Professor efectivo (aposentado) de Inglês e Português, leitor habitual do PÚBLICO impresso e ex-colaborador regular da edição online, não sou (e, por mais de uma vez, o declarei expressamente) propriamente um "fundamentalista" daquelas formas de "correcção" linguística a que poderíamos, com admissível propriedade, chamar "descontextualizada" ou "exaustivamente formal".
As minhas concepções nessa matéria são distintas (francamente mais "liberais" e mais funcionais) e por diversas vezes dadas a conhecer em artigos incluidos em publicações da especialidade, designadamente na revista O Professor.
Com alguma frequência deparo (sobretudo no PÚBLICO, que é, de resto, o único diário que leio) com incorrecções formais diversas, algumas de inegável gravidade, que, todavia, entendo não valorar de modo especial, relevando, ao invés, sobretudo, o conteúdo das notícias a um ou outro "deslize" formal mais ou menos "avulso" nelas contido.
O erro crasso que detectei, porém, na edição de 8 de Abril, num texto de Joana Amaral Cardoso ("Wolverine faz a sua primeira vítima: um crítico de cinema da Fox News", P", pág. 8) não me permite, em consciência, que me cale. É o caso de a jornalista ter escrito, a dado passo, que "X-Men Origins: Wolverine chegou HÁ Internet a 31 de Março [...]"
"HÁ Internet"?! Francamente! Esta é de mais...
Se fosse numa aula minha (mesmo considerando o baixíssimo nível a que se chegou nas nossas escolas públicas...) dava-lhe zero! Quero dizer: dava-lhe zero se os membros do "sindicato" local de alunos me deixassem, claro, e a sra. ministra não me desse, ela própria, logo a seguir outro (dos muitos que ela e a equipa dela têm para oferecer aos professores que uns - o Ministério - vão fingindo que tutelam e os outros - os tais "sindicatos" - tutelam mesmo...).
Carlos Machado Acabado
Na edição de 17 Dezembro de 2008, pág. 34, artigo "Clientes do Banco Espírito Santo em risco de perder 15 milhões em fundos Maddoff", último parágrafo, lê-se: "Maddoff manteve em Londres, até à poucos dias, uma sociedade financeira". É óbvio que não é gralha, nem distracção. Antes do mais, falta de gramática e, depois, de revisão.
F. Lopes Pereira
sexta-feira, 10 de abril de 2009
De palmatória
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Estão ou é como se estivessem?
Na edição do PÚBLICO de 9 de Abril, na pág. 13 (secção "Mundo") surge uma notícia, assinada por Jorge Heitor, com o título "Os desalojados pelo sismo de L'Aquila estão a fazer 'campismo', segundo Berlusconi". Já no texto em si surge a passagem "(...) Silvio Berlusconi (...) [disse] que os habitantes da cidade de L'Aquila vítimas do sismo de segunda-feira devem encarar a experiência 'como se fosse um fim-de-semana de campismo'", o que é algo diferente do título em si. Num caso diz-se que os desalojados estão a fazer campismo, afirmação claríssima. Noutro diz-se que devem encarar a experiência como se fosse um fim-de-semana da campismo, uma afirmação mais relativa e delimitada temporalmente. Um pouco mais à frente, o jornalista escreve: "[Berlusconi] afirmou (...) que os habitantes do Abruzzo 'têm tudo do que necessitam. Cuidados médicos, comida quente... Claro que os alojamentos actuais são um pouco temporários. Mas devem ver isso como se estivessem a fazer campismo'". Sendo que a citação de Berlusconi vem entre aspas, assume-se que é verbatim do que disse. Infelizmente, também na passagem anterior que refiro surge uma afirmação entre aspas que deveria ser verbatim mas é diferente desta última.
Ou seja, temos um título que dá a ideia de uma citação diferente daquela que terá sido proferida, o que é um erro, e há depois discordância entre duas citações supostamente verbatim, o que é outro erro (a não ser que Berlusconi se tenha repetido, o que deveria vir referido na notícia). Atendendo ainda a que a citação original apresente um período delimitado no tempo e que refere a situação como uma relativização da situação dos desalojados de L'Aquila, a sensação que dá é que o jornalista terá tentado colocar um peso negativo ainda maior nas afirmações de Berlusconi, o que é mau.
Não sou, de todo, um admirador de Berlusconi, note-se. Ainda assim, não me parece que seja função do jornalista, ao noticiar algo, tentar induzir um juízo de opinião ao leitor. Por isso este comentário.
João Sousa André
PS - No passado escrevi ao Provedor a referir a questão da escrita de nomes estrangeiros, nomeadamente de nomes que usam símbolos diferentes dos portugueses ou alfabetos diferentes dos latinos. No caso referi-me aos nomes sérvios e russos. Na sua coluna dos domingos, o Provedor concordou comigo e deu recomendação nesse sentido. Noto, passados estes meses, que a mesma recomendação não foi seguida. Mesmo sabendo que uma recomendação do Provedor do Leitor não tem força executiva, pergunto se não terá havido receptividade por parte da Direcção do PÚBLICO ao assunto.
PPS - Ainda na sequência do que escrevi acima, noto que o Director do Público, José Manuel Fernandes (JMF), escreve frequentemente o nome do Presidente dos EUA como "Barak Obama". Considerando que o site da Casa Branca escreve o nome como "Barack Obama" e que nas notícias do jornal é assim que o nome surge escrito, pergunto se saberá qual a razão para tão bizarra escolha. Mesmo que JMF optasse por uma escrita mais fonética, seria mais natural, parece-me, escrever "Baraque Obama". Da forma que surge é um pouco estranho.
NOTA DO PROVEDOR: Dentro das regras de simplificação de títulos sem atraiçoar o conteúdo dos textos respectivos, julga o provedor que a formulação aí usada no caso referido é aceitável. Já quanto à discrepância na citação de Berlusconi, parece-lhe pertinente a crítica do leitor.
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País positivo?
Foi uma surpresa muito desagradável para um leitor atento do PÚBLICO de 3 de Abril de 2009, neste caso uma leitora, que, tendo lido e aprovado vivamente o editorial do director intitulado 'O país onde o crime compensa e a Justiça ajuda', que tece ásperas críticas aos "malabarismos jurídicos" e à desmemória do eleitorado, destacando o triste exemplo do autarca de Oeiras, folheia distraidamente a revista de nome Pais Positívo, que, supostamente, traz informação sobre personalidades e projectos de excelência, para servirem de exemplo e edificação aos leitores, e nos oferece, na página 17, um retrato elogióso dessa mesma triste figura política que o editorialista tão duramente critica.
Isto é realmente uma informação em que a mão direita não sabe, nem quer saber, aquilo que faz ou escreve a mão esquerda. Embora tendo perfeita consciência de que a dita revista tem redacção e administração próprias, independentes do PÚBLICO, exige-se um mínimo de coerência e rigor na linha editorial, mesmo no que se refere a suplementos de um jornal que, regularmente, nos presenteia com editoriais que professam tais valores. Não seria de reconsiderar se, realmente, o PÚBLICO deve dar boleia e caução a uma revista que, em constraste tão flagrante com as opiniões expressas pelo seu director, considera tais figuras como fazendo parte integral de um "País Positivo"?
Ruth Huber
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terça-feira, 7 de abril de 2009
O trauma dos números
Novamente números no PÚBLICO. No P2 de 5 de Abril de 2009, na pág. 2, sob o título "Começa o cerco a Sarajevo", segundo parágrafo: "... Morreram mais de 10 mil pessoas apenas na cidade de Sarejavo - incluindo 15 mil crianças." Será que o autor leu o que escreveu? Por isso insisto: se quiser saber quantos morreram tenho de ir a outro lado.
João Brandão
Na página 2 do P2 de 5 de Abril de 2009, a meio do texto referente a “Começa o cerco a Sarajevo” escreve-se que “morreram mais de 10 mil pessoas apenas no cidade de Sarajevo – incluindo 15 mil crianças”. Como é? 15 mil incluídas nas 10 mil? Ou 15 mil mais 10 mil? Terão sido 25 mil? Seria conveniente um esclarecimento e mais cuidado do autor do texto (que não vem identificado).
Albano Nogueira Guedes
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domingo, 5 de abril de 2009
Sobre pressões
Os jornalistas sabem por vezes muito mais do que reportam, mas podem não estar em condições de tudo publicar
A crítica à antiga referência, a propósito do Freeport, feita pelo PÚBLICO a Lopes da Mota faz hoje sorrir
Será dado assente, comprovado e incontroverso que existiram pressões sobre os procuradores do caso Freeport para arquivar o processo? A avaliar por certos títulos do PÚBLICO acerca do tema político/judicial da semana, assim parece: “Magistrados recorrem a Cavaco para falar das pressões sobre investigação do Freeport” (31 de Março, manchete); “Magistrados ignoram PGR [procurador-geral da República] e contam pressões ao Presidente” (idem, pág. 4); “Pressões sobre magistrados vão ter inquérito” (ontem, 4 de Abril, 1ª pág.). Em nenhum destes e outros títulos idênticos se indica que a existência dessas pressões seja algo ainda por apurar, nem em alguns dos respectivos textos, como neste exemplo: “Objectivo: dar conta a Cavaco Silva das pressões que têm sido exercidas sobre os magistrados” (31 de Março, 1ª pág.).
O PÚBLICO, porém, tem sido mais dubitativo (e cauteloso) noutras referências ao assunto: “PCP e Bloco insatisfeitos com explicações do procurador sobre alegadas pressões a magistrados” (título do PUBLICO.PT, 31 de Março); “O PGR tentou ontem encontrar uma saída airosa para o caso das alegadas pressões sobre os dois magistrados” (2 de Abril, pág. 6); “As pressões, supostamente, tinham em vista o arquivamento da parte do processo relativa a José Sócrates” (4 de Abril, pág. 8).
Em que ficamos? As pressões pertencem ao domínio dos factos ou não passam, por ora, de conjecturas, hipóteses, possibilidades? Pelo que se sabe, encontramo-nos ainda perante uma suposição que carece de ser confirmada por fontes independentes das que terão transmitido a informação – os magistrados em causa e o sindicato que os representa – ou pelo inquérito oficial a realizar. Trata-se portanto de alegações cuja não confirmação teria de ser relevada em todas as notícias. É o que determinam as regras do bom jornalismo: a não ser que se encontre corroborada de forma factualmente irrefutável, qualquer menção a uma prática ilícita ou ilegal deve ser apresentada em modo condicional. E não vale neste caso invocar a necessidade de simplificação dos títulos. Bastaria colocar a palavra “pressão” entre aspas para que tudo obedecesse às regras de isenção e rigor que são apanágio deste jornal.
O assunto suscita uma questão já antes abordada pelo provedor: serão estas falhas uma manifestação inconsciente de um eventual desejo do PÚBLICO na culpabilização do actual primeiro-ministro no caso Freeport? Se sim, esse desejo não deveria existir e muito menos subverter as boas práticas jornalísticas preconizadas no estatuto editorial do PÚBLICO. Este jornal, que tem tido destacado protagonismo na abordagem do processo de licenciamento do outlet de Alcochete, está obrigado a abordar o tema com pinças, não só para defender a sua credibilidade e independência mas também por estar em causa uma alta figura da hierarquia do Estado, cuja probidade não deveria ser questionada de ânimo leve pela imprensa de referência. Acresce que é imperioso manter a cabeça fria e não perder o Norte (isto é, o rumo editorial) perante provocações como a que Sócrates lançou ao PÚBLICO no recente Congresso do PS ou processos judiciais que o chefe do Governo decida interpor contra jornalistas deste periódico, conforme agora anunciado.
A propósito, houve leitores que voltaram a levantar reservas relacionadas com o artigo “O mundo pequeno do caso Freeport”, de Clara Viana, publicado nas págs. 8/9 da edição de 14 de Fevereiro, acerca do percurso profissional de vários magistrados que se têm cruzado com o polémico processo – artigo sobre o qual o provedor já disse nada encontrar de questionável.
Sérgio Brito contesta o conteúdo da notícia que a 15 de Março dava conta do falecimento de um desses magistrados (“Morreu Santos Alves”, pág. 9): “Mesmo quando uma pessoa morre – e ainda por cima novo e inesperadamente! –, nem o respeito pelos mortos e sua família é praticado pelo PÚBLICO! Lá vem a notícia a ligar uma carreira de muitos anos apenas ao caso Freeport (omitindo ainda convenientemente que o cargo ocupado no Eurojust era de nomeação do [então primeiro-ministro] Durão Barroso)!” O tom ordinário e insultuoso praticado por este leitor impede a reprodução do resto da sua carta, mas, de qualquer modo, o provedor não encontra fundamento para a queixa: a notícia, sintética, é meramente factual, não fala apenas do cargo ocupado pelo magistrado no organismo europeu de coordenação judiciária e dá sequência lógica ao artigo de Clara Viana.
Já Rui Vilhena faz uma crítica mais substancial, começando por “citar o jornalista José Vitor Malheiros, que escreveu no PÚBLICO de 1 de Fevereiro de 2005 uma nota brilhante sobre ‘a insinuação’, onde diz: ‘A insinuação é uma arma retórica de grande peso, pois permite dizer sem dizer e, principalmente, dar a entender que se diz sem se ter dito e sem ter provas do que se diz. É um ataque que não exige coragem (...), nem tem defesa. A insinuação é o grau zero da dignidade do discurso, uma espécie de fogo de vista ao contrário, que cria do nada uma girândola de imundície’.”
A seguir o leitor aplica a ideia ao artigo de Clara Viana: “Isto não é notícia, não é nada. É insinuação pura, nada mais, procurando, nomeadamente, pôr em causa a isenção dos magistrados. Veja, por exemplo, o que vem dito a propósito do magistrado Lopes da Mota: que foi suspeito de ter protegido Fátima Felgueiras, foi alvo de inquérito e, por isso, não foi escolhido para procurador-geral. (...) O que Clara Viana deveria ter dito claramente era que o PÚBLICO lançou a suspeita, que era falsa, e que, por via disso, impediu que Lopes da Mota fosse escolhido para PGR. Ou seja: fez um serviço a alguém. Porque é que o não confessou? Mais ainda: o magistrado foi ‘alvo de inquérito’ porque ele mesmo o exigiu! E mais: não se provou porque nunca se pode provar o que não existe! A senhora jornalista também deveria saber que esse magistrado (pessoa de superior competência e integridade à prova de bala) foi nomeado [para o Eurojust] por Martins da Cruz, MNE (ministro dos Negócios Estrangeiros) do Governo Barroso (...). Fico desiludido ao ver tratar de forma inaceitável coisas e pessoas que conheço bem...”
O provedor solicitou a Clara Viana uma reacção a esta crítica, que ela elaborou de forma seca e factual: “Como jornalista, compete-me averiguar da veracidade dos factos noticiados e não comentar as interpretações feitas sobre eles. Mas deixo aqui algumas precisões quanto aos factos alegados pelo leitor: o Eurojust foi criado em 2002 (...); o magistrado Lopes da Mota integrou este organismo a partir de (...) 6 de Março de 2002 (ainda com o Governo de António Guterres em funções), tendo esta designação só sido alvo de um despacho publicado um ano depois, já com o Governo de Durão Barroso, (...) ‘com efeitos a partir de 6 de Março de 2002’; os magistrados no Eurojust estão em comissão de serviço, devendo esta ser renovada por proposta da PGR e mediante despacho conjunto do MNE e do ministro da Justiça – foi o que aconteceu em 2004 e em 2007 (...)”.
Conhecendo-se o que se conhece hoje acerca da suposta responsabilidade de Lopes da Mota nas tais pressões sobre os magistrados do Freeport, a reclamação deste leitor, datada de 9 de Março, não deixa da fazer sorrir. Pela sua pretérita experiência profissional, o provedor garante que, nas redacções, os jornalistas sabem por vezes muito mais do que reportam, mas podem não estar em condições de tudo publicar por não conseguirem preencher as regras básicas de comprovação dos factos. Desconhece se foi esse o caso de Clara Viana, mas de qualquer modo o texto da jornalista era uma descrição de carreira meramente factual que, aos olhos do provedor, não insinuava o que o leitor viu como insinuação (a qual pode muitas vezes estar mais na mente de quem lê). Quanto à questão de Felgueiras (sobre a qual teria sido interessante, mas não essencial, sublinhar o papel do PÚBLICO na sua divulgação), a verdade é que foi realizado um inquérito à actuação de Lopes da Mota – e há uma diferença entre provar-se ou não e existir ou não. Seja como for, independentemente de vir a apurar-se se Lopes da Mota foi agente das famigeradas pressões, o tempo demonstrou a pertinência do artigo elaborado pela jornalista.
CAIXA:
Pensões a prazo
“Corte nas pensões da segurança social é o maior da União Europeia” – anunciava a manchete de 16 de Março. Mais uma “ataque” a Sócrates? Assim o pensou pelo menos o leitor Adérito Tavares: “Que o PÚBLICO tem uma posição ultracrítica em relação ao actual Governo e, muito particularmente, em relação ao primeiro-ministro, já não oferece dúvidas (...). Embora no subtítulo se diga que isso só acontecerá depois de 2046, a utilização do presente do indicativo – ‘é’ – ilude o leitor apressado (ou aquele que apenas lê os títulos no quiosque), levando-o a pensar que isso vai acontecer já amanhã e que ele próprio irá ser uma das vítimas. É óbvio que o título deveria utilizar a forma verbal ‘será’.” E Belarmino Craveiro Bolito acentua: “O título (...) é uma ofensa, ou mesmo um insulto, aos leitores. (...) Fica-se, mais uma vez, com a muito desagradável ‘leitura’ de que um assunto de menor importância, no contexto do momento, é levado à superior evidência do dia por razões que nada têm a ver com o que o título indica. Os leitores do jornal esperam deste seriedade jornalística, posta em causa (...) com um título muito manhoso, muito ‘chico esperto’. (...) Entra pelos olhos dentro que o que é importante para o jornal evidenciar não é a notícia do corte nas pensões da segurança social, mas sim que esse corte é o maior da UE (...)”.
“Os dois leitores não têm razão quanto à substância das questões que levantam”, defende o director do PÚBLICO, a solicitação do provedor. “Aquele título traduz de forma correcta, mesmo que sintética, o conteúdo de um estudo da UE. E esse estudo mostrava que a recente alteração do sistema de cálculo das pensões se traduzirá, para os pensionistas do futuro, num corte nos montantes a receber que, proporcionalmente ao que resultava da fórmula em vigor, é o maior entre os países da UE que realizaram reformas semelhantes. (...) Podemos referir o corte no presente, pois foi nesta legislatura que foi decidido (...). O assunto não é menor, pois a reforma da Segurança Social é uma das de que este Governo se orgulha e que muitos, mesmo parte dos que não são da cor do Governo, elogiam”.
O subtítulo da manchete, falando no “horizonte de 2046”, salva-a in extremis de uma formulação que poderia ser de facto, na perspectiva do provedor, enganadora. Quanto ao resto da polémica entre os leitores e José Manuel Fernandes, que é longa e substancial, o provedor remete para o seu blogue.
Publicada em 5 de Abril de 2009
DOCUMENTAÇÂO COMPLEMENTAR
Excerto de carta do leitor Sérgio Brito:
Com o título “Morreu Santos Alves”, escreveu o PÚBLICO um epitáfio à sua medida (só falta ser assinado pelo José António Cerejo, que gostava de referenciar a vida do procurador nos últimos anos!)!
Mesmo quando uma pessoa morre - e ainda por cima morre novo e inesperadamente! - nem o respeito pelos mortos e sua família é praticado pelo PÚBLICO! Lá vem a notícia a ligar uma carreira de muitos anos apenas ao caso Freeport (omitindo ainda convenientemente que o cargo ocupado no Eurojust era de nomeação de Durão Barroso)!
Isto não é "cultura do contra" que José Manuel Fernandes abusivamente remete para Vicente Jorge Silva (era bom ouvir este sobre a linha editorial do jornal e se se revê na mesma). Isto não é jornalismo (liberdade mas também verdade e responsabilidade) (...)
Sérgio Brito
Carta do leitor Rui Vilhena:
A propósito do artigo da jornalista Clara Viana "O pequeno mundo do caso Freeport" (14-02-2008) apetece citar o jornalista José Vitor Malheiros, que escreveu no PÚBLICO de 01.02.2005 uma nota brilhante sobre "a insinuação", onde diz: "A insinuação é uma arma retórica de grande peso, pois permite dizer sem dizer e, principalmente, dar a entender que se diz sem se ter dito e sem ter provas do que se diz. É um ataque que não exige coragem (leia-se: cobarde, acrescento eu), nem tem defesa. A insinuação é o grau zero da dignidade do discurso, uma espécie de fogo de vista ao contrário, que cria do nada uma girândola de imundície". É isto mesmo, senhor Provedor, num jornal que se tem como sério e respeitador da deontologia. Uma pena! Afinal, o mesmo lixo jornalístico em todo o lado. Gostaria muito de ouvir o seu comentário a propósito daquele "trabalho" jornalístico. Isto não é notícia, não é nada. É insinuação pura, nada mais, procurando, nomeadamente, pôr em causa a isenção dos magistrados. Veja, por exemplo, o que vem dito a propósito do magistrado Lopes da Mota: que foi suspeito de ter protegido Fátima Felgueiras, foi alvo de inquérito e, por isso, não foi escolhido para procurador-geral. Sabe quem lançou a suspeita? O PÚBLICO, exactamente. O que a jornalista Clara Viana deveria ter dito claramente era que o PÚBLICO lançou a suspeita, que era falsa, e que, por via disso, impediu que Lopes da Mota fosse escolhido para PGR. Ou seja: fez um serviço a alguém. Porque é que o não confessou? Mais ainda: o magistrado foi "alvo de inquérito" porque ele mesmo o exigiu! E mais: não se provou porque nunca se pode provar o que não existe! A senhora jornalista também deveria saber que esse magistrado (uma pessoa de superior competência e integridade à prova de bala) foi nomeado por Martins da Cruz, MNE do Governo Barroso, e que foi nomeado para o lugar do Eurojust criado em 2004 pelas ministras da Justiça e dos Negócios Estrangeiros Celeste Cardona e Teresa Patrício Gouveia. Enfim, o texto jornalístico fala por si. Muito haveria a comentar e a acrescentar, mas é melhor ficar por aqui. E notar que idoneidade é coisa que não abunda nos senhores jornalistas. Mas, no fim, resta ao leitor que conhece as coisas um direito inalienável: o de não comprar o jornal. Grato pela atenção. Tenho pena porque sou leitor assíduo do PÚBLICO e fico desiludido ao ver tratar de forma inaceitável coisas e pessoas que conheço bem...
Rui Vilhena
Resposta da jornalista Clara Viana
Como jornalista compete-me averiguar da veracidade dos factos noticiados e não comentar as interpretações feitas sobre eles. Mas deixo aqui algumas precisões quanto aos factos alegados pelo leitor:
- O Eurojust foi criado em 2002.
- O magistrado Lopes da Mota integrou este organismo a partir de 2002, conforme consta no seu curriculum vitae patente no site da Procuradoria Geral da República.
- Mais concretamente, o magistrado Lopes da Mota (que integrou o grupo de trabalho na base do Eurojust) passou a integrar a equipa do Eurojust a 6 de Março de 2002 (ainda com o Governo de António Guterres em funções), tendo esta designação só sido alvo de um despacho publicado um ano depois, já com o Governo de Durão Barroso. Neste despacho, datado de Março de 2003 e assinado pelo então MNE, Martins da Cruz, estipula-se, sobre Lopes da Mota: ”indo ocupar, com efeitos a partir de 6 de Março de 2002, a vaga...”
- Os magistrados no Eurojust estão em comissão de serviço, devendo esta ser renovada por proposta da PGR e mediante despacho conjunto do MNE e do MJ. Foi o que aconteceu em 2004 e em 2007.
Clara Viana
Carta do leitor Adérito Tavares:
Que o PÚBLICO tem uma posição ultra-crítica em relação ao actual governo e, muito particularmente, em relação ao primeiro-ministro, já não oferece dúvidas a qualquer leitor. (...) Eis mais um caso flagrante de manipulação do principal título da 1.ª página, no dia 16-03-2009: “Corte nas pensões da Segurança Social é o maior da União Europeia”. Embora, no subtítulo, se diga que isso só acontecerá depois de 2046, a utilização do presente do indicativo – “é” – ilude o leitor apressado (ou aquele que apenas lê os títulos no quiosque), levando-o a pensar que isso vai acontecer já amanhã e que ele próprio irá ser uma das vítimas. É óbvio que o título deveria utilizar a forma verbal “será”. Tanto mais que, no desenvolvimento da notícia (pág. 26), o jornalista já utiliza um título correcto: “Comissão Europeia estima que Portugal terá o maior corte da EU nas pensões” (sublinhados meus).
Adérito Tavares
Carta do leitor Belarmino Craveiro Bolito:
O título principal da 1ª página do PÚBLICO de 16-03-2009 é uma ofensa, ou mesmo um insulto, aos seus leitores, partindo do princípio de que estes são intelectualmente adultos.
É que, nos tempos que correm, o leitor do jornal tem dificuldade em perceber a razão de dar a importância de 1º página a um assunto absolutamente secundário. E, em relação a este título, há uma peculiariedade que nos faz talvez perceber a razão da sua escolha para a 1ª página, mas que é também, ao mesmo tempo, uma ofensa à idoneidade intelectual dos leitores: trata-se da inclusão da adjectivação de "maior" ao "corte".
Sinceramente, fica-se, mais uma vez, com a muito desagradável "leitura" de que um assunto de menor importância, no contexto do momento, é levado à superior evidência do dia por razões que nada têm a ver com o assunto que o título indica. De facto, os leitores do jornal esperam deste seriedade jornalística, e esta é posta em causa com este assunto posto na primeira página com um título muito manhoso, muito "chico esperto".
Compreendam, senhores responsáveis do PÚBLICO: muitos dos vossos leitores não aprenderam só a ler, também aprenderam a pensar.
Entra pelos olhos dentro que o que é importante para o jornal evidenciar não é a notícia do CORTE nas pensões da segurança social, mas sim que esse CORTE é o MAIOR da União Europeia. Se este MAIOR foi determinante para colocar o assunto em título maior de 1º página, é porque tem uma importância que está para além da que é possível dar ao assunto que o título refere.
É assim que o jornal trata os seus leitores? Como se fossem menores mentais? Como se fossem incapazes de ler um texto no seu contexto? Como se fôssemos tão inocentes para não desconfiar de outros objectivos que nada têm a ver com informação honesta? Não sabem que já fomos "carneiros" as vezes suficientes para não querermos aceitar qualquer outro cajado?
Não acham, senhores responsáveis do PÚBLICO, que tenho todo o direito, como leitor de há muitos anos, de reclamar ser tratado com um mínimo de dignidade, para não dizer consideração ou cortesia?
Não será tempo de o Senhor Director se preocupar mais com a (in)formação dos leitores (clientes) do jornal e menos com outras estratégias? Por que será que os editoriais do Senhor Director fedem tanto? É que o homem não consegue dissimular o seu ódio, a sua intolerância, com linguagem e juízos desbragados. Com isso só se denuncia e, ao mesmo tempo, ofende os leitores e suja o jornal. Pelo que vemos nas televisões, parece ser um tanto comum aceitar, ou talvez mesmo apreciar, a boçalidade, a banalidade, a mediocridade. Desgosta-me que este jornal esteja no mesmo caminho. O Senhor Director até faz lembrar Catão com "Cartago delenda est"...
Desculpe mais este desabafo, senhor Provedor, mas acontece que ainda não desisti de viver e de ser tratado decentemente.
Este país precisa de sorte...? Não só...! Mas dizem que a sorte também se faz...!
Belarmino Craveiro Bolito
Resposta do director do PÚBLICO:
Julgo que os dois leitores não têm razão quanto à substância das questões que levantam.
Primeiro, porque aquele título traduz de forma correcta, mesmo que sintética, o conteúdo de um estudo da União Europeia. E esse estudo mostrava que a recente alteração do sistema de cálculo das pensões se traduzirá, para os pensionistas do futuro, num corte nos montantes a receber que, proporcionalmente ao que resultava da fórmula em vigor, é o maior entre os países da União Europeia que realizaram reformas semelhantes.
Segundo, trata-se de um cálculo feito hoje projectando no futuro o que os pensionistas receberiam, exactamente o tipo de cálculo que presidiu aos diferentes cenários estudados pelo Governo. Nesse sentido podemos referir o corte no presente, pois foi nesta legislatura que foi decidido, mesmo que só entre em efeito de forma gradual.
Terceiro, o assunto não é menor, pois a reforma da Segurança Social é uma das de que este Governo se orgulha e que muitos, mesmo parte dos que não são da cor do Governo, elogiam. Acontece porém que essa reforma conseguiu a sustentabilidade do sistema a médio/longo prazo introduzindo modificações nas regras actuais, desde a relativa à idade da reforma até à fórmula de cálculo das pensões. Qualquer cidadão tem facilidade em perceber uma mudança na idade da reforma, poucos são capazes de realizar uma estimativa sobre a pensão a que teriam direito com as regras antigas e aquela a que terão direito com as regras novas. De uma forma geral, todos perceberam que iriam receber menos e mais tarde. A novidade do relatório que sustentava a manchete é que calculou quanto menos iriam receber e comparou os cortes com outros países. Entendemos pois que se tratava de uma informação relevante para todos os portugueses.
Quarto, não é líquido que só se possa fazer a leitura negativa dos termos da manchete formulada por estes leitores. Por três razões. Por um lado, não tem faltado quem se indigne com as "reformas milionárias" e, por isso, possa ter lido de forma positiva a manchete; por outro lado, são muitos os que temem nem sequer vir a receber reforma, pelo que saberem que o corte, por ser grande, lhes garante apesar de tudo um mínimo até é uma boa notícia; por fim, todos os que, estando dentro do sistema, sabem como será difícil financiá-lo no futuro podiam olhar para a manchete e elogiar a coragem do Governo.
Para além de tudo isto, e do julgamento de valor que possa ser feito, o essencial é que aquele estudo era notícia e, mais do que isso, era notícia relevante (todos somos ou seremos pensionistas se não morrermos antes). Sendo o título fiel às conclusões do estudo, só pondo em causa essas conclusões (o que era possível mas questionável tratando-se de um estudo da União Europeia) é que seria razoável defender que o tema não merecia o destaque que teve na primeira página e no interior do jornal.
Quanto às opiniões do leitor sobre os meus editoriais, tem direito a elas. Como eu às minhas. Neste caso, se sentisse necessidade de escrever sobre um tema que já analisei várias vezes não me distanciaria do que há muito defendo: a necessidade de trabalhar mais anos e a necessidade de acabar com um sistema de cálculo das pensões financeiramente incomportável. Aí sempre apoiei as opções deste Governo. Mas também aí não apoiei todas as opções da nova lei; contudo, nenhum dos pontos em que defendi soluções diferentes se relacionava directamente com o tema da manchete. O que significa que, seguindo o raciocínio maniqueísta do "jornalismo de conspiração", terei dado, nesse dia, um tiro no pé, pois teria feito uma manchete "contra" as minhas opiniões. Como não é por esse tipo de critério que escolhemos as manchetes, antes pela sua relevância, não achei, quando vi o jornal, que o meu colega que escolheu a formulação final do título o tenha feito para me passar uma rasteira. Fê-lo apenas porque achou que assim conseguia transmitir de forma sintética e correcta o conteúdo de um estudo importante. O nosso mundo não é, ao contrário do que se quer fazer crer, um mundo feito de conspirações, apenas de procura do rigor e equilíbrio.
José Manuel Fernandes
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Secção: Crónicas
domingo, 29 de março de 2009
A odisseia dos números
Os jornalistas parecem por vezes empenhados em provar na prática a difícil relação do país com a matemática![]()
Ao contrário do que dizia a notícia, o Comité Central do PCP envelheceu no último Congresso
Os habituais índices de aproveitamento escolar em matemática revelam uma relação difícil do país com a disciplina dos números. E por vezes os órgãos de informação parecem empenhados em prová-lo com a sua própria abordagem de tudo o que tenha a ver com quantificações. Para a crónica do combate entre jornalistas e números, eis alguns exemplos recentes do PÚBLICO.
Primeiro, um erro crónico, ao falar-se do número de utilizadores de telemóvel no mundo: “4,1 milhões de milhões”, dizia a notícia, dia 3, no PUBLICO.PT. Constatou o leitor Carlos Medina Ribeiro (C.M.R.) que isto sucede “no seguimento da recorrente (mas sempre lamentável) confusão entre ‘billion’ (mil milhões) e ‘bilião’ (um milhão de milhões)”, pelo que “a população da Terra aparece multiplicada por 1000!” Acrescentava ainda: ”A notícia está cheia de comentários de leitores a chamarem a atenção para o erro, mas de nada adianta...”
Depois, uma mistificadora simplificação em título: “Recessão na zona euro arrasta PIB nacional para valor mínimo desde 1975” (PUBLICO.PT, 7 de Março). “O que se passa é que o crescimento do PIB nunca esteve tão negativo desde 1975” – comenta o leitor Miguel Carvalho. E remata Pedro Ruella Ramos: “Fiquei algo chocado com a iliteracia económica (e matemática) dos dois jornalistas envolvidos neste artigo. O PIB está muito longe dos valores de 1975 – o que estará, porventura, perto será a taxa de variação estimada em percentagem do mesmo, não o seu valor numérico. Pôr as coisas nestes termos, além de incompetente, é sensacionalista e pinta um cenário que simplesmente não é reflectido pela realidade”.
Explicações de Sérgio Aníbal, co-autor da notícia: “Obviamente, o título não está correcto. Não é o PIB que atinge o mínimo desde 1974, mas sim a sua variação, tal como dito no texto: ‘2009 pode registar a variação mais negativa do PIB português desde 1975’. (...) No texto está tudo correcto (...). Se o [segundo] leitor tivesse lido mais que o título, talvez retirasse, pelo menos, as críticas de iliteracia económica e incompetência (...). De qualquer forma, não minimizo a importância do erro (...). Lamento-o. Não me lembro como aconteceu: se houve dificuldades de espaço ou apenas distracção, mas seja como for está errado”.
A propósito dos erros surgidos no PUBLICO.PT, o provedor faz uma recomendação. Sendo um site informativo um espaço de actualização permanente, não tem sentido possuir uma secção como “O PÚBLICO errou”, da edição em papel. Mas seria importante não perpetuar os erros no registo definitivo dos factos na internet, pelo que, assim que os lapsos fossem detectados, os jornalistas deveriam proceder às necessárias correcções on-line, o que, como lamenta C.M.R., não sucede.
Outro recomendação será não continuar a laborar no erro após se ter procedido à respectiva rectificação. Na pág. 17 da edição Lisboa de 21 de Março, anunciava-se “um orçamento previsto de 85 mil euros” para o certame “Peixe em Lisboa”, mas faltava um zero à direita: a verba correcta era de 850 mil euros. Na edição seguinte, o jornal fazia a competente correcção em “O PÚBLICO errou”, o que não obstou a que insolitamente, mesmo na página ao lado, Miguel Esteves Cardoso, construísse toda a sua crónica com base na primeira informação, obrigando-o a dar a mão à palmatória um dia depois. Um eficaz sistema de edição poderia ter evitado que o cronista caísse na ratoeira.
As percentagens levantam também obstáculos aos jornalistas, como detectou o leitor Fernando Cardeira: “No PÚBLICO.PT (...) em 9 de Março [sob o título “Número de americanos sem religião duplicou desde 1990”] lia-se: ‘O número de agnósticos (...) representa hoje 15 por cento dos norte-americanos, o equivalente a 4,7 milhões de pessoas.’ É fazer as contas, como diria o outro!” E as contas dão cerca de 45 milhões de agnósticos, diferença não despicienda (na mesma notícia da edição em papel, optou-se por não se fazer o cálculo, não fosse o Diabo tecê-las...).
Insistiu o mesmo leitor: “No PÚBLICO de 18 de Março [edição em papel, pág. 13: “Relatório revela epidemia de HIV e sida na capital dos Estados Unidos”], (...) lê-se logo a abrir: ‘Três em cada dez habitantes com mais de 12 anos na cidade de Washington (...) estão infectados com o vírus HIV ou sofrem de sida (...)’. Desconfia-se, claro. Depois olha-se mais abaixo e vê-se: ‘3% dos habitantes de Washington com mais de 12 anos são seropositivos ou têm sida.’ Sem mais comentários, pergunto apenas como pode este jornal pagar a tão maus jornalistas”. Valha a verdade que neste caso o PÚBLICO foi lesto a rectificar, no dia seguinte, um dado que dava forte probabilidade de pelo menos um membro da família presidencial norte-americana estar infectado: afinal, os atingidos pelo vírus são três (e não 30) em cada 100 washingtonianos.
Não foi o que aconteceu desta vez, mas pode dar-se o caso de se corrigir mal, agravando-se o problema. O PÚBLICO deu à estampa em 21 de Agosto, na pág. 5, um gráfico com a recente evolução anual do número de casamentos e divórcios em Portugal que era, em síntese, uma autêntica trapalhada, motivando logo protestos de vários leitores. “Aquele gráfico é um exemplo acabado de descuido”, escreveu João Brandão. “Quem o fez é analfabeto funcional”. Na edição seguinte, tentou-se a rectificação, mas, alertou o mesmo leitor, a emenda não foi melhor do que o soneto: “Mais grave é ‘O PÚBLICO errou’ corrigir mal! Quem corrige tem responsabilidades adicionais. Deveria ter visto o que estava a corrigir. Repor os números dos casamentos (já publicados nas barras dos divórcios) com pequenas alterações e não ter visto que já lá estavam reflecte grande displicência. (...) Fiquei até sem saber quais os números certos, pois perdi a confiança no corrector. (...) O leitor continua sem a informação necessária para avaliar da situação dos divórcios em Portugal”. Não se publicou nenhuma outra correcção.
Como se vê, o problema dos números não é de agora: já foi abordado pelo provedor e voltará seguramente a manifestar-se. Uma das dificuldades consiste em comunicar com clareza ao público o significado dos dados. No mesmo mês de Agosto, o leitor F. Pinto dos Santos reclamava contra um outro gráfico, com a previsão do crescimento populacional na União Europeia até 2060, publicado na edição de 27 em complemento do artigo “Peso dos idosos com mais de 80 anos triplica”: “Faço uma crítica muito severa em relação (...) à indicação da ‘estimativa da população, com valores em milhares’ (...) Porquê em milhares e não em milhões, quando é habitual que se indique em milhões a população de cada país? Porquê a indicação dos milhões, dos milhares e mesmo (sendo uma mera estimativa) das centenas de habitantes de cada país? (...) Por que é que os números (...) foram ordenados à esquerda? Não seria de muito mais fácil leitura se tivessem sido ordenados à direita? (...) Os países estão ordenados (...) sem qualquer critério, o que torna ainda mais difícil ficar-se com uma ideia da posição de cada um no conjunto europeu de acordo com a respectiva população”. O provedor considera estas críticas pertinentes e junta-lhes outra: usavam-se pontos no lugar de vírgulas, sendo cada valor absurdamente escrito com dois pontos, um no lugar da vírgula e outro no da casa dos milhares (por exemplo, a população em Portugal cresceria de “10.617.4” habitantes para “11.264.8” habitantes).
Embora o quadro não fosse da responsabilidade integral da autora do artigo, Andreia Sanches, esta jornalista admitiu as críticas: “A tabela (...) tem, de facto, problemas. Os dados aparecem em milhares e não em milhões porque reproduzimos o quadro, e o critério, do Eurostat (...). Arredondar teria facilitado a leitura. Não sei qual é a razão para que os números estejam alinhados à esquerda. Perguntei aos meus colegas da Infografia, que me explicaram que a regra é alinhar os dados à direita. Terá sido um lapso. Sobre a forma como estão ordenados os países, uma vez mais limitámo-nos a reproduzir a tabela do Eurostat (...). Teria sido mais interessante ordenar, por exemplo, do país com mais população estimada para o que tem menos população. Mas confesso que na altura não me ocorreu. O que é pena, porque teria mais leitura”.
Por fim, atente-se nesta passagem da antecipação feita ao último Congresso do PCP saída na pág. 10 de 28 de Novembro: “No que se refere ao rejuvenescimento prometido pelo PCP, este continua a verificar-se na nova lista de nomes a aprovar pelo XVIII Congresso. Tanto que a média de idade dos membros do Comité Central proposto é de 47,2 anos, quando era em 2004 de 45,9 anos, o que significa que o Comité Central cessante tem agora uma média de 49,9 anos”. Compararam-se coisas não comparáveis (o início de um mandato com o fim de outro). Se a média etária do anterior Comité Central, quando eleito, era de 45,9 anos, regista-se naturalmente não o “rejuvenescimento prometido” mas um envelhecimento com o actual, eleito com a média de 47,2 anos.
Caixa:
Saudades do Calvin
Muitos leitores protestaram contra o desaparecimento da banda desenhada Calvin & Hobbes, ocorrido com a mais recente remodelação gráfica do PÚBLICO. “De que estão à espera?”, resumiu Pedro Sena Esteves o seu desespero. “Que haja 5000 queixas a protestar contra a falta do Calvin & Hobbes?”. A decisão de pôr fim a esta tira diária, que se publicava desde o primeira edição, foi tomada “depois de muita hesitação”, confessa o director. Mas justifica José Manuel Fernandes: “Já íamos na terceira repetição das tiras, pois o seu autor apenas as produziu durante cerca de dez anos. O valor de novidade tinha-se esgotado e já funcionava mais a nostalgia e o hábito. Por várias vezes, ao longo dos últimos anos, aproveitando suplementos de Verão, testámos tiras alternativas, mas nunca encontrámos nenhuma que pudesse substituir o Calvin. Não desistimos, e pode ser que, após um período de ‘luto’, por assim dizer, encontremos alguém que possa ser um digno herdeiro do espaço que o pequeno traquinas ocupou durante mais de 19 anos. (...) É possível que, depois de tantos anos de convívio, o Calvin merecesse uma despedida pessoal. Alguns leitores sentiram-no, e isso é suficiente para levar a ter mais cuidado com futuras modificações, pois é para os leitores e em nome dos leitores que trabalhamos”.
Publicada em 29 de Março de 2009
Explicações do director sobre as recentes transformações gráficas do PÚBLICO:
Recentemente procedemos, no caderno principal e no P2, a pequenos ajustes, que nem sequer ocorreram todos ao mesmo tempo mas que corresponderam a uma tentativa para melhorar a nossa oferta, adaptando-a ao tipo de leitura que os leitores hoje procuram.
No caderno principal, modificámos as páginas de opinião, colocando ao lado da página do Editorial uma crónica diária do Miguel Esteves Cardoso e o Bartoon, que estava no P2. Introduzimos também pequenas alterações gráficas para permitir paginar um maior número de notícias pequenas.
No P2, modificámos a oferta ao longo da semana (16 páginas de 2ª a 5ª, 20 à sexta, 24ao sábado e 28 ao domingo), de forma a oferecer mais temas e mais leitura nos dias em que os nossos leitores têm mais tempo e fazer um jornal mais compacto nos outros dias da semana, dias em que a complementaridade com a nossa oferta on-line é maior.
No processo dessas mudanças, introduzimos um cartoon internacional no espaço onde antes estava o Bartoon, modificámos ligeiramente a fórmula de apresentação dos espectáculos (para dar mais informação em menos espaço) e concentrámos na última página a informação meteorológica (com um mapa mais pequeno, mas sem perder legibilidade), os passatempos e uma zona de interface com o que oferecemos de especial naquele dia no PUBLICO.PT. Voltámos a ter bridge todos os dias (uma solicitação de muitos leitores) por troca com o problema de kakuro e um dos dois problemas de palavras cruzadas. O mapa do tempo também perdeu a carta das isóbaras, útil quase só para especialistas.
Finalmente, depois de muita hesitação, deixámos igualmente de publicar a tira diária do Calvin, que nos acompanhava desde o número 1. Isso sucedeu porque já íamos na terceira repetição das tiras, pois o seu autor apenas as produziu durante cerca de dez anos. O valor de novidade tinha-se esgotado, e já funcionava mais a nostalgia e o hábito. Por várias vezes, ao longo dos últimos anos, aproveitando suplementos de Verão, testámos tiras alternativas, mas nunca encontrámos nenhuma que pudesse substituir o Calvin. Não desistimos, e pode ser que, após um período de "luto", por assim dizer, encontremos alguém que possa ser um digno herdeiro do espaço que o pequeno traquinas ocupou durante mais de 19 anos.
Estas alterações foram sendo introduzidas de forma gradual, pelo que não julgámos ser necessário explicá-las uma a uma. É possível que, depois de tantos anos de convívio, o Calvin merecesse uma despedida pessoal. Alguns leitores sentiram-no, e isso é suficiente para levar a ter mais cuidado com futuras modificações, pois é para os leitores e em nome dos leitores que trabalhamos.
José Manuel Fernandes
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quinta-feira, 26 de março de 2009
Santiago era outro
Sou um leitor ocasional, que já foi mais assíduo, do vosso jornal. Gosto, na generalidade, do conteúdo editorial do mesmo, privilegiando, e dedicando especial atenção, aos temas "de fundo" abordados, normalmente, nos cadernos interiores. Não dispenso, no entanto, as opiniões produzidas por alguns dos vossos cronistas habituais. E faço-o não só pela qualidade jornalística que nelas encontro mas, também, pelo facto de estarem em consonância com muitas das ideias que advogo e defendo. É sempre reconfortante sabermos que há quem se bata por um modelo de sociedade no qual nos revemos. Não desprezo, no entanto, pelo contrário, as peças jornalísticas de outros autores que me são menos simpáticos, ou "chegados", desde que, na mínima opinião, sejam produzidas com consistência de factos ou ideias.
Não posso, no entanto, deixar de notar que, muitas vezes, diria mesmo amiúde, encontro artigos que me deixam a reflectir sobre os mesmos. Ora porque não foram regididos com o devido cuidado na construção das frases, deixando à sintaxe um lugar de menoridade na comunicação das ideias, ora porque as gralhas, ou erros, porque não dizê-lo e assumi-lo, no vocabulário empregue, são por demais evidentes. Interrogo-me, assim, não só sobre a utilização menos cuidada da língua portuguesa em algumas peças jornalísticas, mas, também, sobre a existência, ou não, de uma "entidade crítica" interna ao jornal, que zele pela preservação das regras de utilização da língua que alguns de nós tão bem defendem, e pela qual pugnam.
Mas a razão pela qual resolvo, hoje [26 de Março], vir ao vosso contacto é outra. Estando a ler o artigo "Afastados mais dois vice-presidentes cubanos" [pág. 16], produzido por Jorge Heitor, deparo com este "mimo" jornalístico. Pedro Miret é referenciado como tendo participado no assalto de 1953 ao Quartel Moncada, em Santiago... do Chile! Pura distracção, desconhecimento histórico dos factos ou o chamado "erro de simpatia"? Santiago, está correcto; do Chile é que, como dizia o outro, "não havia necessidade".
João Vicente da Silva
Falta de atenção ou negligência, para não dizer que se trata de um caso de ignorância, é o que se pode concluir quando vemos publicada no jornal PÚBLICO de 26 de Março de 2009 uma notícia de diz que "o antigo Presidente Fidel Castro participara já no assalto de 1953 ao Quartel Moncada, em Santiago do Chile". Para repor o rigor geográfico e a verdade dos factos, não é necessário ir muito mais longe, pois basta uma consulta à Wikipedia para ficar a saber que, "a 26 de Julho de 1953, o jovem advogado Fidel Castro juntamente com outros 165 homens planearam o assalto ao quartel general de Moncada em Santiago de Cuba [e não do Chile] e ao quartel de Cespedes."
Anónimo
à(s)
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