domingo, 8 de fevereiro de 2009

A propósito da crónica "Controlo de qualidade"

Como leitor habitual do PÚBLICO tenho acompanhado os esforços do provedor para que este jornal tenha um mínimo de controlo de qualidade de modo a evitar que a sua leitura seja uma fonte de irritação pelo desleixo com que é produzido.

Veja por favor:

No dia 22/11/08:
1 - Numa só notícia (pág. 24):
“resultados poucos rigorosos” (destaque);
springlers antifogo” (é "sprinklers" - sistemas automáticos antifogo);
“escala de Ritcher”;
“José, sem-abrigo que há cerca de um mês ocupa o beiral de uma pequena edificação” – estaria a fazer concorrência às andorinhas?;
2 – Somália, “o país mais ocidental do continente africano” (pág. 19);
3 - “os inspectores interceptou uma carrinha” (pág. 26);
4 - Na notícia sobre o filme Wild Field, a ilustrar o “olhar duro e mágico sobre a estepe russa” temos a fotografia de uma pilha de bacalhau salgado (pág. 13). Curiosamente, a mesma fotografia que em 24/11/08 ilustra “Os prazeres do fiel amigo” (P2, pág. 13).

No dia 23/11/08:
1 - “maioria absolutas” (pág. 8);
2 - “a sua adeversária” (pág. 17);
3 - “Os peritos mediram 110 mililitros de água por metro quadrado” (pág. 15). A precipitação exprime-se em milímetros ou litros por metro quadrado. Obviamente que um dia de chuva de grande intensidade não pode corresponder a 110 mililitros mas sim a 110 litros por metro quadrado. A especial invocação de “peritos” é pretensiosa. Em Caracas há estação meteorológica.

No dia 24/11/08:
1 - “Caixa de Providência” (pág. 9, duas vezes);
2 - “Israel tem de estar pronta” (pág. 12);
3 - “o Hamas tomou pelas armas tomou o controlo da Faixa de Gaza” (pág. 12);
4 - “a taxa de 39,6 por cento (…) será aplicada aos salários mais elevados” (pág. 13) - será aos rendimentos mais elevados?;
5 - “Timothy Geithner”/”Timothy Geithnerd” (pág. 13);
6 - “Faymann”/”Faymnann” (pág. 17);
7 - “Biencard Cruz/Bienchard Cruz” (pág. 18);
8 - “vai [de IVA] ser reduzida em 2,5 pontos percentuais”/”redução de dois pontos percentuais” (pág. 39);
9 - “embargo de propriedades de particulares incapazes de pagar as hipotecas” (pág. 39).

Já que é óbvio que o controlo de qualidade durante a produção não funciona, sugiro um controlo ao produto acabado. Uma revisão diária, com a correcção dos erros do que foi publicado, afixada num painel, teria certamente um efeito salutar. Entretanto, a utilização de um corrector ortográfico e gramatical limitaria os casos de ignorância ou desleixo mais chocantes.

A. F. Neiva Correia

Ainda a propósito de macrocefalia

Concordo com a opinião de Rui Tavares na "Crónica sem dor" de hoje (17/09/2008). Só não acho correcto que durante toda a primeira metade da crónica se refira a "centro da cidade", "Rua da Madalena", "Baixa" e ainda "Graça" sem ter o cuidado de esclarecer de que cidade está a falar. É da "baixa" do Porto ou de Coimbra? É do "centro" de Faro ou de Braga? E "Graça" é uma zona de Bragança ou Lisboa? Num jornal de cariz nacional, os seus jornalistas deveriam deixar de olhar para o umbigo e ver mais longe: ter sempre presente que estão a escrever para o país inteiro!

Fernando Cardoso

Chávez e o carajo


No artigo intitulado: "EUA expulsam embaixadores da Bolívia e Venezuela", publicado em 13 de Setembro de 2008, o jornalista Nuno Amaral escreve: "Vão para o inferno, ianques de merda, nós somos pessoas dignas. Vão para o inferno cem vezes". Todos ouvimos as palavras de Hugo Chávez na televisão, todos as lemos em outros órgãos de informação! Só no PÚBLICO elas são citadas desta forma! Mesmo não sendo um profundo conhecedor da língua, nunca eu confundiria "carajo" com "inferno"! Com que intenção, ou por que razão, o jornalista deturpa as palavras de Hugo Chávez? Terá o jornalista a noção de que não andamos para aqui todos distraídos? Ou será que a correcta citação lhe é indiferente?

Com que confiança, poderei continuar a ler "notícias" neste jornal? Será que neste jornal já foram deturpadas afirmações de outros? Terá o dito jornalista um mínimo de respeito pelos que ao comprar o jornal lhe pagam o ordenado? Não há, na redacção deste jornal, quem verifique a correcção dos artigos publicados?

Luís Lima

Controlo de qualidade

Insiste-se na correcção de pequenos erros que, de tanto se repetirem, afectam a imagem do PÚBLICO perante os leitores

A crónica de Pedro Mexia tem por título “Sinatra em 85”, mas fala do cantor em 1958

A qualidade do serviço que o PÚBLICO presta quotidianamente aos leitores afere-se não apenas pelas grandes opções editoriais mas também pelos pormenores que, à força da sua repetição, acabam por moldar a imagem do jornal. Apesar de o provedor já ter referido este aspecto em mais do que uma crónica, a contínua repetição de pequenos erros implica uma vigilância permanente e a insistência na sua periódica exposição, na expectativa de uma profilaxia que a redacção do PÚBLICO tarda em aplicar.

Falemos, por exemplo, da sintaxe, que nem sempre é a mais feliz, obscurecendo a narrativa e deixando o público na dúvida sobre o que se quer dizer. O leitor José Oliveira queixou-se pertinentemente do título principal da pág. 28 do PÚBLICO de 7 de Dezembro: “Académica volta a vencer três meses depois graças a golo a dois minutos do fim de Orlando”. Parafraseando Mark Twain, o “fim de Orlando” terá sido ligeiramente exagerado, e esse é o mote para a irónica reclamação: “Já vi morrer gente (incluindo a minha mãe), e sei que não é nada fácil, mas... que é isto comparado com os dois minutos finais do jogador Orlando?” Na verdade, como propõe o leitor, o título deveria ter sido redigido desta forma muito mais lógica, atendendo ao que se pretendia noticiar: “Académica volta a vencer três meses depois graças a golo de Orlando a dois minutos do fim”. E Orlando continuava vivo…

Idêntico mal-entendido surge nesta frase da crónica “A Minha TV” de 8 de Dezembro: “Tudo dependerá, basicamente, do à-vontade face às câmaras do anfitrião”. As câmaras não serão do anfitrião, mas o à-vontade sim, pelo que a ideia que o autor pretendia transmitir terá sido esta: “Tudo dependerá, basicamente, do à-vontade do anfitrião face às câmaras”. O mesmo problema surge na mesma crónica um mês depois, 8 de Janeiro: “Vítor Constâncio declarou que Portugal tinha entrado em recessão em todos os noticiários do dia”. Se Portugal estivesse em recessão só nos noticiários do dia, estávamos nós bem, mas é pouco provável que o governador do Banco de Portugal se preocupasse em anunciá-lo. O que se passou foi que “Vítor Constâncio declarou em todos os noticiários do dia que Portugal tinha entrado em recessão”, como se escreveria melhor.

Dizia-se na pág. 15 de 28 de Agosto último: “A polícia deteve Gorki Aguila, da banda Porno para Ricardo, cuja música rock com laivos punk circula de um modo semiclandestino, na sua casa em Havana”. Um relato claro imporia escrever antes que “a polícia deteve, na sua casa em Havana, Gorki Aguila, da banda Porno para Ricardo, cuja música rock com laivos punk circula de um modo semiclandestino”.

A questão é antiga. Ainda a propósito de sintaxe, atente-se no reparo de um leitor anónimo relativo à manchete de 3 de Março do ano transacto: “Onde se escreve ‘Parlamento vai passar a ter acesso e a fiscalizar os segredos de Estado’, devia ter-se escrito ‘Parlamento vai passar a ter acesso aos segredos de Estado e a fiscalizá-los’. Quando duas ou mais palavras têm o mesmo complemento regido de preposição, é necessário que esta convenha a cada uma das palavras consideradas separadamente. O erro do PÚBLICO é grave e está, infelizmente, generalizado”.

Apesar da reiterada denúncia pelo provedor daquilo que designou como “praga de Catual”(e que já se dispensa de definir), a epidemia teima em manter-se, como se vê por estas mais recentes manifestações, recolhidas da leitura ocasional do PÚBLICO: “Martim Cabral foi dos poucos que não gostou do discurso de Obama” (“O Inimigo Público”, 22 de Janeiro, pág. 8); “Tereza era uma daquelas pessoas que devia ter continuado a ser jornalista” (20 de Janeiro, pág. 43); “uma das coisas que me ‘atrai’ na política” (P2, 20 de Janeiro, pág. 2); “um dos aspectos que terá desagradado a uma boa parte do público” (P2, 20 de Janeiro, pág. 10); “uma dimensão hiperbólica da força é outro dos aspectos que lhe foi apontado” (idem); “O hotel da Quinta do Lago é um dos que está fechado com indicação de obras” (legenda de foto, 19de Janeiro, pág. 18); “A TAP foi uma das transportadoras que cancelou pedidos à Airbus (legenda de foto, 18 de Janeiro, pág. 38); “um dos comentários mais curiosos que tem vindo a lume” (P2, 16 de Janeiro, pág. 18); “A leitura dos jornais foi um dos itens que entrou na lista” (14 de Janeiro, pág. 10); “Era um dos nomes que certamente mais me ocorreria” (13 de Janeiro, pág. 9); “uma das séries mais curiosas que tem aparecido recentemente” (P2, 10 de Janeiro, pág. 16); “um dos países que tem sofrido com a crise do gás russo” (legenda de foto, 9 de Janeiro, pág. 1); “uma das marcas que, desde logo, distinguiu a sua abordagem” (“Ípsilon”, 9 de Janeiro, pág. 24); “É o único na Península Ibérica e um dos cinco que, a nível mundial, não recebe apoio de entidades privadas, autárquicas ou governamentais” (entrada de artigo, 4 de Janeiro, pág. 18); “Portugal está, nesse grupo, entre os que melhor paga aos professores” (P2, 13 de Dezembro, pág. 3) “Negócio do luxo é dos que menos sofre com a crise em Portugal” (12 de Dezembro, título principal da pág. 39); “Um dos pólos que deu voz a essa mesma ‘oposição consentida’” (8 de Dezembro, pág. 8); “foi um dos soldados israelitas que participou na invasão do Líbano em 1982” (P2, 5 de Dezembro, pág. 14); “um dos dinamarqueses que, com o seu enorme talento, colocou a Dinamarca no mapa do mundo durante o século XX” (1 de Dezembro, pág. 15); e "foi uma das maiores a ocorrer em Damasco" (28 de Setembro, pág. 13).

Mas também a falta de concordância em género ou número, outra pecha já aqui mencionada, continua a atacar em força: “Importância que, diz ele, foram pedidos por ‘um gabinete de advogados’ ao representante da Freeport” (P2, 25 de Janeiro, pág. 2); “Comemorações do fim do regime de Pol Pot junta milhares de pessoas nas ruas” (título, 8 de Janeiro, pág. 17); “O aumento dos custos de produção do jornal, especialmente do papel, que pode chegar aos 30 por cento em 2009, não nos permitiram outra alternativa” (5 de Janeiro, pág. 36); “Indignação e medo do frio flui na Ucrânia” (3 de Janeiro, pág. 12); “Aquelas organizações juvenis, nomeadamente a Juventude Hitleriana, foi mais do que um simples modelo inspirador” (“Ípsilon”, 2 de Janeiro, pág. 22); “Já a família Elias, com as suas três crianças, sonham com o dia em que serão auto-suficientes” (destaque de artigo, 27 de Dezembro, pág. 8); “Todos a quem falámos [da oferta do Governo português] ficou contente com a ideia” (17 de Dezembro, pág. 5); “O comentário às faltas injustificadas dos deputados dada pelo dr. Almeida Santos” (17 de Dezembro, pág. 38); “As entradas de novos investidores diminuiu drasticamente” (16 de Dezembro, pág. 2); “É preciso ficar provado em tribunal que o uso pelas empresas das designações light violam de facto as leis sobre publicidade enganadora” (16 de Dezembro, pág. 15); “Os motins que as autoridades gregas não são capazes de refrear e que põe em causa o Governo de Karamanlis” (10 de Dezembro, pág. 3); “Os riscos de haver carne de porco irlandesa contaminada com dioxinas é mínimo” (9 de Dezembro, pág. 1); "As dimensões da greve dos professores reforçou a sua posição" (destaque do editorial, 4 de Dezembro); “Rebelde Way, os Morangos com Açúcar da SIC, começaram ontem” (“A minha TV”, 26 de Agosto).

E depois há a proverbial dificuldade de alguns jornalistas em lidar com números, como nas frases “Só entraram no país 30 toneladas, seis já foram apreendidas, 26 seguiram para fábricas de transformação de enchidos [o que dá 32 toneladas e não 30]” (9 de Dezembro, pág. 1) ou “O ex-marido de Madonna, Guy Ritchie, deverá arrecadar 50 mil libras, mais de 55,7 milhões de euros [ele visa o segundo valor; ela gostaria de ficar pelo primeiro]” (16 de Dezembro, pág. 14).

Por vezes, numa só peça, adiantam-se números diferentes para a mesma coisa. Acerca da fraude de Bernard Madoff, diz-se em 16 de Dezembro (pág. 2) que as perdas totais ascendem a 37,5 mil milhões de euros, mas, como notou um leitor, no quadro de lesados em anexo só uma das “vítimas”, Walter M. Noel Jr., “perdeu 56 mil milhões de euros”. Na pág. 9 do P2 de 23 de Janeiro, fala-se de O Estranho Caso de Benjamin Button e das “suas 23 nomeações” para os Óscares, mas mais à frente refere-se outro filme com “10 nomeações, abaixo das 12 de O Estranho Caso de Benjamin Button”. O título de uma notícia de 11 de Janeiro na pág. 3 indica que “50 apoiam ‘nação eleita’ em Lisboa”, enquanto o início do texto refere: “Um grupo de 60 pessoas concentrou-se ontem frente à embaixada de Israel”. E o quadro de galardões ganhos por Portugal em Jogos Olímpicos publicado já em 22 de Agosto (pág. 2) especifica quatro medalhas de ouro (1984, 1988, 1996 e 2008), mas a soma final indica serem apenas três. Quanto à crónica de Pedro Mexia em 20 de Dezembro, tem por título “Sinatra em 85”, enquanto o texto narra as aventuras do cantor em 1958.

E qual a novidade do título “Hoje vão morrer sete pessoas na Colômbia” (13 de Dezembro, pág. 19)? Num país com quase 45 milhões de habitantes, seria aliás estranho morrerem só sete num dia. O que se queria noticiar era a estatística de vítimas da violência naquele país, mas esse aspecto deveria constar do título.

CAIXA:

Pérolas

Sentado a um computador numa sala de redacção, o jornalista tem hoje acesso a uma infinita rede de informações capaz de o impedir de cometer os erros de natureza enciclopédica que tanto irritam alguns leitores mais atentos. Mas eles continuam a acontecer. Escreve Alexandra Lucas Coelho, na sua crónica do “Ípsilon” de 9 de Janeiro: ”Não me lembro de alguma vez pensar nas Maurícias. (…) Mas mal entrei neste ‘Caçador de Tesouros’, as Maurícias começaram a aparecer no Tejo”. Não existe um arquipélago chamado Maurícias, mas uma ilha Maurícia (a confusão provém do nome inglês: Mauritius). Considera Pedro Mexia na sua coluna de 6 de Dezembro: “Messiaen explicou que o quarteto tinha oito movimentos”. Trata-se de um estrangeirismo: em português diz-se “andamentos”, não “movimentos”. Na notícia "[Anthony] Hopkins estreia-se como maestro", na secção ”Pessoas” de 22 de Outubro, falava-se do “actor norte-americano”, que é britânico (mais concretamente, galês). E não custaria nada converter em hectares ou ares os “acres” (medida não usada no continente europeu) mencionados na pág. 48 de 27 de Junho. “O dever de informar correctamente é mais do que traduzir directamente do inglês”, escreveu Filipe de Menezes, o leitor que reclamou.

Publicada em 8 de Fevereiro de 2009

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O seu a seu dono

Fui o redactor do texto que lhe enviei por e-mail no passado dia 15 de Janeiro [acerca do trabalho "Há católicas felizes com maridos muçulmanos", com chamada à pág. 1 do PÚBLICO de 15 de Janeiro]. Com surpresa vi no blogue do Provedor dos Leitores que o meu texto aparece como sendo da autoria de Francisco Pereira. Em nota, esclarece o Senhor Provedor que, iguais àquela, recebera duas outras cartas. Nelas se incluindo, muito provavelmente, a minha.

Depois de ter tido a oportunidade de lhe endereçar aquele meu texto a propósito de reportagem que, que pelo visto, indignou mais leitores, fiz questão de partilhá-la com a blogosfera, através do meu blog. Admito que tenha sido por esta via que outros, concordando com o texto, o tenham feito seu e o tenham enviado para o Senhor Provedor. Não me importo minimamente que haja quem pretenda fazer suas palavras que são minhas, mas não creio que lhe tivesse sido impossível (por mero recurso à cronologia) apurar o verdadeiro autor da carta. Não há, como é evidente, especial gravidade nisto, mas registo, não sem algum desconforto, a deselegância, por certo involuntária, cometida. Fica o meu desabafo, proporcional às elevadas funções que exerce.

Nuno Pombo

NOTA DO PROVEDOR: Consultada a sua caixa de correio electrónico, o provedor confirma que o referido e-mail enviado pelo leitor Nuno Pombo foi o primeiro de três chegados no mesmo dia com assinaturas diferentes. Deveria por isso ter sido o seu nome mencionado no blogue do provedor, e não o de outro remetente do mesmo texto. O provedor pede desculpas ao leitor.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Prostituição intelectual

Ao ler a referência à minha carta na coluna de hoje do provedor, concluo que a sua isenção já está ao nível do jornal!

Da OCDE ou de peritos reconhecidos pela mesma (ver o prefácio da directora das políticas de Educação da OCDE e o que a mesma disse sobre o que se passou no 1º ciclo em Portugal), o que eu quis ressaltar é que o assunto merecia mais relevência do que a notícia sobre o "amigalhaço" Cavaco Silva no sobe e desce. E, no que diz respeito ao "jornalismo de sarjeta", tinha a ver com o título escolhido para a notícia ["Peritos estrangeiros que avaliaram reformas do Primeiro Ciclo sugerem abolir chumbos"], que não era inocente, dadas as acusações de facilitismo reiteradas ao Ministério da Educação.

Assim, e dada a sua leitura do que escrevi, e em face de tantas outras cartas a si dirigidas, concluo que um provedor do leitor tinha de ser na verdade um leitor isento e qualificado e nunca um jornalista ou ex-jornalista, porque não há classe mais corporativa em Portugal do que a da comunicação social, pois se assim não fosse muitos jornalistas já estariam presos, e mesmo quando foram condenados (apenas a um ano, como o caso de Inés Serra Lopes, quando deveriam ser bem mais!), lá continuam na mesma, a comentar em meios de comunicação ditos de referência, como se nada se passasse.

Reitero o que me apraz dizer: cada vez mais entendo que a comunicação social em Portugal - basta ver a propriedade da mesma e quantos directores são eleitos - não passa de uma prostituição - intelectual, pelo menos - de luxo.

Sérgio Brito

A palavra certa

Ao jornalismo independente cabe a criteriosa escolha dos termos mais adequados a cada situação e que melhor defendem a isenção do jornalista


Era obrigação dos jornalistas não tomarem por boa a atribuição da autoria do relatório à OCDE, sugerida também por Sócrates

Um dos casos políticos da semana, que fez José Sócrates suar as estopinhas no parlamento, ocorreu na segunda-feira com a apresentação de um relatório sobre as mais recentes reformas do sistema de ensino em Portugal, que a propaganda governamental apresentou como sendo elaborado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), mas que não passou de uma avaliação particular encomendada pelo Ministério da Educação.

O que não obviou a que, no próprio dia, o PUBLICO.PT noticiasse, com base num despacho da agência Lusa, o “encerramento da cerimónia de apresentação do relatório da OCDE sobre política educativa para o primeiro ciclo”. Na edição seguinte em papel, o PÚBLICO já se precavia, falando apenas em “estudo internacional (…) a partir de um relatório nacional, preparado pela tutela”, mas sem antecipar o embaraço político resultante da exploração da ambiguidade pelo executivo.

Ainda reclamou, sem razão, o leitor Sérgio Brito pela escassez da “referência à avaliação do 1º ciclo feita pela OCDE”, classificando como "jornalismo de sarjeta" a remissão da notícia para o interior do jornal. Em sentido contrário, escreveria mais tarde outro leitor, Luís Carlos: “Uma vez que o primeiro-ministro deixou claro na Assembleia da República que nunca referiu que o relatório era da OCDE, questiono a redacção e a veracidade desse elemento presente na notícia”. Mas na altura já a questão não se colocava.

Este é apenas um dos muitos exemplos onde se reflecte a delicadeza presente na escolha das palavras ou expressões mais adequadas para descrever certas ocorrências. No caso vertente, seria obrigação profissional dos jornalistas não tomarem por boa a atribuição, pelos assessores governamentais, da autoria do relatório à OCDE (nem a sugestão que Sócrates, na referida cerimónia, fez no mesmo sentido), ou, não o podendo confirmar, resguardarem-se citando a fonte que fazia tal imputação.

Desde a invenção da linguagem que a escolha das palavras na comunicação entre seres humanos não é inocente. A História regista mesmo conflitos e cismas com origem no uso das palavras e no que se entende como sua correcta interpretação. Ao jornalismo independente cabe a criteriosa escolha dos termos que melhor correspondem a cada situação e melhor defendem a isenção do jornalista e do seu órgão de informação. Apesar da multiplicidade de sinónimos, afinidades e aproximações lexicais que enriquece qualquer vocabulário, o rigor de muitos relatos impõe numerosas vezes a opção pela palavra certa («le mot juste», na consagrada expressão francesa), e não outra de significado idêntico mas desajustada à circunstância.

Muitas das reclamações que o provedor recebe dos leitores do PÚBLICO têm a ver com a utilização alegadamente errada que os jornalistas fazem de certas palavras – e cabe falar do assunto, já que, não poucas vezes, essas objecções são pertinentes.

Um dos primeiros protestos nesse sentido recebidos pelo actual provedor foi de um leitor anónimo que chamou a atenção para a passagem de uma notícia de 17 de Abril do ano passado onde se escrevia que “o irmão de Avelino Ferreira Torres, Joaquim, morreu a 21 de Agosto de 1979, supostamente assassinado em Paredes”. E inquiria: “’Supostamente’ porquê? Há dúvidas que mais alguém desconheça sobre o seu assassínio em 1979? O conhecimento ou ignorância do jornalista determinam o grau de veracidade e certeza sobre um facto?” Ao contrário da atribuição à OCDE do relatório sobre o ensino básico, é público, de facto, o que sucedeu ao homem cujo corpo foi descoberto crivado de balas nesse fatídico dia de há quase 30 anos, pelo que se torna descabido mencionar a presunção de um homicídio mais do que comprovado.

Outras vezes a escolha das palavras relaciona-se com princípios de equilíbrio e não discriminação, plasmados por exemplo no 8º dos Princípios Gerais do Livro de Estilo deste jornal: “O jornalista do PÚBLICO recusa todos os preconceitos e estereótipos de linguagem que firam a sensibilidade comum em assuntos que envolvam idade, etnia, origem nacional, religião, opção ideológica, orientação sexual ou sexo”. Titulava o P2 na pág. 20 da sua edição de 20 de Dezembro: “Alguma vez enganou o seu marido?” Para depois indicar na entrada: “Ao longo de 15 anos, de 1991 a 2009, esta pergunta foi colocada a milhares de norte-americanos de ambos os sexos”. Obviamente, o título certo deveria ser: “Alguma vez enganou o seu cônjuge?”. Mas a escolha denota sexismo, como se “enganar” fosse um exclusivo feminino, de que os homens estivessem isentos.

Algumas palavras denunciam também a macrocefalia de quem produz um jornal que porém se reclama de expansão nacional. Escreve-se por exemplo, na pág. 7 do P2 de 18 de Janeiro: “Viveu na Figueira da Foz e mais tarde veio estudar para Lisboa”. Mas o mais adequado seria: “Viveu na Figueira da Foz e mais tarde foi estudar para Lisboa”.

Para os leitores habitando fora da capital, não será fácil, com efeito, aceitar a forma como às vezes se solta a linguagem de um jornal com redacção em Lisboa. “Poderá nevar em todo o litoral incluindo Lisboa”, titulava o PUBLICO.PT em 9 de Janeiro, e Augusto Küttner de Magalhães, do Porto, questionou com justeza a razão para se ter destacado esta cidade numa faixa de terra que vai de Caminha a Vila Real de Santo António: “Lisboa (…) é uma região que por qualquer motivo merece mais relevo?”

O mesmo leitor havia também reclamado em 1 de Novembro pela notícia “Administração da Linha Saúde 24 suspende sem nota de culpa enfermeira subscritora da carta à ministra Ana Jorge” (pág. 6), que na secção “Sobe e desce” dessa edição levou à colocação da titular da Saúde, Ana Jorge, com uma seta para baixo: “Não é nenhum escândalo suspender sem nota de culpa (…), e não é isso que pode ser noticia! A suspensão sem perda de retribuição de um trabalhador, a ser alvo de um processo disciplinar, não implica de imediato a entrega da nota de culpa; esta será entregue posteriormente! Este procedimento existe há anos, (…) e é prática comum - quando se torna a relação de trabalho insustentável! O titulo faz crer quem o lê que foi cometida uma ilegalidade! Não é o caso, e para cúmulo, na ultima página, é feita um seta descendente, voltando-se a referir a mesma forma de possível má actuação!”

Reclamação de idêntico teor fez o leitor apenas identificado por Nuno a respeito de uma notícia sobre o encerramento da livraria Byblos em Lisboa, surgida no PUBLICO.PT de 20 desse mês, e onde se dizia que “os colaboradores da Byblos não tinham sido informados pela administração sobre o futuro da empresa”: “De quem raio é que falam quando se referem aos colaboradores? (…) Não entendo esta novilíngua, que mistura conceitos de forma acrítica e ideológica. Um ‘colaborador’ é uma coisa muito diferente de um trabalhador, que tem de cumprir ordens e um horário, de obedecer a uma hierarquia. Um colaborador é um fulano que dá uma mãozinha, e é por ser um tipo catita. Um bocadinho de rigor não lhes fazia mal nenhum. Talvez até descubram um instrumento legal chamado Código do Trabalho e não Código da Colaboração”.

Outro leitor anónimo objectou ao conteúdo da notícia “Colecção de obras de arte de Jorge Amado vai ser leiloada para salvar fundação” (também com origem na Lusa), colocada no PUBLICO.PT a 15 de Novembro, na parte em que se dizia que “a fundação é um centro cultural e detém todo o acervo do escritor”: “É lastimável que um jornalista (…) confunda ‘acervo’ com ‘espólio’. O site Ciberdúvidas da Língua Portuguesa esclarece: ‘Pode dizer acervo bibliográfico para designar um conjunto de livros e documentação. Não confundir com espólio (os bens, literários ou não, que ficam de quem morre)’. Esta minha nota constitui uma chamada de atenção (…) acerca de um uso negligente da língua portuguesa (…) [n]os media, sector que detém uma significativa quota-parte de responsabilidade na manutenção e aprimoramento do nosso idioma”.

Recomendação do provedor. O vocabulário usado em matéria jornalística merece cuidada ponderação antes de passar a letra de forma. Cada palavra tem um significado próprio, e da sua escolha podem depender o rigor e a isenção de uma notícia ou de uma reportagem.


Caixa:

De “padras” a “bispas”

Numa discussão sobre terminologia, não podia faltar a linguagem religiosa, criticada pelo leitor Augusto Dias, primeiro já em 6 de Julho último: “O vice-mayor de Londres, Ray Lewis, foi tema da notícia ‘Vice do mayor de Londres forçado a demitir-se’ (secção Mundo). Desde logo, o título (…) merece reparo: ninguém é vice de ninguém; é-se adjunto, número dois ou substituto; ou, no caso, vice-mayor. Não seria correcto, por exemplo, dizer que Afonso de Albuquerque foi ‘vice do Rei de Portugal’. Mas é no texto que se encontra o erro mais grave e que pode mesmo prejudicar a análise do facto: é quando o referido senhor é classificado como ‘padre’. Ora, o vice-mayor de Londres é, evidentemente, um pastor protestante, como, desde logo, sugere a própria notícia, ao informar que ele é ‘vigário numa paróquia de West Ham’. Trata-se de uma falta cultural relativamente comum – o que não lhe retira gravidade – e que interessaria corrigir. ‘Padre’ é uma designação exclusivamente usada para os sacerdotes católicos e é, de forma geral, recusada terminantemente pelos ministros das religiões protestantes”.

E o mesmo leitor voltou à carga três dias depois: “No artigo intitulado ‘Igreja de Inglaterra aprovou a ordenação de mulheres bispo’, diz-se: ‘Desde 1994 que as mulheres podem ser ordenadas padres". Agora não é só o caso de uma incorrecta tradução, a qual devia ser ‘sacerdote’, ‘pastor’ ou ‘clérigo’, mas o chocante de chamar ‘pai’ a uma mulher; quando muito, a sacerdotisa deveria ser chamada ‘madre’... Mas ainda mais extraordinária é a ‘invenção’ das ‘bispas’! Seguindo o mesmo critério, mulheres padres deveriam chamar-se... ‘padras’. ’Bispo’, como é sabido, [vem] do latim ‘episcopus’; tenho grandes dúvidas sobre o latim ‘episcopa’, mas, ainda que existisse, ‘bispas’ não, por favor! Assim, entre ‘bispas’ e mulheres-‘padre’, vai a terminologia religiosa do PÚBLICO!”

Publicada em 1 de Fevereiro de 2009