBLICO?”

A nova resposta de António Arnaldo Mesquita foi em grande parte, a seu pedido, off the record, pelo que o provedor não a pode citar (não, ele não identificou a fonte!). Mas retira dela esta frase: “Isto neste caso é particularmente sensível e delicado. [Eu] não podia identificar a fonte”. Insatisfeito, dado que o que estava em causa não era identificar a fonte, o provedor insistiu: “Compreendo a delicadeza da situação. A questão é que convinha que os leitores soubessem que havia pelo menos uma fonte”. Replicou o jornalista: “Claro que os leitores deviam saber que havia uma fonte, só que, neste caso concreto, a minha fonte não podia ser identificada, nem eu a devia identificar quando constatei que me tinha induzido em erro. A única solução neste caso era fazer de Egas Moniz e apertar a corda ao pescoço...”

Apreciando o altruísmo do autor, o provedor considera contudo que, na parte publicável desta troca de mensagens, e sem violação da garantia de confidencialidade, António Arnaldo Mesquita já fornece os elementos de informação que, a terem sido publicados na devida altura, permitiriam suprir as falhas detectadas nas duas notícias, designadamente: a) que existiu uma fonte, conhecedora do processo, mas que solicitou o anonimato; b) que se tratou da mesma fonte para ambas as notícias; c) que foi a própria fonte a tomar a iniciativa de rectificar a informação que inicialmente fornecera”.

O que acontece é que se instituiu no jornalismo português (e não só no PÚBLICO) o hábito (ou antes, o vício) de não invocar fontes para a elaboração de muitas notícias (presumindo talvez os autores que dessa forma, mostrando-se dentro de circuitos secretos de informação de que nem podem revelar a origem, valorizam mais o seu trabalho).

Por vezes, os jornalistas lá concedem na fórmula “o PÚBLICO sabe que...” (que nada informa sobre a fonte), mas não mais do que isso. É o caso recorrente de Nuno Simas, na área do jornalismo político: “O PÚBLICO apurou que Manuela Ferreira Leite falou a Portas, seu ex-companheiro no Governo PSD/CDS, sobre Maria José, número quatro na lista de Lisboa” (6 de Agosto, pág. 8); “Ao que o PÚBLICO apurou, o critério de Ferreira Leite para não incluir, por exemplo, Passos Coelho e Miguel Relvas foi a análise da sua atitude, no último ano, relativamente à direcção” (5 de Agosto, pág. 2); “Ao que o PÚBLICO apurou, a causa da ruptura [entre direcção e a distrital de Lisboa do PSD] foi a inclusão, por Ferreira Leite, de alguns nomes em lugar elegível, como António Preto e Helena Lopes da Costa” (4 de Agosto, pág. 6); “Ao que apurou o PÚBLICO, Ferreira Leite quer uma renovação profunda relativamente ao grupo parlamentar escolhido em 2005” (3 de Agosto, pág. 6); “O PÚBLICO sabe que o autarca lisboeta fez uma tentativa de última hora para ainda conseguir um acordo do PS com PCP e BE para o município da capital” (13 de Julho, pág. 6).

O provedor, que não percebe sequer o que há de tão sensível nestas notícias que implique não fazer menção a nenhuma fonte, inquiriu Nuno Simas sobre a pertinência do método, tendo o jornalista começado por invocar o ponto 72 dos “Princípios e Normas de Conduta Profissional” do Livro de Estilo do PÚBLICO: “Quando o jornalista está em condições de assumir a informação – isto é, quando a confirmou junto de várias fontes independentes entre si, embora todas tenham exigido o anonimato – deverá noticiá-la no PÚBLICO sem necessidade de recorrer às habituais, retóricas e desacreditadas fórmulas do género ‘fonte digna de crédito’, ‘fonte segura’ ou ‘fonte próxima de’. As fontes, a sê-lo, devem estar sempre bem colocadas para falar sobre o assunto. (...) Um jornal bem informado não precisa de justificar permanentemente as suas notícias. Assume-as e responsabiliza-se por elas”.

Já nesta coluna o provedor alertou para a inconsistência da norma em causa, instando a que fosse repensada numa próxima revisão do Livro de Estilo – e não pretende regressar ao mesmo debate. Mas lamenta que, na revisão de 2005, tenha desaparecido a norma da edição original, mais consentânea com as regras do jornalismo, segundo a qual “nesses casos [não havendo outra forma de obter a informação ou a sua confirmação], e só nesses casos, pode utilizar-se a fórmula [do estilo] ‘uma fonte do organismo X que solicitou o anonimato’”.

Complementarmente, Nuno Simas invoca o facto de a fórmula “o PÚBLICO apurou” (não contemplada pelo Livro de Estilo, note-se) ser “usada frequentemente nas páginas do jornal”, e contrapõe: “Mas há também exemplos de notícias em que, por exemplo, identifico uma ‘fonte/membro da comissão permanente do PSD’ ou ‘fonte/membro da comissão política nacional do PSD’ – dois níveis de poder diferentes no PSD, por exemplo. Tenho a consciência de que estas são informações que assumo e que me responsabilizo por elas. Por isso não o faço por regra, mas sim como excepção. A regra, claro, é a informação ser atribuída a uma fonte, ‘identificada com a maior precisão possível’ (ponto 68 do Livro de Estilo).

Fica por perceber o critério que leva os jornalistas a invocar ou não as fontes de informação – sendo que a segunda situação parece hoje ao provedor mais regra do que excepção.

CAIXA:

Deve/haver encerrado

Escreveu-se há oito dias nesta página que o director cessante do PÚBLICO só deixara sem resposta três das muitas dezenas de questões que o actual provedor lhe havia endereçado. José Manuel Fernandes fez entretanto questão de prestar esclarecimentos sobre essas questões.

Acerca da circunstância de em tempos não figurar na lista de jornalistas com carteira profissional actualizada, diz José Manuel Fernandes: “Voltei a ter carteira profissional actualizada, depois de um longo contencioso com a Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas (CCPJ). Contar toda a história daria, pelo menos, o capítulo de um livro”.

Sabendo embora que a lei impõe a obrigatoriedade de o director de um jornal possuir título de jornalista ou equiparado, o provedor também não insistiu demasiado no assunto (que vem do início do seu mandato, há quase dois anos), por entender que deve prevalecer a universalidade do direito de expressão e informação, que abrange todos os cidadãos, independentemente de possuírem ou não carteira de jornalista. Mas sempre pode adiantar que, tanto quanto sabe, na raiz com conflito de José Manuel Fernandes com a CCPJ estava uma discrepância entre o critério de numeração das carteiras e a antiguidade profissional.

No que respeita à publicação de uma notícia de implicações políticas em dia de reflexão pré-eleitoral, afirma o ex-director que na altura (25 de Setembro) esteve ausente de Lisboa e que solicitou a outro responsável que esclarecesse o assunto – o que não aconteceu.

Quanto à identificação de um crítico como jornalista, José Manuel Fernandes enviou ao provedor os elementos que entretanto havia recolhido, explicando que “a tensão dos últimos dias” o havia impedido de responder antes. O assunto será abordado mais tarde.

Fecha-se assim o deve/haver entre o provedor e José Manuel Fernandes.

Publicada em 8 de Novembro de 2009

domingo, 1 de Novembro de 2009

Acerca da “integridade em pessoa”

É crucial não tratar do caso Freeport com um desejo, a priori, de criminalização de José Sócrates




Sendo o primeiro-ministro actor central das notícias sobre o caso, é relevante toda a invocação do seu nome em documentos mencionando subornos



Não se tratava de uma notícia original do PÚBLICO, mas sim da menção a outra divulgada pela TVI. Porém, abordando um tema que este jornal – muito acertadamente – se tem empenhado em acompanhar e aprofundar, o título "TVI revela fax de administradores do Freeport sobre dois milhões de libras em ‘luvas’", saído a quatro colunas na pág. 9 da edição de 20 de Outubro, implicaria da parte dos autores da respectiva notícia, Maria José Oliveira e Nuno Simas, uma atenção particular ao rigor.

Quem não chegou ontem de Marte sabe que no centro da narrativa jornalística sobre este caso, relacionado com a licença para a construção de um centro comercial em área protegida no Montijo, figura o nome do actual primeiro-ministro, José Sócrates, à época ministro do Ambiente e detentor da tutela por onde passava a aprovação do projecto. O interesse da notícia de 20 de Outubro residia na circunstância de, no tal fax, onde um administrador do Freeport terá acrescentado à mão a referência a um suborno de dois milhões de libras, se mencionar várias vezes o nome de José Sócrates.

Reclamou porém o leitor Ricardo Roque: “Os autores [da notícia] citaram uma peça divulgada no Jornal Nacional da TVI que tinha como suporte documental um fax trocado entre administradores do Freeport. (...) Pass[o] concretamente à minha indignação pela omissão, que julgo voluntária e consciente portanto, na citação que os jornalistas fazem da matéria noticiosa. (...) De todo o texto do fax (...) a única parte omitida (...) é esta: ‘O ministro do Ambiente, Eng.º José Sócrates, é considerado como um dos pilares do Governo PS e é tido como a integridade em pessoa’ (acrescentado à mão: ‘Confirmado por outros’). Lendo a notícia do PÚBLICO, concluo que no caso Freeport houve luvas de dois milhões de libras, leio abundantemente os nomes de Sócrates, dos seus secretários de Estado, assim como que o estabelecimento de um nexo de causalidade entre corrupção e nomes aludidos, por força da troca de faxes com comentários de administradores do Freeport, mas nunca por nunca leio o que está também escrito nesses documentos [e] não é notícia nem facto que os jornalistas se tenham sentido obrigados a publicar ou citar. Estaria tudo dito se não fosse mau de mais para ser verdade, num jornal que já foi de referência. ‘Aporcalhar’, lançar suspeitas, etc., fica bem na consciência de alguns jornalistas, mas quando a par de tudo vem uma qualquer referência que abona a favor daquele que querem ver sangrar, então calam-se, omitem, num gesto que pode ser equiparado a mentir! Não me conformo (...) Era ou não ético citar completamente ou também esta parte do fax (...)? Os jornalistas são livres de ‘mexer’ no suporte noticioso ou, pelo contrário, devem dar relevo a todos os factos com importância? Repare-se que, neste caso, estamos a falar de corrupção, de carácter e de honradez (ou falta dela) de quem tem de lidar com processos, e, quando há uma menção de que a pessoa (...) é tida como íntegra, isto tem ou não importância no contexto? E se essa pessoa detém um lugar de grande importância na vida do País, que dizer? (...) Em suma, qual a importância do bom nome para o PÚBLICO?”

O provedor pediu aos autores da notícia um comentário ao protesto, recebendo de Maria José Oliveira e Nuno Simas uma reacção um tanto ou quanto lacónica: “A única resposta que esta ‘reclamação’ nos suscita é que, ao contrário do que escreve o leitor, existiram várias citações do documento disponibilizado pela TVI que não citámos no artigo publicado. Rejeitamos a acusação de ‘omissão voluntária’. Assim como quaisquer intentos de calúnia contra o nosso trabalho e as nossas pessoas”.

Explicação, quanto ao provedor, insuficiente, uma vez que as restantes referências a José Sócrates no fax em causa são mencionadas na notícia, mas a que o leitor invoca parece cirurgicamente esquecida. Isto porque, sendo o actual primeiro-ministro a personagem principal das notícias que têm vindo a público sobre o caso, seria de admitir que toda a invocação do seu nome num documento confidencial trocado entre suspeitos de protagonizarem o tal suborno seria relevante do ponto de vista jornalístico.

Por isso mesmo, o provedor, que não viu a notícia da TVI mas leu que a estação tinha também omitido a mesma frase do fax, admitiu que esta fosse desconhecida dos jornalistas do PÚBLICO, pelo que insistiu junto de ambos: “Para completar a minha análise do caso, gostaria de vos perguntar se tinham conhecimento da tal passagem que o leitor lamenta ter sido omitida, já que, na minha perspectiva, ela me parecia importante como elemento da notícia”. A nova resposta foi ainda mais lacónica: “O fax em causa estava disponível, nas suas versões em inglês e em português, no site da TVI e, umas horas depois, no próprio site do PÚBLICO”.

Ao contrário da opinião do leitor, o provedor não consegue discernir se a frase omitida é favorável ou não à imagem de José Sócrates no contexto do processo Freeport. O que lhe parece porém incompreensível é que, estando os autores da notícia conscientes da sua existência, optassem por não a dar a conhecer aos leitores, como mais um elemento a que certamente estes gostariam de ter acesso para os ajudar a fazerem eles próprios a sua avaliação do envolvimento do chefe do Governo no caso. O provedor já em tempos se referiu nesta coluna, a propósito de outro trabalho sobre o Freeport, a um “desejo de incriminar” José Sócrates não assente em factos concretos expostos pelos jornalistas. Será crucial, por razões que todos compreendem e não é necessário repetir, pôr de lado essa prática, abordando o processo (como outro qualquer, aliás) com o máximo de isenção e objectividade.

O caso Freeport, investigado pelas autoridades simultaneamente na Inglaterra e em Portugal, forneceu ao PÚBLICO mais dois títulos recentes de primeira página, com a particularidade de um desmentir o outro: a manchete de 22 de Outubro anunciava que os “documentos sobre o Freeport pedidos aos ingleses já estão nas mãos dos investigadores [portugueses]”, enquanto dois dias depois se dizia: “Caso Freeport – ingleses ainda não enviaram documentos”. Nenhuma das duas notícias, ambas da autoria de António Arnaldo Mesquita, mencionava a fonte que as substanciava (se é que existiu, e o provedor quer crer que sim). A segunda notícia cita até entre aspas a expressão “falha informática” para justificar a falsidade da primeira, mas sem a atribuir a ninguém.

O provedor solicitou explicações a António Arnaldo Mesquita, não tendo porém recebido resposta. O problema da ausência de menção às fontes, prática contrária às normas do bom jornalismo, já antes foi tratado nesta coluna, e a ele tenciona-se ainda regressar. O que não se pode deixar aqui passar em claro é o descrédito em que desta forma incorrem tanto o autor das notícias como o próprio jornal. Se é omissa a origem das informações, como podem os leitores julgar das responsabilidades quanto ao erro cometido? E quem lhes garante a fiabilidade de todas as notícias sem fontes que o PÚBLICO diariamente traz à estampa?

P.S.: No dia do render de guarda na direcção do PÚBLICO, o provedor não quer deixar de enaltecer a colaboração que o director cessante, José Manuel Fernandes (J.M.F.), procurou dar ao detentor deste cargo, tentando sempre responder em tempo útil às questões suscitadas. Isto apesar de um incidente recente, relatado nesta coluna, que aliás foi sanado em poucos dias com a intermediação da nova directora, Bárbara Reis. Das muitas dezenas de respostas solicitadas pelo provedor a José Maneul Fernandes só três ficaram por fornecer: um esclarecimento pedido por uma leitora a propósito de o então director não possuir carteira de jornalista devidamente actualizada e, mais recentemente, já com a sua saída anunciada, uma interpelação sobre uma notícia de implicações políticas publicada no dia de reflexão pré-eleitoral e outra acerca de os críticos, ao escreverem reportagens ou notícias, deverem ou não obrigar-se a respeitar o código deontológico dos jornalistas. O provedor faz votos de que a nova direcção mantenha o mesmo nível de colaboração com o presente ou futuros ocupantes deste lugar.

CAIXA:

Comunistas, jornalistas e ética

O PCP não se mostra rendido à abordagem feita na anterior crónica do provedor de uma análise publicada na edição de 9 de Outubro, pelas jornalistas Leonete Botelho e Maria Lopes, ao encontro ocorrido durante a campanha autárquica entre o militante comunista Carvalho da Silva e António Costa, presidente do município lisboeta e candidato a novo mandato, que se traduziu num gesto de apoio do líder da CGTP à reeleição do dirigente socialista.

O responsável do Gabinete de Imprensa do PCP, António Rodrigues, escreveu nova carta ao provedor contestando a argumentação das jornalistas, enquanto estas responderam outra vez ao quadro comunista. As duas posições podem ser lidas na íntegra no blogue do provedor, na documentação complementar a esta crónica. Importa aqui salientar que António Rodrigues desmente as jornalistas quando dizem que Jerónimo de Sousa recusou “fazer comentários aos jornalistas” ao final da manhã do tal encontro, esclarecendo que o líder do PCP não teve nessa altura qualquer iniciativa de campanha, ao que Leonete Botelho e Maria Lopes respondem que essa recusa terá ocorrido quando o secretário-geral comunista chegou para um almoço onde só no fim se disponibilizou a falar aos órgãos de informação.

António Rodrigues contesta também a interpretação que as jornalistas dão ao discurso de Jerónimo de Sousa nesse almoço, onde falou de ética política. Saber se esse foi ou não “tema central” ou “tema novo” da intervenção, expressões que António Rodrigues contesta, parece ocioso, já que no texto original as autoras não diziam nem uma coisa nem outra, limitando-se a escrever que “Jerónimo de Sousa escolheu a ética na política para tema do seu discurso”.

O provedor não vê necessidade de alterar a sua conclusão sobre a legitimidade da análise elaborada pelas jornalistas, mas reconhece também ao PCP todo o direito de contestar as suas conclusões.

Publicada em 1 de Novembro de 2009

DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR:

Carta do leitor Ricardo Roque

Fui leitor e comprador militante do PÚBLICO desde a sua fundação. Infelizmente, face à linha editorial que assumiu nos anos mais recentes, com uma agenda política agora já só "meio" escondida, aumentei o número daqueles que contribuíram para a redução das vendas do jornal. Até que um dia, sem um Director de facção e tendencioso, mas com um que retome o pluralismo e o jornalismo isento como proclama o PÚBLICO no seu estatuto editorial e no Livro de Estilo (seria bom alguns dos actuais jornalistas relerem - ou lerem - o Livro de Estilo do jornal para que escrevem), mas, dizia eu, talvez com uma mudança assim eu volte a sentir o PÚBLICO como o meu jornal. Feita a declaração de interesses, recentro o escrito na razão do meu protesto:

Na edição de 20 de Outubro, foi publicada uma notícia da autoria dos jornalistas Maria José Oliveira e Nuno Simas sob o título "TVI revela fax de administradores do Freeport sobre dois milhões de libras em 'luvas'" (pág. 9).

Da leitura da notícia resulta que os seus autores citaram uma peça divulgada no Jornal Nacional da TVI que tinha como suporte documental um fax trocado entre administradores do Freeport. Em causa um eventual suborno de dois milhões de libras. Por economia processual, vou aqui dar como reproduzido o artigo supra referido, passando concretamente à minha indignação pela omissão, que julgo voluntária e consciente portanto, na citação que os jornalistas fazem da matéria noticiosa. Assim, constato que de todo o texto do fax, que se pode ver aqui, a única parte omitida na citação feita por Maria José Oliveira e Nuno Simas é esta: "O ministro do Ambiente, Eng.º José Sócrates, é considerado como um dos pilares do Governo PS e é tido como a integridade em pessoa" (acrescentado à mão: "Confirmado por outros").

Lendo a notícia do PÚBLICO, concluo que no caso Freeport houve luvas de dois milhões de libras, leio abundantemente os nomes de Sócrates, dos seus secretários de Estado, assim como que o estabelecimento de um nexo de causalidade entre corrupção e nomes aludidos, por força da troca de faxes com comentários de administradores do Freeport, mas nunca por nunca leio o que está também escrito nesses documentos e que apenas diz isto: "O ministro do Ambiente, Eng.º José Sócrates, é considerado como um dos pilares do Governo PS e é tido como a integridade em pessoa" (acrescentado à mão: "Confirmado por outros").

Isto não é notícia, nem facto que os jornalistas se tenham sentido obrigados a publicar ou citar. Estaria tudo dito se não fosse mau de mais para ser verdade, num jornal que já foi de referência. "Aporcalhar", lançar suspeitas, etc., fica bem na consciência de alguns jornalistas, mas quando a par de tudo vem uma qualquer referência que abona a favor daquele que querem ver sangrar, então calam-se, omitem, num gesto que pode ser equiparado a mentir! Não me conformo, e por isso aqui estou a escrever-lhe, conhecendo o seu sentido de independência e isenção perante vários poderes. Considera correcto sob o ponto de vista profissional e do código deontológico esta forma, em concreto nesta notícia, de escrever ou antes de citar omitindo factos (aliás, os únicos omitidos na citação, o que dá que pensar) como os relatados quanto às qualidades relativas ao então ministro do Ambiente? É consentânea com o Livro de Estilo do PÚBLICO? Era ou não ético citar completamente ou também esta parte do fax objecto da notícia da TVI? Os jornalistas são livres de "mexer" no suporte noticioso ou, pelo contrário, devem dar relevo a todos os factos com importância? Repare-se que, neste caso, estamos a falar de corrupção, de carácter e de honradez (ou da falta dela) de quem tem de lidar com processos, e quando há uma menção de que a pessoa tal confirmadamente é tida como íntegra isto tem ou não importância no contexto? E se essa pessoa detém um lugar de grande importância na vida do País, que dizer? Por exemplo, se no fax se dissesse que o então ministro do Ambiente era tido como um corrupto ou de quem recebe uns dinheiros por fora, os jornalistas do PÚBLICO omitiriam? Em suma, qual a importância do bom nome para o jornal PÚBLICO?

É por estas e por outras que Portugal não pode estar bem no ranking quanto à "saúde" na Comunicação Social... Jornalismo do vale tudo, consciente ou inconsciente...

Ricardo Roque


Carta de António Rodrigues, responsável do Gabinete de Imprensa do PCP (sobre um tema tratado na anterior crónica do provedor)

Não querendo alimentar mais a polémica em torno do assunto, não podemos deixar de registar a argumentação, mal-amanhada, que veio publicada no passado domingo e que nos merece o seguinte registo:

1. Afirma-se na peça de resposta que "logo nesse dia, ao contrário do que fazia nos outros dias de campanha para as autárquicas, Jerónimo de Sousa recusou-se a fazer comentários aos jornalistas ao final da manhã". Não é verdade. O Secretário-Geral do PCP não teve nessa manhã nenhuma iniciativa de campanha, não se tendo, por isso, furtado a qualquer contacto dos jornalistas. De resto, no final do almoço em Benavente, a primeira iniciativa desse dia, Jerónimo de Sousa, como habitualmente e as imagens das televisões confirmam, ficou à disposição dos jornalistas presentes e respondeu às suas questões.

2. Afirma-se também na referida peça que "o facto de abordar uma questão diferente permite dizer que a ética política foi o tema novo do seu discurso nesse dia". Percebe-se a nuance quando agora se fala de tema novo mas não central, mas na peça de dia 9 dizia-se que tinha sido o tema do discurso, confirmando-se que sempre tínhamos razão quando desmentimos esse facto, afirmando que se tratava tão só de uma referência a Salvaterra de Magos. Pois não só não foi o tema central com não foi um tema novo. Várias vezes na campanha autárquica como na das legislativas Jerónimo de Sousa abordou esta temática.

3. Por fim, ainda na mesma peça, diz-se que "não se compreende a questão da ausência de jornalista do PÚBLICO nesse almoço, levantada pelo PCP, como impeditiva de se escrever sobre ele". Ora a questão que se levantava na carta não era essa, caso contrário poucas vezes teríamos notícias do PCP no PÚBLICO considerando as raras presenças dos vossos jornalistas nas nossas iniciativas.

A questão levantada tinha e tem a ver com a interpretação de um discurso, feito de improviso, deturpando o seu conteúdo e o contexto em que foi feito, sendo certo que as jornalistas do PÚBLICO apenas dele tiveram conhecimento através do que leram, ouviram ou viram noutros órgãos de comunicação social, incluindo a edição on line do PÚBLICO que a meio da tarde desse dia já noticiava o almoço de Benavente, sem qualquer tipo de especulação.

Aliás, para melhor compreender a razão da nossa indignação face à grosseira manipulação do discurso de Jerónimo de Sousa naquele almoço com o único objectivo de credibilizar aquele trabalho de “análise especulativa”, deixo-lhe o desafio de consultar na Lusa, RTP, RTPN, RTP2, SIC, SIC-Notícias, TVI, TVI24 e Antena 1 (os únicos órgãos de informação presentes na iniciativa) notícias e análises ao discurso.

Entretanto deixo-lhe algumas pistas: na TVI24 a jornalista falou de “uma saudação especial enviada para Salvaterra de Magos”; na RTPN, afirmou-se como novidade do discurso as questões relativas “à localização do novo Aeroporto de Lisboa”; na RTP destacou-se a abordagem “aos resultados das eleições legislativas”; na SIC-Notícias a jornalista afirmou que “na hora do discurso, o Secretário-Geral do PCP virou costas a Lisboa e centrou-se em Benavente e nas críticas a Salvaterra de Magos”.

Como se constata, foram seguramente os (as) jornalistas que estiveram presentes no almoço que não perceberam o discurso que ouviram, ao contrário das “videntes” jornalistas do PÚBLICO que lá não estavam. E já agora, por tudo o que está dito, fica-nos uma dúvida: será que “as três pessoas ouvidas pelo PÚBLICO – entre jornalistas e assistência”, estiveram mesmo no almoço ou apenas ouviram falar dele?

António Rodrigues
Gabinete de Imprensa do PCP

Resposta das jornalistas Leonete Botelho e Maria Lopes

Não querendo alimentar polémica, o António Rodrigues alimenta-a sozinho. Vamos responder pela última vez.

1. Ao contrário do que era habitual, Jerónimo de Sousa não quis prestar declarações aos jornalistas à chegada ao almoço de Benavente. Só o fez quando teve o mail de Carvalho da Silva para apresentar e deu o assunto por encerrado, não voltando a falar mais nele.

2. Insistimos no facto de Jerónimo de Sousa ter falado de ética nas primeiras declarações públicas que prestou, ao fazer na sua intervenção em Benavente uma referência indirecta a Salvaterra de Magos. Foi o tema geograficamente deslocado que escolheu para falar naquele dia, horas depois de Carvalho da Silva ter manifestado apoio público ao candidato do PS à Câmara de Lisboa, em detrimento do candidato do PCP. Isto são factos.

3. No ponto 3 da sua carta, António Rodrigues reconhece que é possível fazer notícias mesmo não estando fisicamente numa iniciativa ou acontecimento. É um progresso que registamos em relação à primeira carta ao provedor. Mas na sua argumentação o assessor de imprensa do PCP volta a contestar o facto de termos feito, primeiro, uma análise, e depois diferente das notícias dadas por outros órgãos de comunicação social. Esta sua reincidente preocupação deixa claro um certo conceito de tratamento informativo monolítico que não é o do PÚBLICO.

São valores essenciais da democracia portuguesa estabelecidos na Constituição da República tanto a liberdade de expressão e de informação como a liberdade de imprensa e meios de comunicação social, com garantia de não concentração da titularidade dos meios de comunicação social. O que estes princípios visam assegurar é precisamente a pluralidade de visões do mundo, de opiniões e de interesses, contrariando os tratamentos monolíticos e sentidos únicos que António Rodrigues dá sinais de preferir.

4. Tal como dissemos na nossa primeira resposta, a peça jornalística em causa refere-se a uma análise, tal como está identificada no topo da página em que foi publicada e no âmbito do que está descrito no Livro de Estilo do PÚBLICO (conferir no capítulo "Critérios, géneros e técnicas", sub-capítulo "Os factos e a opinião", tema 1. "Opinião, interpretação, informação"): "Um género jornalístico diferente da notícia, em que a ênfase é colocada na interpretação dos factos" - o encontro de Carvalho da Silva com António Costa, em que o dirigente da CGTP e militante comunista declarou publicamente o seu apoio ao candidato à Câmara Municipal de Lisboa, quando o PCP tinha o seu próprio candidato à autarquia.

O objectivo da análise jornalística é procurar explicar o significado de factos noticiados, fornecendo aos leitores elementos de background e opiniões de fontes que ajudem a compreender o contexto dos acontecimentos. Neste caso, foram feitas citações do próprio Carvalho da Silva sobre o assunto e outras anteriores, feitas num momento em que o sindicalista divergiu, na acção, do partido do qual é militante.

Foram ainda ouvidas pessoas que conhecem por dentro o pensamento e acção do PCP, antigos militantes e antigos sindicalistas que pediram para não serem identificados, assim como foram citados os estatutos do PCP na parte que se refere aos deveres dos militantes, que se referem à ética exigida pelo partido aos seus membros.

5. Na introdução do parágrafo referente à intervenção sobre ética de Jerónimo de Sousa nesse dia, começa por se dizer “Coincidência ou não”, nunca se afirmando peremptoriamente que aquele discurso era dirigido a Carvalho da Silva, como António Rodrigues assumiu desde o início. Levantava-se essa hipótese, não se tiravam conclusões.

Não tendo lido o que não queria ler e vendo apenas aquilo que pretendeu ver na peça, António Rodrigues foi mais longe do que as jornalistas na interpretação dos factos. Factos que, aliás, são elencados na peça e ninguém coloca em causa. Nem o principal visado nesta análise, Carvalho da Silva, que em momento algum manifestou qualquer incómodo com a análise feita.

Leonete Botelho e Maria Lopes

domingo, 25 de Outubro de 2009

Rescaldo eleitoral

Projecções eleitorais e artigos de análise política fazem parte do trabalho especulativo a que os jornalistas recorrem com legitimidade

Ao discursar sobre ética política, Je-
rónimo re-
feria-se ou não ao en-
contro entre Carvalho da Silva e Costa ocorrido horas antes?


Qualquer período eleitoral, acirrando a disputa política, coloca os nervos à flor da pele, e os media são então alvo de todas atenções, escrutinando-se desvios editoriais, apoios encapotados, campanhas subliminares ou simples erros jornalísticos.

O leitor John Pallister escreveu ao provedor queixando-se do título que o PUBLICO.PT colocou online às 20h00 de 27 de Setembro, dia das legislativas: “Incomoda-me que uma notícia sobre projecções dos resultados das eleições tenha um título que não só não inclui a palavra ‘projecções’ como sugere que está a relatar um facto: ‘PS vence sem maioria absoluta’. É apenas uma questão de honestidade intelectual os factos serem apresentados como factos e o resto como não factos”.

Note-se que o parágrafo inicial da notícia em causa dizia o seguinte: “O Partido Socialista venceu as eleições legislativas, embora sem conseguir a maioria absoluta, revelam as projecções apresentadas pelos vários canais de televisão”.

O provedor já em tempos analisou nesta coluna o problema das projecções eleitorais transformadas pelos jornalistas em matéria de facto, afirmando que os órgãos de informação deviam ter a consciência do risco que assumem e da probabilidade de falhanço em que incorrem (como provam clamorosamente alguns episódios históricos, nem todos antigos). Quando as previsões acertam, todos são felizes, mas quando erram é uma tragédia grega.

No caso em apreço, contudo, o provedor entende que as projecções àquela hora difundidas por três diferentes estações de TV com base em estudos de três diferentes institutos de sondagens, convergindo todas no mesmo sentido quando à questão essencial, não deixavam margem para dúvidas não só acerca do partido vencedor do escrutínio, tal a distância que o separava do segundo mais votado, mas também sobre a sua perda da maioria absoluta. Aliás, o texto começava logo por esclarecer que se falava com base nas projecções acabadas de divulgar, citando a fonte da notícia e salvaguardando qualquer remoto imprevisto. No caso, portanto, o risco estava devidamente ponderado e valia a pena corrê-lo.

No dia 27, as únicas dúvidas que as projecções suscitavam diziam respeito aos partidos que ficariam classificados nos três lugares abaixo, mas sobre isso o PUBLICO.PT limitou-se, avisadamente, a reproduzir os diversos números anunciados nas televisões (que aliás não eram unânimes na ordenação das forças políticas). Nada a objectar, por conseguinte.

Saltando para as autárquicas, um dos seus episódios mais bizarros foi o apoio desapoiado (ou vice-versa) do comunista Carvalho da Silva, secretário-geral da CGTP, à candidatura do socialista António Costa à presidência do município lisboeta, através de um intencional encontro ocasional (ou vice-versa) ocorrido no Chiado. Pelas implicações que a saudação teve nas hostes à esquerda, o PÚBLICO dedicou-lhe na edição de 9 de Outubro (pág. 10) um texto assinado pelas jornalistas Leonete Botelho e Maria Lopes sob o título “Carvalho da Silva dá passo de afastamento do PCP”, o que motivou de António Rodrigues, responsável do Gabinete de Imprensa dos comunistas, uma carta de “protesto e (...) indignação face a esta grosseira e descarada manipulação até porque se trata também de um atropelo ao chamado Livro de Estilo do PÚBLICO”.

E qual seria a gravidade do caso? Explica António Rodrigues: “Não querendo abordar outros aspectos de uma peça especulativa com contornos e objectivos definidos, não podemos deixar passar em claro a manipulação que é feita da intervenção do secretário-geral do PCP num almoço-convívio da CDU realizado em Benavente. Afirma-se na peça que, ‘coincidência ou não, Jerónimo de Sousa escolheu a ética na política para tema do seu discurso à hora do almoço, pouco depois de se saber do encontro Carvalho/Costa’. Ora acontece que a ética política não foi o tema central da intervenção de Jerónimo de Sousa, coisa que nenhum jornalista do PÚBLICO teve a possibilidade de registar pois não estiveram presentes na referida iniciativa, bem como não há nenhum texto ou peça elaborada pelos diversos jornalistas presentes que faça ou induza a tal leitura. Face à presença no almoço de uma delegação de militantes e activistas do PCP e da CDU de Salvaterra de Magos, o secretário-geral do PCP fez referência às questões da ética na política mas a propósito de factos passados e conhecidos no relacionamento entre a CDU e a presidente da Câmara de Salvaterra. Aliás, a referida alusão foi de tal modo clara e inequívoca que, no final da iniciativa, os jornalistas presentes (...) questionaram Jerónimo de Sousa exactamente nesse sentido. É no mínimo surpreendente que, não tendo estado presente na referida iniciativa, qualquer jornalista se permita analisar e comentar uma intervenção que não ouviu, deturpando o seu conteúdo e o contexto em que foi feita”.

O provedor solicitou uma reacção a Leonete Botelho e Maria Lopes, que replicaram:

“A peça (...) refere-se a uma análise, tal como está identificada no topo da página (...) e no âmbito do que está descrito no Livro de Estilo: um género jornalístico diferente da notícia, em que a ênfase é colocada na interpretação dos factos (...). O objectivo da análise jornalística é procurar explicar o significado de factos noticiados, fornecendo aos leitores elementos de background e opiniões de fontes que ajudem a compreender o contexto dos acontecimentos.

(...) Os factos ocorrem em plena campanha eleitoral para as autárquicas, a meio da manhã, e nesse mesmo dia o secretário-geral do PCP participou num almoço em Benavente onde discorreu sobre a ética na política, referindo-se especificamente ao caso da Câmara de Salvaterra de Magos, que já nas anteriores autárquicas tinha sido conquistada pelo Bloco de Esquerda com uma candidata que já fora presidente da mesma autarquia pelo PCP. Acontece que estes factos ocorrem em Benavente, e não em Salvaterra de Magos. Acresce que, logo nesse dia, ao contrário do que fazia nos outros dias da campanha para as autárquicas, Jerónimo de Sousa recusou-se a fazer comentários aos jornalistas ao final da manhã (...). A sua primeira intervenção política após ter conhecimento do encontro Carcalho da Silva/António Costa é esse discurso. Durante as campanhas eleitorais, a regra do discurso dos protagonistas políticos é haver uma estrutura-tipo que vão repetindo em todos os comícios e intervenções, na qual introduzem temas de actualidade ou adaptações consoante o local onde se encontram. Jerónimo de Sousa não é excepção. (...) O facto de abordar uma questão diferente permite dizer que a ética na política foi o tema novo do seu discurso nesse dia. E, não se encontrando em Salvaterra de Magos, é perfeitamente legítimo pensar que não terá sido coincidência fazê-lo num dia como aquele.

Não se compreende a questão da ausência de jornalistas do PÚBLICO nesse almoço, levantada pelo PCP como impeditiva de se escrever sobre ele. Seria uma grave limitação à liberdade de imprensa e uma entorse a todo o sistema de comunicação a nível mundial impedir um órgão de comunicação de noticiar factos a que não assistiu. Não haveria aldeia global se assim fosse. Além disso, o PÚBLICO ouviu três pessoas – entre jornalistas e assistência – que transmitiram a imagem de que a equipa dirigente do PCP sentia grande desconforto com o episódio da manhã (...).
Considerando insultuosas várias passagens da carta de António Rodrigues, seria importante que o queixoso não deixasse acusações no ar e especificasse o significado da afirmação de que [o artigo] se trata de ‘uma peça especulativa com contornos e objectivos definidos’.”

Salientando que o texto em questão, como de resto António Rodrigues reconheceu, é anunciado como “análise”, o provedor considera correcta a interpretação que as duas jornalistas fazem do Livro de Estilo do PÚBLICO e legítima a especulação que desenvolvem no seu trabalho, de acordo aliás com a argumentação que agora apresentam.


CAIXA:

Rigor científico

Critica Manuel Magalhães Sant'Ana, investigador do Instituto de Biologia Molecular e Celular, do Porto, acerca do artigo “Carne sem dor existencial”, de Ana Gerschenfeld, publicado na coluna “No futuro” do P2 de 4 de Setembro: “A jornalista incorre num erro que considero grave ao afirmar que o filósofo Adam Shriver escreveu na revista New Scientist, o que é falso. O referido filósofo escreveu na revista Neuroethics um artigo intitulado ‘Knocking Out Pain in Livestock: Can Technology Succeed Where Morality has Stalled?’, e é o jornalista de ciência Ewen Callaway quem, na New Scientist, se refere ao texto anterior. Este erro pode revelar duas coisas, qual delas a mais condenável: (1) ou a jornalista leu o artigo da New Scientist na diagonal – o suficiente para fazer um texto (...) que não passa de tradução ao estilo copy/paste – e não percebeu que estava a ler uma cópia e não o original ou (2) a jornalista considera que ler uma crítica a um artigo científico equivale a ler o artigo científico, já que (...) interrogo-me se de facto consultou o artigo original”.

Esclarece Ana Gerschenfeld: “De facto, a New Scientist faz uma citação de Adam Shriver e não do artigo da Neuroethics (...). Não sei qual o contexto da afirmação de Adam Shriver reproduzida pela New Scientist: pode ter sido uma conversa de um jornalista com o filósofo ou uma conferência de imprensa, por exemplo (...). Embora a New Scientist não seja uma revista científica de primeira publicação, é absolutamente lícito citá-la neste contexto, pois trata-se de uma revista de grande qualidade e rigor reconhecido. Mas existe de facto uma falha no meu texto: ao escrever ‘afirma na New Scientist’ dei a impressão de que Adam Shriver tinha publicado o seu artigo nessa revista. Fi-lo para não escrever o habitual ‘disse à New Scientist’, pois, como disse, não conhecia o contexto dessa declaração e não estava certa de que tivesse sido feita à New Scientist. Deveria ter utilizado a expressão ‘citado pela New Scientist’ e identificado a publicação original – como aliás costumo fazer noutros textos semelhantes”.

Publicada em 25 de Outubro de 2009

DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR:

Reclamação de António Rodrigues, da Gabinete de Imprensa do PCP

O jornal PÚBLICO publicou no dia 9 aquilo que designa por "análise radiografada do 'encontro casual' do Chiado» entre Carvalho da Silva e António Costa.

Não querendo abordar outros aspectos de uma peça especulativa com contornos e objectivos definidos, não podemos deixar passar em claro a manipulação que é feita da intervenção do secretário-geral do PCP num almoço-convívio da CDU realizado em Benavente.

Afirma-se na referida peça que, "coincidência ou não, Jerónimo de Sousa escolheu a ética na política para tema do seu discurso à hora do almoço, pouco depois de se saber do encontro Carvalho/Costa". Ora acontece que a ética política não foi o tema central da intervenção de Jerónimo de Sousa, coisa que nenhum jornalista do PÚBLICO teve a possibilidade de registar, pois não estiveram presentes na referida iniciativa, bem como não há nenhum texto ou peça elaborada pelos diversos jornalistas presentes que faça ou induza a tal leitura.

De facto, face à presença no almoço de uma delegação de militantes e activistas do PCP e da CDU de Salvaterra de Magos, o secretário-geral do PCP fez referência às questões da ética na política mas a propósito de factos passados e conhecidos no relacionamento entre a CDU e a presidente da Câmara de Salvaterra. Aliás, a referida alusão foi de tal modo clara e inequívoca que, no final da iniciativa, os jornalistas presentes (RTP, SIC, TVI, RDP e LUSA, entre outros) questionaram Jerónimo de Sousa exactamente nesse sentido.

Assim, é no mínimo surpreendente que, não tendo estado presente na referida iniciativa, qualquer jornalista se permita analisar e comentar uma intervenção que não ouviu, deturpando o seu conteúdo e o contexto em que foi feita.

Dirigimo-nos, por isso, ao Provedor do Leitor para lhe fazer sentir o nosso protesto e a nossa indignação face a esta grosseira e descarada manipulação até porque se trata também de um atropelo ao chamado Livro de Estilo do PÚBLICO.

António Rodrigues
Gabinete de Imprensa do PCP

Explicações das jornalistas Leonete Botelho e Maria Lopes

Surpreende-nos a carta enviada pelo Gabinete de Imprensa do PCP por inúmeras razões:

1. A peça jornalística em causa refere-se a uma análise, tal como está identificada no topo da página em que foi publicada e no âmbito do que está descrito no Livro de Estilo do PÚBLICO: um género jornalístico diferente da notícia, em que a ênfase é colocada na interpretação dos factos – o encontro de Carvalho da Silva com António Costa em que o dirigente da CGTP e militante comunista declarou publicamente o seu apoio ao candidato à Câmara Municipal de Lisboa, quando o PCP tinha o seu próprio candidato à autarquia.

O objectivo da análise jornalística é procurar explicar o significado de factos noticiados, fornecendo aos leitores elementos de background e opiniões de fontes que ajudem a compreender o contexto dos acontecimentos. Neste caso, foram feitas citações do próprio Carvalho da Silva sobre o assunto e outras anteriores, feitas num momento em que o sindicalista divergiu, na acção, do partido do qual é militante.

Foram ainda ouvidas pessoas que conhecem por dentro o pensamento e acção do PCP, antigos militantes e antigos sindicalistas que pediram para não serem identificados, assim como foram citados os estatutos do PCP na parte que se refere aos deveres dos militantes, que se referem à ética exigida pelo partido aos seus membros.

2. Os factos ocorrem em plena campanha eleitoral para as autárquicas, a meio da manhã, e nesse mesmo dia à hora do almoço o secretário-geral do PCP participou num almoço em Benavente onde discorreu sobre a ética na política, referindo-se especificamente ao caso da Câmara de Salvaterra de Magos, que já nas anteriores autárquicas tinha sido conquistada pelo Bloco de Esquerda com uma candidata que já fora presidente da mesma autarquia pelo PCP.

Acontece que estes factos ocorrem em Benavente, e não em Salvaterra de Magos. Acresce que, logo nesse dia, ao contrário do que fazia nos outros dias da campanha para as autárquicas, Jerónimo de Sousa recusou-se a fazer comentários aos jornalistas ao final da manhã, antes de entrar para o referido almoço. A sua primeira intervenção política após ter conhecimento do encontro Carvalho da Silva e António Costa é esse discurso.

Durante as campanhas eleitorais, a regra do discurso dos protagonistas políticos é haver uma estrutura-tipo que estes vão repetindo em todos os comícios e intervenções, na qual introduzem temas de actualidade ou adaptações consoante o local onde se encontram. Jerónimo de Sousa não é excepção. Os seus discursos nas duas campanhas eleitorais tiveram todos como base idêntica os problemas do mundo laboral e a crítica às políticas "de direita" levadas a cabo pelo PS. O facto de abordar uma questão diferente permite dizer que a ética na política foi o tema novo do seu discurso nesse dia. E, não se encontrando em Salvaterra de Magos, é perfeitamente legítimo pensar que não terá sido coincidência fazê-lo num dia como aquele.

3. Não se compreende a questão da ausência de jornalistas do PÚBLICO nesse almoço, levantada pelo PCP como impeditiva de se escrever sobre ele. Seria uma grave limitação à liberdade de imprensa e uma entorse a todo o sistema de comunicação a nível mundial impedir um órgão de comunicação de noticiar factos a que não assistiu. Não haveria aldeia global se assim fosse. Além disso, o PÚBLICO ouviu três pessoas – entre jornalistas e assistência – que transmitiram a imagem de que a equipa dirigente do PCP sentia um grande desconforto com o episódio da manhã - o “encontro casual” em que Carvalho da Silva manifestara a António Costa o seu apoio eleitoral.

4. Acresce que o subscritor da carta já falara com a jornalista Maria Lopes sobre o assunto precisamente nos mesmos moldes em que agora descreve o caso na missiva. O assessor de imprensa do PCP contou mesmo que já “questionara os outros jornalistas sobre o assunto e nenhum fez a interpretação” que Maria Lopes tinha feito. Maria Lopes respondeu-lhe que falara com três pessoas que tinham estado em Benavente, incluindo dois jornalistas – que obviamente não identificou -, e que ouvira peças de rádio sobre o assunto.

5. Considerando insultuosas várias passagens da carta de António Rodrigues, seria importante que o queixoso não deixasse acusações no ar e especificasse o significado da afirmação de que esta se trata de “uma peça especulativa com contornos e objectivos definidos”.

Maria Lopes e Leonete Botelho

Reclamação do leitor Manuel Magalhães Sant'Ana

Venho por este fazer uma crítica a um pequeno artigo da autoria da jornalista Ana Gerschenfeld publicado no P2 de dia 4 de Setembro de 2009 (pág. 3). Antes de mais, começo por lamentar, como vosso leitor, a fraca atenção que o PÚBLICO dá à secção de Ciência. Os textos sobre ciência são muitas vezes leituras simplistas (e por vezes erróneas) de artigos científicos e que pouco acrescentam para a sua compreensão. Na rubrica a que me refiro, por exemplo, a jornalista incorre num erro que considero grave ao afirmar que o filósofo Adam Shriver escreveu na revista New Scientist, o que é falso. O referido filósofo escreveu na revista Neuroethics um artigo intitulado "Knocking Out Pain in Livestock: Can Technology Succeed Where Morality has Stalled?", e é o jornalista de ciência Ewen Callaway quem, na New Scientist, se refere ao texto anterior. Este erro pode revelar duas coisas, qual delas a mais condenável: (1) ou a jornalista leu o artigo da New Scientist na diagonal - o suficiente para fazer um texto de menos de 200 palavras que não passa de uma tradução ao estilo copy/paste - e não percebeu que estava a ler uma cópia e não o original ou (2) a jornalista considera que ler uma crítica a um artigo científico equivale a ler o artigo científico, já que, pelo que é dado a ler, interrogo-me se a jornalista de facto consultou o artigo original.

Manuel Magalhães Sant'Ana
Laboratory Animal Science
Instituto de Biologia Molecular e Celular - IBMC
Porto

Explicações da jornalista Ana Gerschenfeld

A única publicação que refiro no meu texto é a revista britânica New Scientist, porque foi daí que retirei a citação que faço e não do artigo da Neuroethics, como pressupõe o leitor - neste artigo não existe tal frase. De facto, a New Scientist faz uma citação de Adam Shriver e não do artigo da Neuroethics - ainda que este seja, naturalmente, o tema e a razão da citação. Não sei qual o contexto da afirmação de Shriver reproduzida pela New Scientist: pode ter sido uma conversa de um jornalista com o filósofo ou uma conferência de imprensa, por exemplo, ainda que isso não seja referido. Embora a New Scientist não seja uma revista científica de primeira publicação, penso que é absolutamente lícito citá-la neste contexto, pois trata-se de uma revista de grande qualidade e rigor reconhecido.

Mas existe de facto uma falha no meu texto: ao escrever "afirma na New Scientist" dei a impressão de que Shriver tinha publicado o seu artigo nessa revista. Fi-lo para não escrever o habitual "disse à New Scientist" pois, como disse, não conhecia o contexto dessa declaração e não estava certa de que tivesse sido feita à New Scientist. Deveria ter utilizado a expressão “citado pela New Scientist” e ter identificado a revista da publicação original - como aliás costumo fazer noutros textos semelhantes.

Ana Gerschenfeld

domingo, 18 de Outubro de 2009

Prós e contras de duas notícias

Só deve prevalecer um critério para a publicação da notícia: o interesse que tem para o público do respectivo órgão de informação

A notícia culminou com o autêntico haraquiri político em directo que foi a comunicação do Presidente

O provedor recebeu um convite no passado dia 9, uma sexta-feira, para participar no programa Prós e Contras, da RTP1, segunda-feira seguinte. A emissão – foi-lhe explicado – destinava-se a discutir as relações do jornalismo com a sociedade, a política e o desenvolvimento. Habituado a intervir sobre questões no âmbito da comunicação, o provedor aceitou, mas no dia do programa soube que a intenção (não declarada no convite) era debater a produção das notícias sobre as suspeitas da Presidência da República de que estaria sob vigilância por parte do Governo, as quais alvoroçaram a política nacional nos últimos dois meses. As notícias tiveram origem no PÚBLICO e mereceram uma análise crítica do provedor. Essa crítica motivou uma troca de correspondência interna de que houve fuga para o exterior, com a consequente publicação pelo Diário de Notícias de um email enviado por um para outro jornalista do PÚBLICO onde entre outras coisas se revelava o nome de um membro da Casa Civil de Belém como suposta foste de informação das notícias em causa.

Fiel ao princípio de apenas abordar os casos do PÚBLICO nesta página e no seu blogue, o provedor comunicou previamente à apresentadora do programa, Fátima Campos Ferreira, que não poderia pronunciar-se sobre a atitude do jornal no caso, mas apenas sobre questões genéricas do jornalismo, como aliás lhe fora solicitado. Claro que as televisões – e o serviço público não é excepção – ambicionam sangue, e, após uma primeira parte para disfarçar (que terá sido uma maçada para os telespectadores), entrou-se no que de facto interessava aos promotores do programa: uma luta de galos entre os directores do PÚBLICO, José Manuel Fernandes, e do DN, João Marcelino, acicatada por directores de outros órgãos de informação. Ao longo desta segunda parte – de onde, na opinião do provedor, não saiu dignificado o jornalismo português –, Fátima Campos Ferreira. anunciou que o provedor não queria pronunciar-se sobre o assunto, pelo que não lhe concedeu a palavra. Se o tivesse feito, haveria algumas considerações que o provedor, sem prejuízo do seu compromisso para com os leitores do PÚBLICO, gostaria de enunciar, aproveitando para o fazer agora.

No essencial discutia-se se eram dignas de publicação tanto a notícia do PÚBLICO sobre as suspeitas de Belém como a do DN dando a conhecer a mensagem trocada entre os dois jornalistas da concorrência. Claro que notícia é todo o facto novo, relevante ou não, que alguém decida difundir para um grupo de pessoas, mas a questão que se colocava era se aquelas notícias em particular se enquadravam do estatuto editorial dos respectivos jornais e se haviam obedecido às regras e deontologia jornalísticas.

O provedor não vai reiterar a argumentação já expendida acerca do que considera os erros grosseiros cometidos pelo PÚBLICO no processo. Mas entende ter total justificação a manchete inicial, “Presidência suspeita estar a ser vigiada pelo Governo”, de 18 de Agosto. A notícia estava devidamente fundamentada numa fonte fidedigna da Casa Civil da Presidência da República, identificada no texto como tal, e não era sobre a existência da vigilância governamental (que nunca se comprovou) mas sobre a suspeita nesse sentido formulada por Belém. Perguntava-se no Prós e Contras: essa mera convicção de alguém na Presidência da República, mesmo sendo fonte qualificada (como no caso), era noticiável? Sem dúvida: não se tratava das suspeitas de cidadãos privados mas sim de um estado de espírito indiciador do nível de degradação das relações entre dois órgãos de soberania cuja missão seria cooperar e não alimentar guerrilhas institucionais – e portanto uma informação de inegável interesse nacional.

Basta aliás avaliar as consequências que a notícia (jamais desmentida por Belém) desencadeou, culminando com o autêntico haraquiri político em directo que foi a comunicação autojustificativa do presidente Cavaco Silva (C.S.) em 29 de Setembro, inteiramente dedicada ao tema, para a caucionar.

Quanto à revelação pelo DN, em 18 de Setembro, do email dos jornalistas do PÚBLICO, perguntava-se também na emissão televisiva se era legítima (dado violar correspondência privada), se não deveria ser acompanhada da revelação de como o email chegou ao jornal e se não haveria grave falta deontológica por se identificar a fonte confidencial de um jornalista.

Mais uma vez, segundo o entendimento do provedor, o critério básico que deve prevalecer – atendendo aos princípios editoriais do DN, não muito distintos dos do PÚBLICO – é o do interesse público da notícia. E haveremos de convir que a manchete do DN – alvo de tentativas iniciais de desmentido, mas com uma incoerência que só serviria de comprovativo à sua autenticidade – causou considerável abalo no mundo político, então em plena campanha eleitoral para as legislativas, com reacções de todos os sectores, ajustamentos da agenda e do discurso políticos, eventuais efeitos no resultado das eleições e até a necessidade sentida pelo Presidente de vir a público explicar-se. Como é que não havia ali matéria de notícia? Havia – e muita.

Os jornalistas, em regra produtores de notícias, não podem eximir-se à circunstância de serem também objecto de notícia – foi o caso. Habituados a justificar com a prevalência do interesse público a violação, muitas vezes por eles praticada, da correspondência privada de outros cidadãos, não deveriam queixar-se quando, em nome desse mesmo princípio, são alvo de idêntica devassa. É a vida.
Por certo, a forma como o email foi parar ao DN seria uma história interessante, mas não faria sentido o jornal fazer depender da sua publicação a notícia acerca do conteúdo desse email, pois estaria a sonegar uma história muito mais interessante do ponto de vista do seu relevo público. Se a fonte exigiu o sigilo, o DN limitou-se a cumprir a sua obrigação, pois essa seria a condição sine qua non para que pudesse trazer ao conhecimento dos leitores uma informação de interesse nacional.

Mas, tal como no caso do PÚBLICO, também a notícia do DN foi afectada por vários erros. O provedor já esclareceu aqui que exerce funções no PÚBLICO, não no DN, mas dirá o que diria na RTP intervindo no âmbito exterior a essas funções. Entre esses erros figura a forma acintosa e inexacta dada à manchete: “Assessor do Presidente encomendou caso das escutas”. Parte considerável das notícias que todos os dias o público recebe devem-se à iniciativa de fontes de informação junto dos media, mas isso não significa que essas notícias sejam “encomendas”, já que passam pela prévia mediação dos jornalistas, que avaliam o seu interesse. Assim sucedeu com a notícia original do PÚBLICO. Considerá-la encomendada por Belém é o mesmo que dizer que muitas das notícias publicadas pelo DN não passam de encomendas dos seus informadores.

Outro problema consistiu na denúncia da fonte do PÚBLICO. Os jornalistas do DN fizeram-no com plena consciência da ilegitimidade, dado saberem (como atrás vimos) que o sigilo profissional enforma a sua actividade, tal como sucede com os médicos, os advogados ou os padres. Poder-se-á argumentar que a preservação do sigilo competiria ao próprio jornalista que contactou a fonte, o qual, quando escreveu o seu nome no email, já estaria a violar a confidencialidade. Mas, por imperativo ético, deveria haver um mínimo de decência profissional de outros jornalistas para manter essa salvaguarda: não vemos médicos a revelarem a ficha clínica de pacientes de outros médicos, advogados a denunciarem segredos dos constituintes de outros advogados ou padres a divulgarem as confissões recolhidas por outros padres.

E se a nova doutrina produzida no centenário matutino advoga o contrário, será que também se aplica a quem trabalha na mesma redacção ou no mesmo grupo empresarial? Poderão, por exemplo, os jornalistas da TSF denunciar as fontes dos do DN e vice-versa? Onde está a fronteira? Parece que se instala antes a lei da selva no jornalismo, que acabará por sair prejudicado, pois as fontes confidenciais perderão a confiança nos jornalistas e deixarão de lhes transmitir informação.

Nada disto altera porém o essencial: as duas notícias tiveram mais prós do que contras – e marcaram o jornalismo português por muitos anos.

CAIXA:

O umbigo dos arquitectos

A Secção Norte da Ordem dos Arquitectos, através da presidente, Teresa Novais, e do vice-presidente, Luís Tavares Pereira, do seu Conselho Directivo Regional, expressou ao provedor “surpresa e indignação” pela forma que a Edição Norte do PÚBLICO de 26 de Setembro, na secção Local, deu à notícia “Arquitecto preso por deixar assaltante cego e em coma”, a qual “coloca despropositadamente o ênfase da mensagem na profissão do autor da agressão, denegrindo o bom nome da profissão arquitecto”. Sustenta a reclamação: “Um crime de agressão e abandono de vítima pelo agressor é noticiado com a identificação em cabeçalho do agressor em função da sua profissão de arquitecto e repetindo-o continuadamente em cada um dos três parágrafos que compõem a notícia. A relevância para a notícia da profissão de arquitecto, não estando este no exercício da profissão, parece-nos um aproveitamento desproporcionado da associação entre uma profissão de prestígio cívico e um acto ignóbil (...), que, ao ser enfatizada desta maneira, constitui um atentado ao bom nome da profissão de arquitecto, atingindo toda a classe desnecessariamente. (...) Está em causa (...) a gratuitidade e prejuízo com que a excessiva ênfase na profissão estende uma fina manta de negatividade sobre toda a classe”. Solicita-se por isso ao PÚBLICO, “em nome de todos os arquitectos, um pedido de desculpas”.

O provedor julga injustificada esta reacção corporativa. O facto de no centro dos acontecimentos se encontrar, de forma um tanto ou quanto inesperada, um arquitecto pode dar interesse acrescido à notícia. E os leitores do PÚBLICO não são tão estúpidos a ponto de pensarem, a partir daqui, que todos os arquitectos são violentos e agridem, com razão ou sem ela, quem se atravesse à sua frente.

Publicada em 18 de Outubro de 2009

DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR:

Carta do Conselho Directivo Regional Norte da Ordem dos Arquitectos

A Ordem dos Arquitectos – Secção Regional Norte (OASRN) vem por este meio manifestar a sua surpresa e indignação pela forma dada à notícia da agressão e abandono da vítima na edição Local Porto de 26 de Setembro 2009 do PÚBLICO, com o título “Arquitecto preso por deixar assaltante cego e em coma”, que coloca despropositadamente o ênfase da mensagem na profissão do autor da agressão, denegrindo o bom nome da profissão arquitecto.

1. Na notícia em epígrafe, um crime de agressão e abandono de vítima pelo agressor é noticiado com a identificação em cabeçalho do agressor em função da sua profissão de arquitecto e repetindo-o continuadamente em cada um dos três parágrafos que compõem a notícia.

2. A relevância para a notícia da profissão de arquitecto, não estando este no exercício da sua profissão, parece-nos um aproveitamento desproporcionado da associação entre uma profissão de prestígio cívico e um acto ignóbil de agressão e abandono de vítima, que, ao ser enfatizada desta maneira, constitui um atentado ao bom nome da profissão de arquitecto, atingido toda a classe desnecessariamente

3. O que está em causa não é, evidentemente, a informação da sua profissão, associada a um processo de reconhecimento do género, idade, residência ou profissão, mas a gratuitidade e prejuízo com que a excessiva ênfase na profissão estende uma fina manta de negatividade sobre toda a classe profissional dos arquitectos, sem qualquer justificação.

4. Por essa razão, a OASRN, em nome de todos os arquitectos, solicita ao PÚBLICO um pedido de desculpas e solicita a publicação desta nota para esclarecimento público.

5. Aproveitamos esta oportunidade para, relativamente a notícias efectivamente referentes à construção ou inauguração de novos edifícios, a referência aos devidos autores subscritores das obras mencionadas seja incluída no texto, em que, para o bem e para o mal, a identificação do arquitecto ou ateliê constitui um facto de relevância e responsabilização dos arquitectos perante a opinião pública.

Teresa Novais, Presidente
Luís Tavares Pereira, Vice-presidente
Conselho Directivo Regional Norte da Ordem dos Arquitectos

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

O mestre e a prima

A “praga preposicional” há muito que me incomoda.

Mas não concordo que essas calinadas se devam ao “uso de preposições, como se não houvesse o cuidado de recorrer à mais adequada, mas sim à que melhor soa aos ouvidos do redactor”.

Parece-me mais um efeito, diria eu, de “contaminação”, uma perversão do princípio da analogia: o escriba toma uma palavra por um sinónimo (ou um quase-sinónimo) mais comum mas menos “erudito” e pespega-lhe com a preposição que devia acompanhar a primeira.

Alguns exemplos pescados em jornais, TV e rádio:

- A palavra "chorar" contamina o menos plebeu "carpir"; e vá de escrever, muito literária e pretenciosamente, “não sei por quem carpia tão dilaceradamente Dona Pomba” (asneira debitada por Catalina Pestana no Sol);

- na página de Economia do PÚBLICO, escreve um douto profissional “discordo completamente com o que disse Axel Weber” (seja quem for o Axel Weber de quem o plumitivo, envenenado pelo antónimo "concordar", discorda);

- no Diário de Notícias, a propósito de “o alfaiate português do Príncipe Carlos” – os assuntos que eles vão desencantar… -, comete o jornalista: “A acreditar pela encomenda (…)”. A asneira é, evidentemente, a confusão com a frase “a julgar por”;

- DN, PÚBLICO, televisões a granel e tutti quanti: "aguardar por", “contaminado” por "esperar por".

Podia continuar ad nauseam nas preposições, mas prefiro acabar com outras pérolas, como “linhas de crédito específicas à habitação” e uma que é pandémica na chamada comunicação social, o arrepiante e erradíssimo se em “alastrar-se”, vítima da falsa semelhança com “espalhar-se” ou a impagável Manuela Moura Guedes no saudoso Jornal Nacional da TVI a esganiçar-se aos gritos: “O bastonário aponta que há advogados (…)".

Pois é; é confundir a obra-prima do Mestre com a prima do mestre-de-obras.

António Dias

NOTA DO PROVEDOR: Os dicionários já admitem "alastrar-se" como canónico.

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Certo ou errado?

Será que é o próprio provedor do leitor que escreve (11 de Outubro, na pág. 35) "E depois há coisas que se lê neste jornal e não se acredita"?

Não se acredita mesmo!

Mercedes Olazabal

NOTA DO PROVEDOR: O provedor, antes de escrever, reflectiu muito sobre essa frase (que já não é a primeira vez que usa) e acredita que é admissível. Está porém aberto a interpretações contrárias.

Ei, anda alguém a ler isto?

A linguagem jornalística está dominada por uma série de vícios que nada nem ninguém consegue já eliminar


Estará o investigador Jorge Pacheco apostado em ajudar o cancro a derrotar a espécie humana?



O mais frustrante da actividade do provedor é perceber que as suas chamadas de atenção caem em saco roto. Não tanto no que respeita a recomendações sobre a prática jornalística, pois a redacção do PÚBLICO é livre de discordar do que aqui se diz, mas sim quanto ao respeito pela língua portuguesa e à salvaguarda dos seus normativos – o que devia passar por consensual e universalmente aceite.

A crónica anterior (“Em defesa da pátria”) foi já dedicada a questões linguísticas, entre elas o frequente problema da errada tradução literal de termos ingleses. Pois logo nesta semana dois leitores alertavam o provedor para uma calinada do género. Numa notícia sobre as exigências de última hora do presidente checo, Vaclav Klaus, para assinar o Tratado de Lisboa, saída no PÚBLICO.PT na quinta-feira e repetida anteontem na pág. 18 da edição em papel, dizia-se que o primeiro-ministro sueco, Frederik Reinfeldt, na qualidade de presidente em exercício da União Europeia, teria declarado: “Pelo que percebi, ele pediu [que fossem incluídas] numa nota de rodapé duas sentenças relacionadas com a carta dos direitos fundamentais”. Comentou Rui Miguel Neiva: “A não ser que o presidente checo esteja a pensar condenar alguém, suponho que o que ele quer incluir são duas frases (‘sentences’ em inglês) e não duas sentenças. Sinceramente já começam a cansar estes erros tão básicos. Quando estamos a falar de palavras mais desconhecidas ainda se pode compreender a transliteração do inglês, agora nestes casos penso que é de uma falta de profissionalismo inimaginável”. E acrescentou Nuno Curado: “Tendo em conta que o primeiro-ministro sueco se estava a referir a duas frases e não a duas sentenças judiciais, acho que se trata de um erro muito grave. Mesmo tendo em conta a contenção de custos que o PÚBLICO tem tido, há um mínimo aceitável nas revisões que se fazem num jornal de suposta referência”.

Na crónica anterior também se criticava uma liberalidade jornalística cada vez maior quanto ao uso de preposições, como se não houvesse o cuidado de recorrer à mais adequada, mas sim à que melhor soa aos ouvidos do redactor. O leitor Rodrigo Valle Teixeira criticou o título da pág. 5 de 5 de Setembro "Cientistas portugueses usam teoria dos jogos para redefinir o combate do cancro", sublinhando que “a batalha não é do cancro, é contra o cancro”. E não se tratou de mera distracção, já que o mesmo erro apareceu no texto (“A equipa descobriu que o sucesso do combate deste cancro...”) e na legenda da foto (“O estudo de Jorge Pacheco dá novas pistas para o combate do cancro”). Ou então teremos um bizarro grupo de cientistas apostados em ajudar o cancro a derrotar a espécie humana.

A sensação – um pouco impotente – que se tem é que a linguagem jornalística está dominada por uma série de vícios que nada nem ninguém consegue já eliminar. Um dos mais frequentes, e contra o qual o provedor desde cedo declarou guerra, é aquele que nesta coluna foi baptizado como “praga de Catual”: a passagem por artes mágicas da partícula “que” a sujeito singular quando faz as vezes de plural, o que obrigaria o predicado (verbo) correspondente a respeitar o plural. É o caso apontado por Francisco Luís: “Ouso perguntar se está correcta a frase que leio no editorial do esclarecidíssimo director [José Manuel Fernandes] do jornal (18 de Agosto, penúltimo parágrafo): ‘A Califórnia é um dos estados que está a mudar a sua legislação’. Porque está em moda esta – julgo! – errada forma gramatical, gostaria de saber se o correcto não seria, ou será: ‘A Califórnia é um dos estados que estão a mudar a sua legislação’.” Seria, com efeito. E não é que horas depois escrevia de novo o mesmo leitor? “Nem de propósito!”, comentava. “Leio o PÚBLICO e deparo na pág. 6 [de 20 de Agosto] com ‘um dos raros socialistas que esteve ao lado de Cavaco na polémica do Estatuto dos Açores’. Esteve ou estiveram?”

A praga alastrou de facto, e é cada cavadela sua minhoca. Eis exemplos colhidos pelo provedor da mais recente leitura do jornal: “uma das muitas caras que em frente à Casa Branca comentava a atribuição do Nobel da Paz” (ontem, pág. 6); “Severiano Teixeira é um dos ministros que tutela as contrapartidas” (legenda de foto, 3 de Outubro, pág. 3); “Sócrates é dos que mais tem feito pela pobreza” (provavelmente, tal como quanto ao cancro, será “contra a pobreza” – 26 Set., pág. 17); “um dos países que já asseguraram que sustentará esta ambição portuguesa” (o primeiro verbo ainda manteve a correcção, mas o segundo falhou-a – 22 Set., pág. 8); “era um dos poucos cubanos ainda vivos que ostentava o título de ‘comandante da revolução’” (13 Set., pág. 16); “um dos artistas que passa de um lado para o outro com um trabalho completamente ímpar” (6 Set., pág. 7); “um dos poucos políticos que se preocupava com os seus eleitores” (28 Ago., pág. 13); “um dos primeiros políticos de âmbito e gabarito internacional que, logo a seguir ao 25 de Abril, fez questão de vir a Lisboa e ver com os seus próprios olhos o que se estava a passar” (27 Ago., pág. 6); “um dos banhistas que saiu da água” (23 Ago., pág. 7); “uma das romarias que aposta forte na música” (16 Ago., pág. 5); “um dos portugueses que já faz do póquer profissão” (legenda, Pública, 9 Ago., pág. 19); “Salário mínimo português foi dos que mais cresceu na zona euro durante a crise” (título a toda largura da pág. 15, 5 Ago.); “um dos que mais sobe na zona euro” (5 Ago., pág. 15); “A memória das nossas pretensões anteriores é das que mais magoa” (29 Jul., pág. 31); “Uma das possibilidades que ontem era avançada” (27 Jun., pág. 14); “nem sequer era um tópico da actualidade mas antes um daqueles que é reciclado regularmente” (P2, 24 Jun., pág. 10); “Uma das situações que mais me tem intrigado” (P2, 20 Jun., pág. 18); “um dos homens que agora tentou fugir de Caxias” (18 Jun., pág. 37); “Um dos juízes de Braga que condenou o ucraniano” (12 Jun., pág. 11); “Uma das páginas do PÚBLICO que fez a comunidade gay delirar” (legenda, Inimigo Público, 11 Jun., pág. 3); “um dos nomes do contingente nórdico de autores de ‘policiais’ que está a ser descoberto” (Ípsilon, 5 Jun., pág. 43); “é um dos dispositivos que poderá mudar os dados” (3 Jun., pág. 16); “uma das autoras que contribuiu com artigos sobre o caso” (P2, 3 Jun., pág. 5): “é um dos magistrados ligados ao Freeport que terá manifestado suspeitas” (14 Fev., pág. 9).

Será fútil esta reiterada colheita do provedor? A expectativa era que, com a denúncia repetida do erro, os jornalistas se corrigissem, mas na verdade não há melhoras, e a praga campeia por aí. O provedor duvida até que os membros da equipa do PÚBLICO leiam esta página, já para não falar em reflectirem sobre o que nela se diz.

Situação idêntica surge com a aqui já designada “síndrome da bica”, como se o jornalista deixasse uma frase a meio para ir tomar um café e a terminasse no regresso sem ligar ao que antes escrevera. Resultado: discordância entre sujeito e predicado, no género ou na quantidade. Deve dizer-se que estas ocorrências fazem a delícia de alguns leitores, como A.F. Neiva Correia: “Li no PÚBLICO de 4 de Março o artigo que fazia manchete [‘Deficiente perde benefícios fiscais por falsa dívida de 1,97 euros’] e fiquei elucidado sobre o nível, ou a falta dele, dos que escrevem nesse jornal. Vamos aos factos: ‘Todo esta situação foi confirmado ao PÚBLICO por fonte oficial’. Desculpe? ‘Todo a situação confirmado’? Mas há mais: ‘dois despachos da DGCI determinam que fossem anuladas os benefícios fiscais’. ‘Anuladas os benefícios’? Em que planeta vive este jornalista? Ainda na mesma edição, pág. 31: ‘a fiabilidade global das demonstrações financeiras (...) poderão ser questionadas’. A ‘fiabilidade poderão’?”

Últimas ocorrências (entre certamente muitas outras, já que a leitura que o provedor faz do jornal está longe de ser exaustiva): “A nossa incapacidade de debatermos o regicídio, a noite sangrenta ou, no pós 25 de Abril de 1974, a descolonização resultam em grande parte dessa atávica associação” (8 Out., pág. 37); “O secretário-geral do PS, assim como outros dirigentes do partido, já disseram quarta-feira que consideravam o caso encerrado” (3 Out., pág. 7); “Tentámos contactar Manuela Moura Guedes, mas não obteve resposta até ao fecho desta edição” (idem, ibidem); “os mal-entendidos entre a essência do projecto europeu e os seus destinatários não parou de crescer” (entrada de artigo, P2, 1 Out., pág. 5); “Louçã manteve o mesmo tom acusador e inquiridor que o caracterizam nestes debates” (9 Set., pág. 9); “o fim dos benefícios fiscais fazem parte de um modelo diferente de organização económico-social” (idem, ibidem); "O regresso das acções terroristas da ETA trouxeram ontem à rua" (21 Jun., pág. 40); “Os refrescos e as sanduíches são exclusivos e deliciosos, mas, crucialmente, também são baratas” (29 Abr., pág. 35); “Se a viabilização deste projecto parece ser certo” (16 Abr., pág. 4).

E depois há coisas que se lê neste jornal e não se acredita: “o caso social mais urgente da persecução de obras públicas” (trata-se não de perseguir as obras públicas mas da sua prossecução – entrada de artigo, 3 Set., pág. 4); “levou a que um fogo provocado por uma avaria eléctrica se espalha-se por todo o aparelho” (P2, 2 Set., pág. 2); “A mãe, bailarina, prevera nos astros” (P2, 2 Set., pág. 4); “as comemorações do centenário da República, que serão comemorados no próximo ano” (11 Ago., pág. 6); “Há 1h00 da manhã de ontem” (20 Jul., pág. 8); “Embora o avô de Lobo Antunes lê-se pouco” (P2 6 Jul., pág. 4); “duvido que LFV aceita-se um debate” (P2, 20 Jun., pág. 2).

Por último, o desabafo enviado ao provedor há uma semana pelo leitor José A. Ribeiro da Cunha: “No dia em que escreve ‘em defesa da pátria’, encontro esta pérola na pág. 4 do PÚBLICO: «’Obrigada Irlanda’, afirmou Durão Barroso».”

A luta continua.

Publicada em 11 de Outubro de 2009