domingo, 31 de maio de 2009

Cronistas-candidatos

O provedor surpreende-se por o PÚBLICO não ter uma posição consistente sobre os colunistas que concorrem a eleições











Nas crónicas mais recentes, Vital e Tavares puxam a brasa à sua sardinha eleitoral

Dois cronistas do PÚBLICO concorrem a eurodeputados no escrutínio do próximo domingo: Vital Moreira, que escreve às terças-feiras, encabeça a lista do PS; Rui Tavares, que ocupa a última página às segundas e quartas, é terceiro na lista do BE. A situação não tem sido do agrado de todos os leitores.

“Estranho que os comentadores com interesses eleitorais que habitualmente escrevem crónicas no jornal mantenham ainda essa colaboração”, comenta Silvino Oliveira. “Na realidade, a campanha está aí, e, por uma questão de ética, os cronistas deveriam ser os primeiros a suspender a colaboração. A manter-se a situação, a imagem que passa é que alguns candidatos têm um espaço privilegiado em relação a outros, o que não concorda com o Livro de Estilo do jornal”.

“Considera correcto que em período de pré-campanha eleitoral Vital Moreira, cabeça de lista de um partido, continue a perorar nas páginas do PÚBLICO, servindo-se do ‘meu jornal’ para pura propaganda eleitoral e para atacar outro(s) partido(s)?”, inquiriu por seu turno Guido Rodrigues junto do director, José Manuel Fernandes. “Não será isto um abuso inadmissível que urge terminar?”

Por outro lado, uma leitora apenas identificada como Luísa considera: “A crónica de 25 de Maio de Rui Tavares (‘Caro eleitor, você está enganado’) transcende a meu ver o que se espera do espaço de crónica e entra pela campanha eleitoral de forma que me parece pouco apropriada. Termina mesmo com um apelo ao voto no cronista. Apesar de apreciar por norma o trabalho do colunista em questão, gostaria de não deixar passar esta ‘falta’ em branco, porque põe em causa a imagem de isenção e rigor do jornal”.

Em contrapartida, uma terceira cronista também candidata, Laurinda Alves, cabeça de lista pelo Movimento Esperança Portugal, foi entretanto dispensada pela direcção do PÚBLICO, quando já havia nas ruas cartazes de publicidade à sua candidatura. Na última crónica, publicada em 24 de Abril, Laurinda Alves disse ter-lhe José Manuel Fernandes anunciado que era afastada devido a “contenção de custos”.

Esclareça-se que o Livro de Estilo do PÚBLICO é omisso quanto a este assunto e, pelo que o provedor averiguou, não existe nenhuma norma interna a seu respeito – o que aliás se estranha num jornal que apregoa a sua independência e possui quase duas décadas de prática de jornalismo político.

Mas a questão é relevante, pois o Estatuto Editorial do PÚBLICO rejeita “qualquer dependência de ordem ideológica” e fala de uma “relação [com os leitores] rigorosa e transparente, autónoma do poder político e independente de poderes particulares”. É verdade que, antes de serem candidatos, os cronistas em causa já escreviam nestas páginas. Mas é também um facto que a sua entrada numa corrida eleitoral alterou os pressupostos que presidiram ao convite para colaborarem no jornal, improvável caso estivessem na política activa. Importa avaliar se não se quebra aqui a tradição de equidistância cultivada pelo PÚBLICO, uma vez que não garante oportunidades equivalentes a outras candidaturas ao Parlamento Europeu.

Uma vez que não constituiu imperativo ético dos dois cronistas-candidatos suspenderem a colaboração no PÚBLICO a partir do momento em que anunciaram a sua entrada na campanha eleitoral, restou ao provedor perguntar a José Manuel Fernandes como lida a direcção do jornal com esta circunstância. Começa por esclarecer o director: “Primeiro que tudo, referir uma regra básica: ao escolher os seus colunistas, o PÚBLICO tem como preocupação que, mesmo quando são filiados em partidos, tenham um pensamento independente. Nunca advogámos o princípio das quotas em que cada força política fica com uma espécie de cantinho onde acaba por repetir os mesmos argumentos que ouvimos todos os dias nos diferentes serviços informativos. No passado houve ocasiões em que uma grande colagem de alguns colunistas a este ou àquele partido levou-nos a retirar-lhes o convite para escreverem, o que nem sempre foi pacífico ou, porventura, justo”.

O PÚBLICO possui apenas uma orientação genérica na matéria, segundo José Manuel Fernandes: “Por regra, sobretudo em período de campanha eleitoral, pedimos para que não utilizem os seus espaços como prolongamentos dos tempos de antena, por assim dizer. E, por regra, esse acordo de cavalheiros nunca deixou de ser cumprido”. E no caso concreto de Vital Moreira e Rui Tavares? Esclarece o director: “Falei com ambos e ambos tomaram a iniciativa de informar que não tencionavam fazer campanha eleitoral nas suas colunas”.

É difícil, se não impossível, traçar uma fronteira entre o que é ou não campanha eleitoral nas intervenções de um candidato no espaço público. Mas é fácil verificar que, nas suas crónicas mais recentes, estes dois candidatos têm, por assim dizer, puxado a brasa à sua sardinha, e o que escrevem pode claramente ser levado à conta de campanha: Vital Moreira, no seu último texto, na passada terça-feira, pugnava pela posição que tem defendido acerca dos fundos do QREN (Quadro de Referência Estratégico Nacional), um dos cavalos de batalha da campanha para o Parlamento Europeu; Rui Tavares, por sua vez, fez de facto, na crónica da passada segunda-feira, e conforme mencionou a leitora Luísa, um apelo ao voto em si próprio, se bem que a contrario sensu.

Outro problema tem a ver com a chamada declaração de interesses, em concordância aliás com o disposto no Livro de Estilo: “Quando escreverem sobre matérias em que têm interesses directos ou indirectos de ordem material ou outra, os colaboradores deverão disso dar conta aos leitores”. O que aconteceu apenas uma vez para cada um dos dois cronistas-candidatos, e já após o início oficial da campanha. Justifica José Manuel Fernandes: “Deveríamos passar ou não a identificá-los também como candidatos? As escolhas foram realizadas com bastante antecedência, a campanha vinha longe, eram dois independentes, pelo que optámos por manter a forma como vinham identificados até ao início da campanha eleitoral. A campanha começou esta semana, e ambos passaram a ser identificados como candidatos ao Parlamento Europeu pelo PS e pelo BE”.

Quanto a Laurinda Alves, o director explica que, “por motivos que em nada se ligam à sua candidatura, cessou entretanto a sua colaboração no jornal”, mas é preciso que se diga que o calendário não terá sido o mais indicado, pelo equívoco que inevitavelmente se gera.

José Manuel Fernandes resume assim a posição do jornal: “Os leitores têm o direito de saber que os colunistas são candidatos (pode-se discutir a partir de que momento essa indicação deve ser clara), mas o facto de serem candidatos, para mais independentes, não os torna cronistas menos interessantes, tal como não entendemos ser necessário criar um sistema especial de quotas fora ou dentro dos períodos eleitorais”.

Não é uma linha de orientação definitiva, já que o director admite a sua revisão posterior: “No final faremos naturalmente um balanço desta experiência para verificar se a identificação devia ter surgido mais cedo e se os compromissos foram cumpridos. Desse balanço retiraremos as lições necessárias para casos futuros”.

O provedor surpreende-se por o PÚBLICO não ter até hoje elaborado uma posição mais consistente sobre o assunto, e recomenda que o faça. Se bem que seja também contra o sistema de quotas, constata que a redacção faz uma cobertura equilibrada das campanhas eleitorais, procurando ouvir as várias correntes em disputa (pelo menos as que se calcula poderem eleger representantes), e que tal desequilíbrio desaparece nas páginas de opinião, pelo que a questão dos cronistas-candidatos carece de ser repensada. E que interesse terão os leitores em que o jornal pague a colaboradores para fazerem uso de uma tribuna onde provavelmente repisarão argumentos que esses leitores acabaram de os ouvir defender pela televisão?


CAIXA:

Gripe jornalística

A praga de Catual, que o provedor já apresentou aos leitores, alastra nas páginas do PÚBLICO como o vírus H1N1: “Um dos soldados que matou Victor Jara” (28/05, pág. 24); “Um dos jovens realizadores que, opina Vilaverde, o faz pensar” (P2, 26/05, p. 6); “Um dos fenómenos que é visível” (P2, 23/05, p. 18); “Uma daquelas sequelas que é melhor do que o original” (destaque, Ípsilon, 22/05, p. 42); “um dos que aparece na mensagem” (05/05, p. 14); “um dos aspectos da vida na África do Sul que só é discutido em privado” (04/05, p. 5); “um dos jornais que deixou de se publicar” (legenda, 03/05, p. 16); “um desses topoi literários que conserva uma enorme força metafórica” (Ípsilon, 01/05, p. 8); “um dos temas que mais me obceca” (P2, 22/04, p. 3); “Um dos últimos entretenimentos que resta à direita” (22/04, p. 32); “um dos que se manifestou contra a ideia” (21/04, p. 19); “É uma das coisas que me faz mais confusão” (P2, 21/04, p. 10); “um dos processos que consta das 2827 pastas do arquivo” (18/04, p. 4); “um dos poucos dirigentes socialistas que, à época da cimeira dos Açores, teve coragem política” (P2, 11/04, p. 12); “Uma das coisas que me agrada sobremaneira ver” (P2, 22/03, p. 22); “um dos factores do imobilismo insanável que impede o progresso económico do país” (P2, 21/03, p. 3); “um dos professores que critica a banalização daquele grau honorífico” (26/03, p. 34); “uma das obras da artista plástica Joana Vasconcelos que mais tem corrido mundo” (Ípsilon, 20/03, p. 3); “um dos agrupamentos que mais se tem distinguido” (legenda, Ípsilon, 13/03, p. 41); “uma das hipóteses que pode baralhar um cenário de expectativa” (04/03, p. 10); “Esta é daquelas que vem para nos demonstrar que os fundamentos da nossa realidade estavam errados” (02/03, p. 32); “um dos países do Leste que já teve de pedir ajuda ao FMI” (legenda, 01/03, p. 4); “um dos que a viu em segredo” (P2, 01/03, p. 14); “um dos que logo nos primeiros dias após o desaparecimento do português andou pela cidade” (P2, 27/02, p. 5); “um dos factores que melhor explica o crescimento das forças à sua esquerda” (antetítulo, 16/02, p. 33); “uma das que atrai mais ne[o]nazis” (15/02, p. 14); “um dos países do mundo que mais julga – e condena – os torcionários da sua antiga ditadura” (12/02, p. 17).

Publicada em 31 de Maio de 2009

4 comentários:

Manuel disse...

Sou um leitor habitual e assíduo do Público. Mas este cada vez me dá mais razões para deixar de o ser. E esta é flagrante!
Temos os políticos que temos, mas também contribui para não termos outros o jornalismo que temos. Malfadado povo!

Manuel Pintor

Joao Ricardo Lopes disse...

É óbvio que Laurinda Alves não foi afastada por razões eonomissistas. É óbvio que tudo o que não vende jornais não interessa, e neste venbder incluo a net. mas não será demagogia pura o facto de ao,ongo de meses sugirem artigos contra ou a favor daqueles que eu apelido de "profissionais da política" e na precisa altura em que o eleitor podia ser mais elucidado quanto às pretenções dos vários candidatos, sejam alguns amputados no seu direito a informar?
Por esta e muitas razões sem razão, estáo nosso País como está.´
João Ricardo Lopes. Abraveses - Viseu

Diobar disse...

É triste que isto aconteça… aqui se nota o poder da corrupção e do lobby que assola Portugal. O MEP, sem força e sem poder, contra os grandes partidos repletos de Políticos Profissionais. É triste ver que até o Publico se deixa pressionar. Mais vale desistir já do pais que temos e começar de novo…

Joana Freud... disse...

Julgarão que somos todos patetas???

Joana Feudenthal