terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Meia verdade é mentira inteira

Hoje [7 de Dezembro, pág. 9] o PÚBLICO tem uma notícia cujo título é, mais uma vez, meia verdade: "Tribunal absolve jovem detido com faca". O jornalista Jorge Talixa, no entanto, conclui [no último parágrafo da notícia] que o tribunal "manteve a condenação a dez meses de cadeia (pena suspensa) pelo crime de resistência e coacção sobre funcionário" - a outra metade da verdade! Assim, não vale!

Leitor identificado

domingo, 6 de dezembro de 2009

A verdade a que temos direito

O jornalismo funciona muitas vezes pelo método de aproximações sucessivas ao rigor dos factos



A Refer desmentiu que favorecesse Manuel Godinho e o jornal não reagiu. Preferiu esquecer?



Que devem os leitores pensar do exercício do direito de resposta, que por lei os jornais são obrigados a publicar? Dão mais crédito às notícias ou aos desmentidos que provocaram?

A pertinente questão foi suscitada pela reacção de Vasco Almeida à publicação de três direitos de resposta relacionados com o caso Face Oculta. Numa carta inicial, constatava o leitor: “O PÚBLICO socorreu-se de um título de primeira página [‘Refer deixou prescrever acção contra empresário do Face Oculta’, manchete de 6 de Novembro] para noticiar um pretenso favorecimento do principal suspeito no caso [Manuel Godinho] por parte da Refer. Passados poucos dias [11 de Novembro], a Refer respondeu, de forma aliás bastante detalhada. A direcção do jornal não fez então, nem desde então, qualquer comentário à resposta da Refer: à espera do esquecimento? Há menos dias ainda [16 de Novembro], foi publicada uma carta do Sr. Joaquim Oliveira negando categoricamente qualquer favor de crédito por parte do BCP e insurgindo-se contra a repetição de uma notícia [‘BCP renegociou em Março dívida de Oliveira’, 8 de Novembro, pág. 8] publicada no PÚBLICO em Março passado, e também desmentida. A direcção não fez publicar qualquer posição que contrariasse o desmentido. Note-se que este facto foi inclusivamente usado pela nova estrela incandescente do comentadorismo nacional [Pedro Lomba], na sua primeira crónica para o PÚBLICO [‘Cronologia de um golpe’, 12 de Novembro]. A direcção acha que não tem de justificar as ‘notícias’ que dá? Os factos já não são factos?”

Seguiu-se nova carta do mesmo leitor: “Ainda a tinta não tinha secado e logo dei conta de outro desmentido suscitado por uma notícia do PÚBLICO, segundo a qual um inspector de finanças também envolvido no caso Face Oculta teria sido promovido várias vezes nos últimos anos [‘Fisco promoveu chefe com quatro condenações’, 19 de Novembro, pág. 1]. Notícia também cabalmente desmentida pelo organismo oficial envolvido [na edição de 22], e mais uma vez sem reacção da Direcção. Em que ficamos: os leitores não têm o direito de saber o grau de veracidade (total ou parcial) dos factos publicados?”

O provedor colocou estas questões à directora, que respondeu defendendo o direito de os leitores saberem o grau de veracidade das notícias: “Como regra, quando os factos publicados não são verdadeiros, o jornal corrige a informação na secção ‘O PÚBLICO errou’ logo no dia seguinte. Mas nos casos levantados pelo leitor não é disto que estamos a falar. A questão é que qualquer pessoa referida numa notícia, directa ou indirectamente, de forma que ‘possa afectar a sua reputação e boa fama’, tem direito a apresentar a sua versão dos factos aos leitores – o direito de resposta previsto na lei. O direito de resposta não existe para pôr em causa a veracidade das notícias, mas para os visados poderem apresentar a sua visão dos factos. Infelizmente, a lei permite que instituições, mesmo estatais, não prestem informações pedidas pelos jornalistas – por vezes insistentemente durante semanas e semanas – mas venham logo a seguir à publicação da notícia pôr em causa o seu rigor. A lei é aliás particularmente protectora dos protagonistas das notícias. Por exemplo, o jornal não pode recusar a publicação de um direito de resposta argumentando que o seu conteúdo não é verdadeiro, mas só se o texto não tiver relação directa com a notícia publicada ou se contiver ‘expressões desproporcionadamente desprimorosas’. A lei também diz que quando o direito de resposta é publicado, ‘só é permitida à direcção do periódico fazer uma breve anotação à mesma, da sua autoria, com o estrito fim de apontar qualquer inexactidão ou erro de facto contidos na resposta ou rectificação’. Além desta limitação legal, desde sempre que o PÚBLICO entende não ser correcto o jornal querer ter sempre a última palavra e desmentir o que vem na carta do direito de resposta. E por isso as notas da direcção escritas no fim dos direitos de resposta são, por regra, poucas e minimalistas. O nosso silêncio, nesses momentos, nada tem a ver com estar ‘à espera do esquecimento’ dos leitores, como o leitor sugere”.

Como estabelecer, então, a verdade dos factos o mais rigorosamente que seja possível? Continua Bárbara Reis: “Nenhuma destas duas questões (a lei e a nossa filosofia) impede que, após a publicação do direito de resposta, o jornal regresse ao tema (claro está que poderá haver novo direito de resposta como resultado dessa segunda notícia, e por aí fora). Foi aliás o que aconteceu, por exemplo, já depois de o direito de resposta do director-geral de Impostos ter sido publicado, em que voltámos a escrever sobre o chefe das Finanças envolvido no caso Face Oculta (‘Direcção-Geral de Impostos afasta das funções o chefe da repartição de Finanças de S. João da Madeira’, 25 de Novembro, pág. 8)”.

Conclui Bárbara Reis: “O leitor pergunta se ‘a direcção do jornal acha que não tem de justificar as ‘notícias’ que dá’. De facto, o PÚBLICO não vê grande vantagem no exercício de justificar notícias correctas. O PÚBLICO publica as notícias que considera prontas a serem publicadas e corrige-as a seguir caso contenham erros. Noto ainda que, muitas vezes, os direitos de resposta, mesmo quando têm apenas factos totalmente verdadeiros, só na aparência – e às vezes nem isso – desmentem as notícias publicadas. A metodologia é a mesma para o direito de rectificação, sobre ‘referências de facto inverídicas ou erróneas’ que digam respeito à pessoa que o exerce”.

Do modo de produção da informação jornalística resulta, com efeito, que nem sempre a verdade definitiva, rigorosa e absoluta fique estabelecida numa única notícia – embora esse deva ser sempre o objectivo a alcançar pelo seu autor. Os desenvolvimentos, as reacções, as rectificações e os desmentidos fazem parte desse processo contínuo e permanente, em que se procura atingir a tal verdade muitas vezes por um método de aproximações sucessivas (o que significa que, quando o jornal nada mais publica após um desmentido, reconhece implicitamente que o reclamante tem razão ou que não possui dados que o contradigam). Nessa medida, parecem ao provedor aceitáveis as explicações da directora.


CAIXA:

Déjà vu

O texto de opinião intitulado “O (des)processo civilizacional: a Suíça e os minaretes”, de Paulo Mendes Pinto, publicado na pág. 36 da edição da passada terça-feira era reproduzido tal qual (excepto um pequeno corte) nesse mesmo dia na secção “Blogues em papel”, do P2, sob o título “Onde estão as luzes?”. Situação insólita, revelando que o artigo não era original e já circulava na internet, que levou o provedor a solicitar uma explicação à directora

Assumindo o “erro” do jornal, Bárbara Reis esclareceu: “Paulo Mendes Pinto, que aliás já anteriormente tinha publicado artigos de opinião no jornal, enviou-nos o texto com pedido de publicação no mesmo dia em que colocou esse mesmo texto no seu blogue. Nunca imaginámos que o texto não fosse inédito. É aliás raríssimo publicarmos textos de opinião no dia em que nos chegam. Uma série de circunstâncias levou a que tivéssemos espaço suficiente nesse dia. Por azar e coincidência totais, quando o P2 pesquisou posts sobre o referendo suíço que proibiu os minaretes, encontrou o referido texto, colocado no blogue Religare nesse dia. Ao percebermos que o texto saíra duas vezes na mesma edição, contactámos o autor do artigo, que admitiu tê-lo colocado no blogue por engano”.

Bárbara Reis enviou ao provedor o pedido de desculpas apresentado por Paulo Mendes Pinto ao jornal, onde explica: “Deu-se uma falha que é apenas da minha responsabilidade. Normalmente, como não sei exactamente quando o artigo sai no PÚBLICO, coloco o texto no blogue (na parte invisível) para apenas sair uma semana depois (se entretanto sair no jornal, torno-o visível, sempre com a indicação da publicação original). Neste caso, devo ter clicado mal na data e escolhido a semana em que estava e não a semana seguinte”.

Deve dizer-se que esta repetição não é caso único, e que poderia evitar-se se o jornal tivesse um responsável pela sua coordenação global – a velha figura do chefe de redacção, infelizmente extinta na maior parte dos órgãos de informação.

Desde que, em 10 de Dezembro do ano passado, o PÚBLICO repetiu a mesma notícia (“Jay Leno fica na NBC”, na pág. 15, e “Afinal Jay Leno fica na NBC”, na pág. 11 do P2), o provedor tem vindo a tomar nota da algumas redundâncias nas páginas do jornal. É o caso da notícia sobre a morte de Lux Interior, líder da banda The Cramps, dada na pág. 20 e na pág. 13 do P2 de 6 de Fevereiro, das notícias de 23 de Setembro “Proibição de fumar em locais públicos pode evitar até um terço dos enfartes” (pág. 14) e “Proibição de fumar em público diminui ataques cardíacos” (pág. 21) ou da informação de que o actor norte-americano Morgan Freeman chegou a acordo para indemnizar a mulher que se sentava a seu lado depois de ter tido um acidente de viação, saída na secção “Pessoas” em 7 e em 9 de Setembro. Até um direito de resposta, relativo à notícia “Confederação do Comércio exige suspensão da nova lei do licenciamento comercial”, de 27 de Janeiro, saiu, ipsis verbis, duas vezes na edição de quatro dias depois, a primeira, na pág. 35, como sendo da Secretaria de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor, e a segunda logo na página seguinte, atribuída à assessora de imprensa do Ministério da Economia e da Inovação.

Até sucede que a mesma informação possa ser publicada no mesmo texto, como na notícia “Detido suposto violador de enfermeira do Amadora-Sintra”, na pág. 31 de 3 de Outubro, em cujo primeira parágrafo se falava em “uma enfermeira do Hospital Fernando Fonseca, na Amadora, que foi abordada no parque de estacionamento daquela unidade de saúde” e no segundo parágrafo que “a enfermeira, de 25 anos, foi abordada pelo alegado violador no parque de estacionamento”.

Publicada em 6 de Dezembro de 2009

sábado, 5 de dezembro de 2009

Um colunista em campanha eleitoral


No final da sua crónica na "Pública" de 20 de Setembro, Daniel Sampaio publicou a seguinte nota: "Em campanha eleitoral e a uma semana das eleições, a reflexão serena e objectiva deverá guiar o nosso voto. Os debates mostraram que Sócrates não tem rival em eficácia televisiva: combativo, bem informado, acutilante na crítica e seguro na defesa. Ferreira Leite não convenceu: propostas pouco clares (saúde, segurança social), expressões de gosto duvidoso (matar o pai e ficar órfão), considerações pouco oportunas (espanhóis). Sendo esclarecedores, os debates não foram decisivos, pelo que o voto deverá depender da resposta à questão: quem oferece mais garantias? A continuação do governo ou a mudança para o PSD? Pela minha parte, não tenho dúvidas: o governo cometeu erros (alguns denunciei aqui), mas merece uma segunda oportunidade".

Alguns leitores não apreciaram este apelo ao voto de um colunista que se dedica a escrever sobre psicologia infantil e juvenil. O leitor João Silva escreveu ao provedor: "Solicito opinião de V. Exa. acerca da 'nota' do artigo do Prof. Daniel Sampaio. Pela minha parte - sendo apreciador de há longa data de muitas das publicações do Prof. Daniel Sampaio, tendo assistido com gosto a várias intervenções públicas suas (de entre as quais me recordo, com enorme gosto, de uma tertúlia no espaço do IPJ de Viana do Castelo), acho que escusava de, como diz o povo, secundar o senhor Presidente da República e 'borrar a pintura toda'. Que pensa o senhor provedor do leitor do PÚBLICO, que foi tão acutilante e (com razão) 'malhou' no jornalista e director do PÚBLICO no caso das 'alegadas escutas'?

O próprio Daniel Sampaio, duas semanas depois, viu-se obrigado a esclarecer noutra nota final: "Alguns leitores manifestaram surpresa com a minha tomada de posição: mas há algum limitação sobre o que podem escrever os colunistas desta revista? Não existem colegas de escrita que exprimiram o seu sentido de voto?" (Na mesma nota, de resto, o cronista acentuava ainda o pendor da sua opção eleitoral: "Os resultados eleitorais mostraram de forma inequívoca que José Sócrates deve continuar como primeiro-ministro. Este é o dado mais importante do passado domingo: numa campanha centrada pela oposição na crítica sistemática à pessoa do chefe do Governo, os portugueses quiseram manifestar-lhe o seu apoio. Saúdo esse resultado como toda a satisfação: ao contrário do que afirmou M.F. Leite, havia nas ruas quem apoiasse o PS...").

O provedor, que desconhece se Daniel Sampaio foi contratado pelo PÚBLICO para escrever sobre psicologia, sobre política ou sobre qualquer assunto que deseje, não pode nem deve intervir sobre o conteúdo dos artigos de opinião, a qual é expressa livremente. Mas interroga-se sobre se não seria lógico que o PÚBLICO estabelecesse previamente com cada colunista, no momento em que é contratado, uma espécie de código de conduta que o inibisse, por exemplo, de fazer apelos directos ao voto, coisa que o próprio jornal se abstém de praticar.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Sócrates corrigido... e o resto?

Fiquei confuso com a correcção feita em "O PÚBLICO errou" de segunda-feira, dia 30 de Novembro [relativamente ao nome de Sócrates no título da crónica de Vasco Pulido Valente na véspera, que saíra sem acento].

Sei que o Provedor não tem que preocupar-se com os estados de alma dos leitores. Todavia parece-me que a pergunta é pertinente: porquê aquela correcçâo? Foi o único erro do PÚBLICO de domingo? Não foi. Foi o mais grave? É subjectivo, mas creio que não. Foi por ser um erro na última página, um título, um título de um artigo de opinião? A experiência não me aconselha resposta positiva. Foi por se tratar do nome de um dos fundadores da filosofia ocidental?

Fiquei confuso porque me lembrava de, ao ler o jornal, ter detectado vários erros, não corrigidos, mais graves que o corrigido. Repassei o jornal, segunda à noite, e localizei os seguintes (não creio que os únicos, nem pretendo que os mais importantes):

1 - Na pág. 5, no destaque "Bento XVI recebeu...", devia ter-se escrito "antes de viajarEM"; ..."os dois países de entrarEM"; e "o acordo... estabelecido pela Argentina e PELO Chile".

2 - Na pág. 8 fala-se duas vezes nas "escutas entre" fulano e cicrano, quando queria referir-se às escutas das conversas entre os dois.

3. Na pag. 9, coluna 1, escreve-se "presidente da presidente da Fundação".

4. Na pág. 16, na notícia sobre o descarrilamento do comboio russo, refere-se "ao Nevski Express, de 14 toneladas" [devendo ser "com 14 carruagens"].

Acho que basta este rol, este ror de erros, aliás não raros, não assumidos, não creio que não detectados, para uma pessoa pouco crente em coincidências, em acasos, ficar confusa com a necessidade de o PÚBLICO vir logo corrigir a falta de um acento no nome do primeiro-ministro. Porquê? Sei, claro, que não tenho direito a resposta. E se me respondessem que foi corrigido tão só porque de um erro se tratou, arescentaria que foi pena não terem também corrigido erro idêntico verificado na foto do texto da pág. 11 ["POLICIA" - sem acento].

José Monteiro

NOTA DO PROVEDOR: O provedor partilha idêntico estado de alma (e informa que poderiam juntar-se ainda outras correcções, como "Raúl Castro" em vez de "Raul Castro" na pág. 8 ou "Margarida" em vez de "Margardia" na legenda da pág. 23).

O Nobel de Llosa, as sonatas de Mahler, o homem que morreu quatro vezes e outras ficções

Os erros de informação que deviam ser logo corrigidos, mas por uma ou outra razão algumas rectificações ficam no tinteiro

Os leitores foram mantidos quatro meses na ignorância quanto ao facto de Llosa, afinal, nunca ter ganho o Nobel

Leitores atentos avisam regularmente o provedor para a publicação de certas pérolas de cultura no PÚBLICO. São erros que deviam ser logo corrigidos, mas por uma ou outra razão essas rectificações ficam por vezes no tinteiro.

Entre tais razões figuram circunstâncias que não parecem ao provedor justificáveis. O leitor José P. Costa reclamou por o PÚBLICO ter fornecido diversas datas para a recente morte do antropólogo Claude Lévi-Strauss, sem esclarecer qual era, afinal, a verdadeira: “Em 4 de Novembro, na primeira página, 'C. Lévi-Strauss [...] morreu ontem', na pág. 15, em texto de Clara Barata, é escrito que 'morreu domingo' [1 de Novembro]. A 8 de Novembro, na pág. 8 do P2, Filipe Verde diz que 'morreu em 30 de Outubro' e na pág. 8 da 'Pública' aparece: 'morreu na madrugada de sábado' [31 de Outubro]”.

Qual das quatro versões é a autêntica? Explica Clara Barata: "Só posso responder pelo texto de 4 de Novembro, na pág. 15, em que dizia que morreu no domingo; a chamada à primeira página não fui eu que a fiz e está nitidamente errada. Os outros textos são pequenas variações sobre o mesmo tema, ele terá morrido na madrugada de sábado para domingo, o que daria de 31 para Outubro para 1 de Novembro. Mas a morte dele foi mantida em segredo durante vários dias (...), e por isso mesmo diria que não é de surpreender que surjam algumas ambiguidades".

Quando o provedor perguntou à assistente da direcção coordenadora da publicação das correcções por que não se imprimiu um esclarecimento sobre a matéria, foi-lhe respondido que no dia 3, quando se pensou fazer sair o respectivo “O PÚBLICO errou”, o director de fecho entendeu em sentido contrário, porque para essa edição já estavam previstas três outras rectificações. Não parece ao provedor que seja salutar a imposição de uma quota para o reconhecimento de erros por parte do PÚBLICO: deve-se publicar o necessário para que a reputação e a credibilidade do jornal fiquem asseguradas.

Mais para trás, escreveu-se reiteradamente numa edição do PÚBLICO que o escritor de origem peruana Mario Vargas Llosa era detentor do Prémio Nobel da Literatura, o que colocou o leitor José Monteiro de sobreaviso: “Acalentei a esperança de que, enfim, o PÚBLICO, via Provedor, iria informar os seus leitores de que, de facto, Mario Vargas Llosa não é Prémio Nobel da Literatura, ao contrário do que, por três vezes, se afirma na edição de 31 de Maio, a págs. 19 e 40. Seguramente a correcção não veio no ‘PÚBLICO errou’ do dia seguinte e também nunca a detectei depois. (...) Aliás, creio que, oficialmente, Mario Vargas Llosa deixou de ser peruano... e adquiriu a nacionalidade espanhola. (...) Erro inadmissível em qualquer circunstância, e muito menos no que se diz um jornal de referência”.

O provedor demorou a publicar o reparo, mas ele aqui está: Llosa nunca ganhou o Nobel. Os leitores, porém, só puderam sabê-lo, e indirectamente, em 23 de Setembro, quando o jornal disse na pág. 9 do P2 que “o peruano Mario Vargas Llosa” figurava entre “os nomes de quem mais se fala insistentemente” para o Nobel de 2009 (o qual, mais uma vez, lhe escapou). Esclareça-se já agora que o autor de Conversa na Catedral possui dupla nacionalidade, tendo há anos adquirido a espanhola sem renunciar à de origem.

O leitor João Brandão detectou na edição de 28 de Outubro duas coisas inexistentes: a referência a “20,8 milhões de litros cúbicos” num artigo da pág. 16 sobre acusações da Aministia Internacional a Israel (“santa ignorância – estaremos num espaço a nove dimensões?”) e um título na pág. 8 do P2 dizendo que “Orquestra do Porto vai interpretar a integral das sonatas de Mahler" (tratava-se, evidentemente, das sinfonias do compositor austríaco, como vinha depois no texto – mesmo que ele tivesse composto sonatas, o que não é o caso, essas obras musicais não são tocadas por orquestra, mas em solo ou por conjuntos de câmara).

Notou outro leitor (não identificado) que na “Pública” de 25 de Novembro se mencionava Clara Petacci, a amante do ditador italiano Benito Mussolini, como “a mesma que foi enforcada ao seu lado em Abril de 1945”, acrescentando: “O direito à ignorância também pode ser exercido pelos jornalistas, mas não deve, dado que se considera que devem informar e que eles próprios se arrogam a posição de justiceiros, educadores do povo e outro delírios. E eis como Mussolini e a Claretta de fuzilados passaram a enforcados”. (Talvez o facto de os dois amantes, depois de executados, terem sido pendurados por cordas, de cabeça para baixo, numa praça de Milão tenha levado o jornalista a pensar falsamente em enforcamento).

Protestou José Manuel Beirão em 18 de Novembro: “A jornalista Isabel Coutinho, ontem no P2 [pág. 8], errou com a informação de que haja [em 2009] a primeira exposição na Alemanha ‘dedicada a Sandro Botticelli’. No ano 2000 havia uma exposição em Berlim com 125 obras de Botticelli expostas”. O provedor não encontrou referência a uma exposição em Berlim, em 2000, de 125 obras do pintor renascentista, mas nesse ano houve de facto a apresentação na capital alemã de 92 desenhos coloridos produzidos por Botticelli para ilustrar a Divina Comédia, de Dante. A jornalista não falha inteiramente, porquanto ao falar-se da obra do italiano se pensa imediatamente em quadros a óleo, mas de qualquer modo o texto careceria de um esclarecimento acerca da exposição de 2000.

Por fim, salienta-se a apertura da crónica de Teresa de Sousa na pág. 4 de 8 de Outubro: “Costuma dizer-se que o hábito faz o monge”. O provedor sempre ouviu o contrário: “O hábito não faz o monge”.

CAIXA:
A biografia de um cientista racista

Uma reportagem de Teresa Firmino publicada na pág. 18 de 7 de Novembro, sobre uma conferência dada pelo Nobel da Medicina James Watson, de nacionalidade norte-americana, na Fundação Calouste Gulbenkian, a convite da Fundação Champalimaud, motivou a seguinte reclamação de Jorge Perestrelo Botelheiro: “A noticia (...) é omissa em relação ao afastamento do James Watson de todas as instituições cientificas norte americanas de referência a que esteve associado até Outubro de 2007. As [suas] declarações [que levaram a esse afastamento], facilmente acessiveis numa busca de imprensa, referiam existirem dados cientificos que apontariam para a propensão genética da raça negra para uma menor inteligência. Penso que também deixou nessa altura de receber qualquer financiamento público ou empresarial (em Outubro de 2007 o país de James Watson ainda estava com administração republicana, e ainda não se tinha qualquer indicação segura de que o candidato democrata seria um negro). (...). Possivelmente a Fundação Champalimaud entendeu por bem valorizar as descobertas cientificas relevantes de James Watson e trazê-lo a Portugal, assumindo, por razões ideológicas ou de relacionamento pessoal, um convite que muito provavelmente não teria sido produzido por outra entidade (aliás depreende-se que, estando James Watson afastado da comunidade cientifica, o interesse da iniciativa será essencialmente para um público ‘não-cientifico’), mas o estatuto público da Fundação e a natureza marcante das declarações de James Watson sobre ‘a inteligência da raça negra’ obrigavam o PÚBLICO a um tratamento jornalistico de um elemento relevante do percurso público de James Watson, para já não mencionar a oportunidade de questionar conceitos como ‘raça’.” O mesmo leitor precisaria mais tarde: “A omissão do percurso cientifico recente de James Watson é tão mais relevante quanto se trata não apenas de um palestrante convidado mas do presidente em funçoes da Fundação Champalimaud. O PÚBLICO atribuiu facilmente a eminência cientifica a James Watson, que actualmente apenas parece ser reconhecida pela Administraçao da Fundação Champalimaud”.

Esclarece Teresa Firmino: “As declarações polémicas de James Watson sobre a inteligência dos negros, que levaram ao seu afastamento do conselho de administração do Laboratório de Cold Spring Habor, foram amplamente noticiadas pelo PÚBLICO na altura (por sinal, em artigos da minha autoria). Na pesquisa que fiz, identifiquei cinco peças jornalísticas então publicadas: “O Nobel James Watson diz que os negros são menos inteligentes” (P2, 18 de Outubro de 2007); “Palavras racistas de James Watson recebidas com chuva de críticas” (secção Mundo, 19 de Outubro de 2007); “James Watson foi suspenso do seu laboratório e pediu desculpa por comentários racistas” (Mundo, 20 de Outubro de 2007); “O Nobel James Watson deixa o seu laboratório” (Mundo, 26 de Outubro de 2007); “Afinal, o Nobel James Watson tem genes negros” (Mundo, 11 de Dezembro de 2007). Parece-me que estes artigos esgotaram a polémica. James Watson é um nome incontornável da história da ciência, por ter sido um dos descobridores da estrutura da molécula de ADN. Esse é o seu grande feito, que lhe valeu um Nobel, e é isso que leva muita gente a querer ouvi-lo, como aconteceu aliás agora em Portugal. Estar sempre a relembrar as suas declarações infelizes sobre os negros, ou sobre as mulheres, como também já fez, não me pareceu vir agora a propósito”.

Dado o relevo de tais declarações na recente biografia de James Watson, ao provedor não chocaria, antes pelo contrário, que fossem referidas num entre-virgulas no texto agora publicado.

Publicada em 29 de Novembro de 2009

DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR:

Cartas do leitor Jorge Perestrelo Botelheiro

A noticia hoje [7 de Novembro] publicada sobre a deslocação de James D. Watson a Portugal, a convite da Fundação Champalimaud, é omissa em relação ao afastamento do Professor Watson de todas as instituições cientificas norte-americanas de referência a que esteve associado até Outubro de 2007. As [suas] declarações [que levaram a esse afastamento], facilmente acessíveis numa busca de imprensa, referiam existirem dados científicos que apontariam para a propensão genética da raça negra para uma menor inteligência. Penso que também deixou nessa altura de receber qualquer financiamento público, ou empresarial (lembra-se que, em Outubro de 2007, o país do Professor James D. Watson, ainda estava com administração republicana, e ainda não se tinha qualquer indicação segura de que o candidato democrata seria um negro).

Em termos jornalísticos, o tratamento informativo da palestra para um auditório de 700 pessoas do investigador associado à descoberta do DNA omite um outro facto mais actual e relevante, até por ser organizado por uma fundação portuguesa, oriunda de um legado privado mas com estatuto de utilidade publica, e presidida por uma personalidade que procura apresentar um percurso de serviço público.

Possivelmente a Fundação Champalimaud, entendeu por bem valorizar as descobertas científicas relevantes do Professor Watson e trazê-lo a Portugal, assumindo a Fundação Champalimaud, por razões ideológicas ou de relacionamento pessoal, um convite que muito provavelmente não teria sido produzido por outra entidade (aliás depreende-se que estando Watson afastado da comunidade cientifica o interesse da iniciativa seria essencialmente para um público "não-cientifico"), mas o estatuto público da fundação, e a natureza marcante das declarações de Watson sobre "a inteligência da raça negra", obrigavam o PÚBLICO a um tratamento jornalístico de um elemento relevante do percurso público de Watson, para já não mencionar a oportunidade de questionar conceitos como "raça" (Lévi-Strauss, falecido esta semana, escreveu, salvo erro a pedido da UNESCO, Raça e História).

Jorge Perestrelo Botelheiro

A omissão do percurso científico recente de Watson é tão mais relevante quanto se trata não apenas de um palestrante convidado mas do presidente em funçoes da F. Champalimaud.

O PÚBLICO atribuiu facilmente a eminência cientifica a Watson, que actualmente apenas parece ser reconhecida pela administração da F. Champalimaud.

Jorge Perestrelo Botelheiro

Os feitos de James Watson


James Watson nasceu um menino prodígio e fez-se um cientista arrogante e pouco escrupuloso.

Dito isto, acrescento porque acho, um pouco diferente do Provedor, que a atitude racista de Watson não é de somenos importância e vem somar-se a outros defeitos humanos não menos lamentáveis.

Na história da descoberta do ADN, Watson está na linha de comportamento de Alfred Mirsky, que obstruiu a atribuição do Nobel a Oswald Avery, canadiano brilhante, que foi o primeiro a provar que o ADN era o agente hereditário (1944).

Mais tarde Linus Pauling (1950) esteve a um passo de descobrir a arquitectura do ADN, e só não o conseguiu porque imaginou-o constituído por uma hélice tripla e não dupla como se revelou ser. Mas Pauling foi pioneiro na cristalografia por raios X, técnica sem a qual a descoberta do ADN pela equipa de Watson não teria sido possível. Essa técnica, que todos os membros do grupo donimavam mal, foram obtê-la por "furto/espionagem" ao trabalho de Rosalind Franklin.

A James Watson junta-se [Francis] Crick, 12 anos mais velho. Nenhum dos dois era formado em bioquímica. Na época havia no King´s College, em Londres, uma equipe formada por dois académicos, [Maurice] Wilkins e Rosalind Franklin, muito mais adiantada e pertencente a uma organização concorrente, o que não impediu Wilkins de se aliar ao grupo e passar a espionar a colega, que, obviamente, se furtava a entregar o fruto do seu trabalho. O filho de Linus Pauling trabalhava na altura nos laboratórios de Cavendish e muito inocentemente ia dando notícias dos trabalhos do pai a Watson e a Crick.

Ambos pensaram, Watson e Crick, que se determinassem o formato de uma molécula de ADN poderiam observar como ele fazia as coisas que fazia. Mas ambos queriam conseguir a proeza com o mínimo de esforço, não importando os meios que empregassem.
Watson declarou no seu livro The Double Helix: "Era minha esperança que o gene pudesse ser descoberto ser ter de aprender química". De facto essa não era a sua formação académica.

O resultado acabou por ser conseguido de forma fortuita (para usar o eufemismo da escritora Lisa Jardine), isto é, apropriando-se dos trabalhos de Rosalind sem autorização. O simples facto de Watson ver as imagens de raios X de cristais de ADN conseguidas por Rosalind teria sido suficiente para fazer saltar a centelha que faltava a este grupo extremamente inteligente, concentrado no objectivo e pouco escrupuloso. De notar que apenas participaram na ponta final da dupla hélice Crick e Watson.

De facto, apenas dois dias, a melhor estimativa, mediaram entre tê-las visto e a montagem de uma estrutura por Crick e Watson que reproduzia a dupla hélice. Os três cientistas receberam o prémio Nobel, tendo deixado no esquecimento Rosalind Franklin.

Piorando as coisas, Watson escreve no seu livro The Double Helix acerca de Rosalind: "Não era particularmente feia caso tivesse algum gosto nas roupas que vestia"; "Não usava bâton e a sua sensibilidade indumentária revelava a imaginação de uma adolescente sabichona inglesa".

A sabichona morreu de cancro pouco passava dos 50 anos por se ter exposto, por amor à ciência, às radiações para obter as radiografias do ADN cristalizado, sem as quais o prémio Nobel muito duvidosamente teria sido ganho pelos pouco escrupulosos cientistas: não quiseram honrar o nome de Rosalind, sabendo que a fama e o proveito que conseguiram eram devidos a ela, pelo menos em grande parte.

Manuel Cruz Fernandes

O código Moctezuma

PÚBLICO de ontem, sábado, 28 de Novembro, caderno P2, reportagem extensa de Alexandra Lucas Coelho em Londres com o título: "Moctezuma - O rei azteca está de volta", página 6, destaque em corpo maior, no fundo da 1ª coluna da esquerda, junto a um foto de uma escultura, está escrito o seguinte; "Há códigos que mostram Moctezuma a ser espancado (...)"; e mais à frente: "diz o curador inglês, Colin McEwan".

Ora isto demonstra ignorância, desleixo e incompetência. Porque é absolutamente obvio que Alexandra Lucas Coelho "traduziu" à letra a palavra inglesa CODEX (termo que designa CÓDICE, no singular e plural), por - imagine-se - "códigos" em vez de "códices", que seria, evidentemente, a tradução correcta, aliás a única.

É incompreensível como uma jornalista experiente e aparentemente culta dê erros de palmatória como este. E mais incompreensível ainda é não existir no jornal um revisor competente e/ou alguém que lhe chame a atenção e lhe corrija estas incríveis calinadas e atentados à língua portuguesa.

José Oliveira