domingo, 17 de maio de 2009

Contrapoder ou antipoder?

Na conclusão da análise à secção “Sobe e desce”, algumas recomendações para o futuro da secção


O jornal parece ter passado de uma posição de isenção para um pendor anti-governa-mental


“Eu nunca tinha ligado muito ao ‘Sobe e desce’, até ao dia em que, para surpresa minha, Mário Nogueira, da Fenprof, teve uma referência negativa por ter ganho as eleições na respectiva organização!” – assim começa a mensagem de um leitor não identificado acerca da secção da última página do PÚBLICO. “Isso foi, bem entendido, antes da ‘Cruzada’. E quando, recentemente, a luta dos professores saltou para a ribalta, foi ver a cotação de Mário Nogueira a subir aos olhos do PÚBLICO, que não lhe regateou apoio, explícito ou implícito, para combater o ‘Mal’. (...) Feitas as contas, o ‘Sobe e desce’ está para o jornalismo de referência como o Tarot da Maya está para a ciência: destas quatro personagens, do segundo já só resta o infografismo nas páginas do PÚBLICO”.

Esta carta situa o principal problema do “Sobe e desce”, que o provedor tem vindo a analisar nas últimas crónicas: a possibilidade de a secção assumir encapotadamente um espírito de campanha, o qual não está previsto no estatuto editorial do jornal. O líder da Fenprof, com efeito, obtém um balanço positivo (quatro setas para cima e três para baixo) nas apreciações que o “Sobe e desce” lhe fez desde que este provedor iniciou funções (1 de Janeiro de 2008), enquanto a ministra de Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, sofre de um conjunto de referências absolutamente demolidor: 22 notas desfavoráveis, contra apenas duas positivas.

Aliás, José Sócrates e os seus 16 ministros são globalmente atingidos, no mesmo período, com 195 setas descendentes e 52 em sentido inverso. É algo em que os leitores acabam por reparar: “Que o PÚBLICO tem uma posição ultracrítica em relação ao actual Governo e, muito particularmente, em relação ao primeiro-ministro, já não oferece dúvidas”, escrevia um deles, Adérito Tavares, ao provedor há dois meses. É certo que o PÚBLICO tem o direito, e até o dever, de assumir uma atitude de contrapoder, mas neste caso parece estar reunida a massa crítica para se considerar que o jornal passou de uma posição de isenção para um pendor claramente antigovernamental. Verifique-se, por exemplo, que Cavaco Silva apresenta um saldo de 16 notas a favor contra sete negativas e que a principal figura da oposição, Manuela Ferreira Leite, apesar de um balanço negativo (nove a favor e 12 contra), é objecto de uma apreciação muito mais equilibrada, como se, aos olhos dos directores deste jornal (a cargo de quem costuma estar a secção), a líder dos sociais-democratas fosse, mesmo assim, preferível a Sócrates à frente do governo.

Não viria daqui mal ao mundo, não fora o facto de o PÚBLICO nunca se ter assumido editorialmente como oposição ao governo, contrariando assim o princípio da “relação rigorosa e transparente” com os leitores que é enunciado no seu estatuto editorial. Estes números mostram que entre os responsáveis da redacção se estabeleceu como politicamente correcto deitar abaixo o executivo, e que uma opinião diferente terá muito mais dificuldade em ver a luz do dia. O provedor não diria que existe uma intenção deliberada nesse sentido, mas que se pode ter instalado um espírito que desemboca nessa consequência.

Temos de convir que muitas vezes as figuras públicas põem-se a jeito para as críticas de que são alvo, não fazendo sentido os jornalistas inventarem avaliações artificiais só para darem equilíbrio ao conjunto de matérias que o jornal publica. Por exemplo, o contraste entre as notas atribuídas no “Sobe e desce” a George W. Bush (duas a favor e 21 contra) e a Barack Obama (34 a favor e cinco contra) é compreensível em termos retrospectivos, na medida em que o primeiro foi derrotado num processo histórico de que o segundo acabou por sair largamente vitorioso. Não seria pois aceitável de forma alguma que alguém se preocupasse em distribuir notas avulsas pelos dois de modo a atingir-se alguma espécie de equivalência entre ambos – que seria seguramente uma falsa equivalência, sem correspondência na realidade.

Esse é o método a que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social quer sujeitar a RTP (e, se a deixarem, todos os restantes órgãos de informação): uma distribuição noticiosa proporcional ao peso eleitoral dos partidos. Mas isso seria uma deturpação da actualidade, que não é equilibrada e carece de uma cobertura jornalística que reflicta esse desequilíbrio. A imposição de quotas é um atentado à liberdade do jornalismo, e de forma nenhuma o provedor pretende que no “Sobe e desce” haja qualquer coisa do género. Mas as tendências que se detectam nas notas atribuídas na secção sugerem a possível existência de uma agenda oculta na redacção do PÚBLICO e que, a bem do contrato do jornal com os leitores, seria bom que se clarificasse. Bastará que não se deixe escapar nenhum deslize e que, em contrapartida, se ignore os aspectos positivos na carreira de uma figura pública para lhe criar uma imagem desfavorável (e deturpada) – aquilo que se designa como “ter má imprensa”. Para trás, ficam os padrões de objectividade que muitos órgãos da informação fazem questão, mesmo assim, de continuar a apregoar.

Nota-se claramente a existência de uma lista de “bons” e de “maus” no “Sobe e desce” em política interna, mas também no palco internacional. Ninguém se incomoda certamente por ditadores como Mugabe, Kim Jong Il, Hu Jintao, Mahmud Ahmedinejad ou Omar al-Bashir liderarem a lista de notas negativas, por vezes até sem nenhuma seta para cima (sendo as apreciações feitas frequentemente na base de uma condenação moral e não do que de positivo ou negativo sucede nos seus objectivos de manutenção do poder – o que suscita o problema da incoerêcia de critérios na elaboração da secção). Mas mais bizarro há-de parecer que na Europa haja tanto contraste entre, por exemplo, um Silvio Berlusconi (15 setas descendentes e apenas uma a subir) e um José Luis Zapatero (sete para cima e quatro para baixo). É que nem a Itália está em pior situação do que a Espanha nem o seu primeiro-ministro está mais debilitado do que o seu homólogo de Madrid; antes pelo contrário.

Curiosamente, no domínio do futebol, que em parte motivou a investigação do provedor ao “Sobe e desce”, as coisas aparecem muito mais conformes à realidade. Cristiano Ronaldo e José Mourinho fazem jus ao talento e à fama, e entre os treinadores da I Liga Jesualdo surge com o balanço mais favorável, seguido de Paulo Bento, enquanto Quique Flores só esta semana desceu a negativos (7-8), já muito depois de o seu carro, para usar uma expressão dele, ter avariado à vista da meta. Mesmo Jorge Nuno Pinto da Costa, com todos os problemas judiciais que tem atravessado, apresenta um saldo positivo (6-4), contrariando a ideia transmitida pelos leitores que reclamaram acerca no seu tratamento na secção.

Um jornalista do PÚBLICO enviou há tempos ao provedor numa lista de dez aspectos que não abonariam a favor do “Sobe e desce” (diversidade de critérios, maniqueísmo e simplificação de factos, personalização de temas, enganadoras relações causa-efeito, análise parcial da actualidade, incidência constante nas mesmas figuras, diferentes gradações de apreciação, obrigatoriedade de manter o mesmo número de tópicos por edição, simplificação na escolha de protagonistas, desproporção do impacto junto da opinião pública) e apenas um que beneficia a secção – e, aparentemente, sobreleva todos os restantes: os leitores gostam.

O provedor apenas gostaria de recomendar a adopção de alguns parâmetros para o futuro do “Sobe e desce”: coerência de critérios, ponderação, equilíbrio, objectividade, isenção e distanciamento.


CAIXA:

Arroubo patriótico

A manchete da passada quinta-feira, 15 de Maio, “A Madeira pode ser independente?”, causou pelo menos uma reacção emocionada. ”Vi-me forçado a enfiar o PÚBLICO num saco para que ninguém me visse com a vergonhosa e reles capa deste periódico”, escreveu o leitor que se identifica como Sérgio Faial sobre o que classifica de “acto inqualificável e irresponsável sem paralelo na história deste jonal, (...) dum teor incendiário que nunca associei ao periódico”. Outro Sérgio, assinando Costa e com um endereço electrónico diferente mas numa linguagem com similitudes em relação ao anterior, reenviou ao provedor uma carta de protesto que escreveu ao director do PÚBLICO, considerando: “A bem da credibilidade do jornal, espero que os acontecimentos da edição deste dia não passem impunes. O PÚBLICO não merece acabar assim, transformado num tablóide sensacionalista”.

O provedor considera que um jornal como o PÚBLICO não deve ter temas tabu, para mais relativamente a uma questão que periodiocamente é agitada como forma de pressão sobre as autoridades centrais, até pelo chefe do governo regional da Madeira. Os jornalistas apenas procuraram avaliar se tal hipótese teria alguma viabilidade prática ou não passa de mero bluff. Nada a apontar, portanto.

Há porém um aspecto em que a reclamação de Sérgio (seja ele quem for) é pertinente. Trata-se do título da capa do P2 (onde foi publicado o artigo), escrito sob o mapa do arquipélago da Madeira: “Eles podem viver sem nós?”. “Eles quem?”, pergunta o leitor Faial. “Os madeirenses? E nós quem? Os continentais? Sempre pensei que o PÚBLICO fosse um jornal nacional, equivoquei-me. Segundo a redacção deste diário, Portugal é o rectângulo, as ilhas são os outros, os de fora... Lamentável... Que leva um jornal que se propõe, segundo o seu director, ser uma das partes dos checks and balances [equilíbrios e contrapesos] da democracia a agredir uma parte do país? Quem será a próxima vítima? Os meus Açores?”

De facto, com este título os jornalistas tomaram a iniciativa de excluir a Madeira de Portugal. Provocatório, mas infeliz.

Publicada em 17 de Maio de 2009

sábado, 16 de maio de 2009

Faltou a poesia

Compare o corpo da notícia com a descrição do golo no YouTube. Lamentável a dissemelhança e a incapacidade do jornalista para descrever um momento tão belo!

Luís Soares

domingo, 10 de maio de 2009

"Sobe e desce" e Tarot da Maya


Eu nunca tinha ligado muito ao "Sobe e desce", até ao dia em que, para surpresa minha, o Mário Nogueira, da Fenprof, teve uma referência negativa por ter ganho as eleições na respectiva organização! Isso foi, bem entendido, antes da "Cruzada". E quando, recentemente, a luta dos professores saltou para a ribalta, foi ver a cotação do Mário Nogueira a subir aos olhos do PÚBLICO, que não lhe regateou apoio, explí­cito ou implí­cito, para combater o "Mal".

Enfim, isto é só um apontamento, vale o que vale. Feitas as contas, o "Sobe e desce" está para o jornalismo de referência como o Tarot da Maya está para a ciência: destas quatro personagens, do segundo já só resta o infografismo nas páginas do PÚBLICO.

VMSDA

Heróis e vilões

Prossegue a análise da secção “Sobe e desce”, ficando as conclusões para apresentar em próxima crónica



O PÚBLICO mudou de herói: Obama teve 34 setas ascendentes e só quatro negativas, enquanto Bush perdeu por 2-21

Se este jornal já em tempos foi conhecido por incensar George W. Bush, essa época há muito terminou, com a sua queda em desgraça (do Iraque). É o que mostra o balanço de notas da secção “Sobe e desce” desde que este provedor assumiu funções (início de 2008): ao anterior presidente dos EUA foram atribuídas, nos últimos 16 meses, 21 setas para baixo e apenas duas para cima (e duas neutras). O PÚBLICO mudou de herói americano, que agora se chama Barack Obama: o sucessor de Bush obteve no mesmo período 34 setas ascendentes e apenas quatro negativas (mais duas laterais). A onda democrata que varreu a América alastrou à secção com mais três referências positivas ao vice-presidente de Obama, Joe Biden, e duas a Nancy Pelosi, a speaker da Casa dos Representantes (ambos sem negativas). Hillary Clinton, a rival democrata de Obama nas primárias e sua secretária de Estado, teve seis setas a favor e cinco contra, enquanto o possível culpado de tudo, o ex-vice-presidente Dick Cheney, apenas sofreu uma nota negativa (vantagem das eminências pardas). Do massacre livraram-se o candidato republicano batido por Obama, John McCain (sete a favor e três contra) e a ex-secretária de Estado Condoleezza Rice (3-1), mas não a candidata a vice com McCain, Sarah Palin (1-5). Até a nova primeira dama, Michelle, já subiu uma vez, enquanto o actual secretário do Tesouro, Timothy Geithner, apesar de uma actuação nada auspiciosa, está a beneficiar do efeito Obama, ganhando por 2-1.

No “Sobe e desce”, cuja análise o provedor iniciou na crónica anterior, importa também verificar como são vistos os protagonistas europeus. Aquele que obtém mais notoriedade é Nicholas Sarkozy, com 28 notas, mas 13 delas são negativas, só nove lhe sendo favoráveis. Também perdem no balanço Gordon Brown (8 setas para cima e 9 para baixo), Angela Merkel (2-3), Bertie Ahern (0-2), Costas Karamanlis (0-1) e sobretudo Silvio Berlusconi (1-13). Bem visto, só José Luis Zapatero (7-4).

Curiosamente, o primeiro-ministro cessante da República Checa, Mirek Topolánek, apesar da actual desastrada presidência da União Europeia, teve balanço positivo (1-0) (o ónus ficou para Vaclav Klaus, o presidente do país: 0-1). Quanto ao grande vizinho do leste, as suspeitas são enormes: Vladimir Putin perde por 2-7 e Dmitri Medvedev por 0-8. E os vizinhos não se portam melhor, sejam Mikhail Saakashvili, da Geórgia (0-5), Viktor Iuschenko, da Ucrânia (0-3) ou Alexander Lukachenko, da Bielorússia (0-1).

A secção não aprecia particularmente ditadores, chamem-se eles Robert Mugabe (o pior, com 19 notas negativas, mais uma para a mulher, Grace, e nenhuma positiva, conseguindo o líder da oposição no Zimbabwe, Morgan Tsvangirai, três postivas), Hu Jintao (três positivas e 10 negativas), Kim Jong Il (0-8), Mahmud Ahmedinejad (1-6), Omar al-Bashir (0-4), Than Shwe (0-2), Muammar Kadhafi (0-2) ou Fidel Castro (0-2). Porém, o irmão deste, Raul, tem sido visto com melhores olhos desde que lhe sucedeu: 4-0.

No Médio Oriente, Ehud Olmert, o primeiro-ministro israelita há pouco afastado, era mesmo o mau da fita (0-9), mas do sucessor, Benjamin Netanyahu, não cuidou o “Sobe e desce”, optando antes por se pronunciar – negativamente – sobre o seu ministro do Negócios Estrangeiros, Avigdor Lieberman (0-2), e – positivamente – sobre a líder da oposição, Tzipi Livni (2-0). Do lado palestiniano, má nota para os rivais Mahmoud Abbas, primeiro-ministro, e Ismail Haniyah, do Hamas, ambos com uma seta para baixo, mas boa para a organização deste último (uma para cima) (a propósito de organizações violentas, as FARC, com uma negativa, e a ETA, com duas, não são apreciadas).

Nem o turco Recip Erdogan (1-2), nem o anterior presidente paquistanês, Pervez Musharraf (0-5), nem o afegão Hamid Karzai (0-2) são bem vistos, só se aproveitando o iraquiano Nouri al-Maliki (1-0).

Na América Latina, Lula da Silva (4-2) fica muito melhor do que Evo Morales (0-3), Cristina Kirchner (0-4) ou Hugo Chávez (2-5). E, em África, José Eduardo dos Santos (0-5) andou em baixa com Thabo Mbeki (0-3), mas o sucessor deste, Jacob Zuma, entrou com o pé direito (1-0).

Figura que não se ousa pôr em causa é o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon (4-0). O Papa Bento XVI obtém 8-3 e o Dalai Lama 1-0. No campo da Igreja Católica, apenas o integrista Richard Williamson, que ousou desafiar o Vaticano, foi alvo de setas negativas (0-2). Os prelados portugueses também têm classificação cima da linha de água: José Policarpo (1-0), Carlos Azevedo (idem) e sobretudo Manuel Clemente (3-0).

Em Portugal, a maioria dos protagonistas dos casos de justiça recebem apreciações negativas, sejam eles magistrados como Pinto Monteiro (1-4), Souto de Moura (0-1), Cândida de Almeida (0-1) ou Maria José Morgado (0-1), polícias como Orlando Romano (0-1), Alípio Ribeiro (0-1), Almeida Rodrigues (0-1) ou Gonçalo Amaral (0-1) ou ainda os grandes suspeitos disto ou daquilo: José Oliveira e Costa (0-6), João Rendeiro (0-5), Manuel Dias Loureiro (0-6), Fátima Felgueiras (0-4), Avelino Ferreira Torres (0-3), Isaltino Morais (0-2), Valentim Loureiro (0-4), João Vale e Azevedo (0-3) ou António Preto (0-1). Se o pai de Maddie, Gerry McCann, também teve nota baixa (0-1), o casal McCann obteve uma referência positiva. Para Lopes da Mota, o magistrado suspeito de pressões na investigação do caso Freeport, apenas um seta para o lado, mas o actual bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, tem sofrido má apreciação (0-5). A própria justiça portuguesa como instituição tem também sido alvo de setas: seis, e todas a descer. Pode-se dizer que no sector só resiste Nascimento Rodrigues (3-0), que parece condenado à pena perpétua de Provedor de Justiça.

Na área económica e financeira, só um banqueiro, Ricardo Salgado (4-0), tem boa nota, destacando-se os maus resultados de Faria de Oliveira (1-4), Jardim Gonçalves (0-2), Filipe Pinhal (0-2) e Horácio Roque (0-1), e ficando Fernando Ulrich e Santos Ferreira em posição neutra (2-2 para cada). O mesmo sucede com certos empresários e gestores: sim para Américo Amorim (1-0), Alexandre Soares dos Santos (1-0), Almerindo Marques (1-0) e Zeinal Bava (1-0), não para António Mexia (0-4), Cardoso dos Reis (0-3), Fernando Pinto (2-3), Guilherme Costa (0-1), Joe Berardo (0-2), Mário Assis Ferreira (0-2) e Stanley Ho (0-1) (Pais do Amaral fica neutro: 2-2). Manuel Sebastião, o responsável pela Autoridade da Concorrência, é mal visto (1-4); o contrário sucede com Guilherme Oliveira Martins, presidente do Tribunal de Contas (3-0).

No domínio da cultura, a secção não é muito assídua, limitando-se a assinalar nota positiva a quem recebe um prémio, estreia um filme, lança um livro, abre uma exposição ou vai a um certame internacional. A excepção foi Carlos Fragateiro, que devido aos casos relacionados com a sua anterior gestão do Teatro Nacional D. Maria II sofreu duas setas descendentes.

O mesmo sucede nas modalidades desportivas, assinalando-se sobretudo quem ganhou – e mais raramente quem perdeu. Os mais assíduos foram Michael Phelps (6-0), Michelle de Brito, Sébastien Loeb e Lewis Hamilton (5-0), Frederico Gil (5-1), Rafael Nadal e Naide Gomes (4-0).

O futebol é um caso à parte, dominando a secção juntamente com a política. O herói chama-se Cristiano Ronaldo (17-2), enquanto José Mourinho pode ganhar este ano o campeonato italiano, mas só está em 4-1. Dos treinadores das principais equipas nacionais, Jesualdo Ferreira é justificadamente o mais bem classificado (20-4), seguindo-se Paulo Bento (14-10), Jorge Jesus (4-0) e José Mota (2-0). Quanto a Quique Flores, está empatado (7-7), muito acima das expectativas para a sua equipa (tendo o antecessor, José Antonio Camacho, ficado em 1-2). O estado de Carlos Queiroz (2-3) está mais de acordo com o estado da selecção nacional (e Scolari, que não foi feliz em Londres, ficou em 2-6). Entre os jogadores da I Liga, Liedson (3-0) é o mais considerado. Quanto aos dirigentes desportivos, Luís Filipe Vieira disputa a notoriedade a Pinto da Costa, mas enquanto o presidente do Benfica apresenta um desastroso score de 0-8, o do FC Porto tem um balanço positivo de 6-4. Soares Franco, esse, fica a um nível inferior (1-2).

Na próxima crónica o provedor tirará as suas ilações destes números.

NOTA: Sob o título “Camilo, um naufrágio, uma cozinheira e uma paixão”, publicou o provedor na crónica anterior uma rectificação de um leitor, na presunção de que o jornal não o havia feito. Ora, o director adjunto Manuel Carvalho informou o provedor de que tal rectificação saiu sim, mas apenas na secção Local da Edição Porto. Solução lógica, uma vez que o texto original fora também publicado nessa secção. O provedor, que vive na capital e lê habitualmente a Edição Lisboa, errou e penitencia-se do facto.

CAIXA:

Princípio a nunca esquecer

A propósito da notícia “Moradores da Bela Vista apedrejam esquadra e PSP dispara para ‘acalmar os ânimos’”, inserida na pág. 10 do PÚBLICO de 8 de Maio, escreve o leitor Walter Correia: “A abrir, uma classificação estonteante: ‘Depois do funeral do assaltante de 20 anos...’. Assaltante? Quem disse? Condenado em que processo de que tribunal? Julgo que falta esta informação para esclarecer o leitor. Qualquer coisa do género ‘O assaltante, condenado no ano tal pelo crime de tal’. Mas não. Porque, continua a jornalista, o assaltante foi morto a tiro durante uma perseguição policial. Os populares que apedrejaram a esquadra ‘levavam camisolas com o nome do rapaz - Toninho - que participou num assalto a uma caixa multibanco do Hospital Particular do Algarve’, continua a prosa. Pobre Toninho que já não está entre nós para ensinar aos jornalistas que se é inocente até prova em contrário e que essa prova deve ser feita em tribunal”.

O princípio está na Constituição da República e no Código Deontológico dos Jornalistas – e o Livro de Estilo deste jornal enuncia-o assim: “O direito ao bom nome e a presunção da inocência até condenação em tribunal são escrupulosamente garantidos nas páginas do PÚBLICO”. É algo que os jornalistas por vezes têm tendência para ignorar (como neste caso), mas que tinham a obrigação de ter sempre presente, mesmo quando, aparentemente, se está perante situações de flagrante delito.

Publicada em 10 de Maio de 2009

DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR

Carta do leitor Walter Correia

Escrevo-lhe um tanto ou quanto indignado com a notícia "Moradores da Bela Vista apedrejam esquadra e PSP dispara para 'acalmar os ânimos'", na página 10 do PÚBLICO de hoje, dia 8 de Maio.

A abrir a notícia, uma classificação estonteante: "Depois do funeral do assaltante de 20 anos...". Assaltante? Quem disse? Condenado em que processo de que tribunal? Julgo que falta esta informação para esclarecer o leitor. Qualquer coisa do género "O assaltante, condenado no ano tal pelo crime de tal". Mas não. Porque, continua a jornalista, o assaltante foi morto a tiro durante uma perseguição policial. Os populares que apedrejaram a esquadra "levavam camisolas com o nome do rapaz - Toninho - que participou num assalto a uma caixa multibanco do Hospital Particular do Algarve", continua a prosa. Pobre Toninho, que já não está entre nós para ensinar aos jornalistas que se é inocente até prova em contrário e que essa prova deve ser feita em tribunal.

E pobre Toninho, que devia ser mesmo pobre, porque se fosse rico seria alvo de "denúncia" e teria direito ao "alegadamente" e ao uso dos verbos no futuro do presente, como aliás acontece com Joãozinho, mais conhecido por João Rendeiro, na mesma edição do PÚBLICO, página 34. Embora o título seja afirmativo "Rendeiro pagou despesas suas com dinheiro de offshore do BPP", o ínício da notícia não o chama de ladrão, como a outra chamou assaltante ao Toninho, e o primeiro parágrafo usa devidamente o "terá pago despesas pessoais"... segundo uma denúncia da Deloitte.
Talvez a informação sobre o Toninho ter participado num assalto devesse ser acompanhada da frase "segundo a denúncia da polícia".

Talvez seja uma questão de este ou aquele jornalista ter ou não mais presente a deontologia ou talvez seja puro e simples facilitismo: o Toninho não vai processar o PÚBLICO. A família do Toninho provavelmente não lê o PÚBLICO. O Joãozinho, sim, provavelmente lê o PÚBLICO.

Mas o que se pede ao PÚBLICO também é simples: respeito!

Walter Correia

domingo, 3 de maio de 2009

Escada acima, escada abaixo

Será o “Sobe e desce” uma manifestação do subsconsciente do PÚBLICO, ou a imposição do “politicamente correcto”?


No jogo das setas, Cavaco apresenta um saldo de 10 referências favoráveis, enquanto Sócrates tem uma diferença de 16 negativas

Como qualquer secção do género, o “Sobe e desce” diário da última página do PÚBLICO obedece a critérios discricionários, ao sabor das notícias do momento e da apreciação subjectiva de quem selecciona e escreve sobre os visados. Mas o exercício causa irritação em alguns leitores, que levam a peito essas avaliações e exigem um equilíbrio que, do seu ponto de vista, julgam não existir na secção.

Aproveitando algumas queixas ainda não analisadas, o provedor decidiu também fazer a sua avaliação do “Sobe e desce”. Um leitor que cita o FC Porto como o seu “clube de paixão”, Edmundo Jorge Moreira, escreveu por exemplo várias vezes contra o que acha um tratamento discriminatório do seu presidente, Jorge Nuno Pinto da Costa, a propósito dos recentes casos judiciais em que este tem estado enredado, já que veria mais setas para baixo (quando vai a tribunal) do que para cima (quando acaba ilibado). Ao mesmo tempo, um outro, o benfiquista José Damião, queixou-se em tempos de uma “persistente pressão do PÚBLICO” sobre o seu clube, reflectida no facto de certa vez o treinador Sven-Goran Eriksson ter aparecido na secção a descer após uma pesada derrota sofrida pela sua equipa no campeonato inglês, o que o leitor atribuía à iminência do regresso (não concretizado) do sueco à Luz. Mas grande parte das reclamações incidem na área política, em especial sobre a atribuição de notas negativas a José Sócrates. Foi o caso de Amílcar Gomes da Silva, que viu numa seta para baixo, a propósito de previsões sobre a actividade económica em Portugal, “a vontade cega de querer desancar no primeiro-ministro”.

Haverá alguns preconceitos na elaboração do “Sobe e desce”? Será que quem o faz (em regra, membros da direcção) obedece às imposições do “politicamente correcto” no meio jornalístico ou na redacção do jornal? Revelará o estudo dos nomes escolhidos e dos critérios usados algumas tendências não confessadas existentes no interior do jornal? Será a secção uma manifestação do subsconsciente do PÚBLICO?

Para o saber, o provedor recenseou as quase duas mil notas publicadas no “Sobe e desce” desde que iniciou funções, em 1 de Janeiro de 2008, até ontem (exceptuando – por se tratar de alguém exterior à redacção – as do dia de aniversário do PÚBLICO no ano passado, em que José Pacheco Pereira, convidado para dirigir a edição, escreveu também a secção).

Deve dizer-se em primeiro lugar que, sem surpresa, o campeonato da notoriedade é ganho claramente por Sócrates (50 referências – recorde absoluto) e pelos seus ministros (entre os quais Teixeira dos Santos, em segundo lugar com 42 notas). Mas isto não quer dizer que sejam alvo de uma apreciação globalmente positiva, quando na realidade é o contrário que acontece – este governo tem sido arrasado na secção sem apelo nem agravo: qual S. Sebastião, o primeiro-ministro foi atingido com 28 setas para baixo e apenas beneficiou de 12 para cima (mais 10 para o lado, das que não aquecem nem arrefecem); o titular das Finanças apareceu a descer 26 vezes contra apenas sete a subir; Maria de Lurdes Rodrigues teve 22 avaliações negativas (as mesmas de Alberto Costa) e apenas duas positivas (contra quatro para o ministro da Justiça); Ana Jorge, apesar de ter entrado a meio do campeonato, já levou com 13 setas para baixo e oito para cima (melhor média, mesmo assim, que o seu antecessor, com três para baixo sem qualquer uma noutro sentido, ou que o director-geral da Saúde, Francisco George, com apenas quatro negativas); Manuel Pinho ficou 14 vezes na mó de baixo e uma na de cima; e Mário Lino 11, também com uma vez apenas em cima, mesmo assim melhor que Jaime Silva igualmente com 11 em baixo mas nenhuma em cima, que por sua vez se situou acima de Rui Pereira, com 15 em baixo sem nenhuma em cima; Nunes Correia teve oito setas para baixo e lá conseguiu uma em sentido contrário, tal como Mariano Gago, que “apenas” teve cinco para baixo; Augusto Santos Silva sofreu nove para baixo, mas obteve duas a subir; Vieira da Silva quase equilibrou as suas seis negativas com quatro positivas; e até Pedro Silva Pereira teve má nota, com uma negativa isolada. Na Cultura, José António Pinto Ribeiro, também entrado a meio, já leva três negativas contra duas favoráveis (e a sua antecessora, Isabel Pires de Lima, não fizera melhor, com duas negativas apenas). Alguns secretários de Estado não alteram a tendência, como os da ministra da Educação – Jorge Pedreira teve quatro negativas no total e Valter Lemos duas, contra uma positiva –, do ministro do Ambiente – Humberto Rosa sofreu duas negativas, sem mais – ou do ministro da Administração Interna – José Magalhães ficou em 0-1. Até António Nunes, que o governo escolheu para liderar a ASAE, foi atingido com 11 setas para baixo sem nenhuma contrária – será que a inspecção económica nada teve de meritório ao longo deste período? O melhor que um ministro conseguiu foi um empate: Luís Amado com cinco para cada lado e Severiano Teixeira com uma. Para encontrar no actual executivo alguém com apreciação positiva, é preciso ir à pontuação de Laurentino Dias: três setas para cima e uma para baixo (outros secretários de Estado com balanço positivo foram Ana Paula Vitorino – 2-1 –, Fernando Serrasqueiro – idem – e João Gomes Cravinho – 1-0). Terá sido o secretário de Estado da Juventude e Desporto o melhor membro deste governo?

Mesmo figuras conotadas com a actual maioria parlamentar não ficam mais bem favorecidas no retrato. Jaime Gama perde por 2-4, Alberto Martins por 1-6, Carlos César por 1-3, António Costa por 2-5, Vitalino Canas, José Lello, João Soares, Freitas do Amaral e João Proença por 0-1 (a propósito do líder da UGT, compare-se o seu resultado com os positivos 3-0 de Manuel Carvalho da Silva, da CGTP). Salvam-se do massacre Vítor Constâncio (à justa, por 7-6), o colunista do PÚBLICO Vital Moreira (1-0), Jorge Coelho (1-0) e os ex-presidentes Mário Soares e Jorge Sampaio (ambos com 2-0, enquanto o outro antigo ocupante de Belém em democracia, Ramalho Eanes, obtém 1-0). Curiosamente, elementos desafectos à actual liderança socialista obtêm melhores notas, como Manuel Alegre (4-1), António José Seguro (2-0), João Cravinho e Paulo Pedroso (ambos com 1-0).

Os líderes da oposição, embora nem sempre com resultados positivos, portam-se melhor para os responsáveis do “Sobe e desce”. Nesse grupo, a corrida da notoriedade foi ganha, como seria natural, por Manuela Ferreira Leite, com 27 referências, sendo nove positivas e 12 negativas e – uma muito melhor proporção do que a de Sócrates. Paulo Portas (2-5) e Jerónimo de Sousa (2-3) também são castigados de forma mais branda, apenas se poupando Francisco Louçã (3-3).

Os ex-líderes sociais-democratas Pedro Santana Lopes (2-10) e Luís Filipe Menezes (1-10), assim como o braço direito deste, Ribau Esteves (0-6), são vistos sob um olhar muito mais severo, que no entanto poupa Luís Marques Mendes (1-0). Durão Barroso tem um saldo positivo de 7-2, mas é sabido que há muito mudou de campeonato. Outras figuras do PSD castigadas são Alberto João Jardim (1-11), Pedro Duarte (0-3) ou Rui Rio (0-2). Mas Paulo Rangel sai favorecido (2-0), assim como o oposicionista interno Pedro Passos Coelho (3-0).

E um dos dados que mais interessam é a comparação entre os números de Sócrates e os de Cavaco Silva, sobretudo tendo em vista o recente descarrilamento da “cooperação estratégica”. Pois bem, Cavaco Silva tem um balanço positivo de 16-6 (em 29 referências no total). Em resumo: Sócrates apresenta um saldo de 16 referências negativas, enquanto o saldo de Cavaco é de 10 notas favoráveis. Será equilibrada esta apreciação das duas mais destacadas figuras actuais do Estado português?

Muito haverá ainda a dizer sobre o assunto, pelo que o provedor tenciona voltar a ele em nova crónica. Faltam as avaliações em política internacional, no desporto e noutras áreas de actividade, além das conclusões a tirar de tudo isto. Adivinhe o leitor que números tiveram George W. Bush e Barack Obama. Ou Jesualdo Ferreira, Quique Flores e Paulo Bento (além de Pinto da Costa, um dos pretextos deste estudo). Voltaremos a falar no próximo domingo.

CAIXA:

Camilo, um naufrágio, uma cozinheira e uma paixão

Reclamou o leitor Carlos Cal Brandão acerca de uma reportagem da autoria de João Pedro Barros sobre a Rua da Fábrica, no Porto, publicada no “Local” da Edição Porto em 12 de Abril: “Afirma o autor, pelo menos, três coisas verdadeiramente espantosas: 1. Que Camilo Castelo Branco viajava no rabelo que naufragou em 12 de Maio de 1861 e de que resultou a morte de Barão de Forrester: ‘D. Gertrudes morreria dois anos depois, no naufrágio que também vitimou o barão de Forrester, no Cachão da Valeira, e do qual Camilo e D. Antónia, a Ferreirinha, se salvaram.’ 2. Que a tal D. Gertrudes era a cozinheira do Grande Hotel. Tivesse o autor lido O vinho do Porto - processo de uma bestialidade inglesa e saberia que assim não é. Que o visitava ali, e que passou a cozinhar para ele, assim o livrando da morte. 3. Que Camilo manteve com a tal D. Gertrudes uma relação amorosa. Não sei onde foi o autor colher tão espantosa quanto, creio, inédita afirmação. Bastará ler a citada obra para perceber que não era desse tipo a relação que tinha com a Gertrudes (...)”.

Por solicitação do provedor, Manuel Carvalho, director adjunto do PÚBLICO responsável pela redacção do Porto, reconhece que o jornal errou. Mas, como não foi feita nenhuma rectificação na secção habitual, aqui fica, para que conste.

Publicada em 3 de Maio de 2009

domingo, 26 de abril de 2009

O que escrever em título

Ser apelativo, sintético e exacto nos títulos é um dos desafios que se colocam a qualquer jornalista, e nem todos o superam



Queixa-se a leitora de não estar no texto o que diz o título: que os ciganos “aleluia” se julgam melhores

“Parlamento Europeu aprovou alargamento dos direitos dos artistas de 50 para 70 anos”, dizia o título principal da pág. 19 do PÚBLICO da passada sexta-feira. Afinal, conforme a noticia, tratava-se apenas dos direitos dos músicos, que assim ficavam equiparados aos dos restantes artistas (há muito abrangidos pela lei dos 70 anos).

Quantas vezes não lemos já notícias que não correspondem ao que se anuncia nos títulos? É uma queixa recorrente ao provedor, e um sintoma do rigor praticado pelas redacções. Ser apelativo, sintético e exacto nos títulos é um dos desafios que se colocam aos jornalistas, e nem todos o superam. Para complicar, muitas vezes quem produz o título não é quem elabora a notícia, aumentando-se a probabilidade de erro.

Reclamou o leitor J.P. Oliveira: “Manifesto tristeza pelo título irresponsável ‘Álcool e drogas - estudantes portugueses portam-se bem’ que o PÚBLICO publicou a 27 de Março na primeira página. Perante tema tão delicado (nos EUA, por exemplo, é um dos maiores problemas de saúde pública que as autoridades enfrentam), como é possível utilizar a expressão ‘portam-se bem’? Foi algum estagiário que o escreveu? E, em caso afirmativo, não há um editor que reveja os conteúdos antes de publicados? Dentro da notícia, felizmente, já há um bocadinho mais de rigor e ética no tratamento do assunto”. O panorama descrito na notícia, baseada num estudo de âmbito europeu, é com efeito demasiado alarmante para se poder dizer que os estudantes portugueses se portam bem, o que é de resto logo contrariado pelo título no interior (pág. 6) – “Aumentou [em Portugal] o número de estudantes de 15 e 16 anos a beber muito em pouco tempo” –, assim como por uma das passagens do texto: “O consumo de grande quantidade de álcool num curto espaço de tempo aumentou em mais de metade dos países, especialmente entre as raparigas (...). ‘O aumento mais pronunciado ocorreu em Portugal entre 2003 e 2007, onde o número de estudantes que relata episódios de consumo excessivo (...) nos 30 dias anteriores passou de 25 para 56 por cento’.” É isto um atestado de bom comportamento?

Segundo o estudo em questão, Portugal situa-se abaixo das médias europeias em consumo de tabaco, álcool e drogas, mas só por si isso não é necessariamente um panorama animador, ao contrário do que se infere de um título longe de reflectir a realidade e a própria notícia.

Observou por outro lado a socióloga Ana Cruz, a propósito da reportagem de Bárbara Wong intitulada “Os ciganos aleluia acreditam que são melhores do que os outros”, publicada nas págs. 6-7 do P2 de 23 de Março: “Fiquei muito surpreendida com o título (...). Em nenhuma parte do texto se pode tirar tal conclusão. E sendo assim não se percebe como se chegou a essa conclusão. Trabalho há anos na zona das Galinheiras/Ameixoeira [área da capital onde se realizou a reportagem] e conheço bem os ciganos frequentadores do culto [da Igreja Evangélica Filadélfia”, ou “aleluia”]. Não partilho dessa conclusão, e caso tenha sido afirmado, por que não está referenciado na notícia?”

De facto assim é: mesmo que o pensem (como sucede com a maioria das confissões religiosas), nenhum dos entrevistados se declara melhor do que os não pertencentes ao seu culto. “Não era título, mas esta ideia estava na entrada e foi puxada para título, com o meu conhecimento”, explica Bárbara Wong, por solicitação do provedor. “Ao longo do texto, pela voz de dois pastores da Igreja Filadélfia, ficamos a saber que os seus crentes abdicam de alguns costumes e práticas, como beber nos casamentos ou mentir quando negoceiam. Também o modo como festejam ou resolvem as contendas entre famílias mudou. Não vendem contrafacção, garante o pastor Sidnei. ‘Quem não é cigano ainda nos vê da mesma maneira, mas quem nos conhece sabe que há diferenças entre os que andam na Igreja e os outros’, acrescenta. Uma vez que procuram cumprir os dez mandamentos, alguns dos quais estão plasmados nas leis da maior parte dos países, creio que não é um abuso dizer que estes ciganos acreditam que são melhores que os outros”.

O provedor julga procedente a queixa da leitora, já que um título de notícia ou reportagem não deve dizer outra coisa que não esteja contida no texto que lhe corresponde nem adiantar interpretações desse texto. A propósito, a reportagem (objecto também de um pedido de esclarecimento entretanto já publicado a 6 de Abril) tende a fazer uma divisão entre ciganos que se portam bem (para recorrer a outro título antes aqui mencionado), os quais seriam os do grupo “aleluia”, e os restantes, praticando “tradições (...) que lhes dão má fama” (segundo se escreve na entrada), as quais têm a ver, por exemplo, com “mentir quando negoceiam” ou vender “contrafacção” . Ora, podem existir nesta simplificação conotações racistas, já que ser membro (não aleluia) da comunidade cignada não implica forçosamente ser criminoso. Há quem não seja nem uma coisa nem outra (como em qualquer outra enia). Vale a pena evocar aqui o ponto 6 dos “Princípios e normas de conduta profissional” contidos no Livro de Estilo deste jornal: “O jornalista do PÚBLICO recusa todos os preconceitos e estereótipos de linguagem que firam a sensibilidade comum em assuntos que envolvem idade, etnia, origem nacional, religião, opção ideológica, orientação sexual ou sexo”.

Por fim, uma notícia onde o problema, segundo Belarmino Craveiro Bolito, não residiria apenas no título (“Especialistas de energia denunciam ‘embuste’ na visita de [José] Sócrates e [Manuel] Pinho à Energie”, pág. 27 de 24 de Março com chamada à primeira pág.), mas no próprio conteúdo, escrito por Lurdes Ferreira, onde em resumo se sugeria que a ida do chefe do Governo e do seu ministro da Economia à empresa citada, numa acção destinada a apoiar o consumo de energia solar, seria enganadora, na medida em que a tecnologia das chamadas bombas de calor aí produzidas “não é solar, mas sim de base eléctrica”. Escreve o leitor: “Saberá o PÚBLICO, por acaso, o que são ‘bombas de calor’? É que, pela leitura do artigo, se fica a saber que o seu autor não sabe, nem se preocupou em saber (...). Saberá, por acaso, o que são ‘painéis solares térmicos’? Claro que, como toda a gente, a jornalista já os terá visto nos telhados de algumas casas, mas, também, à semelhança da maioria das pessoas, não sabe mais nada (...). Pois é: ‘Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão’? ‘Painéis solares térmicos’ são simples e simpáticos permutadores de calor de origem solar, integrados num sistema de aquecimento ou consumo, em que normalmente não são a única fonte de calor (complementada habitualmente por electricidade). ‘Bombas de calor’ são simpáticos sistemas permutadores de calor de origem diversa (entre elas a mais comum é a solar) (...) integrados em outros sistemas de aquecimento ou consumo, em que normalmente não são a única fonte de calor (complementada habitualmente por electricidade). Qual dos dois sistemas é mais ecológico? Qual é mais eficaz? Em qual devemos apostar (se é que faz sentido esta pergunta)? O que sem dúvida podemos afirmar é que qualquer deles não garante a autonomia energética num sistema de aquecimento. Mais: à partida, parece ser mais certo dizer que uma bem escolhida ‘bomba de calor’ é a que mais autonomia garante (...). Não se percebe de todo esta animosidade do PÚBLICO para com a ‘bomba de calor’.”

Numa detalhada resposta (que pela sua extensão se remete para o blogue do provedor, juntamente com as interpretações políticas feitas pelo leitor), Lurdes Ferreira justifica em síntese: “O PÚBLICO consultou informação sobre a matéria e também opinião junto de peritos e instituições, (...) Tanto os designados painéis solares termodinâmicos vendidos pela Energie como os colectores solares térmicos são sistemas termodinâmicos, porque ambos funcionam segundo o princípio da troca de calor com o ambiente externo (...). A diferença (...) tem a ver com a forma como cada um deles usa a energia solar e a energia eléctrica. (...) Para os primeiros, o sol é a sua energia principal, para os segundos, é subsidiária. Digo no meu texto que os cálculos técnicos existentes indicam que o designado sistema termodinâmico consome 10 vezes mais energia eléctrica do que um colector solar térmico quando este recorre à energia eléctrica como energia de apoio para os momentos em que não há sol ou este é insuficiente”.

Considera o provedor que a jornalista procurou ir mais longe do que o mero registo de um acto oficial, investigando junto de fontes credíveis, questionando o que estava por detrás das aparências e prestando por isso um serviço mais completo aos leitores. Não encontra pois razões para julgar fundamentada a crítica recebida.

Para tornar a notícia mais equilibrada, Lurdes Ferreira poderia, é certo, tentar confrontar Sócrates ou Pinho com os dados que apurou (mesmo que não quisessem responder), mas sobre isso não reclamou o leitor.


CAIXA:

Veja as diferenças

Na sua anterior crónica, o provedor discorreu (pela segunda vez) acerca de uma queixa relativa ao PÚBLICO de 30 de Março, por conter uma falsa primeira página com um anúncio que, apesar da menção “PUBLICIDADE”, possuía um grafismo idêntico ao das verdadeiras primeiras páginas do jornal. Para os leitores perceberem do que se falava, solicitou o provedor ao responsável pela maquetagem que publicasse as duas primeiras páginas, juntas com este destaque: “A imagem da falsa primeira página não é em tudo similar à autêntica: um segundo olhar dissipará a ambiguidade”. Devido ao que – tudo o indica – consistiu num erro de comunicação, surgiram de facto duas primeiras páginas, uma editorial e uma de publicidade, mas nenhuma publicada na data em causa. Para que os leitores não julguem que alguém os tenta ludibriar, publicam-se aqui as duas páginas da polémica. [imagens a colocar on-line brevemente]

Publicada em 26 de Abril de 2009

domingo, 19 de abril de 2009

Jornalismo e pragmatismo

Lembrando Darwin, também os media habitam uma ecologia onde só sobrevivem os mais aptos

A imagem da falsa primeira página não é em tudo similar à autêntica: um segundo olhar dissipará a ambiguidade

A anterior crónica do provedor motivou uma carta de Manuel Pinto (M.P.), professor de Ciências da Comunicação de Universidade do Minho, que suscita questões sobre o exercício deste cargo e sobre a defesa dos princípios do jornalismo, pelo que vale a pena regressar aos temas abordados.

A carta debruça-se sobre duas ocorrências que o provedor analisou mas sobre as quais não emitiu parecer ou recomendação. Uma delas foi a aparente desproporção dada à notícia “Auditor interno da EDP sai contra alegada manipulação dos lucros”, manchete de 13 de Março. Observava o provedor: “Não deixa de suscitar dúvidas o relevo dado ao tema (...). Mas, sendo a notícia autêntica, trata-se de uma opção legítima do jornal, que apenas importa à relação que este mantém com os seus leitores, os quais podem identificar-se ou não com tal tipo de destaques noticiosos. Disso, contudo, não cuida o provedor." Comentaria M.P.: “Disso não cuida o provedor?, pergunto eu. Para mim não é nada claro que o destaque dos assuntos não seja matéria do âmbito das competências do provedor. Não será que um jornal pode enviesar profundamente a cobertura da actualidade mediante a enfatização desequilibrada em torno de um determinado assunto? Deverá essa matéria ficar apenas remetida ao gosto ou adesão dos leitores?”

Desde início deixou o provedor claro que não procurava – nem possuía esse direito – condicionar ou interferir na liberdade de escolha do jornal quanto às suas opções noticiosas, a não ser que esteja em causa a violação de um pequeno núcleo de valores essenciais do jornalismo enumerados no Estatuto Editorial do PÚBLICO, como sejam o rigor, a independência, o sensacionalismo ou a “exploração mercantil da matéria informativa”. Não foi o que o provedor concluiu do caso vertente. A informação foi apresentada com rigor, que ninguém pôs em causa, e com isenção, ouvindo-se as “partes com interesses atendíveis no caso” (para usar uma expressão do Código Deontológicos dos Jornbalistas Portugueses), e dificilmente se poderá considerar sensacionalista ou mercantilmente oportunista a notícia da demissão do auditor de uma empresa.

O provedor aceita a razão do leitor ao considerar que um jornal (ou qualquer outro órgão de informação) pode distorcer a importância de um tema da actualidade aumentando ou diminuindo o relevo que lhe atribui, mas em regra essa intenção só é detectável ao longo de várias edições, para se concluir se existe ou não um espírito de campanha em volta do assunto em causa. Pontualmente, é difícil ou impossível extrair esse tipo de conclusões, porque os critérios de projecção dada a uma notícia isolada contêm sempre elementos de interpretação subjectiva, quando não são resultantes de factores ocasionais (no caso, pode ter acontecido que o dia tenha sido “fraco” e a redacção não fosse capaz de produzir uma notícia considerada mais importante para manchete). Por conseguinte, mesmo que possa não estar de acordo com a hierarquização de certas informações, o provedor deve ter o cuidado de não exercer qualquer tipo de constrangimento numa competência que o conceito de liberdade de informação atribui integralmente aos jornalistas.

Quanto à sua alusão ao “gosto ou adesão dos leitores”, entende o provedor que, mesmo que não faça disso razão de existência, nenhum projecto comunicacional pode alhear-se da receptividade do público – e essa será certamente uma ponderação a ter em conta ao elaborar-se a primeira página de um jornal. Qualquer órgão de informação se compõe de notícias de que o público precisa e de notícias que o público quer. Não procurado esse equilíbrio, pode-se estar a caminhar para a irrelevância ou o olvido, com graves consequências para esse projecto.

A outra ocorrência que o provedor se limitou a constatar consistiu na produção de uma falsa capa do PÚBLICO na edição de 30 de Março, constando de publicidade redigida e arranjada graficamente de modo a parecer-se com as habituais primeiras páginas do jornal. Criticou M.P.: “Relativamente à queixa de um outro leitor por o PÚBLICO ter feito uma capa toda de publicidade, criando confusão nos leitores (ainda que assinalando o facto de se tratar de publicidade), conclui o provedor: ‘Perante a actual crise económica e a diminuição do investimento publicitário, julga o provedor que a decisão de aceitar este anúncio terá sido motivada pelo pragmatismo. Uma vez que a crise vai prolongar-se, é melhor os leitores prepararem-se para outras surpresas do género’. O seu comentário não será, ele também, excessivamente ‘pragmático’? Não querendo ser idealista em excesso, temo pela teoria subjacente: a crise autoriza práticas pouco éticas. Como quem diz: ‘Em tempo de guerra não se limpam armas’. Mesmo admitindo que há aqui um terreno ambivalente, em que se confrontam juízos de valor e ponderações de natureza diversa, não seria de esperar de um jornal como o PÚBLICO que, ao menos, falasse connosco, dando conta dos critérios e motivações que estão por detrás da opção tomada? Até por causa da tal segunda parte na norma que cita (‘... que evite confusões ou associações ambíguas à mancha informativa’). De outro modo, o provedor deveria recomendar que se acrescentasse às normas internas do jornal algo como: ‘Esta norma pode ser flexibilizada em tempos de crise económica’.”

Este provedor, tendo já exercido funções de responsabilidade noutros órgãos de imprensa, de que foi forçado a demitir-se ou de que foi mesmo despedido por, em certos momentos, entre o interesse jornalístico e o interesse do respectivo grupo empresarial ou do seu proprietário, ter dado prioridade ao primeiro, não se considera contudo um fundamentalista, muito menos um talibã do jornalismo. Pelo contrário, defende, desde que se preserve o tal núcleo de valores essenciais da actividade, a necessidade do mencionado pragmatismo nas escolhas e orientações a que um órgão de informação deve sujeitar-se, pois muitas muitas vezes pode estar em causa a sua própria viabilidade, e os jornalistas (sobretudo os que têm responsabilidades numa redacção) são também em certa medida gestores, já que administram os seus próprios recursos e distribuem, na tábua rasa posta à sua disposição, a matéria que produzem ou lhes chega às mãos. Podem os jornalistas de um extinto periódico ficarem de bem com a sua consciência por não terem cedido em certos aspectos. E depois? Ganharam eles e o público com isso, se por acaso uma maior flexibilidade em questões não capitais tivesse permitido manter a publicação?

Agora que se comemora Darwin, é bom lembrar que os media também habitam uma ecologia onde só sobrevivem os mais aptos, aqueles que evoluem sabendo adaptar-se às novas condições, extinguindo-se os restantes, muitas vezes por não terem sabido praticar o mesmo jogo de cintura.

A atitude do provedor perante o caso da capa publicitária teve em linha de conta este enquadramento. Estava salvaguardado o princípio que em seu entender não admitia recuo – a devida menção com a palavra “Publicidade” (e cuja obrigatoriedade em idêntica circunstância já há cerca de um ano havia recomendado, perante a sua ausência pura e simples) –, pelo que a questão da eventual confusão gráfica, de carácter mais subjectivo, lhe pareceu secundária. Aliás, já na edição de 10 de Outubro último ocorrera situação semelhante, sem que tivesse suscitado reclamações. E deve também pormenorizar-se que a imagem dessas falsas primeiras páginas não é em tudo similar às autênticas (sendo por exemplo diferentes o tipo e corpo de letra em títulos e textos), pelo que um segundo olhar, mais atento, permitirá dissipar a ambiguidade intencionalmente pretendida pelos publicitários.

A simples menção a tal tipo de situações constitui, já em si, uma chamada de atenção, não julgando o provedor necessário, pela avaliação efectuada nesses casos, ir mais longe. Reservemo-nos para o que é realmente crucial e constitui a matriz da filosofia editorial do PÚBLICO.

CAIXA:

Matéria de facto e matéria de interpretação

Critica o leitor Vasco Almeida: “Se a manchete da edição do PÚBLICO de 10 de Abril, ‘Socialistas subscrevem apelo que lança avisos à política do Governo’, se destinava a sensibilizar os transeuntes que dos jornais apenas lêem os títulos à vista nas bancas, não há dúvida de que foi atingido mais um objectivo da cruzada desse jornal. Nesse caso, ficam perplexos os leitores que compraram o jornal para também lerem o título e o desenvolvimento da ‘notícia’ na pág. 7, tão óbvia é a desafinação entre aquele e este. Não foi a primeira, não será a última, nem terá sido esta a ocorrência mais bombástica da referida cruzada: um empreendimento desta envergadura, mesmo vigiado talvez pela veneração a Teilhard de Chardin, está sempre sujeito ao pecado da insinuação. Mas esse jornal é suposto reger-se por um Livro de Estilo (...). Se a resposta à crise implica a adopção de ‘novos paradigmas comportamentais’, qual é a resposta desse jornal no que concerne a sua própria legislação: mandar às urtigas o Livro? Ou o Estilo? Ou devolver os dois ao sr. Vicente Jorge Silva [co-fundador e primeiro director do PÚBLICO], em correio normal sem aviso de recepção?”

O apelo em causa é aquele que convocou a tradicional manifestação do 25 de Abril em Lisboa, e na verdade, como dizia a notícia, “não aponta directamente as opções governamentais, mas é marcadamente crítico quanto à situação económica no mundo e em Portugal”. Pelo que a referência aos “avisos à política do Governo” é matéria de interpretação e não de facto, sendo, em termos de rigor, usada abusivamente na manchete. Mas também é um facto que o manifesto aposta intencionalmente na ambiguidade e que no espírito dos seus redactores pudessem estar os tais “avisos”. Essa circunstância poderia ser relevada, mas não da forma categórica em que a manchete o faz. O provedor não infere porém daqui ou de outras notícias (que o leitor não especifica) a existência de uma cruzada. Também neste aspecto estamos perante matéria de interpretação, não de facto.

Publicada em 19 de Abril de 2009