domingo, 27 de abril de 2008

A voz dos leitores

A última crónica do provedor ("Os cronistas também se enganam", 27/04/08) suscitou diversas reacções de leitores:

Sou retornado... Daí que, ao ler a crónica do Dr. António Barreto, no PÚBLICO, tenha enviado para os meus amigos a dita crónica, com o texto que reproduzo:
"Eu sou retornado... Julgava ter ouvido tudo o que havia para contar sobre a dita 'Descolonização exemplar'... Afinal, o que é dito pelo cronista ultrapassa tudo o que de pior tinha imaginado e ouvido. Assim fomos tratados por quem era suposto garantir, pelo menos, a nossa integridade física... Inacreditável!"
Ao ler, hoje, o artigo do provedor, sinto, naturalmente, um certo desconforto... No entanto, deixe-me dizer-lhe o seguinte:
- Afinal, o tais "factos" são negados com base, apenas, na convicção do jornalista Artur Queiroz, "que vivia, à época, em Luanda". Ora, eu, à época, também lá vivia... Era quadro médio da Faculdade de Medicina de Luanda, e nunca ouvi dizer nada disto. Quanto aos retornados de "extrema-direita"..., bom, a esmagadora maioria dos retornados sabia lá o que era isso de extrema-direita, ou de esquerda...
- O Sr. jornalista Adelino Gomes, que teria tido conhecimento da tal carta, "tinha a ideia de que era falsa".
Portanto, acho que fico na mesma...
Lamentaria ser agente de propagação de mentiras, mas... naquele tempo passou-se muita coisa!
Apesar de tudo, depois de ler o seu artigo, desejaria que o tal documento fosse, realmente, falso.

Francisco Gonçalves
Barcelos

A propósito do artigo «Angola é nossa», de António Barreto, li na edição de hoje,27/04/2008, do PÚBLICO:
a) O seu artigo, com o título «Os cronistas também se enganam».
b) O (lacónico) pedido de desculpas de António Barreto, após algumas considerações plenas de banalidades sobre as comemorações do «25 de Abril», a crise no PSD e... o florescimento dos primeiros jacarandás!
Não estou convencido! Mesmo que a carta do almirante Rosa Coutinho seja falsa, o artigo «Angola é nossa» de António Barreto abordou outros aspectos que não podem ser esquecidos: o banho de sangue do «27 de Maio», responsabilidades criminais de intelectuais (presumo que do MPLA...) que já foram condecorados pelas autoridades portugueses e passeiam-se calmamente pelas ruas de Lisboa, negócios «interessantes» feitos por portugueses (dos dois quadrantes políticos, isto é, da direita e da esquerda...) com o «duvidoso» regime de Eduardo dos Santos...
António Barreto não é um cronista qualquer. E não vamos «reduzir» o seu artigo «Angola é nossa» à putativa carta de Rosa Coutinho, seja essa carta verdadeira ou falsa (como eu gostaria de ter a certeza de que é falsa...). Afinal, não será digno de um jornal de referência como o PÚBLICO preocupar-se com a violação dos direitos humanos no Tibete ou no Zimbabwe e «esquecer» as violações desses mesmos direitos humanos em Angola, cometidos agora, em 1977 ou em 1974...
Ou será que para o jornal de que é provedor é mesmo verdade que «Angola é nossa» e a voz dos negócios, principalmente em tempo de crise, é que fala mais alto, como muito bem denunciou António Barreto?

José Carlos Silva

Escreve o provedor do leitor que, "não sendo jornalista, António Barreto estava isento do dever profissional de verificar a autenticidade da carta atribuída a Rosa Coutinho". Permita-me manifestar a minha discordância enfática, sem prejuízo da grande consideração profissional que o provedor do leitor soube conquistar, há muito.
O colunista tem o dever de ser rigoroso relativamente aos factos que escolhe comentar e fundamentado relativamente às opiniões que sobre eles decida emitir.
O sr. António Barreto é um colunista convidado do jornal e as suas afirmações e opiniões, tal como as dos restantes colunistas, não vinculam o PÚBLICO e não têm de ser partilhadas pelo jornal.
A prática da generalidade dos órgãos de comunicação social, aliás, é a oposta – alertando os leitores para o facto, evidente, de não deverem ser responsabilizados por opiniões diversas próprias de um espaço plural.
A questão deontológica iluminada pelo texto do sr. António Barreto é a probidade intelectual e o rigor com que, por vezes, se emite opinião, bem como o domínio ou a ignorância das matérias relativamente às quais se opina.
O sr. António Barreto, a partir da publicação do livro em apreço sobre a descolonização em Angola, poderia ter decidido dar opinião sobre a utilização de cartas falsificadas para promover uma ideia errada da descolonização de Angola. Poderia ter optado por não o usar como material de trabalho para a sua colaboração com o PÚBLICO.
Não recai sobre o PÚBLICO nem sobre os seus editores o ónus da opção nem da argumentação do colunista. A responsabilidade do jornal coloca-se, exclusivamente, na hipotética opção de manter ou retirar ao colunista o convite para o ser. O problema para os leitores e, julgo, para a bom nome do jornal, é o da confiança que as colaborações transmitem semana a semana, relativamente à honestidade intelectual dos colaboradores.
O sr. António Barreto é investigador e professor universitário, responsável por utilizar uma fatia do dinheiro dos contribuintes em estudos sociológicos por ele realizados ou orientados, foi membro do governo de Portugal e, à partida, terá de ser considerado responsável e responsabilizável pelo que diz, quer sobre factos, quer sobre invenções.
No texto em apreço por ele subscrito, o sr. António Barreto escreveu num "Espaço Público", marcado pelo pluralismo e a divergência. Considerar que os editores devem ser responsáveis pelas afirmações dos colunistas seria, na verdade, um estímulo à infracção e um convite à irresponsabilidade dos autores, exonerando-os dos deveres de assumirem as suas responsabilidades de exigência, rigor e probidade, em geral, nas suas colaborações no PÚBLICO.
No plano prático, não é sempre possível definir, de forma incontroversa, onde acaba a matéria factual e onde começa a opinião (não me refiro à existência da carta em apreço), razão adicional pela qual não é exequível impor esse exercício a um editor de serviço.
O jornal convida os colunistas que entende por considerar que o seu prestígio ou autoridade valorizam o jornal e o tornam mais atractivo para os leitores. Dos colunistas espera-se, creio eu, que tenham um desempenho à altura da expectativa e confiança manifestadas.
As afirmações dos colunistas, bem como a sua eventual ignorância, ligeireza, irresponsabilidade ou vindicta ideológica devem ser assumidas em pleno pelos respectivos autores e não pelos editores de serviço.
Enquanto leitor, considero ser meu direito esperar que o sr. António Barreto assuma publicamente as suas responsabilidades como colunista.
Um exercício de humildade e rigor intelectual é exigível nesta circunstância. Esse exercício pode inclusivamente contribuir para minorar o descrédito que o presente episódio arrasta.
Na minha opinião de leitor, a ligeireza com que frequentemente o sr. António Barreto opina sobre a nossa vida política e social não deixa que o texto em apreço - mais clamorosamente reprovável - constitua uma surpresa.
Mas um exercício de honestidade e exigência intelectuais, desencadeado por este episódio lamentável, pode constituir uma oportunidade de redenção e ajudar a corrigir práticas não transparentes usadas para produzir colunas semanais de opinião, que nem sempre asseguram a consideração e o respeito devido aos leitores.
A opinião imponderada do sr. António Barreto não "validou" – neste caso concreto -uma carta falsificada, provavelmente fruto de uma operação de desinformação, velha de 23 anos, nem pôs em causa o rigor noticioso do PÚBLICO, que não publicou qualquer notícia sobre o assunto.
Na minha opinião, até prova em contrário, o sr. António Barreto pôs, sim, em causa os seus métodos de trabalho e o seu rigor na colaboração com o PÚBLICO. Como leitor, considero que o sr. António Barreto, enquanto colunista do PÚBLICO deve, antes de outras desculpas, um pedido de desculpas aos leitores do jornal e às pessoas que o convidaram para nele colaborar. Gostava de o ler sobre o assunto.

António M. Ramos André
Lisboa

Agora veio a saber-se tudo: António Barreto - na sua ânsia de anticomunismo primário que fica sempre bem a quem já por lá andou - resolveu nas suas croniquetas - já enfastiantes, diga-se de passagem - comentar um livro - Holocausto em Angola - como se o mesmo fosse um paradigma da história da nossa descolonização. (Eu fui dos que fizeram a guerra colonial, não sabia como ir para a Suíça).
Claro: meteu a pata na poça, e só se desdiz porque o "Almirante Rosa Coutinho acaba de negar na Visão a autoria da carta"!
Pelo que lemos do provedor - um louvor para a sua actuação na desmistificação quer de entidades quer do jornal que se julgam acima dos leitores, pobres mortais "analfabetos" -, o assunto era mais que sabido (até do director do Público). Mas os dois - José Manuel Fernandes e Barreto - têm algo em comum: muita pretensão e alguma desonestidade intelectual!

Sérgio Brito
Lisboa

Na sua edição de 27 de Abril p.p., o PÚBLICO andou muito bem.
O vosso colunista o académico António Barreto, que, nem sempre estando de acordo com o seu pensamento, muito considero, apresentou desculpas públicas ao Sr. Almirante Rosa Coutinho e aos leitores do PÚBLICO por ter utilizado um documento apócrifo como argumento...
É a ética na comunicação social - no seu melhor. Fico contente que assim seja e possa ser: sem dilaceramentos, sem dramas, sem animosidades. O 25 de Abril de 1974, que ainda festejámos, é pai/mãe desta Liberdade e das outras, correlativas.
O vosso provedor, Joaquim Vieira, em texto exaustivo, subordinado ao titulo "Os cronistas também de enganam", sustenta, entre muitíssimas outras coisas, e cito-o: "Entre eles, actos atribuídos ao almirante António Rosa Coutinho, alto-comissário para o território durante alguns meses após o 25 de Abril...".
Dois erros comete o vosso provedor:
1. À época, Rosa Coutinho era, não almirante, mas vice-almirante, que é patente operacional.
2. À época, Rosa Coutinho não podia ser alto-comissário, porque este "cargo" só foi criado depois dos Acordos de Alvor, em 15 de Janeiro de 1975, e o primeiro alto-comissário foi o general da Força Aérea Silva Cardoso e o último o vice-almirante Leonel Cardoso.
O vice-almirante Rosa Coutinho foi, de Julho de 1974 a Janeiro de 1975, presidente da Junta Governativa. Este era o cargo que então ocupava.

José António Soares de Albergaria
Loures

Sem comentários: