domingo, 3 de maio de 2009

Escada acima, escada abaixo

Será o “Sobe e desce” uma manifestação do subsconsciente do PÚBLICO, ou a imposição do “politicamente correcto”?


No jogo das setas, Cavaco apresenta um saldo de 10 referências favoráveis, enquanto Sócrates tem uma diferença de 16 negativas

Como qualquer secção do género, o “Sobe e desce” diário da última página do PÚBLICO obedece a critérios discricionários, ao sabor das notícias do momento e da apreciação subjectiva de quem selecciona e escreve sobre os visados. Mas o exercício causa irritação em alguns leitores, que levam a peito essas avaliações e exigem um equilíbrio que, do seu ponto de vista, julgam não existir na secção.

Aproveitando algumas queixas ainda não analisadas, o provedor decidiu também fazer a sua avaliação do “Sobe e desce”. Um leitor que cita o FC Porto como o seu “clube de paixão”, Edmundo Jorge Moreira, escreveu por exemplo várias vezes contra o que acha um tratamento discriminatório do seu presidente, Jorge Nuno Pinto da Costa, a propósito dos recentes casos judiciais em que este tem estado enredado, já que veria mais setas para baixo (quando vai a tribunal) do que para cima (quando acaba ilibado). Ao mesmo tempo, um outro, o benfiquista José Damião, queixou-se em tempos de uma “persistente pressão do PÚBLICO” sobre o seu clube, reflectida no facto de certa vez o treinador Sven-Goran Eriksson ter aparecido na secção a descer após uma pesada derrota sofrida pela sua equipa no campeonato inglês, o que o leitor atribuía à iminência do regresso (não concretizado) do sueco à Luz. Mas grande parte das reclamações incidem na área política, em especial sobre a atribuição de notas negativas a José Sócrates. Foi o caso de Amílcar Gomes da Silva, que viu numa seta para baixo, a propósito de previsões sobre a actividade económica em Portugal, “a vontade cega de querer desancar no primeiro-ministro”.

Haverá alguns preconceitos na elaboração do “Sobe e desce”? Será que quem o faz (em regra, membros da direcção) obedece às imposições do “politicamente correcto” no meio jornalístico ou na redacção do jornal? Revelará o estudo dos nomes escolhidos e dos critérios usados algumas tendências não confessadas existentes no interior do jornal? Será a secção uma manifestação do subsconsciente do PÚBLICO?

Para o saber, o provedor recenseou as quase duas mil notas publicadas no “Sobe e desce” desde que iniciou funções, em 1 de Janeiro de 2008, até ontem (exceptuando – por se tratar de alguém exterior à redacção – as do dia de aniversário do PÚBLICO no ano passado, em que José Pacheco Pereira, convidado para dirigir a edição, escreveu também a secção).

Deve dizer-se em primeiro lugar que, sem surpresa, o campeonato da notoriedade é ganho claramente por Sócrates (50 referências – recorde absoluto) e pelos seus ministros (entre os quais Teixeira dos Santos, em segundo lugar com 42 notas). Mas isto não quer dizer que sejam alvo de uma apreciação globalmente positiva, quando na realidade é o contrário que acontece – este governo tem sido arrasado na secção sem apelo nem agravo: qual S. Sebastião, o primeiro-ministro foi atingido com 28 setas para baixo e apenas beneficiou de 12 para cima (mais 10 para o lado, das que não aquecem nem arrefecem); o titular das Finanças apareceu a descer 26 vezes contra apenas sete a subir; Maria de Lurdes Rodrigues teve 22 avaliações negativas (as mesmas de Alberto Costa) e apenas duas positivas (contra quatro para o ministro da Justiça); Ana Jorge, apesar de ter entrado a meio do campeonato, já levou com 13 setas para baixo e oito para cima (melhor média, mesmo assim, que o seu antecessor, com três para baixo sem qualquer uma noutro sentido, ou que o director-geral da Saúde, Francisco George, com apenas quatro negativas); Manuel Pinho ficou 14 vezes na mó de baixo e uma na de cima; e Mário Lino 11, também com uma vez apenas em cima, mesmo assim melhor que Jaime Silva igualmente com 11 em baixo mas nenhuma em cima, que por sua vez se situou acima de Rui Pereira, com 15 em baixo sem nenhuma em cima; Nunes Correia teve oito setas para baixo e lá conseguiu uma em sentido contrário, tal como Mariano Gago, que “apenas” teve cinco para baixo; Augusto Santos Silva sofreu nove para baixo, mas obteve duas a subir; Vieira da Silva quase equilibrou as suas seis negativas com quatro positivas; e até Pedro Silva Pereira teve má nota, com uma negativa isolada. Na Cultura, José António Pinto Ribeiro, também entrado a meio, já leva três negativas contra duas favoráveis (e a sua antecessora, Isabel Pires de Lima, não fizera melhor, com duas negativas apenas). Alguns secretários de Estado não alteram a tendência, como os da ministra da Educação – Jorge Pedreira teve quatro negativas no total e Valter Lemos duas, contra uma positiva –, do ministro do Ambiente – Humberto Rosa sofreu duas negativas, sem mais – ou do ministro da Administração Interna – José Magalhães ficou em 0-1. Até António Nunes, que o governo escolheu para liderar a ASAE, foi atingido com 11 setas para baixo sem nenhuma contrária – será que a inspecção económica nada teve de meritório ao longo deste período? O melhor que um ministro conseguiu foi um empate: Luís Amado com cinco para cada lado e Severiano Teixeira com uma. Para encontrar no actual executivo alguém com apreciação positiva, é preciso ir à pontuação de Laurentino Dias: três setas para cima e uma para baixo (outros secretários de Estado com balanço positivo foram Ana Paula Vitorino – 2-1 –, Fernando Serrasqueiro – idem – e João Gomes Cravinho – 1-0). Terá sido o secretário de Estado da Juventude e Desporto o melhor membro deste governo?

Mesmo figuras conotadas com a actual maioria parlamentar não ficam mais bem favorecidas no retrato. Jaime Gama perde por 2-4, Alberto Martins por 1-6, Carlos César por 1-3, António Costa por 2-5, Vitalino Canas, José Lello, João Soares, Freitas do Amaral e João Proença por 0-1 (a propósito do líder da UGT, compare-se o seu resultado com os positivos 3-0 de Manuel Carvalho da Silva, da CGTP). Salvam-se do massacre Vítor Constâncio (à justa, por 7-6), o colunista do PÚBLICO Vital Moreira (1-0), Jorge Coelho (1-0) e os ex-presidentes Mário Soares e Jorge Sampaio (ambos com 2-0, enquanto o outro antigo ocupante de Belém em democracia, Ramalho Eanes, obtém 1-0). Curiosamente, elementos desafectos à actual liderança socialista obtêm melhores notas, como Manuel Alegre (4-1), António José Seguro (2-0), João Cravinho e Paulo Pedroso (ambos com 1-0).

Os líderes da oposição, embora nem sempre com resultados positivos, portam-se melhor para os responsáveis do “Sobe e desce”. Nesse grupo, a corrida da notoriedade foi ganha, como seria natural, por Manuela Ferreira Leite, com 27 referências, sendo nove positivas e 12 negativas e – uma muito melhor proporção do que a de Sócrates. Paulo Portas (2-5) e Jerónimo de Sousa (2-3) também são castigados de forma mais branda, apenas se poupando Francisco Louçã (3-3).

Os ex-líderes sociais-democratas Pedro Santana Lopes (2-10) e Luís Filipe Menezes (1-10), assim como o braço direito deste, Ribau Esteves (0-6), são vistos sob um olhar muito mais severo, que no entanto poupa Luís Marques Mendes (1-0). Durão Barroso tem um saldo positivo de 7-2, mas é sabido que há muito mudou de campeonato. Outras figuras do PSD castigadas são Alberto João Jardim (1-11), Pedro Duarte (0-3) ou Rui Rio (0-2). Mas Paulo Rangel sai favorecido (2-0), assim como o oposicionista interno Pedro Passos Coelho (3-0).

E um dos dados que mais interessam é a comparação entre os números de Sócrates e os de Cavaco Silva, sobretudo tendo em vista o recente descarrilamento da “cooperação estratégica”. Pois bem, Cavaco Silva tem um balanço positivo de 16-6 (em 29 referências no total). Em resumo: Sócrates apresenta um saldo de 16 referências negativas, enquanto o saldo de Cavaco é de 10 notas favoráveis. Será equilibrada esta apreciação das duas mais destacadas figuras actuais do Estado português?

Muito haverá ainda a dizer sobre o assunto, pelo que o provedor tenciona voltar a ele em nova crónica. Faltam as avaliações em política internacional, no desporto e noutras áreas de actividade, além das conclusões a tirar de tudo isto. Adivinhe o leitor que números tiveram George W. Bush e Barack Obama. Ou Jesualdo Ferreira, Quique Flores e Paulo Bento (além de Pinto da Costa, um dos pretextos deste estudo). Voltaremos a falar no próximo domingo.

CAIXA:

Camilo, um naufrágio, uma cozinheira e uma paixão

Reclamou o leitor Carlos Cal Brandão acerca de uma reportagem da autoria de João Pedro Barros sobre a Rua da Fábrica, no Porto, publicada no “Local” da Edição Porto em 12 de Abril: “Afirma o autor, pelo menos, três coisas verdadeiramente espantosas: 1. Que Camilo Castelo Branco viajava no rabelo que naufragou em 12 de Maio de 1861 e de que resultou a morte de Barão de Forrester: ‘D. Gertrudes morreria dois anos depois, no naufrágio que também vitimou o barão de Forrester, no Cachão da Valeira, e do qual Camilo e D. Antónia, a Ferreirinha, se salvaram.’ 2. Que a tal D. Gertrudes era a cozinheira do Grande Hotel. Tivesse o autor lido O vinho do Porto - processo de uma bestialidade inglesa e saberia que assim não é. Que o visitava ali, e que passou a cozinhar para ele, assim o livrando da morte. 3. Que Camilo manteve com a tal D. Gertrudes uma relação amorosa. Não sei onde foi o autor colher tão espantosa quanto, creio, inédita afirmação. Bastará ler a citada obra para perceber que não era desse tipo a relação que tinha com a Gertrudes (...)”.

Por solicitação do provedor, Manuel Carvalho, director adjunto do PÚBLICO responsável pela redacção do Porto, reconhece que o jornal errou. Mas, como não foi feita nenhuma rectificação na secção habitual, aqui fica, para que conste.

Publicada em 3 de Maio de 2009

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