Muito me espanta a primeira parte da sua última crónica, onde analisa a minha queixa sobre a identificação do crítico de dança Tiago Bartolomeu Costa como jornalista nas páginas do PÚBLICO.
Diz o senhor que os responsáveis do PÚBLICO reconhecem a "capacidade jornalística" de Tiago Bartolomeu Costa, mas não cita nenhum deles a dizer isso. Além disso, tanto quanto sei esse reconhecimento não é feito pelos responsáveis pelos jornais, é feito pela comissão da carteira de Jornalista e pela Entidade Reguladora para a Comunicação.
Diz o senhor que o PÚBLICO "já poderia ter promovido a inscrição" de Tiago Bartolomeu Costa na comissão da carteira. Mas isso agora é assim? Qualquer um se inscreve na comissão da carteira? A lei que está disponível no site da comissão diz claramente que é preciso um estágio antes de se passar a ser considerado jornalista.
O senhor provedor desvaloriza a minha queixa, e para a desvalorizar faz tábua rasa das leis do país e das instituições que regulam uma profissão central da vida democrática.
A queixa inicial dizia respeito à identificação errada de uma pessoa nas páginas do PÚBLICO. E o provedor com esta crónica só confirma que a minha queixa tinha razão. Pena é que depois tente disfarçar. O grave disto tudo é que o senhor diz que Tiago Bartolomeu Costa não é de facto jornalista, mas acha bem que, não o sendo, ele continue a assinar reportagens num jornal de referência como o PÚBLICO.
O meu problema não é com Tiago Bartolomeu Costa, o meu problema, e foi para ele que quis chamar a sua atenção, é não saber quantas mais pessoas assinam reportagens no PÚBLICO sem estarem habilitadas para isso. É lamentável e só descredibiliza o jornal.
Leitor que pede para não ser identificado
RESPOSTA DO PROVEDOR: O leitor resume bem a crónica em causa: Tiago Bartolomeu Costa não possui o título de jornalista profissional mas o provedor não objecta a que assine reportagens no PÚBLICO. Como se explica no texto, essa liberdade é-lhe garantida pela Constituição da República Portuguesa, que é uma lei que prevalece sobre todas as leis ordinárias. E, que o provedor saiba, Tiago Bartolomeu Costa não incorre em nenhuma das incompatibilidades que o impedem, se o solicitar, de receber a carteira profissional de jornalista (o tempo em que já colaborou no PÚBLICO seria mais do que suficiente para o estágio). Sendo o jornal privado, escreve nele quem os seus responsáveis entendam convidar. E se o fizeram no caso vertente é porque reconhecem capacidade jornalística à pessoa em questão. Esclarecimento adicional: a Entidade Reguladora para a Comunicação não emite carteiras profissionais para jornalistas.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Repórter sem carteira
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Leituras instrutivas
Lido no P2 de 22 de Novembro, pág. 18:
“(...) na linha da Provença e da Toscânia (...)” (P2, 22/11, pág. 18) (erro comum na imprensa nacional: em português escreve-se "Toscana" e não "Toscânia").
Lido na edição de 26 de Outubro, pág. 16:
“ (...) lê-se na carta enviada que enviou aos três juízes do colectivo”.
Título lido na edição de 16 de Agosto, pág. 4:
“Romarias populares com menos música devido crise" (e títulos com menos preposições).
Título a quatro colunas lido na edição 23 de Maio, pág. 23:
“Medvedev ruma para Leste e Oriente para assinar acordos energéticos” (e, já agora, também para Nascente, Este e Levante).
Título lido na edição de 21 de Abril, pág. 20:
“Peniche vai vendar [sic] peixe na Internet a partir do final do mês”.
Lido no P2 de 9 de Março, pág. 15:
“(...) dedica-lhe uma canção onde se retrata das muitas infidelidades cometidas” (deverá ser "retracta").
Lido na edição de 29 de Outubro de 2008:
"'As decisões que se tomarem nos próximos meses poderão moldar o mundo e uma geração'.
Martin Wolf, comunista [sic] do Financial Times"
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domingo, 20 de dezembro de 2009
Um título inexplicável
Ao iniciar este meu protesto, tenho a afirmar que não sou militante do PS e não me situo na sua area de influência, mas não posso deixar de repudiar que na primeira pagina do PÚBLICO de hoje [20 de Dezembro] venha inserido um titulo de uma noticia desenvolvida na pagina 14 em que diz que o lider do PS pertence ou tem ligações com a um gang ["Justiça: Líder do PS esteve ligado a gang, diz Relação"].
Todos os leitores das primeiras paginas dos jornais, e são imensos, ligam imediatamente a noticia a José Socrates. Nada desculpa esta intenção de muito mau tom do jornal. Não é com este tipo de jornalismo que o PÚBLICO de se afirma.
António Correia
NOTA DO PROVEDOR: A notícia é sobre Ricardo Rodrigues, deputado e vice-presidente da bancada parlamentar do PS, e não esclarece que qualidade de líder é a sua (talvez do gang?). Este é um título que obviamente não devia ter existido.
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Portugal não é Lisboa
Por vezes os jornalistas do PÚBLICO parecem escrever apenas para os habitantes de Lisboa. Veja-se por exemplo a notícia com o título “Sindicato empresta dinheiro a polícia para representar a PSP”, na pág. 9 da edição de 30 de Novembro, onde se diz: “O polícia veio para a capital a expensas do sindicato a que pertence”. Como Portugal é um pouco mais do que a sua capital (mesmo que para Eça fosse apenas paisagem), não deveria ser “O polícia foi para a capital a expensas do sindicato a que pertence”?
Na mesma linha, Miguel Esteves Cardoso Crónica escreveu a sua crónica de 2 de Março acerca do Bairro Alto sem nunca referir que se trata de um bairro da capital. Será que os leitores de Trás-os-Montes ou da ilha Graciosa têm a obrigação de o saber?
O leitor Albano Pereira de Assunção observou algo idêntico:
"Submeto à apreciação do provedor a formulação de uma parte da notícia acerca da nomeação de Júlio Magalhães para director de informação da TV [de 9 de Setembro]. Escreve-se que 'o jornalista, actualmente a dirigir a TVI no Porto, virá para Lisboa'. Em certas notícias Lisboa parece passar a ser a cidade onde vivem todos os portugueses, incluindo os que moram no estrangeiro".
Ou ainda, cerca de um ano antes, o leitor Fernando Cardoso:
Concordo com a opinião de Rui Tavares na "Crónica sem dor" de hoje (17 de Setembro de 2008). Só não acho correcto que durante toda a primeira metade da crónica se refira a "centro da cidade", "Rua da Madalena", "Baixa" e ainda "Graça" sem ter o cuidado de esclarecer de que cidade está a falar. É da "baixa" do Porto ou de Coimbra? É do "centro" de Faro ou de Braga? E "Graça" é uma zona de Bragança ou Lisboa? Num jornal de cariz nacional os seus jornalistas deveriam deixar de olhar para o umbigo e ver mais longe: ter sempre presente que estão a escrever para o país inteiro!
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Porquê publicar estas notícias em páginas separadas?
PÚBLICO de 12 de Novembro:
Na pág. 6, com o título “A Humanidade e o Cosmos reúne cientistas no Porto” (sobre “o que será dos homens depois da descoberta da vida extraterrestre”);
na pág. 17, com o título “Vaticano: Vida extraterrestre não contradiz a fé cristã”.
PÚBLICO de 4 de Fevereiro:
Na pág. 10, com o título “Portugal acolherá até oito prisioneiros [de Guantánamo]”;
na pág. 13, com o título “Portugal deveria recolher presos de Guantánamo, diz Reprieve”.
PÚBLICO DE 1 de Setembro de 2008:
Na pág. 9, com o título “Dois homens cometem homicídio em Sesimbra e sequestram vizinho da vítima”;
na pág. 17, com o título “Homem ferido a tiro na Rua do Século durante a tarde”.
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Quem pergunta quer resposta
NOTA: Por lapso esta crónica não foi colocada na devida altura no blogue, o que se faz agora. A crónica hoje publicada pode ser lida mais abaixo.
Nas respostas aos jornal, deve prevalecer não o formalismo legal mas dar aos leitores esclarecimentos tão cabais quanto possível
O TGV é uma das principais polémicas que hoje agitam o país, e sempre foi apanágio do PÚBLICO dar o máximo de contributos aos debates cruciais
“Lista de perguntas a que era bom dar resposta” - assim se intitulava o editorial de José Manuel Fernandes saído no PÚBLICO de 17 de Junho, elencando uma série de questões a que “era bom que, ao menos, [o ministro das Obras Públicas] Mário Lino e a sua equipa pudessem responder (...) para esclarecer algumas das muitas dúvidas que o projecto do TGV levanta”. As perguntas básicas eram seis, mas, à maneira das bonecas russsas, casa uma encerrava outras, pelo que no total o director do PÚBLICO endereçava às autoridades governamentais 22 questões sobre os planos relativos ao comboio de alta velocidade.
No final, José Manuel Fernandes rematava: “Poder-se-ia continuar indefinidamente, multiplicando as questões a que não responde a muita papelada distribuída pela RAVE [Rede Ferroviária de Alta Velocidade, S.A., a empresa de capitais públicos à qual compete a implantação do TGV] e pelo ministério. Sendo assim, quem assina por baixo?”
Pelo menos uma pessoa resolveu assinar por baixo, o administrador da RAVE Carlos Fernandes, que dois dias depois remetia a José Manuel Fernandes uma carta onde respondia às 22 perguntas suscitadas. O jornal não tomou a iniciativa de publicar a carta, alegando que era demasiado longa (12.500 mil caracteres – sendo que a crónica desta página tem um tamanho médio de 10 mil caracteres), pelo que explicou José Manuel Fernandes ao provedor: “[Uma secretária da direcção do PÚBLICO] entrou em contacto com uma secretária da administração da RAVE, que a passou a alguém que não sabe identificar pela função, mas que presumo ser do departamento de comunicação. Colocou oralmente o problema de um artigo com aquela dimensão, para além de chegar em papel e não por mail, o que coloca problemas de composição (não temos ninguém para essas funções), ser impossível de paginar no P1. Indicou-lhe a dimensão ideal do texto e ele ficou de dizer qualquer coisa”.
O provedor não conseguiu apurar se o PÚBLICO recusou taxativamente a publicação da resposta. A regra que José Manuel Fernandes enunciou é o seguinte: “Habitualmente o que fazemos é sugerir que se reduza para o tamanho de um texto de opinião (que, com raras excepções, não deveriam ultrapassar os 5 mil caracteres)”.
“Recusa” ou “sugestão”, a verdade é que a empresa aceitou a atitude do jornal como imposição inapelável, e formulou nova carta, dentro do espaço exigido/sugerido, esclarecendo incluir apenas “as respostas aos três primeiros grupos de perguntas, sendo informados os leitores do PÚBLICO de que o conteúdo integral do esclarecimento às questões colocadas pelos jornal pode ser lido no site da RAVE: www.rave.pt”. Na carta, a RAVE historiava também o atribulado processo de resposta ao editorial de José Manuel Fernandes: “O senhor director do PÚBLICO entendeu que, para ser publicada, essa resposta não deveria exceder 5 mil caracteres. Obviamente, se o que se pretende é, acima de tudo, contribuir para um bom esclarecimento público, não é possível responder de forma minimamente completa e clara a 22 perguntas sobre temas complexos nesse espaço (...). Pelos vistos, não é esse o entendimento [de José Manuel Fernandes], vendo-se assim a RAVE limitada no seu legítimo direito de resposta às perguntas colocadas no referido editorial”.
A nova resposta foi publicada na secção “Cartas do Director” de 4 de Julho, mas com uma nota onde José Manuel Fernandes dizia: “Sugere-se nesta carta que o PÚBLICO teria limitado à RAVE o direito de esclarecer os nossos leitores. O PÚBLICO limitou-se a dizer que as dimensões da carta não permitiam que esta fosse publicada, na íntegra, na edição em papel, e deu como referência o tamanho do texto a que ela respondia, fazendo-o nos termos da lei. A RAVE preferiu ocupar quase um terço desse espaço a atacar a decisão do PÚBLICO em vez de responder a mais uma das 22 questões.”
A empresa entendeu então queixar-se ao provedor, em carta assinada pelo mesmo administrador, onde se concluía: “Pelas razões expostas, a RAVE reafirma que se considera limitada no seu legítimo direito de resposta às perguntas colocadas no editorial de 17 de Junho”.
A questão não escapou também ao leitor João Garcia, que reclamou junto do provedor: “Não posso deixar passar o que considero mais uma machadada no direito à informação dos leitores do PÚBLICO. (...) Afinal José Manuel Fernandes queria respostas às suas perguntas ou apenas levantar poeira para os olhos dos leitores? Afinal José Manuel Fernandes queria informar os leitores ou apenas formá-los em função das suas opções? Será que o PÚBLICO tem medo do contraditório? Sinceramente não tenho, ainda, uma opinião formada acerca da construção do TGV, pelo que estou aberto a toda a informação a favor ou contra. O PÚBLICO prestaria um bom serviço ao publicar toda a informação disponível. O argumento ridículo de que não tinha espaço para a publicação da resposta não faz qualquer sentido. Na mesma edição, são gastas oito páginas, com chamada a metade da 1ª página, com propostas utópicas para o Terreiro do Paço (...). Não estou contra esta iniciativa, mas remeter a discussão da linha de alta velocidade para uma mera ‘carta ao director’, como se de um assunto menor se tratasse, é não respeitar o direito à informação dos leitores. Mais grave, ainda, é a nota do director: criticar a RAVE por fazer um enquadramento da sua resposta e, portanto, não responder às suas 22 questões é, no mínimo, de uma petulância e um despudor que não vão bem com um jornal que se pretendia de referência”.
Respondeu José Manuel Fernandes à interpelação do provedor sobre este caso: “Se a RAVE fazia questão numa explicação mais detalhada podia ter feito o mesmo que nós fizemos: pegar no telefone e propor, por exemplo, a publicação em duas partes, ou na internet. Alguém teria falado comigo ou com alguém da direcção, como sucedeu dezenas de vezes no passado tendo-se chegado à melhor solução (e atenção que esse tipo de negociações até já envolveu textos de ex-Presidentes da República, por exemplo). A RAVE não disse mais nada e voltou a enviar a resposta por carta, que teve de ser passada para computador por uma secretária. Face a esta resposta à nossa sugestão oral, demos o assunto por encerrado e publicámos a carta mais curta”.
O provedor entende dever criticar a atitude do PÚBLICO. Evidentemente que a RAVE “fazia questão numa explicação mais detalhada”, se não não teria enviado a primeira carta. É sabido de que uma resposta, em regra, é mais longa do que a pergunta que a motiva. Se o provedor perguntar qual é a receita do bacalhau à Gomes de Sá, não espera obviamente que lhe respondam com o mesmo número de palavras com que se designa o prato. E quem pergunta de boa fé quer obter uma resposta. Logo, o jornal deveria não só congratular-se pela resposta da RAVE às 22 questões de José Manuel Fernandes como procurar maneira de a acomodar na sua edição em papel. Isto é, deveria ter uma atitude pró-activa, propondo à RAVE a solução que o director acha que competia à empresa.
Para mais, está-se perante uma das principais polémicas que hoje agitam a sociedade portuguesa, e sempre foi apanágio editorial do PÚBLICO dar o máximo de contributos aos debates cruciais para o país, não varrê-los para debaixo da carpete.
Argumentos como o PÚBLICO não ter pessoal para teclar as cartas da RAVE são de mau pagador e nem deviam ser invocados. Se não tem, que arranje (até arranjou). O provedor também passa ao computador as cartas de leitores que lhe chegam em papel (felizmente poucas), e não pede suplemento de honorários por isso. Aliás, no caso da RAVE, bastou-lhe pedir à empresa que enviasse por e-mail toda a longa correspondência antes recebida por carta, o que logo foi feito, pelo que a alegação de José Manuel Fernandes não possui qualquer razoabilidade e evidencia até alguma má vontade perante quem reclama.
Também não colhe invocar “os termos da lei” para rejeitar a publicação da primeira carta da RAVE, como fez o director na resposta à segunda. A questão não se colocava na circunstância, porque a RAVE não havia respondido ao abrigo do direito de resposta, e o provedor entende que em situações idênticas o que deve prevalecer não são os formalismos legais mas sim fornecer aos leitores esclarecimentos tão cabais quanto possível. Aliás, José Manuel Fernandes nem deveria ter comentado a forma como a RAVE geriu o seu “direito” aos 5 mil caracteres, já que a empresa é inteiramente livre de o fazer.
A RAVE andou bem neste caso, o PÚBLICO não.
CAIXA:
A fasquia dos 20 por cento
"Pela primeira vez em Portugal, a 7 de Junho os partidos à esquerda do PS obtiveram juntos mais de 20 por cento dos votos” – assim iniciava São José Almeida a sua crónica semanal da passada sexta-feira, intitulada “Os nós da esquerda”. “O pior é que muitos comentadores, editorialistas e redactores de notícias têm escrito semelhante falsidade, como se não fosse essencial, quando se escreve uma coisa, verificar se ela é verdadeira perante os factos”, comenta o leitor João Carlos Lopes. “Quem se habituou à exigência de rigor do PÚBLICO não entende como os seus jornalistas não se põem a coberto de erros desta natureza. Acontece que nas eleições de 1975, os partidos à esquerda do PS obtiveram 20,59% dos votos. Nas legislativas de 1979, o seu peso eleitoral ascendeu a 23,5% (só a APU [coligação comunista] teve 18,8%). No ano seguinte, 1980, tiveram 21,2%., com a APU a fixar-se, sozinha, nos 16,8. Não vale a pena procurar mais casos. Somam-se, nestas contas, os votos de todos os pequenos partidos, os de extrema-esquerda. Mas são partidos. E São José Almeida fala de partidos. (...) Convinha que o PÚBLICO não deixasse de ser um jornal com memória, isto é, que legitimasse o que nele se escreve em argumentos sólidos de respeito pela verdade”.
Explica a jornalista: “O que o leitor diz é verdade e é rigoroso, mas o que eu digo também é verdade e rigoroso. Como é percebido por quem ler o texto, trata-se de partidos com expressão parlamentar. Eu não falo do MEP ou do MRPP e dos outros partidos que concorrem às eleições. E cito os valores percentuais em causa do PCP e do BE, o que torna claro do que estou a falar”.
O provedor lamenta desiludir São José Almeida, mas só um dos dois é rigoroso, e trata-se do leitor: em 1979, os votos da APU e da UDP (que elegeu um deputado) totalizaram 21%.
Publicada em 16 de Agosto de 2009
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Secção: Crónicas
Notícias em néon
NOTA: Por lapso esta crónica não foi colocada na devida altura no blogue, o que se faz agora. A crónica hoje publicada pode ser lida mais abaixo.
Seria desejável que as notícias do PÚBLICO não se confundissem com marketing, mas às vezes acontece
Se a jornalista considera o Kindle vantajoso é admissível que o reconheça sem constran-
gimentos
A chamada da pág. 1 dizia: “Leitor de e-books. Cuidado, o novo Kindle vicia”. A capa do P2 anunciava: “Rendidos ao Kindle 2, o novo leitor de livros electrónicos”. E a entrada do artigo propriamente dito, nas págs. 4-6 do P2 de 30 de Junho, relatava que a autora, a jornalista Isabel Coutinho, “está completamente rendida pelo leitor de livros electrónicos da Amazon [empresa de venda de livros online]”. O texto não deixava lugar a dúvidas: “Quando se tem um Kindle nas mãos mais do que cinco minutos fica-se apaixonado por ele (...). Não queremos mais saber de outros leitores de e-books. (...) Foi isso que me aconteceu”.e
O leitor Nuno Brandão não apreciou esta linguagem: “À medida que ia lendo o artigo já não sabia se se tratava de um texto publicitário ou jornalístico, tal o tom elegíaco adoptado por quem assina. Passagens há que se assemelham à ficha técnica do produto (...). Contava que no final se escrevesse qualquer coisa como ‘viagem patrocinada pela Amazon’, mas nem isso aparece”. E questionou: ”O teor deste artigo coaduna-se com os deveres de isenção e de distanciamento comercial? Deveres esses que, presumo, são impostos pela deontologia jornalística e seguramente constam do Livro de Estilo do PÚBLICO”.
Numa primeira impressão, o provedor sentiu o mesmo desconforto do leitor, com todas as setas de néon, desde a primeira página, a apontarem para a excelência de um produto comercial. Mas Isabel Coutinho esclareceu-o: “Que fique muito claro que no final de Maio fui aos Estados Unidos de férias (viagem paga do meu bolso), comprei um Kindle 2 através do site da Amazon (pago do meu bolso) e nunca tive nenhum contacto com qualquer director de marketing ou com seja quem for da Amazon para fazer este trabalho. O texto (...) é um relato na primeira pessoa da minha experiência com o Kindle que comprei por minha iniciativa. Não é a primeira vez que no PÚBLICO escrevo sobre o Kindle ou outros aparelhos que servem para ler livros electrónicos. Mas foi a primeira vez que escrevi sobre este aparelho depois de o usar diariamente. Tenho aliás um outro aparelho para ler livros em formato electrónico, um Sony Reader, que também comprei (pago com dinheiro do meu bolso), e por isso tenho termo de comparação. Sei quais são as vantagens do Kindle em relação aos seus concorrentes e quais as desvantagens na óptica do utilizador. (...) Apesar do meu entusiasmo – que é genuíno – , vou referindo essas desvantagens no meu texto (...). Na minha coluna Ciberescritas (...) tenho escrito sobre estes aparelhos (alguns desses textos estão acessíveis no blogue Ciberescritas). Em 1 de Dezembro de 2007, escrevi o tema de capa do suplemento ‘Digital’ onde se discutia ‘se o futuro do livro passa pelo Kindle’ e fazia uma cronologia sobre todos os outros leitores de e-books (vantagens e desvantagens). Quem acompanha o meu trabalho sabe as reservas que sempre tive em relação ao Kindle, mas depois de o comprar e utilizar todos os dias mudei de opinião”.
Mais do que uma opinião, o provedor considera o artigo, na verdade, um testemunho de quem testa um produto comercial e fornece um ponto de vista individual sobre as suas virtudes e os seus defeitos (no caso vertente, mais aquelas do que estes). Sendo assim, é admissível que, se a jornalista considera o produto vantajoso, o possa reconhecer sem constrangimentos e sem perder a isenção, no âmbito do registo pessoal utilizado.
Ao contrário do que pressupõe o leitor, nem o Livro de Estilo do PÚBLICO nem o Código Deontológico dos jornalistas portugueses contêm disposições limitando este estilo de escrita, que alguns considerarão “promocional” se a apreciação for positiva, mas que poderá ser demolidora se o jornalista achar o teste decepcionante.
É claro que existem disposições sobre objectividade jornalística (“pluralidade das fontes, investigação cuidada” – estipula o Livro de Estilo) e que o artigo em causa se baseia sobretudo na subjectividade da repórter, que não confronta a sua experiência com a de outros utilizadores do aparelho. Mas, aplicada à letra, essa regra eliminaria o género de jornalismo testemunhal que pode enriquecer os media. O tema não se esgota no texto de Isabel Coutinho, e o PÚBLICO poderá cumprir tal desiderato procurando outros pontos de vista e acompanhando a evolução do sector.
De um artigo extenso para uma notícia de um parágrafo, mantém-se o risco de se confundir marketing e jornalismo. É o caso da nota não assinada inserida na pág. 15 de 3 de Julho anunciando que "a Visão Junior, da Impresa, única revista nacional dedicada à faixa etária 6-14 anos, é a primeira publicação periódica a integrar o Plano Nacional de Leitura [PNL]". Para a leitora Claudia S. V., a notícia “está completamente errada”, por três razões: “1. Esta revista não é nem nunca foi a única revista nacional dedicada ao público infanto-juvenil; posso pelo menos mencionar seis títulos, dedicados ao mesmo target (...). 2. Por mais abrangente que se queira ser (...), quem é que não acha estranho que uma revista seja direccionada a um target de 6 aos 14 anos? (...) Os interesses em comum entre estas idades são zero (...). 3. Lamento informar, mas esta revista não é a primeira publicação periódica a ter o apoio do PNL. Acredito que seja bom querer passar a mensagem de que foram os primeiros, mas outros (...) já o fizeram anteriormente. A primeira publicação periódica foi um suplemento do jornal O 1º de Janeiro, ‘O Janeirinho’, dirigido a crianças, e das revistas (...) foi a Giggle, para o target juvenil”.
Ana Fernandes, que editou a notícia, explica que se tratava de um versão sintética da que fora difundida na véspera pelo PUBLICO.PT: “Como tive de a reduzir muito (...), cortei um dado essencial, como se pode ver comparando com o original: ‘Única revista nacional de informação dedicada à faixa etária 6-14 anos’. Este dado muda muito (...). O erro foi meu, assumo-o e lamento. (...) Em relação aos outros dois pontos, não me parece que a leitora tenha razão – o target é definido pela Visão Júnior, não temos nada a ver com isso (lembro-me que a Tintin se apresentava como uma revista para um público dos 7 aos 77) (...)”.
Quanto ao suposto pioneirismo da revista visada, esclarece Ana Machado, a autora das duas notícias (online e papel): “Sobre o facto de ser a primeira, é verdade, uma vez que a tal Giggle é uma publicação exclusivamente electrónica, dedicada a crianças e famílias, coisa que a leitora não refere. E sobre o ‘Janeirinho’ não é uma revista, é um suplemento”.
Se toda a gende lesse notícias pelo Kindle, talvez o problema não se colocasse, já que se dispensava o resumo da notícia. De todo o modo, tanto na versão electrónica como na impressa o provedor detecta dois problemas: assume-se como facto que a revista se destina mesmo ao público dos 6-14 anos (o que não passará de um slogan comercial, tal como os 7-77 da antiga Tintin) e não existe a necessária menção à fonte ou fontes que transmitiram os dados, o que salvaguardaria melhor a posição do jornal.
CAIXA:
A síndrome da bica
Por que será que, tão amiúde, os jornalistas não acertam na concordância entre sujeito e predicado em casos de género (masculino/feminino) e quantidade (singular/plural)? Parece que suspenderam a frase a meio para tomar um café ou fumar um cigarro e, no regresso, continuaram a escrever sem ler o que estava atrás. Casos recentes do PÚBLICO: “a forma como reagiu ontem (...) às notícias sobre as trapalhadas do recenseamento eleitoral mostram que mantém o estilo” (13 de Julho, pág. 32); “A derrota dos socialistas nas eleições para o Parlamento Europeu levaram o secretário-geral do PS, José Sócrates, a tomar uma decisão inédita” (6/7, pág. 1); “A leitura das primeiras páginas desse livro lembraram-lhe a descrição da Belém do Pará” (P2, 6/7, pág. 4); “O mediatismo à volta das acções da mãe de Martim podem ter pesado” (legenda, 1/7, pág. 6); “As imagens do vaivém Atlantis a ser transportado por um avião no Centro Espacial Kennedy chocou o Vaticano” (Inimigo Público, 11/6, pág. 6); “o alargamento definitivo dos passeios e a redução do trânsito na Praça do Comércio tem sido elogiada” (2/6, pág. 23); “os Verdes, presididos por Daniel Cohn-Bendit, que reforçaram fortemente a sua presença no PE com 52 deputados, defendeu pelo contrário uma frente ‘anti-Barroso’” (9/6, pág. 9); “BPN e envolvimento do PSD volta em força ao discurso socialista” (título, 2/6, pág. 8); “O paradigma da sociedade da abundância e do desperdício, do consumo fácil, (...) não trouxeram a felicidade” (P2, 15/5, pág. 3); “Críticas à lei do financiamento incomoda socialistas” (título, 7/5, pág. 6); “A intensificação dos atentados e o aumento significativo do número de vítimas mortais da violência em Abril no Iraque mostra um regresso em força da insurreição sunita” (4/5, pág. 12); “Suspeitas de maus tratos e de alegada negligência médica leva Ministério Público a levantar corpo da urna” (entrada, 18/4, pág. 18); “o cariz de intervenção e alerta social marcaram sempre presença” (15/4, pág. 6); “Novas regras de colocação de professores faz crescer procura de diplomas de Espanhol” (título, 30/3 pág. 7); “O primeiro-ministro José Sócrates, acompanhado pelo ministro da Economia Manuel Pinho, visitaram ontem a Energie” (P2, 25/3, pág. 2); “Cada vez mais o nosso destino pessoal e de nossos filhos (...) estão da dependência do Estado” (26/3, pág. 33); “Os julgamentos na praça pública, feitos através da comunicação social que dá voz apenas aos intervenientes que decide defender, tornou-se um hábito em Portugal” (26/3, pág. 34); “Livre-trânsito de 23 quadros de serviço de informações foram reproduzidos num sistema acessível a centenas de pessoas” (entrada, 14/2, pág. 6); “as reacções do treinador a cada um dos falhanços dos avançados mostrava a todos os que seguiam o jogo o estado de espírito dominante” (P2, 13/2, pág. 2); “A Media Capital viu os seus lucros cair 36 por cento” (13/2, pág. 33); “para ver se algum voto de protesto e o prestígio local de muitos presidentes de câmara safa o partido” (13/2, pág. 37); “o apelo, em campanhas eleitorais, ao voto emanadas de organizações religiosas” (P2, 12/2, pág. 3); “manjava conquilhas com um à-vontade que fariam James Bond parecer um matarruano” (10/2, pág. 35). Mas que fazer, se o próprio Livro de Estilo do jornal está afectado da mesma síndrome: “A capa dos suplementos e da Pública não incluirão publicidade” (pág. 172)?
Publicada em 19 de Julho de 2009
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14:24
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