domingo, 27 de abril de 2008

Os cronistas também se enganam

A publicação de um dado falso no texto de um colunista suscita questões sobre o conteúdo factual dos artigos de opinião

Holocausto em Angola não é um livro de história. É um testemunho. O seu autor viu tudo, soube de tudo”. Assim era introduzida a crónica de António Barreto editada no PÚBLICO de há duas semanas (13 de Abril). Sob o título “Angola é nossa!”, o cronista mostrava-se impressionado com a galeria de horrores relatada por Américo Cardoso Botelho no mencionado livro, há pouco publicado, sobre a transição para a independência e os primeiros tempos da governação do MPLA na antiga colónia portuguesa.

Barreto toma como inquestionáveis os factos relatados no livro, escrito sob a forma de depoimento pessoal. Entre eles, actos atribuídos ao almirante António Rosa Coutinho, alto-comissário para o território durante alguns meses após o 25 de Abril. “Terá sido mesmo um dos autores dos planos de intervenção, em Angola, de dezenas de milhares de militares cubanos e de quantidades imensas de armamento soviético”, considera o cronista. “O livro publica, em fac-simile, uma carta do Alto-Comissário (em papel timbrado do antigo gabinete do Governador-geral) dirigida, em Dezembro de 1974, ao então presidente do MPLA, Agostinho Neto, futuro presidente da República. Diz ele: ‘Após a última reunião secreta que tivemos com os camaradas do PCP, resolvemos aconselhar-vos a dar execução imediata à segunda fase do plano. Não dizia Fanon que o complexo de inferioridade só se vence matando o colonizador? Camarada Agostinho Neto, dá, por isso, instruções secretas aos militantes do MPLA para aterrorizarem por todos os meios os brancos, matando, pilhando e incendiando, a fim de provocar a sua debandada de Angola. Sede cruéis sobretudo com as crianças, as mulheres e os velhos para desanimar os mais corajosos. Tão arreigados estão à terra esses cães exploradores brancos que só o terror os fará fugir. […] Desenraízem-nos de tal maneira que com a queda dos brancos se arruíne toda a estrutura capitalista e se possa instaurar a nova sociedade socialista ou pelo menos se dificulte a reconstrução daquela’.”

Impressionante, de facto, que o representante máximo em Angola da potência colonial (a querer deixar de o ser) tivesse escrito aquelas palavras. O problema é que a carta, que há muito circula em meios de extrema-direita e nos últimos tempos na internet, é – tudo o indica – uma falsificação de alto a baixo.

Alguns leitores não deixaram de reparar na estranha circunstância, reclamando ao provedor. “O colunista do jornal autenticou um texto falso, uma colagem manhosa, uma falsificação grosseira”, escreveu Artur Queiroz, um jornalista que, aliás, vivia à época em Luanda. “A tal carta nunca existiu. (…) Esta carta circulou em fotocópias todas ‘ratadas’ no ano de 1975 em Angola e na África do Sul, onde se refugiou grande parte dos agentes da PIDE. Um jornal sul-africano ligado aos retornados de extrema-direita chegou a publicá-la. Depois foi importada para Lisboa. No ano de 1976 ela andava de mão em mão no Rossio, entre os retornados que juravam ter visto Mário Soares pisar a Bandeira Nacional e afiançavam que o líder do PS tinha vendido as ex-colónias e com o dinheiro comprou palácios em Paris. Calúnias e mais calúnias contra as figuras que protagonizaram a descolonização. A carta, uma fotocópia de má qualidade para disfarçar uma colagem grosseira do timbre do Governo-Geral de Angola e da assinatura do alto-comissário Rosa Coutinho, foi analisada pelas autoridades competentes, que verificaram ser falsa”.

Queiroz desafia mesmo o autor do livro a apresentar provas da veracidade do documento: “Se ele o fizer e o jornal publicar esse original, eu no dia seguinte vou entregar a minha carteira profissional e abandono o jornalismo, profissão que exerço há 43 anos”.

Não sendo jornalista, António Barreto estava isento do dever profissional de verificar a autenticidade da carta atribuída a Rosa Coutinho (embora uma primeira leitura daquelas palavras levasse a desconfiar tratar-se de documento apócrifo, por muito exóticas que tenham sido parte das declarações e escritos políticos produzidos naquele período histórico). Mas ao validar o texto o cronista acaba por pôr em causa a credibilidade do jornal que o acolhe – e é com esse aspecto que o provedor deve preocupar-se.

Foi por isso colocado o problema ao director de PÚBLICO, José Manuel Fernandes (JMF), que começou por explicar que, no dia em que foi paginada a crónica de Barreto, não se encontrava no jornal: “Só vi o texto no dia seguinte. Admito que quem recebeu e editou o texto não conhecesse a história do documento. Eu próprio, quando o vi no livro, perguntei, a quem acompanhou melhor o processo e tinha dele memória, se o documento era verdadeiro ou falso. O [jornalista do PÚBLICO] Adelino [Gomes] disse-me que tinha a ideia de que era falso e, por isso, não o referi na crónica que escrevi no Ípsilon”. (Esclareça-se, com efeito, que JMF analisara este mesmo livro semanas antes no caderno cultural do jornal, estranhando o provedor que, tendo o director formado a suspeita de que a carta em questão era forjada, como reconhece, houvesse decidido omitir o facto em vez de tentar esclarecer um dado importante para avaliar o grau de seriedade e exactidão do autor de Holocausto em Angola).

Isto alerta para um problema, mais geral, que é o seguinte: não deverá o PÚBLICO proceder à prévia verificação factual dos textos dos seus colunistas (tal como os editores têm a obrigação da fazer em relação aos trabalhos dos jornalistas), para evitar a publicação de dados falsos ou distorcidos (involuntariamente, admita-se, o que não está em questão) afectando a imagem de rigor que é apanágio da marca editorial do jornal? “É muito difícil ter controlo editorial sobre os cronistas, a não ser quando os erros são flagrantes”, reconhece JMF, que nomeia como exemplo um ex-colunista do PÚBLICO “cujos erros eram, por vezes, grosseiros – e nem valia a pena tentar falar com ele”.

De qualquer modo, o método é errático e ocasional: “Com outros, quando noto alguma falha, tento telefonar-lhes, mas já me aconteceu não conseguir encontrá-los”. Especificando: “Por vezes, nenhum director lê os textos dos colunistas, que só vão a desk antes de serem paginados. Não é a regra, mas pode acontecer com textos dos colunistas fixos, que são considerados de confiança. Não sei se aconteceu isso [neste caso], mas suponho que não, pois quem estava a fechar costuma ler sempre a opinião. Mas admito que também ele, como Barreto, não soubesse que aquela informação do Rosa Coutinho era falsa. Eu não sabia, tive de perguntar. Com um texto de opinião de alguém como Barreto, muito provavelmente ele confiou”.

Em suma, o PÚBLICO está sujeito a que uma situação idêntica venha a repetir-se. A responsabilidade não será de quem escreve, mas de quem publica.

A propósito ainda do mesmo caso, o provedor estranha também que, passadas duas semanas sobre a publicação da crónica em causa, e após a repercussão havida (Ferreira Fernandes, na sua coluna quotidiana do Diário de Notícias, denunciou logo a seguir a falsidade da carta citada por Barreto), o PÚBLICO não se tenha preocupado, perante os seus leitores, em proceder à devida rectificação.

Recomendação do provedor. Os textos de opinião do PÚBLICO deveriam passar, antes de publicados, por um crivo de verificação factual idêntico ao que é aplicado às matérias de natureza jornalística.

CAIXA:

As melhores intenções

Uma das primeiras crónicas deste provedor (20 de Janeiro último) debruçava-se sobre situações onde não existiria uma distinção clara entre publicidade e matéria editorial ou em que a publicidade descaracterizaria graficamente zonas nobres do jornal, casos prevenidos pelo Livro de Estilo do PÚBLICO. Uma dessas ocorrências dera-se com edições que surgiram integralmente envoltas numa sobrecapa em papel couché com um anúncio a determinada marca e, na página da frente, dentro do próprio anúncio, o logotipo e os dizeres da primeira página do PÚBLICO, repetidos depois na “verdadeira” primeira página, só descoberta folheando a “capa”.

Não existindo indicação de que se tratava de publicidade (como a leitura do Livro de Estilo poderia aconselhar), e havendo outros diários que, ao publicarem os mesmos anúncios, o haviam feito, o provedor inquirira JMF acerca da regularidade da situação, tendo, neste ponto específico, obtido a seguinte resposta: “Considerando que as obrigações formais do Livro de Estilo no ponto 111 foram cumpridas, a comparação com os outros jornais saídos nesse dia permitiu verificar que uns fizeram imprimir na sobrecapa a palavra ‘PUBLICIDADE’ ou a sigla ‘PUB’ (casos do Diário de Notícias e Jornal de Notícias). Apesar de considerarmos que o leitor não era levado a confundir espaço editorial com espaço publicitário, a impressão dessa palavra será considerada da próxima vez que for feita ao PÚBLICO uma proposta comercial idêntica”.

Acontece que se voltou ao mesmo na edição do PÚBLICO de 15 deste mês, com um anúncio à abertura de um shopping encimado pelo título “As boas notícias chegaram!”, mais uma vez sem inserção da palavra “PUBLICIDADE” (por extenso ou abreviada). Dois dias depois, o provedor enviou a seguinte questão a JMF: “Quer isso dizer que a impressão da palavra ‘PUBLICIDADE’ foi ‘considerada’ mas rejeitada?” Não recebeu, porém, resposta até ao envio desta crónica para a redacção.

Publicada em 27 de Abril de 2008

2 comentários:

rui disse...

Não sou jornalista nem faço a minima ideia de como funciona um jornal, mas não concordo com o Provedor.
Presume-se que os cronistas são convidados por garantirem qualidade e credibilidade na óptica da linha editorial do jornal.
Se é lícito e até indispensável que as notícias sejam verificadas, não me parece que faça sentido a verificação dos factos referidos em colunas de opinião.
A responsablidade é do cronista que a assina.
O que pode ser feito nestes casos é o jornal demarcar-se do cronista e repensar os pressupostos da sua colaboração.

Carlos Duarte disse...

A seriedade do A. Barreto nesta crónica, está ao nível do Público em muitas outras borradas.
Instado a retratar-se face à patranha, e numa altura em que o visado não lhe pode responder, essa ilustre criatura, não piou. Obscenidade, má formação e cobradia.