sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Ao menos que tenha ficado contente

“Grávida esteve três horas e meia num contentador [sic] do Hospital Garcia de Orta à espera de ser atendida” (entrada de notícia, 22 de Novembro, pág. 7).

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

E quem será a esposa num matrimónio gay?


Elton John é marido de George Michael (na foto), mas tem como marido David Furnish. Será preciso rever os dicionários?

O PÚBLICO de 10 de Dezembro, na página 15 do P2, numa notícia alusiva a George Michael, escreve "o marido de Elton John" (expressão repetida umas linhas mais abaixo [noutra notícia, falando-se de David Furnish como "marido" de Elton John]).

Segundo creio os senhores jornalistas devem usar a língua portuguesa com precisão e propriedade.

O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (Academia das Ciências de Lisboa) define marido como "homem casado em relação à mulher com quem está ligado pelo matrimónio; homem unido a uma mulher pelo casamento".

É claro que o recurso sucessivo a esta terminologia incorrecta não resulta de um mero lapso.

Julgar-se-ão os senhores jornalistas com direito a alterar a lei e os costumes através da sua escrita?

Acresce, ainda que não modifique a questão de fundo, que, segundo tem sido divulgado, não existe no sistema britânico o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas um instituto próprio que lhes concede direitos quando coabitam.

Será legítimo usar expressões que implicam uma posição ideológica definida em meras notícias que não são artigos de opinião?

Maria de Lourdes Garcia

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Crónica imperfeita


Na sua crónica “Assuntos temporários”, publicada no PÚBLICO de 15 de Dezembro com o título "Ideais imperfeitos", Pedro Lomba, discutindo a atribuição do Prémio Nobel da Paz, refere ser este prémio visivelmente sobrevalorizado, “bastando percorrer a lista de outros premiados (Carter, Gandhi, Organização da Cruz Vermelha) para percebermos que não há um critério mas vários”.

A incorrecção, demonstrativa de ignorância e falta de rigor, é a referência a Ghandi como premiado com o Nobel da Paz. Injustamente, tal facto nunca sucedeu, apesar de ter sido nomeado por diversas vezes.

É pena, até porque o artigo em causa é genericamente interessante.

Daniel Bonhorst

NOTA DO PROVEDOR: Parece ter-se estabelecido como lenda urbana que Gandhi ganhou o Nobel da Paz, já que vários órgãos de informação em Portugal o referiram a propósito da vitória de Obama.

A verdade em construção

A publicação de um direito de resposta não significa forçosamente que a respectiva notícia não tenha fundamento


O desmentido de Joaquim Oliveira era “pessoal e confidencial”, pelo que nunca foi dado à estampa

A anterior crónica do provedor (“A verdade a que temos direito”), acerca da publicação por este jornal de cartas ao abrigo do “direito de resposta” que desmentem notícias do PÚBLICO, motivou mensagens de insatisfação de dois leitores perante o que um deles designa como as “observações condescendentes” expostas como conclusão (as mensagens podem ser lidas na íntegra no blogue do provedor).

Em questão estava a reputação do jornal perante os seus leitores, que ficariam sem saber a que dar mais crédito: se às notícias, se aos respectivos desmentidos. A directora explicou o modo de funcionamento do direito de resposta, nunca reconhecendo que nos três casos em análise, todos relacionados directa ou indirectamente com o processo Face Oculta, o jornal havia errado na informação transmitida, mas admitindo a hipótese de mais tarde se voltar a abordar o mesmo tema nestas páginas. O provedor considerou aceitáveis as explicações de Bárbara Reis, adiantando também que “quando o jornal nada mais publica após um desmentido, reconhece implicitamente que o reclamante tem razão ou que não possui dados que o contradigam”.

Reagiu Vasco Almeida, o leitor que antes havia suscitado o problema: “O PÚBLICO pode não ver ‘grande vantagem no exercício de justificar notícias correctas’ [palavras de Bárbara Reis], mas há notícias e notícias. E quando uma delas se reporta a um caso de apaixonado interesse nacional, o PÚBLICO não só tem o dever de justificar como de demonstrar a veracidade daquilo que reporta, sob pena de não poder ser considerado de ‘referência’ na sua prática”.

Acrescentou por outro lado Augusto J. Franco de Oliveira: “Nos três exemplos (...) a conclusão inevitável é que a notícia publicada foi cabalmente desmentida e o desmentido foi aceite como bom pela direcção do PÚBLICO. Estamos a falar, portanto, de notícias reconhecidas como falsas pela direcção do jornal (...). Pelo menos duas das notícias envolvem a honorabilidade de pessoas, a qual é posta em causa frontal mas falsamente. Muitas pessoas só lêem as capas dos jornais, nos escaparates e bancadas dos quiosques e papelarias, e nunca terão oportunidade de ler os desmentidos ou até as eventuais admissões de erro por parte do jornal. Fica assim feito o mal de maneira irremediável. Tratando-se de casos com implicações judiciais, tais notícias falsas acabam por colocar em causa a credibilidade das investigações e favorecer os eventuais culpados, se os houver (...). Não é isso que mais me preocupa, mas sim o eventual prejuízo moral a pessoas que mereciam a presunção de inocência e o simples facto de estarmos em presença de um mau jornalismo que não verifica previamente a veracidade dos alegados factos relatados em casos como os presentes”.

O provedor esclarece que a intenção da sua crónica não era analisar especificamente os casos em si, mas sim, genericamente, os mecanismos e as implicações do exercício do direito de resposta, tendo sido nesse sentido que considerou razoáveis as explicações adiantadas por Bárbara Reis.

Há contudo que reconhecer que as objecções levantadas pelos dois leitores são pertinentes, pelo que os casos merecem ser mais bem esmiuçados. Em primeiro lugar, sublinhe-se a efectiva responsabilidade social do jornalismo, e, nessa medida, as implicações que sempre existem quando uma notícia lança uma suspeição de ilegalidade ou irregularidade sobre um cidadão ou uma instituição. Por muitos desmentidos que se façam ou mesmo que um tribunal condene o jornalista, haverá uma mácula que nunca se apagará totalmente. Daí a necessidade de ponderar cautelosamente a publicação desse tipo de notícias, através da comprovação dos dados por fontes seguras e credíveis e da audição dos visados. Isto quando se pretende praticar um jornalismo “exigente e de qualidade”, “orientado por critérios de rigor” e que tenha “como limiar de existência a sua credibilidade pública”, como estabelece o Estatuto Editorial do PÚBLICO.

Por ordem cronológica, no primeiro caso, relativo à manchete de 6 de Novembro (“Refer deixou prescrever acção contra empresário do Face Oculta”), a empresa visada, no seu direito de resposta, publicado cinco dias depois, afirmou que “não deixou prescrever o prazo para apresentação de acção cível em tribunal”. O jornal adicionou uma pequena nota esclarecendo que a notícia em causa fora baseada num acórdão do Tribunal da Relação do Porto, sem porém rebater a alegação da Refer. Terá existido da parte do PÚBLICO, de facto, algum descuido no tratamento da informação: não foi posto em causa o parágrafo inicial da notícia (“A Refer precisou de mais de três anos para intentar uma acção cível contra uma empresa do universo de Manuel José Godinho, o único detido do processo Face Oculta”), mas houve um excesso quando se viu nisso uma prescrição que não terá existido. Admita-se por isso alguma falta de rigor, que porém não tem equivalência com o desmentido cabal de que falam os leitores – na sua essência (exceptuando a questão da prescrição), a notícia pareceu correcta aos olhos do provedor.

A segunda notícia, “BCP renegociou em Março dívida de [Joaquim] Oliveira”, publicada em 8 de Novembro na pág. 8, suscitou da parte deste empresário da comunicação social um direito de resposta, publicado oito dias depois, onde dizia: “Tal notícia traduz-se numa republicação de factos falsos que haviam sido publicados pelo PÚBLICO em 11 de Março de 2009. Tal republicação é particularmente censurável uma vez que os pretensos factos foram objecto de desmentido formal em carta de 19 de Março de 2009, enviada para o anterior director do PÚBLICO”.

A ser assim, o caso parecia assumir gravidade, uma vez que o jornal reincidia numa informação já antes desmentida pelo visado, sem o contactar e sem se mencionar esse desmentido. Mas, pelo que o provedor soube agora, a carta enviada em Março ao director do PÚBLICO pelo proprietário do grupo Controlinveste possuía a chancela “pessoal e confidencial”, pelo que o desmentido nunca foi dado à estampa. A jornalista autora da mais recente notícia terá por isso tomado por boa a informação publicada há nove meses. O facto de entretanto ter havido mudança de director no PÚBLICO eliminou a última instância de controle que poderia existir.

Mas isto não serve de desculpa à actuação do jornal. Na verdade, o problema residiu na notícia publicada em 11 de Março, que não invocou uma só fonte sequer e muito menos mencionou qualquer tentativa de contacto com o empresário – duas falhas incompreensíveis. Apenas se recorria, no penúltimo parágrafo, à fórmula “Segundo o PÚBLICO apurou...”, método já reiteradamente criticado pelo provedor nesta coluna.

Por fim, a notícia “Chefe do fisco que ajudava Godinho foi promovido com três directores-gerais”, saída em 18 de Novembro na pág. 8, motivou um direito de resposta do director-geral de Impostos, publicado em 22 de Novembro, onde se afirmava que “o funcionário em causa não foi alvo de qualquer promoção após ter sido nomeado chefe de Finanças” numa data em que “em que não havia qualquer condenação em processo-crime a impedir a sua nomeação” (apenas “meras suspeitas”). Lendo-se a notícia, para cuja elaboração foi ouvido um dos ex-directores-gerais, percebe-se que o jornalista considerou promoções as transferências do visado para chefiar serviços em zonas mais populosas, sem que isso, em rigor, representasse uma subida no escalão hierárquico.

Nesse aspecto, pode considerar-se ter havido mais uma vez um excesso, sendo que, contudo, o essencial dos factos descritos na notícia estava certo. Aliás, três dias depois da publicação do desmentido, o PÚBLICO noticiava a exoneração do protagonista do caso (“Direcção-Geral de Impostos afasta das funções o chefe da repartição de Finanças de S. João da Madeira”), o que terá ocorrido na véspera de o Tribunal de Aveiro lhe ter imposto, como medida de coacção na qualidade de arguido do caso Face Oculta, a suspensão de funções.

Na base das três notícias, houve por conseguinte erros jornalísticos que deviam ter sido evitados, mas a publicação dos direitos de resposta não significou, ao contrário da interpretação feita pelos leitores, que elas tivessem falta de fundamento ou que pusessem em causa qualquer presunção de inocência. Vale porém a sua interpelação como chamada de atenção para a necessidade de maior rigor por parte dos jornalistas do PÚBLICO.


CAIXA:

Mortes de 1ª e mortes de 2ª

O PÚBLICO de 30 de Novembro noticiava na primeira página o assassínio a tiro de uma mulher pelo marido em Montemor-o-Velho. A chamada remetia para a página 4, inteiramente ocupada com uma reportagem sobre o tema. Só no seio do texto interior o leitor descobria que o homicida teria assassinado na mesma altura um soldado da GNR, sem que essa informação tivesse sido dada na primeira página ou no antetítulo, título, entrada ou legenda da pág. 4.

O leitor José P. Costa até reparou na discrepância com que o assunto foi tratado: “No primeiro parágrafo aparece 'O atirador, que a seguir terá morto um elemento da GNR' e já no fim da notícia 'ele sacou de um revólver e baleou dois militares, um dos quais morreu'. Esta é uma notícia dinâmica: 'terá morto' e depois 'morreu'.”

Mas o que o provedor gostaria de sublinhar é que, no cumprimento de uma qualquer agenda politicamente correcta, a vida de um membro da GNR parece estar bem menos valorizada do que a de uma vítima de violência doméstica. Quantos mais mortos terá o assassino de uma mulher que fazer para que possam merecer idêntica atenção do jornal?
Aliás, no PÚBLICO da última quarta-feira, o assassínio, também a tiro, de um homem pela mulher, em S. Bartolomeu de Messines, mereceu apenas uma nota de quatro linhas, enquanto nas duas edições seguintes os casos de duas mulheres baleadas pelos maridos, em Vila do Conde e em Sintra (aqui fatalmente) foram objecto de notícias a quatro colunas. O título desta última anunciava até que “Mulher de 34 anos é a 28º vítima [este ano] de violência doméstica”, estatística onde não foi incluído o homem de S. Bartolomeu de Messines.

A questão, afinal, é que os membros dessa classe opressora que são os homens não são julgados dignos da mesma consideração quando morrem em incidentes de violência doméstica.

Publicada em 13 de Dezembro de 2009

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Estatuto editorial do PÚBLICO

* PÚBLICO é um projecto de informação em sintonia com o processo de mudanças tecnológicas e de civilização no espaço público contemporâneo.

* PÚBLICO é um jornal diário de grande informação, orientado por critérios de rigor e criatividade editorial, sem qualquer dependência de ordem ideológica, política e económica.

* PÚBLICO inscreve-se numa tradição europeia de jornalismo exigente e de qualidade, recusando o sensacionalismo e a exploração mercantil da matéria informativa.

* PÚBLICO aposta numa informação diversificada, abrangendo os mais variados campos de actividade e correspondendo às motivações e interesses de um público plural.

* PÚBLICO entende que as novas possibilidades técnicas de informação implicam um jornalismo eficaz, atractivo e imaginativo na sua permanente comunicação com os leitores.

* PÚBLICO estabelece as suas opções editoriais sem hierarquias prévias entre os diversos sectores de actividade, numa constante disponibilidade para o estímulo dos acontecimentos e situações que, quotidianamente, são noticiados e comentados.

* PÚBLICO considera que a existência de uma opinião pública informada, activa e interveniente é condição fundamental da democracia e da dinâmica de uma sociedade aberta, que não fixa fronteiras regionais, nacionais e culturais aos movimentos de comunicação e opinião.

* PÚBLICO participa no debate das grandes questões que se colocam à sociedade portuguesa na perspectiva da construção do espaço europeu e de um novo quadro internacional de relações.

* PÚBLICO é responsável apenas perante os leitores, numa relação rigorosa e transparente, autónoma do poder político e independente de poderes particulares.

* PÚBLICO reconhece como seu único limite o espaço privado dos cidadãos e tem como limiar de existência a sua credibilidade pública.

Estatuto do provedor do PÚBLICO

Preâmbulo

Ao instituir o cargo de provedor do Leitor, a Direcção do PÚBLICO dá corpo a uma aspiração presente desde a fundação do jornal e oferece aos leitores um interlocutor permanente, independente e responsável pela defesa dos seus direitos.

Em simultâneo, o provedor constitui para os jornalistas do PÚBLICO uma instância crítica do seu trabalho à luz das normas deontológicas que regem a profissão. Esta reflexão crítica não é exercida apenas como resposta à iniciativa dos leitores, antes se exprime em análises e recomendações transmitidas sempre que o provedor o julgue necessário.

Nenhuma Redacção dispõe da massa de conhecimentos e da capacidade crítica que os leitores de um jornal representam. Atender, analisar e encaminhar as dúvidas, queixas e sugestões dos leitores são competências do provedor que contribuem para aumentar a confiança dos leitores no seu jornal diário e para tornar mais transparentes os processos e decisões jornalísticos que intervêm na produção das notícias.

Essa relação de confiança é o capital mais precioso do PÚBLICO, tal como o seu estatuto editorial reconhece quando afirma: o “PÚBLICO é responsável apenas perante os leitores, numa relação rigorosa e transparente, autónoma do poder político e independente dos poderes particulares”.

A criação do cargo de provedor do leitor é, para a Direcção e para todos os jornalistas do PÚBLICO, uma consequência natural desta consciência de que um jornal de referência só o pode ser se garantir em permanência a defesa dos direitos dos leitores.


Definição

O provedor do leitor do PÚBLICO (adiante designado por provedor) é uma pessoa de reconhecido prestígio, credibilidade e integridade pessoal e profissional, cuja actividade principal tenha estado nos últimos cinco anos relacionada com a problemática dos media, de preferência enquanto jornalista.

A Direcção do PÚBLICO porá à disposição do provedor todos os meios necessários para que este cumpra a sua missão de garantir a defesa dos direitos dos leitores.

O provedor orienta a sua intervenção pelo Código Deontológico do Jornalista, pelo Estatuto Editorial e pelo Livro de Estilo do PÚBLICO.


Competências

O provedor desenvolverá a sua acção com total autonomia e independência face a quaisquer órgãos do jornal ou da empresa e compete-lhe:

1. Avaliar a pertinência das queixas, sugestões e críticas dos leitores, produzindo as recomendações internas que delas decorrerem.

2. Esclarecer os leitores sobre os métodos usados e os factos relevantes, envolvendo a edição de notícias que suscitem perplexidade junto do público.

3. Investigar as condições que levaram à publicação de notícias ofensivas dos direitos dos leitores.

4. Transmitir aos leitores, à Redacção ou à Direcção do PÚBLICO a sua reflexão sobre eventuais desrespeitos pelas normas deontológicas que ocorram no jornal.

5. Manter uma coluna semanal nas páginas do jornal sobre matérias da sua competência e, em geral, da ética e deontologia jornalística.

6. Propor à Direcção Editorial a publicação de quaisquer outros textos ou recomendações no âmbito das suas competências.

7. Em todas as comunicações, internas ou públicas, que digam respeito a notícias editadas no PÚBLICO, o provedor é obrigado a ouvir o(s) jornalista(s) responsáveis por estas e a divulgar as opiniões recolhidas.

8. O ponto anterior deixa de se aplicar quando o(s) jornalista(s) interpelado(s) pelo provedor nada responder(em) num prazo de 72 horas.


Nomeação e cessação de funções

1. O provedor é nomeado pelo prazo de um ano, renovável por idêntico período, pela Direcção do jornal após parecer favorável do Conselho de Redacção.

2. A nomeação do provedor implica:

a) A realização de um contrato conforme ao presente Estatuto, entre a PÚBLICO Comunicação SA e o futuro titular do cargo, caso este não faça parte dos quadros redactoriais do PÚBLICO.

b) A dispensa do desempenho de quaisquer outras funções, caso o futuro titular do cargo faça parte dos quadros redactoriais do PÚBLICO. Nesta situação, ao cessar as suas funções como provedor, o jornalista será reintegrado no trabalho diário do jornal nas mesmas condições económicas e laborais de que gozava antes da nomeação.

3. Nenhum provedor pode ser nomeado por mais de dois mandatos consecutivos.

4. O mandato do provedor só cessa antes do período estatuído:

a) por impossibilidade prolongada (superior a 45 dias) do exercício de funções;

b) por vontade expressa do próprio.


Incompatibilidades

São incompatíveis com as funções de provedor do leitor o exercício de funções jornalísticas, a colaboração regular em qualquer órgão de comunicação social e quaisquer outras que ponham em causa a independência e isenção do seu estatuto.


Disposições finais

Este Estatuto, que pode ser revisto no final do mandato do provedor, obteve o parecer favorável do Conselho de Redacção e passa a fazer parte integrante do Livro de Estilo do PÚBLICO.

A Direcção do PÚBLICO

Lisboa, 23 de Fevereiro de 1997
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Um PIB bastante elástico

Bem sei que os textos são da Lusa, mas se o PÚBLICO os aceita publicar não apenas lhes dá crédito como os assume como seus.

Assim, no dia 3 de Dezembro, assegurava-se que um certo estudo teria concluido que "o sector das energias contribuirá com uma total de 4 mil milhões de euros para o Produto Interno Bruto (PIB), ou 2,4 por cento".

Já no dia 7, informava-se que o governo "concedeu em 2008 ajudas de Estado aprovadas por Bruxelas no valor de 20 mil milhões de euros para ajudar a combater a crise económica e financeira” e que “o valor das ajudas aprovadas por Bruxelas para 2008 é equivalente a 0,26 por cento do produto interno bruto (PIB) português“.

Ora temos então que no dia 3, dois mil milhões serão 1,3% do PIB e no dia 7, uma quantia 10 vezes superior seria apenas de 0,26% do PIB!

Sendo certo que, infelizmente, o PIB não variou assim tanto em quatro dias, mais confusos ficamos por, no último texto, se indicar que as ajudas do Estado em 2008 foram no valor de 1,5 mil milhões e que tal seria 0,93% do PIB.

A supor que se trata de algum erro com as virgulas, mas fazendo um conta de três simples, terá o PÚBLICO perdido uma cacha estrondosa por 20 mil milhões serem na verdade 20% do PIB? Mas isso também não deve ser verdade, pois não?
Mistério...!

Gabriel Silva

NOTA DO PROVEDOR: A primeira notícia refere-se a uma percentagem do PIB em 2015, o que só agrava a discrepância, pois não é suposto que o PIB sofra tão acentuada evolução negativa até lá.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Sobre a verdade a que temos direito

Relativamente à crónica de 6 de Dezembro, não partilho de modo nenhum das suas observações condescendentes e conclusões no último parágrafo, nomeadamente a última: "...parecem ao provedor aceitáveis as explicações da directora."

Vejamos as razões da minha discordância.

Nos três exemplos citados desde o início do artigo por um outro leitor (Vasco Almeida) relativos a notícias sobre o caso Face Oculta (sendo duas de primeira página) a conclusão inevitável é que a notícia publicada foi cabalmente desmentida e o desmentido foi aceite como bom pela direcção do PÚBLICO. Estamos a falar, portanto, de notícias reconhecidas como falsas pela direcção do jornal, não estamos a falar de "erros" que pudessem ser corrigidos na secção "O PÚBLICO errou". Erros são, por exemplo, a troca de um nome, de uma data de nascimento.

De facto, pelo menos duas das notícias envolvem a honorabilidade de pessoas, a qual é posta em causa frontal mas falsamente. Muitas pessoas só lêem as capas dos jornais, nos escaparates e bancadas dos quiosques e papelarias, e nunca terão oportunidade de ler os desmentidos ou até as eventuais admissões de erro por parte do jornal.

Fica assim feito o mal de maneira irremediável. Tratando-se de casos com implicações judiciais, tais notícias falsas acabam por colocar em causa a credibilidade das investigações e favorecer os eventuais culpados, se os houver, mas não creio que tenha sido essa a intenção dos redactores. Todavia, também não é isso que mais me preocupa, mas sim o eventual prejuízo moral a pessoas que mereciam a presunção de inocência e o simples facto de estarmos em presença de um mau jornalismo que não verifica previamente a veracidade dos alegados factos relatados em casos como os presentes. Admito que errar é humano, e que os jornalistas são falíveis como qualquer outra pessoa, mas acho que estamos a falar de coisas de um outro nível de erro.

Não me parecem aceitáveis, portanto, e ao contrário do que diz o Provedor no final da sua crónica, as respostas e justificações da directora, que não parece reconhecer a falsidade dos factos relatados como consequência directa de um mau jornalismo praticado no jornal que dirije, mas remete a questão para um "direito de resposta previsto na lei", acrescentando que "o direito de resposta não existe para pôr em causa a veracidade das notícias, mas para os visados poderem apresentar a sua
visão dos factos".

Os factos acima e estas observações da directora deixam-me perplexo e muito em dúvida sobre a real qualidade do jornalismo que se quer "de referência".
A verdade a que temos direito, Sr. Provedor, ou a falsidade que não merecemos?

Augusto J. Franco de Oliveira

Quero em primeiro lugar agradecer ao Provedor e à Directora do PÚBLICO a atenção que deram às minhas cartas, na origem da crónica do Provedor. Mas fiquei com uma ou outra
interrogação.

1. Qualquer leitor sabe que o direito de resposta está para as direcções dos jornais como a avaliação dos professores para as respectivas organizações sindicais: estão violentamente de acordo desde que daí não resultem efeitos práticos. Daí talvez a enumeração dos respectivos malefícios discriminados pela Directora. Mas o direito de resposta era a última das minhas preocupações: o que me move é a necessidade de
estabelecimento de um clima de confiança entre um jornal e o leitor que o adquire regularmente, e lê.

2. Não chega dizer que "quando os factos publicados não são verdadeiros, o jornal corrige a informação na secção ‘O PÚBLICO errou’ logo no dia seguinte." A diferença entre um título de primeira página ou um desenvolvimento na segunda e a proeminência do espaço alocado à referida secção dispensa considerações adicionais da minha parte.

3. O PÚBLICO pode não ver "grande vantagem no exercício de justificar notícias correctas", mas há notícias e notícias. E quando uma delas se reporta a um caso de apaixonado interesse nacional, o PÚBLICO não só tem o dever de justificar como de demonstrar a veracidade daquilo que reporta, sob pena de não poder ser considerado de "referência" na sua prática. Compare-se, a título de exemplo, o pequeno artigo
intitulado "Godinho pagou duas vezes no mesmo dia", na página 9 da edição de 7 do corrente, e pense-se nas implicações que ele tem para todos os títulos, subtítulos e desenvolvimentos mais ou menos escandalizados que entretanto foram dados à estampa nas vossas páginas. Considera a Direcção do PÚBLICO que essa é maneira intelectualmente aceitável de informar os seus leitores? Como leitor, eu considero-me ludibriado, e não é pelo Sr. Godinho, ou pelo Sr. Vara, ou por um "empresário de Setúbal".

4. Aquilo que o Provedor chamou de "método de aproximações sucessivas ao rigor dos factos", e que a mim parece mais a ausência de uma política rigorosa de transmissão da informação, pode ser exemplificada também por aquela notícia, sobre a qual o Provedor já se debruçou, quanto à chegada de Inglaterra de uns documentos relativos ao caso Freeport. A notícia foi completamente desmentida pelo próprio PÚBLICO, mas infelizmente o método de aproximação escolhido foi o recurso a uma descarada mentira: a falha foi do computador. Ora uma vida profissional na informática assegura-me que nenhum computador, ou grupo deles, tem as costas tão largas.

5. "A verdade a que temos direito" implica que todos os agentes com responsabilidades funcionais ou sociais intervenham para assegurar que casos de "rede tentacular" não se transformem em episódios de "choquinhos à algarvia", o que de certa forma o PÚBLICO já antecipou com aquela saborosa incursão aos restaurantes do Face Oculta.

6. Mas, mais do que isso, daqui talvez decorra que "a verdade a que temos direito" só seja exequível se o PÚBLICO não aceitar ser um simples retransmissor de notícias cujo enquadramento, fontes, conteúdo e objectivos escapam completamente ao seu controlo.

Vasco Almeida

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Manchete deficitária

O PÚBLICO de hoje [8 de Dezembro] tem o seguinte título de capa: "Défice da CP dava para pagar TGV até Elvas e nova ponte sobre o Tejo". Duas asneiras num só título. Em primeiro lugar não é de défice que estão a falar, mas sim de dívida, grosso modo, o conjunto de défices acumulados dos últimos anos. Em segundo lugar, a pretensão de pagar uma obra com dívidas já contraídas. Este sim, é um conceito extraordinário. Da próxima vez que comprar um carro, em vez de pagar em dinheiro, pago com a minha dívida ao banco. Não podia haver melhor negócio. Não só não pago nada como ainda vejo a minha dívida ao banco diminuída no valor do preço do automóvel. O ministro das Finanças deve contratar imediatamente o génio financeiro que inventou este novo conceito. Na verdade, o texto da notícia [pág. 20] diz: "O défice da CP, a transportadora ferroviária pública de Portugal, é actualmente de 3,1 mil milhões de euros, verba equivalente à que vai custar a linha de TGV entre Lisboa e Elvas, com a terceira travessia do Tejo incluída." Ou seja, ainda tem a primeira asneira, mas não a segunda, que tem certamente a mão do editor que, em vez filtrar o texto do jornalista, o "tabloidiza".

Pedro Braz Teixeira

NOTA DO PROVEDOR: Conceda-se indulgência ao editor cuja necessidade de elaborar um título sintético e apelativo nem sempre se compagina com o rigor absoluto. Mas não há de facto razão para se falar de défice em vez de dívida - ainda por cima o número de caracteres é o mesmo.

Meia verdade é mentira inteira

Hoje [7 de Dezembro, pág. 9] o PÚBLICO tem uma notícia cujo título é, mais uma vez, meia verdade: "Tribunal absolve jovem detido com faca". O jornalista Jorge Talixa, no entanto, conclui [no último parágrafo da notícia] que o tribunal "manteve a condenação a dez meses de cadeia (pena suspensa) pelo crime de resistência e coacção sobre funcionário" - a outra metade da verdade! Assim, não vale!

Leitor identificado

domingo, 6 de dezembro de 2009

A verdade a que temos direito

O jornalismo funciona muitas vezes pelo método de aproximações sucessivas ao rigor dos factos



A Refer desmentiu que favorecesse Manuel Godinho e o jornal não reagiu. Preferiu esquecer?



Que devem os leitores pensar do exercício do direito de resposta, que por lei os jornais são obrigados a publicar? Dão mais crédito às notícias ou aos desmentidos que provocaram?

A pertinente questão foi suscitada pela reacção de Vasco Almeida à publicação de três direitos de resposta relacionados com o caso Face Oculta. Numa carta inicial, constatava o leitor: “O PÚBLICO socorreu-se de um título de primeira página [‘Refer deixou prescrever acção contra empresário do Face Oculta’, manchete de 6 de Novembro] para noticiar um pretenso favorecimento do principal suspeito no caso [Manuel Godinho] por parte da Refer. Passados poucos dias [11 de Novembro], a Refer respondeu, de forma aliás bastante detalhada. A direcção do jornal não fez então, nem desde então, qualquer comentário à resposta da Refer: à espera do esquecimento? Há menos dias ainda [16 de Novembro], foi publicada uma carta do Sr. Joaquim Oliveira negando categoricamente qualquer favor de crédito por parte do BCP e insurgindo-se contra a repetição de uma notícia [‘BCP renegociou em Março dívida de Oliveira’, 8 de Novembro, pág. 8] publicada no PÚBLICO em Março passado, e também desmentida. A direcção não fez publicar qualquer posição que contrariasse o desmentido. Note-se que este facto foi inclusivamente usado pela nova estrela incandescente do comentadorismo nacional [Pedro Lomba], na sua primeira crónica para o PÚBLICO [‘Cronologia de um golpe’, 12 de Novembro]. A direcção acha que não tem de justificar as ‘notícias’ que dá? Os factos já não são factos?”

Seguiu-se nova carta do mesmo leitor: “Ainda a tinta não tinha secado e logo dei conta de outro desmentido suscitado por uma notícia do PÚBLICO, segundo a qual um inspector de finanças também envolvido no caso Face Oculta teria sido promovido várias vezes nos últimos anos [‘Fisco promoveu chefe com quatro condenações’, 19 de Novembro, pág. 1]. Notícia também cabalmente desmentida pelo organismo oficial envolvido [na edição de 22], e mais uma vez sem reacção da Direcção. Em que ficamos: os leitores não têm o direito de saber o grau de veracidade (total ou parcial) dos factos publicados?”

O provedor colocou estas questões à directora, que respondeu defendendo o direito de os leitores saberem o grau de veracidade das notícias: “Como regra, quando os factos publicados não são verdadeiros, o jornal corrige a informação na secção ‘O PÚBLICO errou’ logo no dia seguinte. Mas nos casos levantados pelo leitor não é disto que estamos a falar. A questão é que qualquer pessoa referida numa notícia, directa ou indirectamente, de forma que ‘possa afectar a sua reputação e boa fama’, tem direito a apresentar a sua versão dos factos aos leitores – o direito de resposta previsto na lei. O direito de resposta não existe para pôr em causa a veracidade das notícias, mas para os visados poderem apresentar a sua visão dos factos. Infelizmente, a lei permite que instituições, mesmo estatais, não prestem informações pedidas pelos jornalistas – por vezes insistentemente durante semanas e semanas – mas venham logo a seguir à publicação da notícia pôr em causa o seu rigor. A lei é aliás particularmente protectora dos protagonistas das notícias. Por exemplo, o jornal não pode recusar a publicação de um direito de resposta argumentando que o seu conteúdo não é verdadeiro, mas só se o texto não tiver relação directa com a notícia publicada ou se contiver ‘expressões desproporcionadamente desprimorosas’. A lei também diz que quando o direito de resposta é publicado, ‘só é permitida à direcção do periódico fazer uma breve anotação à mesma, da sua autoria, com o estrito fim de apontar qualquer inexactidão ou erro de facto contidos na resposta ou rectificação’. Além desta limitação legal, desde sempre que o PÚBLICO entende não ser correcto o jornal querer ter sempre a última palavra e desmentir o que vem na carta do direito de resposta. E por isso as notas da direcção escritas no fim dos direitos de resposta são, por regra, poucas e minimalistas. O nosso silêncio, nesses momentos, nada tem a ver com estar ‘à espera do esquecimento’ dos leitores, como o leitor sugere”.

Como estabelecer, então, a verdade dos factos o mais rigorosamente que seja possível? Continua Bárbara Reis: “Nenhuma destas duas questões (a lei e a nossa filosofia) impede que, após a publicação do direito de resposta, o jornal regresse ao tema (claro está que poderá haver novo direito de resposta como resultado dessa segunda notícia, e por aí fora). Foi aliás o que aconteceu, por exemplo, já depois de o direito de resposta do director-geral de Impostos ter sido publicado, em que voltámos a escrever sobre o chefe das Finanças envolvido no caso Face Oculta (‘Direcção-Geral de Impostos afasta das funções o chefe da repartição de Finanças de S. João da Madeira’, 25 de Novembro, pág. 8)”.

Conclui Bárbara Reis: “O leitor pergunta se ‘a direcção do jornal acha que não tem de justificar as ‘notícias’ que dá’. De facto, o PÚBLICO não vê grande vantagem no exercício de justificar notícias correctas. O PÚBLICO publica as notícias que considera prontas a serem publicadas e corrige-as a seguir caso contenham erros. Noto ainda que, muitas vezes, os direitos de resposta, mesmo quando têm apenas factos totalmente verdadeiros, só na aparência – e às vezes nem isso – desmentem as notícias publicadas. A metodologia é a mesma para o direito de rectificação, sobre ‘referências de facto inverídicas ou erróneas’ que digam respeito à pessoa que o exerce”.

Do modo de produção da informação jornalística resulta, com efeito, que nem sempre a verdade definitiva, rigorosa e absoluta fique estabelecida numa única notícia – embora esse deva ser sempre o objectivo a alcançar pelo seu autor. Os desenvolvimentos, as reacções, as rectificações e os desmentidos fazem parte desse processo contínuo e permanente, em que se procura atingir a tal verdade muitas vezes por um método de aproximações sucessivas (o que significa que, quando o jornal nada mais publica após um desmentido, reconhece implicitamente que o reclamante tem razão ou que não possui dados que o contradigam). Nessa medida, parecem ao provedor aceitáveis as explicações da directora.


CAIXA:

Déjà vu

O texto de opinião intitulado “O (des)processo civilizacional: a Suíça e os minaretes”, de Paulo Mendes Pinto, publicado na pág. 36 da edição da passada terça-feira era reproduzido tal qual (excepto um pequeno corte) nesse mesmo dia na secção “Blogues em papel”, do P2, sob o título “Onde estão as luzes?”. Situação insólita, revelando que o artigo não era original e já circulava na internet, que levou o provedor a solicitar uma explicação à directora

Assumindo o “erro” do jornal, Bárbara Reis esclareceu: “Paulo Mendes Pinto, que aliás já anteriormente tinha publicado artigos de opinião no jornal, enviou-nos o texto com pedido de publicação no mesmo dia em que colocou esse mesmo texto no seu blogue. Nunca imaginámos que o texto não fosse inédito. É aliás raríssimo publicarmos textos de opinião no dia em que nos chegam. Uma série de circunstâncias levou a que tivéssemos espaço suficiente nesse dia. Por azar e coincidência totais, quando o P2 pesquisou posts sobre o referendo suíço que proibiu os minaretes, encontrou o referido texto, colocado no blogue Religare nesse dia. Ao percebermos que o texto saíra duas vezes na mesma edição, contactámos o autor do artigo, que admitiu tê-lo colocado no blogue por engano”.

Bárbara Reis enviou ao provedor o pedido de desculpas apresentado por Paulo Mendes Pinto ao jornal, onde explica: “Deu-se uma falha que é apenas da minha responsabilidade. Normalmente, como não sei exactamente quando o artigo sai no PÚBLICO, coloco o texto no blogue (na parte invisível) para apenas sair uma semana depois (se entretanto sair no jornal, torno-o visível, sempre com a indicação da publicação original). Neste caso, devo ter clicado mal na data e escolhido a semana em que estava e não a semana seguinte”.

Deve dizer-se que esta repetição não é caso único, e que poderia evitar-se se o jornal tivesse um responsável pela sua coordenação global – a velha figura do chefe de redacção, infelizmente extinta na maior parte dos órgãos de informação.

Desde que, em 10 de Dezembro do ano passado, o PÚBLICO repetiu a mesma notícia (“Jay Leno fica na NBC”, na pág. 15, e “Afinal Jay Leno fica na NBC”, na pág. 11 do P2), o provedor tem vindo a tomar nota da algumas redundâncias nas páginas do jornal. É o caso da notícia sobre a morte de Lux Interior, líder da banda The Cramps, dada na pág. 20 e na pág. 13 do P2 de 6 de Fevereiro, das notícias de 23 de Setembro “Proibição de fumar em locais públicos pode evitar até um terço dos enfartes” (pág. 14) e “Proibição de fumar em público diminui ataques cardíacos” (pág. 21) ou da informação de que o actor norte-americano Morgan Freeman chegou a acordo para indemnizar a mulher que se sentava a seu lado depois de ter tido um acidente de viação, saída na secção “Pessoas” em 7 e em 9 de Setembro. Até um direito de resposta, relativo à notícia “Confederação do Comércio exige suspensão da nova lei do licenciamento comercial”, de 27 de Janeiro, saiu, ipsis verbis, duas vezes na edição de quatro dias depois, a primeira, na pág. 35, como sendo da Secretaria de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor, e a segunda logo na página seguinte, atribuída à assessora de imprensa do Ministério da Economia e da Inovação.

Até sucede que a mesma informação possa ser publicada no mesmo texto, como na notícia “Detido suposto violador de enfermeira do Amadora-Sintra”, na pág. 31 de 3 de Outubro, em cujo primeira parágrafo se falava em “uma enfermeira do Hospital Fernando Fonseca, na Amadora, que foi abordada no parque de estacionamento daquela unidade de saúde” e no segundo parágrafo que “a enfermeira, de 25 anos, foi abordada pelo alegado violador no parque de estacionamento”.

Publicada em 6 de Dezembro de 2009

sábado, 5 de dezembro de 2009

Um colunista em campanha eleitoral


No final da sua crónica na "Pública" de 20 de Setembro, Daniel Sampaio publicou a seguinte nota: "Em campanha eleitoral e a uma semana das eleições, a reflexão serena e objectiva deverá guiar o nosso voto. Os debates mostraram que Sócrates não tem rival em eficácia televisiva: combativo, bem informado, acutilante na crítica e seguro na defesa. Ferreira Leite não convenceu: propostas pouco clares (saúde, segurança social), expressões de gosto duvidoso (matar o pai e ficar órfão), considerações pouco oportunas (espanhóis). Sendo esclarecedores, os debates não foram decisivos, pelo que o voto deverá depender da resposta à questão: quem oferece mais garantias? A continuação do governo ou a mudança para o PSD? Pela minha parte, não tenho dúvidas: o governo cometeu erros (alguns denunciei aqui), mas merece uma segunda oportunidade".

Alguns leitores não apreciaram este apelo ao voto de um colunista que se dedica a escrever sobre psicologia infantil e juvenil. O leitor João Silva escreveu ao provedor: "Solicito opinião de V. Exa. acerca da 'nota' do artigo do Prof. Daniel Sampaio. Pela minha parte - sendo apreciador de há longa data de muitas das publicações do Prof. Daniel Sampaio, tendo assistido com gosto a várias intervenções públicas suas (de entre as quais me recordo, com enorme gosto, de uma tertúlia no espaço do IPJ de Viana do Castelo), acho que escusava de, como diz o povo, secundar o senhor Presidente da República e 'borrar a pintura toda'. Que pensa o senhor provedor do leitor do PÚBLICO, que foi tão acutilante e (com razão) 'malhou' no jornalista e director do PÚBLICO no caso das 'alegadas escutas'?

O próprio Daniel Sampaio, duas semanas depois, viu-se obrigado a esclarecer noutra nota final: "Alguns leitores manifestaram surpresa com a minha tomada de posição: mas há algum limitação sobre o que podem escrever os colunistas desta revista? Não existem colegas de escrita que exprimiram o seu sentido de voto?" (Na mesma nota, de resto, o cronista acentuava ainda o pendor da sua opção eleitoral: "Os resultados eleitorais mostraram de forma inequívoca que José Sócrates deve continuar como primeiro-ministro. Este é o dado mais importante do passado domingo: numa campanha centrada pela oposição na crítica sistemática à pessoa do chefe do Governo, os portugueses quiseram manifestar-lhe o seu apoio. Saúdo esse resultado como toda a satisfação: ao contrário do que afirmou M.F. Leite, havia nas ruas quem apoiasse o PS...").

O provedor, que desconhece se Daniel Sampaio foi contratado pelo PÚBLICO para escrever sobre psicologia, sobre política ou sobre qualquer assunto que deseje, não pode nem deve intervir sobre o conteúdo dos artigos de opinião, a qual é expressa livremente. Mas interroga-se sobre se não seria lógico que o PÚBLICO estabelecesse previamente com cada colunista, no momento em que é contratado, uma espécie de código de conduta que o inibisse, por exemplo, de fazer apelos directos ao voto, coisa que o próprio jornal se abstém de praticar.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Sócrates corrigido... e o resto?

Fiquei confuso com a correcção feita em "O PÚBLICO errou" de segunda-feira, dia 30 de Novembro [relativamente ao nome de Sócrates no título da crónica de Vasco Pulido Valente na véspera, que saíra sem acento].

Sei que o Provedor não tem que preocupar-se com os estados de alma dos leitores. Todavia parece-me que a pergunta é pertinente: porquê aquela correcçâo? Foi o único erro do PÚBLICO de domingo? Não foi. Foi o mais grave? É subjectivo, mas creio que não. Foi por ser um erro na última página, um título, um título de um artigo de opinião? A experiência não me aconselha resposta positiva. Foi por se tratar do nome de um dos fundadores da filosofia ocidental?

Fiquei confuso porque me lembrava de, ao ler o jornal, ter detectado vários erros, não corrigidos, mais graves que o corrigido. Repassei o jornal, segunda à noite, e localizei os seguintes (não creio que os únicos, nem pretendo que os mais importantes):

1 - Na pág. 5, no destaque "Bento XVI recebeu...", devia ter-se escrito "antes de viajarEM"; ..."os dois países de entrarEM"; e "o acordo... estabelecido pela Argentina e PELO Chile".

2 - Na pág. 8 fala-se duas vezes nas "escutas entre" fulano e cicrano, quando queria referir-se às escutas das conversas entre os dois.

3. Na pag. 9, coluna 1, escreve-se "presidente da presidente da Fundação".

4. Na pág. 16, na notícia sobre o descarrilamento do comboio russo, refere-se "ao Nevski Express, de 14 toneladas" [devendo ser "com 14 carruagens"].

Acho que basta este rol, este ror de erros, aliás não raros, não assumidos, não creio que não detectados, para uma pessoa pouco crente em coincidências, em acasos, ficar confusa com a necessidade de o PÚBLICO vir logo corrigir a falta de um acento no nome do primeiro-ministro. Porquê? Sei, claro, que não tenho direito a resposta. E se me respondessem que foi corrigido tão só porque de um erro se tratou, arescentaria que foi pena não terem também corrigido erro idêntico verificado na foto do texto da pág. 11 ["POLICIA" - sem acento].

José Monteiro

NOTA DO PROVEDOR: O provedor partilha idêntico estado de alma (e informa que poderiam juntar-se ainda outras correcções, como "Raúl Castro" em vez de "Raul Castro" na pág. 8 ou "Margarida" em vez de "Margardia" na legenda da pág. 23).

O Nobel de Llosa, as sonatas de Mahler, o homem que morreu quatro vezes e outras ficções

Os erros de informação que deviam ser logo corrigidos, mas por uma ou outra razão algumas rectificações ficam no tinteiro

Os leitores foram mantidos quatro meses na ignorância quanto ao facto de Llosa, afinal, nunca ter ganho o Nobel

Leitores atentos avisam regularmente o provedor para a publicação de certas pérolas de cultura no PÚBLICO. São erros que deviam ser logo corrigidos, mas por uma ou outra razão essas rectificações ficam por vezes no tinteiro.

Entre tais razões figuram circunstâncias que não parecem ao provedor justificáveis. O leitor José P. Costa reclamou por o PÚBLICO ter fornecido diversas datas para a recente morte do antropólogo Claude Lévi-Strauss, sem esclarecer qual era, afinal, a verdadeira: “Em 4 de Novembro, na primeira página, 'C. Lévi-Strauss [...] morreu ontem', na pág. 15, em texto de Clara Barata, é escrito que 'morreu domingo' [1 de Novembro]. A 8 de Novembro, na pág. 8 do P2, Filipe Verde diz que 'morreu em 30 de Outubro' e na pág. 8 da 'Pública' aparece: 'morreu na madrugada de sábado' [31 de Outubro]”.

Qual das quatro versões é a autêntica? Explica Clara Barata: "Só posso responder pelo texto de 4 de Novembro, na pág. 15, em que dizia que morreu no domingo; a chamada à primeira página não fui eu que a fiz e está nitidamente errada. Os outros textos são pequenas variações sobre o mesmo tema, ele terá morrido na madrugada de sábado para domingo, o que daria de 31 para Outubro para 1 de Novembro. Mas a morte dele foi mantida em segredo durante vários dias (...), e por isso mesmo diria que não é de surpreender que surjam algumas ambiguidades".

Quando o provedor perguntou à assistente da direcção coordenadora da publicação das correcções por que não se imprimiu um esclarecimento sobre a matéria, foi-lhe respondido que no dia 3, quando se pensou fazer sair o respectivo “O PÚBLICO errou”, o director de fecho entendeu em sentido contrário, porque para essa edição já estavam previstas três outras rectificações. Não parece ao provedor que seja salutar a imposição de uma quota para o reconhecimento de erros por parte do PÚBLICO: deve-se publicar o necessário para que a reputação e a credibilidade do jornal fiquem asseguradas.

Mais para trás, escreveu-se reiteradamente numa edição do PÚBLICO que o escritor de origem peruana Mario Vargas Llosa era detentor do Prémio Nobel da Literatura, o que colocou o leitor José Monteiro de sobreaviso: “Acalentei a esperança de que, enfim, o PÚBLICO, via Provedor, iria informar os seus leitores de que, de facto, Mario Vargas Llosa não é Prémio Nobel da Literatura, ao contrário do que, por três vezes, se afirma na edição de 31 de Maio, a págs. 19 e 40. Seguramente a correcção não veio no ‘PÚBLICO errou’ do dia seguinte e também nunca a detectei depois. (...) Aliás, creio que, oficialmente, Mario Vargas Llosa deixou de ser peruano... e adquiriu a nacionalidade espanhola. (...) Erro inadmissível em qualquer circunstância, e muito menos no que se diz um jornal de referência”.

O provedor demorou a publicar o reparo, mas ele aqui está: Llosa nunca ganhou o Nobel. Os leitores, porém, só puderam sabê-lo, e indirectamente, em 23 de Setembro, quando o jornal disse na pág. 9 do P2 que “o peruano Mario Vargas Llosa” figurava entre “os nomes de quem mais se fala insistentemente” para o Nobel de 2009 (o qual, mais uma vez, lhe escapou). Esclareça-se já agora que o autor de Conversa na Catedral possui dupla nacionalidade, tendo há anos adquirido a espanhola sem renunciar à de origem.

O leitor João Brandão detectou na edição de 28 de Outubro duas coisas inexistentes: a referência a “20,8 milhões de litros cúbicos” num artigo da pág. 16 sobre acusações da Aministia Internacional a Israel (“santa ignorância – estaremos num espaço a nove dimensões?”) e um título na pág. 8 do P2 dizendo que “Orquestra do Porto vai interpretar a integral das sonatas de Mahler" (tratava-se, evidentemente, das sinfonias do compositor austríaco, como vinha depois no texto – mesmo que ele tivesse composto sonatas, o que não é o caso, essas obras musicais não são tocadas por orquestra, mas em solo ou por conjuntos de câmara).

Notou outro leitor (não identificado) que na “Pública” de 25 de Novembro se mencionava Clara Petacci, a amante do ditador italiano Benito Mussolini, como “a mesma que foi enforcada ao seu lado em Abril de 1945”, acrescentando: “O direito à ignorância também pode ser exercido pelos jornalistas, mas não deve, dado que se considera que devem informar e que eles próprios se arrogam a posição de justiceiros, educadores do povo e outro delírios. E eis como Mussolini e a Claretta de fuzilados passaram a enforcados”. (Talvez o facto de os dois amantes, depois de executados, terem sido pendurados por cordas, de cabeça para baixo, numa praça de Milão tenha levado o jornalista a pensar falsamente em enforcamento).

Protestou José Manuel Beirão em 18 de Novembro: “A jornalista Isabel Coutinho, ontem no P2 [pág. 8], errou com a informação de que haja [em 2009] a primeira exposição na Alemanha ‘dedicada a Sandro Botticelli’. No ano 2000 havia uma exposição em Berlim com 125 obras de Botticelli expostas”. O provedor não encontrou referência a uma exposição em Berlim, em 2000, de 125 obras do pintor renascentista, mas nesse ano houve de facto a apresentação na capital alemã de 92 desenhos coloridos produzidos por Botticelli para ilustrar a Divina Comédia, de Dante. A jornalista não falha inteiramente, porquanto ao falar-se da obra do italiano se pensa imediatamente em quadros a óleo, mas de qualquer modo o texto careceria de um esclarecimento acerca da exposição de 2000.

Por fim, salienta-se a apertura da crónica de Teresa de Sousa na pág. 4 de 8 de Outubro: “Costuma dizer-se que o hábito faz o monge”. O provedor sempre ouviu o contrário: “O hábito não faz o monge”.

CAIXA:
A biografia de um cientista racista

Uma reportagem de Teresa Firmino publicada na pág. 18 de 7 de Novembro, sobre uma conferência dada pelo Nobel da Medicina James Watson, de nacionalidade norte-americana, na Fundação Calouste Gulbenkian, a convite da Fundação Champalimaud, motivou a seguinte reclamação de Jorge Perestrelo Botelheiro: “A noticia (...) é omissa em relação ao afastamento do James Watson de todas as instituições cientificas norte americanas de referência a que esteve associado até Outubro de 2007. As [suas] declarações [que levaram a esse afastamento], facilmente acessiveis numa busca de imprensa, referiam existirem dados cientificos que apontariam para a propensão genética da raça negra para uma menor inteligência. Penso que também deixou nessa altura de receber qualquer financiamento público ou empresarial (em Outubro de 2007 o país de James Watson ainda estava com administração republicana, e ainda não se tinha qualquer indicação segura de que o candidato democrata seria um negro). (...). Possivelmente a Fundação Champalimaud entendeu por bem valorizar as descobertas cientificas relevantes de James Watson e trazê-lo a Portugal, assumindo, por razões ideológicas ou de relacionamento pessoal, um convite que muito provavelmente não teria sido produzido por outra entidade (aliás depreende-se que, estando James Watson afastado da comunidade cientifica, o interesse da iniciativa será essencialmente para um público ‘não-cientifico’), mas o estatuto público da Fundação e a natureza marcante das declarações de James Watson sobre ‘a inteligência da raça negra’ obrigavam o PÚBLICO a um tratamento jornalistico de um elemento relevante do percurso público de James Watson, para já não mencionar a oportunidade de questionar conceitos como ‘raça’.” O mesmo leitor precisaria mais tarde: “A omissão do percurso cientifico recente de James Watson é tão mais relevante quanto se trata não apenas de um palestrante convidado mas do presidente em funçoes da Fundação Champalimaud. O PÚBLICO atribuiu facilmente a eminência cientifica a James Watson, que actualmente apenas parece ser reconhecida pela Administraçao da Fundação Champalimaud”.

Esclarece Teresa Firmino: “As declarações polémicas de James Watson sobre a inteligência dos negros, que levaram ao seu afastamento do conselho de administração do Laboratório de Cold Spring Habor, foram amplamente noticiadas pelo PÚBLICO na altura (por sinal, em artigos da minha autoria). Na pesquisa que fiz, identifiquei cinco peças jornalísticas então publicadas: “O Nobel James Watson diz que os negros são menos inteligentes” (P2, 18 de Outubro de 2007); “Palavras racistas de James Watson recebidas com chuva de críticas” (secção Mundo, 19 de Outubro de 2007); “James Watson foi suspenso do seu laboratório e pediu desculpa por comentários racistas” (Mundo, 20 de Outubro de 2007); “O Nobel James Watson deixa o seu laboratório” (Mundo, 26 de Outubro de 2007); “Afinal, o Nobel James Watson tem genes negros” (Mundo, 11 de Dezembro de 2007). Parece-me que estes artigos esgotaram a polémica. James Watson é um nome incontornável da história da ciência, por ter sido um dos descobridores da estrutura da molécula de ADN. Esse é o seu grande feito, que lhe valeu um Nobel, e é isso que leva muita gente a querer ouvi-lo, como aconteceu aliás agora em Portugal. Estar sempre a relembrar as suas declarações infelizes sobre os negros, ou sobre as mulheres, como também já fez, não me pareceu vir agora a propósito”.

Dado o relevo de tais declarações na recente biografia de James Watson, ao provedor não chocaria, antes pelo contrário, que fossem referidas num entre-virgulas no texto agora publicado.

Publicada em 29 de Novembro de 2009

DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR:

Cartas do leitor Jorge Perestrelo Botelheiro

A noticia hoje [7 de Novembro] publicada sobre a deslocação de James D. Watson a Portugal, a convite da Fundação Champalimaud, é omissa em relação ao afastamento do Professor Watson de todas as instituições cientificas norte-americanas de referência a que esteve associado até Outubro de 2007. As [suas] declarações [que levaram a esse afastamento], facilmente acessíveis numa busca de imprensa, referiam existirem dados científicos que apontariam para a propensão genética da raça negra para uma menor inteligência. Penso que também deixou nessa altura de receber qualquer financiamento público, ou empresarial (lembra-se que, em Outubro de 2007, o país do Professor James D. Watson, ainda estava com administração republicana, e ainda não se tinha qualquer indicação segura de que o candidato democrata seria um negro).

Em termos jornalísticos, o tratamento informativo da palestra para um auditório de 700 pessoas do investigador associado à descoberta do DNA omite um outro facto mais actual e relevante, até por ser organizado por uma fundação portuguesa, oriunda de um legado privado mas com estatuto de utilidade publica, e presidida por uma personalidade que procura apresentar um percurso de serviço público.

Possivelmente a Fundação Champalimaud, entendeu por bem valorizar as descobertas científicas relevantes do Professor Watson e trazê-lo a Portugal, assumindo a Fundação Champalimaud, por razões ideológicas ou de relacionamento pessoal, um convite que muito provavelmente não teria sido produzido por outra entidade (aliás depreende-se que estando Watson afastado da comunidade cientifica o interesse da iniciativa seria essencialmente para um público "não-cientifico"), mas o estatuto público da fundação, e a natureza marcante das declarações de Watson sobre "a inteligência da raça negra", obrigavam o PÚBLICO a um tratamento jornalístico de um elemento relevante do percurso público de Watson, para já não mencionar a oportunidade de questionar conceitos como "raça" (Lévi-Strauss, falecido esta semana, escreveu, salvo erro a pedido da UNESCO, Raça e História).

Jorge Perestrelo Botelheiro

A omissão do percurso científico recente de Watson é tão mais relevante quanto se trata não apenas de um palestrante convidado mas do presidente em funçoes da F. Champalimaud.

O PÚBLICO atribuiu facilmente a eminência cientifica a Watson, que actualmente apenas parece ser reconhecida pela administração da F. Champalimaud.

Jorge Perestrelo Botelheiro

Os feitos de James Watson


James Watson nasceu um menino prodígio e fez-se um cientista arrogante e pouco escrupuloso.

Dito isto, acrescento porque acho, um pouco diferente do Provedor, que a atitude racista de Watson não é de somenos importância e vem somar-se a outros defeitos humanos não menos lamentáveis.

Na história da descoberta do ADN, Watson está na linha de comportamento de Alfred Mirsky, que obstruiu a atribuição do Nobel a Oswald Avery, canadiano brilhante, que foi o primeiro a provar que o ADN era o agente hereditário (1944).

Mais tarde Linus Pauling (1950) esteve a um passo de descobrir a arquitectura do ADN, e só não o conseguiu porque imaginou-o constituído por uma hélice tripla e não dupla como se revelou ser. Mas Pauling foi pioneiro na cristalografia por raios X, técnica sem a qual a descoberta do ADN pela equipa de Watson não teria sido possível. Essa técnica, que todos os membros do grupo donimavam mal, foram obtê-la por "furto/espionagem" ao trabalho de Rosalind Franklin.

A James Watson junta-se [Francis] Crick, 12 anos mais velho. Nenhum dos dois era formado em bioquímica. Na época havia no King´s College, em Londres, uma equipe formada por dois académicos, [Maurice] Wilkins e Rosalind Franklin, muito mais adiantada e pertencente a uma organização concorrente, o que não impediu Wilkins de se aliar ao grupo e passar a espionar a colega, que, obviamente, se furtava a entregar o fruto do seu trabalho. O filho de Linus Pauling trabalhava na altura nos laboratórios de Cavendish e muito inocentemente ia dando notícias dos trabalhos do pai a Watson e a Crick.

Ambos pensaram, Watson e Crick, que se determinassem o formato de uma molécula de ADN poderiam observar como ele fazia as coisas que fazia. Mas ambos queriam conseguir a proeza com o mínimo de esforço, não importando os meios que empregassem.
Watson declarou no seu livro The Double Helix: "Era minha esperança que o gene pudesse ser descoberto ser ter de aprender química". De facto essa não era a sua formação académica.

O resultado acabou por ser conseguido de forma fortuita (para usar o eufemismo da escritora Lisa Jardine), isto é, apropriando-se dos trabalhos de Rosalind sem autorização. O simples facto de Watson ver as imagens de raios X de cristais de ADN conseguidas por Rosalind teria sido suficiente para fazer saltar a centelha que faltava a este grupo extremamente inteligente, concentrado no objectivo e pouco escrupuloso. De notar que apenas participaram na ponta final da dupla hélice Crick e Watson.

De facto, apenas dois dias, a melhor estimativa, mediaram entre tê-las visto e a montagem de uma estrutura por Crick e Watson que reproduzia a dupla hélice. Os três cientistas receberam o prémio Nobel, tendo deixado no esquecimento Rosalind Franklin.

Piorando as coisas, Watson escreve no seu livro The Double Helix acerca de Rosalind: "Não era particularmente feia caso tivesse algum gosto nas roupas que vestia"; "Não usava bâton e a sua sensibilidade indumentária revelava a imaginação de uma adolescente sabichona inglesa".

A sabichona morreu de cancro pouco passava dos 50 anos por se ter exposto, por amor à ciência, às radiações para obter as radiografias do ADN cristalizado, sem as quais o prémio Nobel muito duvidosamente teria sido ganho pelos pouco escrupulosos cientistas: não quiseram honrar o nome de Rosalind, sabendo que a fama e o proveito que conseguiram eram devidos a ela, pelo menos em grande parte.

Manuel Cruz Fernandes

O código Moctezuma

PÚBLICO de ontem, sábado, 28 de Novembro, caderno P2, reportagem extensa de Alexandra Lucas Coelho em Londres com o título: "Moctezuma - O rei azteca está de volta", página 6, destaque em corpo maior, no fundo da 1ª coluna da esquerda, junto a um foto de uma escultura, está escrito o seguinte; "Há códigos que mostram Moctezuma a ser espancado (...)"; e mais à frente: "diz o curador inglês, Colin McEwan".

Ora isto demonstra ignorância, desleixo e incompetência. Porque é absolutamente obvio que Alexandra Lucas Coelho "traduziu" à letra a palavra inglesa CODEX (termo que designa CÓDICE, no singular e plural), por - imagine-se - "códigos" em vez de "códices", que seria, evidentemente, a tradução correcta, aliás a única.

É incompreensível como uma jornalista experiente e aparentemente culta dê erros de palmatória como este. E mais incompreensível ainda é não existir no jornal um revisor competente e/ou alguém que lhe chame a atenção e lhe corrija estas incríveis calinadas e atentados à língua portuguesa.

José Oliveira

domingo, 22 de novembro de 2009

Que farei eu com estas escutas?

A liberdade de imprensa não está apenas sujeita ao articulado legal, já que se trata também de uma questão de civilização

Os jorna-
listas de-
vem poder publicar quando o interesse público pesa mais do que o direito à privacidade



Tem-se equacionado que atitude deve um jornalista assumir se tiver acesso às escutas das ligações telefónicas entre Armando Vara e José Sócrates realizadas pelas autoridades judiciais no âmbito da investigação do processo “Face Oculta”. O provedor gostaria de interromper a sua análise de casos pretéritos do PÚBLICO para se debruçar sobre esta circunstância eventualmente vindoura, neste ou noutro órgão de informação.

O ambiente é de enorme pressão psicológica sobre os jornalistas no sentido de que devem abster-se de qualquer referência ao conteúdo das escutas, porquanto: a) constituem intromissão na vida privada dos protagonistas; b) o titular de um órgão de soberania deve ter direitos de confidencialidade superiores aos de outros cidadãos; c) trata-se de uma violação do segredo de justiça e de fugas de informação cirurgicamente dirigidas; d) as superiores instâncias judiciais declararam a invalidade e até a destruição dessas gravações, que terão sido efectuadas ilegalmente por carecerem da adequada caução judicial; e) e, para reforçar, o Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República aprovou na semana que findou um parecer impedindo o acesso dos jornalistas às escutas em processos judiciais. Sucessivos políticos (sobretudo da área governamental, mas não só), comentadores e até especialistas em ética jornalística têm antecipado a catástrofe na revelação das escutas a Vara e Sócrates, como se representasse a destruição do Estado de direito. Nessa argumentação, questões processuais como as garantias dos arguidos ou a preservação do segredo de justiça sobrelevam o apuramento da corrupção que parece minar o Estado, do tráfico de influências entre políticos e empresários ou da apropriação perversa dos negócios públicos para enriquecimento particular ou partidário – matérias apresentadas mesmo como “comezinhas”. A mensagem subliminar dos políticos aos jornalistas é clara: portem-se com juízo, se não caímos em cima de vocês com todos os meios ao nosso dispor (e, ao que parece, retirando também a colocação de publicidade estatal). O respeitinho, na nossa sociedade, ainda continua a ser uma coisa muito bonita.

Mas afinal que têm os cidadãos direito a saber? A liberdade de imprensa (no sentido lato de liberdade de informação) está definida, na sua amplitude e nos seus limites, por uma série de articulados legais que variam de país para país, mas antes disso trata-se de um conceito filosófico que representa uma aquisição da nossa civilização. Nos casos-limite em que se julga eventuais abusos de liberdade de imprensa, a margem de entendimento e decisão dos magistrados é extremamente ampla e subjectiva, e muitas vezes nem sequer consensual entre eles. A jurisprudência interna está mais vocacionada para fazer uma leitura literal da letra da lei, mas existe hoje a instância supranacional do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, que atribui ao conceito a categoria filosófica atrás referida, tendo já revogado diversas sentenças dos tribunais portugueses tomadas contra jornalistas ou outros cidadãos fazendo uso da sua liberdade de expressão.

Isto não obsta a que a classe política em Portugal, desde que disponha do poder necessário, se sinta atraída por tomar medidas limitativas da liberdade de informação. Basta analisar os estatutos da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, aprovados em sede parlamentar pelos partidos do chamado arco governativo (PS, PSD e CDS/PP). E o PS foi particularmente agressivo neste campo quando dispôs da anterior maioria absoluta. Sem fazer um processo de intenções às restantes forças parlamentares (BE e PCP), o elenco de formações políticas ou regimes além-fronteiras que apoiam ou a que habitualmente estão ligados não permite concluir que possuam melhor entendimento deste valor.

É claro que a liberdade de imprensa não é absoluta, total e ilimitada. Na sua decisão de informar, o jornalista tem de colocar muitas vezes num prato da balança os direitos individuais (sobretudo o direito à reputação e ao bom nome e o direito à preservação da intimidade da vida privada) e no outro o direito colectivo ao conhecimento das matérias de interesse público. A opção final terá de ser sempre do próprio jornalista, já que não pode consultar um tribunal para cada notícia que publica, e é óbvio que por vezes envolve um risco. Mas quem não quer correr riscos no jornalismo deve mudar de profissão. Ao longo da sua carreira de jornalista, este provedor foi processado judicialmente quase duas dezenas de vezes (inclusive por violação do segredo de justiça), mas nunca foi condenado, sequer em primeira instância. Rotina profissional, apenas.

Recuemos no tempo, até 1971. Em 13 de Junho desse ano, o diário norte-americano The New York Times começou a publicar uma série de artigos dando a conhecer o conteúdo de um estudo confidencial do Departamento de Defesa norte-americano sobre o envolvimento dos EUA na guerra da Indochina, com a revelação de estratégias bélicas antes mantidas secretas. Para lá do escândalo político que se desencadeou, falou-se em “traição nacional”, já que os americanos continuavam envolvidos em combates no Vietname. Os próprios advogados do New York Times estavam divididos sobre se o jornal deveria ou não divulgar documentos com o carimbo “top-secret” e tanto o Presidente (Richard Nixon) como o Attorney General (um misto de ministro da Justiça e Procurador Geral da República) tentaram debalde convencer o diário a suspender a saída dos artigos, para depois obterem uma injunção judicial forçando a sua interrupção, que foi acatada. A cena repetiu-se logo a seguir com The Washington Post, que porém não obedeceu à ordem de suspensão emitida pelo tribunal. A querela dos dois jornais subiu à apreciação do Supremo Tribunal de Justiça, que em 30 de Junho, por maioria (6-3), deliberou que as injunções judiciais eram inconstitucionais, já que constituíam uma limitação à liberdade de imprensa. (Mais do que o Watergate, que ocorreria pouco tempo depois, o caso dos “documentos do Pentágono” é considerado o acto fundador do moderno jornalismo de investigação).

Em nome do direito dos cidadãos a serem informados, o jornalismo pode revestir-se por vezes de aspectos que têm a ver com a desobediência civil. Voltando às escutas de Sócrates, os jornalistas, na opinião do provedor, só teriam uma coisa a fazer: destacar, se existem, os aspectos em que, no seu entender, o interesse público pesa mais do que a privacidade dos protagonistas, e trazê-los ao conhecimento da opinião pública. A mensagem aos políticos devia ser igualmente clara: esta é parte da verdade sobre a governação, que a todos os cidadãos diz respeito e que por isso têm o direito de conhecer; se quiserem, processem – veremos quem ganha.

CAIXA:

A favor do pluralismo

Assumindo a condição de assessor da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, dependente do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES), José Mariano Gago, escreve João Palhoto Matos, “meramente a título pessoal”, sobre uma nota assinada pelas jornalistas Bárbara Wong e Teresa Firmino, na pág. 7 da edição de 1 de Novembro, acerca do novo mandato governamental de Gago: “São citadas opiniões de duas pessoas: José (sic, presumo que de facto João) Cunha Serra, sindicalista bem conhecido, e Frederico Carvalho, investigador aposentado (...), que expõem opiniões sobre o trabalho futuro do MCTES. Opiniões estimáveis, quer se concorde ou não (...), e não questiono a sua relevância per se. O que me parece espantoso é que não há outras, e um minuto de pesquisa mostra que são duas pessoas nitidamente conotadas com as posições políticas do PCP nas áreas do Ensino Superior e da Ciência respectivamente. (...) Como é que (...) escolheram estas duas opiniões como exemplificativas? Há aqui objectividade? (...) É justificável que opiniões apareçam em forma que aparenta não ser uma citação? O resultado parece-me demasiado enviesado, e de forma que ilude informação para o leitor”.

O provedor, que se absteve de pedir cartão partidário aos entrevistados, solicitou explicações às duas jornalistas, sendo que cada uma escolhera uma fonte. Sobre Cunha Serra respondeu Bárbara Wong, que também diz ignorar a sua filiação política ou sequer se a possui: “Não escolhi uma pessoa ao acaso. É dirigente da Federação Nacional dos Professores, defende os interesses da sua classe. Mas é também um homem (...) que já citei, noutras ocasiões, a reconhecer o bom trabalho de Mariano Gago. É natural que João Palhoto Matos não concorde; [...] verifico que o seu endereço de email é do próprio ministério. O texto expressa a opinião de João Cunha Serra, ou seja, da estrutura sindical que representa (...). Quem acompanha a área (...) sabe que é também a opinião do Sindicato Nacional do Ensino Superior, e, no que diz respeito ao financiamento, o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas também assina por baixo – aliás, no texto faço referência aos reitores”. E acrescenta Teresa Firmino: “O investigador que surge a comentar a área da ciência reflecte há muitos anos sobre o sistema científico português (...). Este é, aliás, o tipo de artigo em que quem é ouvido expressa a sua opinião e, nesse sentido, a pessoa está identificada”.

Embora seja desejável o pluralismo numa situação destas, o provedor acha que a circunstância de as jornalistas terem, ao que afirmam, actuado autonomamente e não se conhecer identificação política clara dos dois intervenientes torna compreensível a sua argumentação.

Publicada em 22 de Novembro de 2009

DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR:

Carta do leitor João Palhoto Matos

A minha assinatura abaixo deve dar a informação de que não sou parte neutra no assunto que venho a expor (poderia ter colocado outra que me identifica como professor no IST, que seria igualmente verdadeira). No entanto esta mensagem é enviada meramente a título pessoal e de nenhuma forma envolve a instituição em que me encontro a trabalhar de momento. Deixei ficar a assinatura exactamente para contrapor à prática que questiono.

O PÚBLICO de 1 de Novembro apresenta a partir da página 7 um artigo, "Dezasseis Ministros à Procura de um Governo". Há um pedaço do artigo dedicado ao ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior [MCTES], Mariano Gago. São citadas opiniões de duas pessoas: José (sic, presumo que de facto João) Cunha Serra, sindicalista bem conhecido, e Frederico Carvalho, investigador aposentado do ITN [Instituto de Tecnologia Nuclear], que expõem opiniões sobre o trabalho futuro do MCTES.

Opiniões estimáveis quer se concorde ou não com elas (eu não concordo, mas pouco vem ao caso) e não questiono a sua relevância per se. O que me parece espantoso é que não há outras, e um minuto de pesquisa mostra que são duas pessoas nitidamente conotadas com as posições políticas do PCP nas áreas do Ensino Superior e da Ciência, respectivamente. As perguntas: como é que B.W. e T.F., que assinam o pedaço da peça, escolheram estas duas opiniões como exemplificativas? Há aqui objectividade? Qual seria a boa prática numa notícia como esta? É justificável que opiniões apareçam em forma que aparenta não ser uma citação?

O resultado parece-me demasiado enviesado, e de forma que ilude informação para o leitor, para o tipo de artigo em causa.

João Palhoto Matos
Assessor da Direcção para a área de informática Fundação para a Ciência e a Tecnologia

Explicação da jornalista Bárbara Wong

Eu tenho a "pasta" do ensino superior e a Teresa tem a da ciência. É por essa razão que assinamos o texto em conjunto, uma vez que o que nos foi pedido pelo editor do Portugal Tiago Luz Pedro foi o seguinte:

"Amigos,
O destaque de 1 de Novembro será uma antecipação do que se conseguir reunir até lá do programa de Governo e das estratégias de governação que nos esperam nos próximos anos. O essencial será feito pela Política, mas pedem-nos textos sectoriais (ouvindo especialistas) que avaliem ministério a ministério os desafios/prioridades de cada um e as medidas previstas para concretizá-las. É importante que todos os textos reflictam também se o respectivo ministério ganha ou perde importância política na estrutura do Governo (ex: o Ambiente perdeu os fundos estruturais para a Economia, logo...). "

O pedido também apontava o tamanho de cada texto: dois mil caracteres. Pelo menos de quatro em quatro anos, eu e a Teresa Firmino fazemos estes textos em conjunto. Por isso, dividimos irmãmente os caracteres, mil para cada.

Portanto, eu não escolhi uma pessoa ao acaso. O que eu fiz foi ouvir uma pessoa que está identificada: é um dirigente da Federação Nacional dos Professores, portanto, defende os interesses da sua classe. Mas é também um homem que está há muito neste sector e que o conhece bem e que já citei, noutras ocasiões, a reconhecer o bom trabalho de Mariano Gago.

É natural que o professor João Palhoto (que não conheço) não concorde, como haverá milhares de pessoas que podem não concordar. Quando digo que é natural é porque, apesar de não conhecer o professor em questão, verifico que o seu endereço de email é do próprio ministério. O texto expressa a opinião de João Cunha Serra, ou seja, da estrutura sindical que representa e que vem bem identificada. Quem acompanha a área como eu sabe que é também a opinião do Sindicato Nacional do Ensino Superior e, no que diz respeito ao financiamento, o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas também assina por baixo - aliás, no texto faço referência aos reitores.

Segundo estas três organizações, os últimos quatro anos não foram fáceis para o ensino superior porque os orçamentos de universidades e politécnicos foram constantemente cortados. Além disso, o ónus do pagamento da caixa geral de aposentações (11 por cento) foi passado para essas mesmas instituições. Por isso se fala tanto de sub-financiamento deste sistema, ele é real. Na anterior legislatura, o Governo apostou forte na ciência em detrimento do ensino superior, e isso é reconhecido por todos, mesmo pelo próprio primeiro-ministro, que se reuniu com os reitores e presidentes dos politécnicos e agradeceu-lhes o esforço feito.

Tudo isto já foi escrito no PÚBLICO.

Bárbara Wong

Explicação da jornalista Teresa Firmino

Queria apenas acrescentar ao que a Bárbara Wong escreveu o seguinte: o investigador que surge a comentar a área da ciência reflecte há muitos anos sobre o sistema científico português, razão por que foi ouvido agora, tal como já aconteceu para outros artigos no passado. Este é, aliás, o tipo de artigo em que quem é ouvido expressa a sua opinião, e, nesse sentido, a pessoa está identificada.

Teresa Firmino

domingo, 15 de novembro de 2009

Da transparência no jornalismo

Há por vezes peças jornalísticas onde parece querer-se pré-formatar o raciocínio do público

Assume a notícia, sem citar fontes, que o governo de Sócrates “é bem aceite” pelo seu “equi-
líbrio”





Na semana em que o vírus da berlusconização infectou o Estado português e o jornalismo parece a última trincheira da luta pela transparência do sistema democrático e da acção dos seus agentes, merece a pena dizer que o próprio jornalismo só reforça da sua credibilidade se também souber ser transparente perante os cidadãos.

Vem isto a propósito de um texto intitulado “Surpresa: uma equipa metade política e metade técnica”, acerca da formação por José Sócrates do actual elenco governativo, assinado pela jornalista Leonete Botelho na pág. 2 da edição do PÚBLICO de 23 de Outubro. O provedor tem por norma não retomar críticas já divulgadas no espaço público, mas abriu uma excepção por achar estimulante para o debate o comentário que nesse mesmo dia Gabriel Silva fez ao artigo de Leonete Botelho num post publicado no blogue Blasfémias. “Leonete Botelho (...) recorre à técnica dos ‘recados para alguém’. Para o leitor é que não é (...). ‘Enganaram-se os comentadores que apostavam que o novo Governo teria um cariz exclusivamente político’ – Quais comentadores? ‘Um executivo que é bem aceite por esse equilíbrio’ – Bem aceite por quem? ‘Alguns socialistas ouvidos pelo PÚBLICO não escondem a estupefacção’ – Quem? De que grupo? Escondem nome mas o recado já passou, certo? ‘Certo é que se trata de um ministério de relevo na hierarquia, mas sem grande exposição pública’ – Perdão? Isso quer dizer o quê? ‘…a escolha de Jorge Lacão é bem acolhida pela experiência que...’ – quem acolhe bem? ‘Mesmo assim, havia quem esperasse ver no cargo alguém...’ – Exacto, quem? ‘…ainda que haja quem critique baixinho a exclusão de socialistas ministeriáveis que dariam mais garantias de sucesso’ – Quem? ‘Baixinho’ não, está no artigo principal do jornal. Foi alguém que ficou de fora? Enfim. Recados e mais recados. Não parece ser isso que o consumidor pretende ler ao comprar o jornal”.

Não sendo o texto de Leonete Botelho encimado pelas palavras “análise” ou “comentário”, presumirá o leitor que se trata de matéria noticiosa. Por isso o provedor solicitou à autora uma explicação face às observações de Gabriel Silva. A jornalista começa por dizer ter achado o comentário “de uma enorme injustiça, uma vez que a notícia estava construída sobre depoimentos em on, com pessoas devidamente identificadas, e só lateralmente havia aquelas expressões retiradas do texto para construir o post e deturpar totalmente o conteúdo da peça”.

Leonete Botelho justifica depois o tom do seu artigo: “Como é hábito do PÚBLICO e prática dos jornais de referência, pretendia-se dar pistas de interpretação aos leitores sobre as escolhas feitas pelo primeiro-ministro, (...) que no dia seguinte já seriam conhecidas e já tinham sido escalpelizadas por televisões e rádios (...). Procuraram-se, entre as 18 e as 20 horas (tempo útil desde a divulgação dos nomes dos novos ministros e a dead-line para escrever), politólogos e políticos disponíveis para dar conta da sua apreciação sobre o novo governo. Focámo-nos sobretudo no PS, por supostamente ser onde se conheciam melhor as pessoas escolhidas, mas também para perceber até que ponto o partido de suporte do Governo se revia nas escolhas. Foi nesse contexto que foram ouvidos e aceitaram ser citados o politólogo André Freire e os socialistas Manuel Alegre e Fonseca Ferreira, (...) assim como Osvaldo Castro e Vitalino Canas, ambos deputados e com cargos de relevo na última legislatura (...).Outros contactos foram feitos mas as pessoas em causa não quiseram ser citadas (...). Estes contactos foram tidos em conta para o tom geral do texto, mas não para o seu enfoque principal nem para fazer citações de quem não quer ‘dar a cara’.”

A jornalista explica então, um a um, os destaques seleccionados por Gabriel Silva:

“‘Enganaram-se os comentadores’. Todos os que, desde a noite das eleições legislativas, escreveram (...) e falaram (...) sobre a necessidade de o novo governo ser hiperpolítico, no sentido de ser composto quase maioritariamente por quadros políticos preparados para o combate no Parlamento e na sociedade, combate que inevitavelmente espera um governo minoritário. Eram essas as expectativas criadas por analistas, politólogos, jornalistas, cidadãos, enfim, comentadores que – sim – se enganaram. As expectativas foram defraudadas. José Sócrates não correspondeu à análise política generalizada. Não consigo compreender a crítica do autor do post.

‘Um executivo que é bem aceite por esse equilíbrio.’ Basta ler o texto: todos os citados se referem ao equilíbrio entre políticos e técnicos. O mesmo em relação à ‘escolha de Jorge Lacão [ser] bem acolhida’ (...).

’Alguns socialistas ouvidos pelo PÚBLICO’; ‘Havia quem esperasse ver no cargo’; ‘haja quem critique baixinho’. Aqui de facto as fontes não são citadas. Repare-se: nenhum socialista citado faz críticas em on. Lanço mesmo o desafio de se procurar, para além de Alegre, um outro militante socialista com algum cargo político que tenha feito críticas em on a José Sócrates nos últimos seis meses, para não ir mais longe. Quer isto dizer que um jornalista deve fingir que não ouve as críticas que são feitas ao líder do PS? Quer isso dizer que um jornalista parlamentar, sobretudo quem acompanha determinado partido, seja ele qual for, deve ignorar todo o ambiente político que sabe existir nesse partido e não dar conta aos seus leitores dessa realidade? Se assim fosse, aí sim, estaria a mentir, porque passaria para os seus leitores a imagem de um partido unânime, onde não há crítica e onde ninguém tem opiniões e ideias diferentes do líder. O que, obviamente, não é verdade.

Ora, é precisamente em nome do rigor da informação, em nome da verdade, em nome dos deveres deontológicos do jornalista que a referência a fontes anónimas tem de ser um recurso à disposição desta profissão, depois de esgotadas todas as possibilidades de conseguir depoimentos ‘assinados’. Um ambiente psicológico como aquele de que se deu conta com aquelas expressões não pode ser aferido ouvindo uma única pessoa, nem duas ou três. Mas para quem acompanha um partido diariamente, para quem conversa todos os dias com muitos socialistas e conhece as sensibilidades e quem as representa, é possível com alguma rapidez aferir, com alguns telefonemas ou conversas, a ‘temperatura’ desse partido em determinado momento em relação a determinado facto. Foi o que se fez.

‘Certo é que se trata de um ministério de relevo na hierarquia, mas sem grande exposição pública’. Quer dizer simplesmente que o cargo de ministro da Defesa é o quarto da hierarquia do Governo, indiscutivelmente de relevo, mas que obviamente não tem a mesma exposição pública que o cargo de ministro dos Assuntos Parlamentares, que Augusto Santos Silva anteriormente ocupava (...). Que falta perceber? É preciso explicar que o Ministério da Defesa exige a quem o tutela um maior grau de discrição no tipo de intervenções que faz? Que lidar com os militares é diferente de lidar com os partidos da oposição?”

Por último, a resposta de Leonete Botelho à questão dos “recados”: “Não poderão chamar-se recados às incontáveis afirmações que fazem os políticos uns contra os outros (para falar só de política) em entrevistas, debates, notícias em que são citados? Não compreendo o preconceito, não compreendo onde o autor do post vê recados neste texto, como não compreendo o que esse consumidor pretende ler ao comprar o jornal”.

O que Leonete Botelho fez foi seguir uma prática mais ou menos institucionalizada no jornalismo português de dar por aquiridos consensos formados nas redacções e consagrados em letra de forma como o “politicamente correcto”. Nem todos os sublinhados feitos por Gabriel Silva são do mesmo teor. É uma realidade que houve comentadores a enganarem-se na antevisão do novo governo, que deverá haver socialistas críticos quanto a este executivo e que em tempo de paz a pasta da Defesa talvez seja menos exposta do que a dos Assuntos Parlamentares (o que porém Santos Silva não está a confirmar). Mas, quanto às restantes frases, Leonete Botelho não as atribui a quaisquer fontes, anónimas ou não anónimas (muito menos do PS), sim a uma espécie de pensamento único, socialmente consolidado. Será apenas uma questão de formulação, mas é dos tais casos em que forma e conteúdo estão indissoluvelmente ligados. Por esta forma, parece querer-se pré-formatar o raciocínio do leitor. O provedor não tem a pretensão de saber com rigor o que o consumidor pretende ler ao comprar o jornal, mas duvida que procure uma lavagem ao cérebro.


CAIXA:

Just for the record

Esta expressão inglesa equivale à nossa “para que conste”, o registo rigoroso de um facto, para memória futura. O método é especialmente importante num jornal de referência, que costuma ser visto como uma crónica fiel dos acontecimentos da sua época. Para que conste, o jornal deve ter a preocupação de comunicar factos confirmados ou, logo que verifique não ser o caso, fazer a sua correcção. O provedor escolheu este título devido ao caso suscitado pelo leitor Sérgio Nunes a propósito da seguinte passagem da crónica de Santana Castilho da passada quarta-feira: “Foram idênticas preocupações para não ferir a sensibilidade dos emigrados que terão levado os ingleses a retirarem dos livros escolares qualquer alusão ao holocausto". Escreve o leitor: “Esta ideia tem por base um persistente boato falso que o próprio governo britânico já desmentiu por diversas vezes. Parece ser um boato muito ‘cativante’, uma vez que já o vi mencionado por diversas vezes na imprensa nacional (...). Mesmo que o PÚBLICO não seja proactivo e preventivo na identificação destes erros factuais, parece-me fundamental a identificação e divulgação destas situações depois de encontradas”.

O provedor não possui qualquer jurisdição sobre textos de opinião, mas já esclareceu que se reserva o direito de chamar a atenção para a existência neles de erros factuais não corrigidos pelo jornal, como é o caso. Para que conste.

Publicada em 15 de Novembro de 2009

DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR:

Post de Gabriel Silva no blogue Blasfémias

Explicações da jornalista Leonete Botelho

Li essa “blasfémia” no dia em que foi publicada e achei de uma enorme injustiça, uma vez que a notícia estava construída sobre depoimentos em on, com pessoas devidamente identificadas, e só lateralmente havia aquelas expressões retiradas do texto para construir o post e deturpar totalmente o conteúdo da peça.

1. Trata-se da peça de abertura do destaque sobre o novo Governo, e como é hábito do PÚBLICO e prática dos jornais de referência, pretendia-se dar pistas de interpretação aos leitores sobre as escolhas feitas pelo primeiro-ministro, escolhas essas que no dia seguinte já seriam conhecidas e já tinham sido escalpelizadas pelas televisões e rádios durante várias horas. Procuraram-se, entre as 18 e as 20 horas (tempo útil desde a divulgação dos nomes dos novos ministros e a dead-line para escrever), politólogos e políticos disponíveis para dar conta da sua apreciação sobre o novo governo. Focámo-nos sobretudo no PS, por supostamente ser onde se conheciam melhor as pessoas escolhidas, mas também para perceber até que ponto o partido de suporte do Governo se revia nas escolhas.

2. Foi nesse contexto que foram ouvidos e aceitaram ser citados o politólogo André Freire e os socialistas Manuel Alegre e Fonseca Ferreira, que representam duas correntes de opinião dentro do partido, assim como Osvaldo Castro e Vitalino Canas, ambos deputados e com cargos de relevo na última legislatura: presidente da comissão parlamentar de Direitos, Liberdades e Garantias e porta-voz do PS, respectivamente.

3. Outros contactos foram feitos mas as pessoas em causa não quiseram ser citadas, porque se limitaram a fazer análises críticas sobre um ou outro aspecto da equipa governativa e não querem problemas no partido. Estes contactos foram tidos em conta para o tom geral do texto, mas não para o seu enfoque principal nem para fazer citações de quem não quer ‘dar a cara’. Mas ajudaram a perceber que a opção de José Sócrates, ao abrir o Governo a independentes em detrimento dos quadros políticos do partido, não é pacífica no PS. O que, aliás, deu origem a um outro texto, publicado hoje (sábado 24) sob o título: “José Sócrates, o pragmático, passou ao lado das sensibilidades do PS nas escolhas”.

4. Passemos agora às ‘críticas’ do Blasfémias:

i. “Enganaram-se os comentadores”. Quais? Todos os que, desde a noite das eleições legislativas, escreveram nos jornais e nos blogues e redes sociais, e falaram nas rádios e nas televisões, sobre a necessidade de o novo governo ser hiperpolítico, no sentido de ser composto quase maioritariamente por quadros políticos preparados para o combate no Parlamento e na sociedade, combate que inevitavelmente espera um governo minoritário. Eram essas as expectativas criadas por analistas, politólogos, jornalistas, cidadãos, enfim, comentadores que – sim – se enganaram. As expectativas foram defraudadas. José Sócrates não correspondeu à análise política generalizada. Não consigo compreender a crítica do autor do post.

ii. “Um executivo que é bem aceite por esse equilíbrio – por quem?” – Basta ler o texto: todos os citados se referem ao equilíbrio entre políticos e técnicos. O mesmo em relação à “escolha de Jorge Lacão [ser] bem acolhida”: é-o pelos citados, claro, basta ler o texto.

iii. “Alguns socialistas ouvidos pelo PÚBLICO”; “Havia quem esperasse ver no cargo”; “haja quem critique baixinho”: aqui de facto as fontes não são citadas. Repare-se: nenhum socialista citado faz críticas em on. Lanço mesmo o desafio de se procurar, para além de Manuel Alegre, um outro militante socialista com algum cargo político que tenha feito críticas em on a José Sócrates nos últimos seis meses, para não ir mais longe. Quer isto dizer que um jornalista deve fingir que não ouve as críticas que são feitas ao líder do PS? Quer isso dizer que um jornalista parlamentar, sobretudo quem acompanha determinado partido, seja ele qual for, deve ignorar todo o ambiente político que sabe existir nesse partido e não dar conta aos seus leitores dessa realidade? Se assim fosse, aí sim, estaria a mentir, porque passaria para os seus leitores a imagem de um partido unânime, onde não há crítica e onde ninguém tem opiniões e ideias diferentes do líder. O que, obviamente, não é verdade.

iv. Ora, é precisamente em nome do rigor da informação, em nome da verdade, em nome dos deveres deontológicos do jornalista que a referência a fontes anónimas tem de ser um recurso à disposição desta profissão, depois de esgotadas todas as possibilidades de conseguir depoimentos ‘assinados’. Um ambiente psicológico como aquele de que se deu conta com aquelas expressões não pode ser aferido ouvindo uma única pessoa, nem duas ou três. Mas para quem acompanha um partido diariamente, para quem conversa todos os dias com muitos socialistas e conhece as sensibilidades e quem as representa, é possível com alguma rapidez aferir, com alguns telefonemas ou conversas, a “temperatura” desse partido em determinado momento em relação a um determinado facto. Foi o que se fez.

v. “Certo é que se trata de um ministério de relevo na hierarquia, mas sem grande exposição pública” – Quer dizer simplesmente que o cargo de ministro da Defesa é o quarto da hierarquia do Governo, indiscutivelmente de relevo, mas que obviamente não tem a mesma exposição pública que o cargo de ministro dos Assuntos Parlamentares, que Augusto Santos Silva anteriormente ocupava e que o colocava no centro da exposição parlamentar e pública, pelas intervenções que fazia enquanto tal. Que falta perceber? É preciso explicar que o Ministério da Defesa exige a quem o tutela um maior grau de discrição no tipo de intervenções que faz? Que lidar com os militares é diferente de lidar com os partidos da oposição?

vi. “Enfim. Recados e mais recados. Não parece ser isso que o consumidor pretende ler ao comprar o jornal” – Há de facto um recado na peça em causa e está devidamente assinalado como tal e em on: É o “aviso à navegação” feito por Fonseca Ferreira no fim do artigo. Sobre os “recados”: não poderão chamar-se recados às incontáveis afirmações que fazem os políticos uns contra os outros (para falar só de política) em entrevistas, debates, notícias em que são citados? Não compreendo o preconceito, não compreendo onde o autor do post vê recados neste texto, como não compreendo o que esse consumidor pretende ler ao comprar o jornal.

Leonete Botelho

domingo, 8 de novembro de 2009

Da excepção à regra

Instituiu-se, e não só no PÚBLICO, o vício de não invocar fontes de notícias

“Apurou o PÚBLICO”, sem o atribuir a qualquer fonte, que Ferreira Leite queria “uma renovação profunda” da bancada do PSD

Relatou o provedor na crónica anterior que solicitara ao jornalista António Arnaldo Mesquita explicações sobre duas notícias de primeira página publicadas nos dias 22 e 24 de Outubro, ambas sem imputação da informação a qualquer fonte e sendo a segunda (“Caso Freeport – ingleses ainda não enviaram documentos”) um desmentido da primeira (“Documentos sobre o Freeport pedidos aos ingleses já estão nas mãos dos investigadores”), mas que não recebera resposta (cumprido o prazo de 72 horas previsto para a reacção dos jornalistas às interpelações do provedor).

Já após publicada a crónica, o provedor recebeu de António Arnaldo Mesquita a explicação de que só na altura abrira a sua caixa de correio electrónica, por na semana anterior ter tido “dificuldades informáticas”. Dispôs-se então a responder, e, apesar de diferido no calendário, vale a pena atentar ao que escreveu: “Uma fonte que me pediu o anonimato disse-me que os documentos já tinham chegado e que o oficial de ligação da embaixada lhe tinha dito que vinham a caminho. Um dia depois, alegando dificuldades nos contactos com os magistrados titulares do inquérito Freeport, a mesma fonte disse-me que, afinal, os documentos não tinham sido recebidos no DCIAP [Departamento Central de Investigação e Acção Penal] e que os britânicos alegavam ‘falha informática’ para justificar a suspensão da remessa da documentação. Esta é uma situação limite de uma fonte que já me forneceu dezenas de informações que nunca [palavra sublinhada] foram desmentidas... A lealdade da mesma fonte ficou comprovada no dia seguinte, quando verificou que me tinha induzido em erro. Como na primeira notícia não citei a fonte, pareceu-me que também o não devia fazer na segunda, em que me auto-desmentia”.

Num aparte, o provedor repara que nos tempos actuais, com o advento da tecnologia digital, a informática tem as costas largas. Entendendo evidentemente que a identidade da fonte teria de ser preservada, perguntou a António Arnaldo Mesquita se não seria possível “pelo menos identificar a sua área, tipo ‘fonte judicial’ ou coisa do género”, havendo ainda outras possibilidades: “E por que não, em caso limite, falar em ‘fonte que solicita o anonimato’, ou ‘fonte conhecedora do processo que solicita o anonimato’? No fundo, é isso: se a fonte não conhecesse o processo a notícia seria impossível ou não teria credibilidade. Não se deveria também ter dito que a fonte que desmentiu a informação foi a mesma que antes a fornecera ao PÚBLICO?”

A nova resposta de António Arnaldo Mesquita foi em grande parte, a seu pedido, off the record, pelo que o provedor não a pode citar (não, ele não identificou a fonte!). Mas retira dela esta frase: “Isto neste caso é particularmente sensível e delicado. [Eu] não podia identificar a fonte”. Insatisfeito, dado que o que estava em causa não era identificar a fonte, o provedor insistiu: “Compreendo a delicadeza da situação. A questão é que convinha que os leitores soubessem que havia pelo menos uma fonte”. Replicou o jornalista: “Claro que os leitores deviam saber que havia uma fonte, só que, neste caso concreto, a minha fonte não podia ser identificada, nem eu a devia identificar quando constatei que me tinha induzido em erro. A única solução neste caso era fazer de Egas Moniz e apertar a corda ao pescoço...”

Apreciando o altruísmo do autor, o provedor considera contudo que, na parte publicável desta troca de mensagens, e sem violação da garantia de confidencialidade, António Arnaldo Mesquita já fornece os elementos de informação que, a terem sido publicados na devida altura, permitiriam suprir as falhas detectadas nas duas notícias, designadamente: a) que existiu uma fonte, conhecedora do processo, mas que solicitou o anonimato; b) que se tratou da mesma fonte para ambas as notícias; c) que foi a própria fonte a tomar a iniciativa de rectificar a informação que inicialmente fornecera”.

O que acontece é que se instituiu no jornalismo português (e não só no PÚBLICO) o hábito (ou antes, o vício) de não invocar fontes para a elaboração de muitas notícias (presumindo talvez os autores que dessa forma, mostrando-se dentro de circuitos secretos de informação de que nem podem revelar a origem, valorizam mais o seu trabalho).

Por vezes, os jornalistas lá concedem na fórmula “o PÚBLICO sabe que...” (que nada informa sobre a fonte), mas não mais do que isso. É o caso recorrente de Nuno Simas, na área do jornalismo político: “O PÚBLICO apurou que Manuela Ferreira Leite falou a Portas, seu ex-companheiro no Governo PSD/CDS, sobre Maria José, número quatro na lista de Lisboa” (6 de Agosto, pág. 8); “Ao que o PÚBLICO apurou, o critério de Ferreira Leite para não incluir, por exemplo, Passos Coelho e Miguel Relvas foi a análise da sua atitude, no último ano, relativamente à direcção” (5 de Agosto, pág. 2); “Ao que o PÚBLICO apurou, a causa da ruptura [entre direcção e a distrital de Lisboa do PSD] foi a inclusão, por Ferreira Leite, de alguns nomes em lugar elegível, como António Preto e Helena Lopes da Costa” (4 de Agosto, pág. 6); “Ao que apurou o PÚBLICO, Ferreira Leite quer uma renovação profunda relativamente ao grupo parlamentar escolhido em 2005” (3 de Agosto, pág. 6); “O PÚBLICO sabe que o autarca lisboeta fez uma tentativa de última hora para ainda conseguir um acordo do PS com PCP e BE para o município da capital” (13 de Julho, pág. 6).

O provedor, que não percebe sequer o que há de tão sensível nestas notícias que implique não fazer menção a nenhuma fonte, inquiriu Nuno Simas sobre a pertinência do método, tendo o jornalista começado por invocar o ponto 72 dos “Princípios e Normas de Conduta Profissional” do Livro de Estilo do PÚBLICO: “Quando o jornalista está em condições de assumir a informação – isto é, quando a confirmou junto de várias fontes independentes entre si, embora todas tenham exigido o anonimato – deverá noticiá-la no PÚBLICO sem necessidade de recorrer às habituais, retóricas e desacreditadas fórmulas do género ‘fonte digna de crédito’, ‘fonte segura’ ou ‘fonte próxima de’. As fontes, a sê-lo, devem estar sempre bem colocadas para falar sobre o assunto. (...) Um jornal bem informado não precisa de justificar permanentemente as suas notícias. Assume-as e responsabiliza-se por elas”.

Já nesta coluna o provedor alertou para a inconsistência da norma em causa, instando a que fosse repensada numa próxima revisão do Livro de Estilo – e não pretende regressar ao mesmo debate. Mas lamenta que, na revisão de 2005, tenha desaparecido a norma da edição original, mais consentânea com as regras do jornalismo, segundo a qual “nesses casos [não havendo outra forma de obter a informação ou a sua confirmação], e só nesses casos, pode utilizar-se a fórmula [do estilo] ‘uma fonte do organismo X que solicitou o anonimato’”.

Complementarmente, Nuno Simas invoca o facto de a fórmula “o PÚBLICO apurou” (não contemplada pelo Livro de Estilo, note-se) ser “usada frequentemente nas páginas do jornal”, e contrapõe: “Mas há também exemplos de notícias em que, por exemplo, identifico uma ‘fonte/membro da comissão permanente do PSD’ ou ‘fonte/membro da comissão política nacional do PSD’ – dois níveis de poder diferentes no PSD, por exemplo. Tenho a consciência de que estas são informações que assumo e que me responsabilizo por elas. Por isso não o faço por regra, mas sim como excepção. A regra, claro, é a informação ser atribuída a uma fonte, ‘identificada com a maior precisão possível’ (ponto 68 do Livro de Estilo).

Fica por perceber o critério que leva os jornalistas a invocar ou não as fontes de informação – sendo que a segunda situação parece hoje ao provedor mais regra do que excepção.

CAIXA:

Deve/haver encerrado

Escreveu-se há oito dias nesta página que o director cessante do PÚBLICO só deixara sem resposta três das muitas dezenas de questões que o actual provedor lhe havia endereçado. José Manuel Fernandes fez entretanto questão de prestar esclarecimentos sobre essas questões.

Acerca da circunstância de em tempos não figurar na lista de jornalistas com carteira profissional actualizada, diz José Manuel Fernandes: “Voltei a ter carteira profissional actualizada, depois de um longo contencioso com a Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas (CCPJ). Contar toda a história daria, pelo menos, o capítulo de um livro”.

Sabendo embora que a lei impõe a obrigatoriedade de o director de um jornal possuir título de jornalista ou equiparado, o provedor também não insistiu demasiado no assunto (que vem do início do seu mandato, há quase dois anos), por entender que deve prevalecer a universalidade do direito de expressão e informação, que abrange todos os cidadãos, independentemente de possuírem ou não carteira de jornalista. Mas sempre pode adiantar que, tanto quanto sabe, na raiz com conflito de José Manuel Fernandes com a CCPJ estava uma discrepância entre o critério de numeração das carteiras e a antiguidade profissional.

No que respeita à publicação de uma notícia de implicações políticas em dia de reflexão pré-eleitoral, afirma o ex-director que na altura (25 de Setembro) esteve ausente de Lisboa e que solicitou a outro responsável que esclarecesse o assunto – o que não aconteceu.

Quanto à identificação de um crítico como jornalista, José Manuel Fernandes enviou ao provedor os elementos que entretanto havia recolhido, explicando que “a tensão dos últimos dias” o havia impedido de responder antes. O assunto será abordado mais tarde.

Fecha-se assim o deve/haver entre o provedor e José Manuel Fernandes.

Publicada em 8 de Novembro de 2009