A falta de resposta a um editor que a merecia ocasionou um mal-entendido, que deve ser esclarecido
Merecem as teses de Al Gore ter mais expressão no PÚBLICO do que as contrárias?
Este caso não é sobre matéria saída no PÚBLICO, é sobre uma não publicada. Tudo começou com uma indignada carta escrita ao provedor pelo editor Horácio Piriquito acusando o jornalista Ricardo Garcia de boicotar a pré-publicação, nas páginas deste jornal, da tradução portuguesa, por si editada, do livro A Ficção Científica de Al Gore, de Marlo Lewis.
Lewis desmascara as teses do ex-vice-presidente americano quanto ao efeito de aquecimento global que alegadamente a Terra estará a atravessar. Tal fenómeno, segundo Gore, resultará da emissão de gases poluentes por acção humana e, a continuar, porá em perigo o equilíbrio ambiental do planeta e a própria existência da humanidade. Os que contestam esta tese sustentam não estar provada a influência humana na evolução climática.
Dizia Horácio Piriquito ao provedor: “O debate que é necessário fazer sobre este assunto não será travado por um único jornalista, condicionado e comprometido”. O remetente não adiantava porém nenhum elemento probatório que desse corpo à acusação contra Ricardo Garcia, e assim o provedor comunicou-lhe que sem informação adicional não poderia debruçar-se sobre a questão, tanto mais que a escolha dos livros para pré-publicação é uma prerrogativa inteiramente livre do PÚBLICO. Horácio Piriquito enviou então um longo libelo (a ler na íntegra do blogue do provedor) acerca do que considera “as razões pelas quais um pequeno caso acabou por se transformar numa verdadeira causa!”
“Não há nenhum problema da minha parte com a não publicação do livro no PÚBLICO”, começou por escrever. “Nem podia haver. Era o que mais faltava! O PÚBLICO obviamente divulga os livros que entender”. Mas, ciente de “ter na mão (...) um documento que facilmente poderia interessar a qualquer jornal”, Horácio Piriquito terá pensado de início neste diário “para uma primeira divulgação, cedendo a pré-publicação em exclusivo”.
E desde logo terá surgido um problema: “É nesse momento que os tradutores e consultores me chamam a atenção para o facto de o PÚBLICO ser um jornal condicionado nesta matéria e alinhado pela tese do ‘aquecimento global’. E identificaram o nome de um jornalista (...) como a pessoa que normalmente no jornal defendia sistematicamente uma das tendências, promovia os seus arautos e abafava as outras”. (Nesta nova carta ao provedor, Horácio Piriquito não menciona o nome de Ricardo Garcia, mas logicamente refere-se a ele).
O editor diz ter telefonado para uma jornalista amiga na redacção do PÚBLICO, que “defendeu o seu colega” e lhe sugeriu “que lhe enviasse o livro por mail (em PDF porque não havia ainda o livro fisico), que ela encaminharia para o seu colega que tratava desta temática”. Assim foi: “Enviei o PDF. Passaram semanas e... nada! Nem uma palavra! Silêncio! E o livro, antes mesmo da sua publicação, estava nas mãos de um jornalista que me tinha sido catalogado como tendencioso e manipulador! Não gostei! É um direito que me assiste. (...) O jornalista devia ter-me devolvido o livro, justificando as razões por que não o iria utilizar. Ponto final!” Horácio Piriquito ficou então a pensar as piores coisas, mais uma vez não comprovadas: “Considero isto uma vergonha e um verdadeiro crime deontológico. Hoje tenho o direito de admitir que os apoiantes do ‘aquecimento global’, protegidos pelo referido jornalista, devem ter lido – à borla! – o livro. Mesmo antes da sua publicação já o PDF deveria circular. Peço desculpa, mas perante a falta de deontologia e profissionalismo do jornalista assiste-me o direito em elevar esta suspeita, e não me importo nada de lhe fazer esta acusação!” (Suspeita sem sentido, pois o livro está no mercado internacional desde há quase dois anos).
A proposta foi então para outro jornal, que “mostrou desde logo interesse no tema” e fez a pré-publicação: “E até saiu ao lado de outro livro defensor do ‘aquecimento global’, num texto muito interessante, com duas teses antagónicas em confronto. Jornalismo sério e descomprometido. Tão simples quanto isso!”
Mantendo-se o silêncio por parte do PÚBLICO, Horácio Piriquito escreveu ao seu director: “José Manuel Fernandes garantiu-me que iria verificar o que se tinha passado”. A resposta, porém, nunca chegou.
É uma realidade que Horácio Piriquito continuava sem adiantar um elemento factual que consubstanciasse as suas acusações – de natureza especulativa, como o próprio reconhecia. O único dado específico referia-se a uma afirmação entretanto produzida por R.G. no espaço público, mas não neste jornal: “Em horário nobre, no Provedor do Espectador da RTP, reparo no jornalista do PÚBLICO a comentar (...). ‘Não podemos dar o mesmo destaque às duas frentes de opinião’, dizia ele, e colocava uma mão acima da outra, confirmando gestualmente que uma delas (a dele, o ‘aquecimento global’) tinha direito a maior destaque”.
Mesmo assim, o provedor entendeu averiguar as razões pelas quais o PÚBLICO não só não fez a pré-publicação como não respondeu ao editor. Solicitado a explicar-se, Ricardo Garcia apresentou uma versão bem menos tortuosa – pura e simplesmente, ter-se-á esquecido de que recebera da sua colega o PDF do livro de Lewis: “Possivelmente, o que aconteceu foi eu não ter tido a oportunidade de dar atenção à mensagem de imediato, e depois o assunto foi soterrado por outras solicitações. O editor tem razão num ponto: se ele propôs a pré-publicação, deveria ter recebido uma resposta do jornal. Mas não recebeu, e eu assumo a minha quota-parte de responsabilidade nisso”.
Claro que, sendo assim, a argumentação de Horácio Piriquito fica sem sustentação: “O editor engana-se hiperbolicamente ao associar essa não-resposta a uma suposta tentativa minha de ‘esconder’ o livro ou de ‘abafar’ vozes dissonantes – por deliberada manipulação ou alegado comprometimento meu com interesses que ele vislumbra mas não esclarece. As teses contrárias à das alterações climáticas merecem, obviamente, ser ouvidas e avaliadas, como mais uma peça de informação neste complexo tema. E nem o PÚBLICO nem eu próprio deixamos de o fazer. Recordo que o jornal deu tanto ou mais destaque ao livro O Ambientalista Céptico, de Bjørn Lomborg, do que a Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore. Eu próprio fiz um artigo desenvolvido sobre as posições contrárias ao aquecimento global [publicado em 6 de Novembro de 2006, com o título ‘Eles não acreditam que o aquecimento global seja culpa do homem’] (...). A questão das incertezas científicas sobre o clima – e sobre o conhecimento do clima – voltou ao jornal noutras ocasiões, em artigos meus ou de outros colegas, e, não tenho dúvidas, regressará às páginas do PÚBLICO”.
Porquê, então, defender na RTP um tratamento desigual das duas teorias? “A teoria de que o clima está a alterar-se, com possibilidade de agravamento do aquecimento global no futuro, recolhe uma ampla aceitação, por quase todos os governos, por milhares de cientistas, por muitas das suas mais representativas academias, por instituições internacionais, por organizações não-governamentais. Em termos gerais, a teoria contrária nunca conseguiu o mesmo grau de consensualidade, tendo alguma dificuldade em obter o aval da própria comunidade científica. Estes são sinais importantes que nenhum jornalista de bom senso deve ignorar. É por isto que digo que, ao tratar da suposta polémica científica sobre as alterações climáticas, o jornalista não pode olhar para os dois lados como sendo absolutamente equitativos. (...) Na mera lógica da supremacia noticiosa do confronto, um cientista que advogue que o tabaco faz bem à saúde deveria ter a mesma atenção jornalística do que décadas de estudos epidemiológicos a provar que o tabaco mata. (...) Isto seria mau jornalismo”.
Quanto a José Manuel Fernandes, admitindo-se ele próprio envolvido nesta temática ao longo da sua carreira de jornalista, assume também o desleixo para ter deixado H.P. sem resposta: “Lamento que ao não ter prestado suficiente atenção a este tema o PÚBLICO não o tenha tratado da forma que sempre procura fazer: com abertura e espírito crítico, mas sem omitir posições. E devo um pedido de desculpas a H.P. por não ter respondido ao seu mail, que acabou por ficar perdido entre os muitos a que não consigo dar resposta imediata”.
Esclarecido o caso e desculpando-se tanto o jornalista como o director do PÚBLICO (embora o próprio queixoso acuse sem fundamento), a verdade inconveniente para o jornal é que existe alguma sobranceria ou negligência na forma como a sua redacção se relaciona com entidades externas. Por isso o provedor recomenda que, pelo menos perante propostas de pré-publicação, o PÚBLICO responda atempada e fundamentadamente a cada uma delas. E, de preferência, que nomeie um editor para centralizar e processar toda essa informação.
CAIXA:
O essencial e o acessório
O artigo "Fundação Ellipse pode ajudar a salvar Banco Privado Português", de Cristina Ferreira e Vanessa Rato, sobre a possibilidade da venda da colecção de obras de arte do BPP para ajudar o seu plano de recuperação financeira, publicado na pág. 41 da edição de 26 de Novembro, mereceu do leitor Jorge Antunes Barata os seguintes reparos:
”Factos: O artigo afirma que colecção tem 400 obras. O site da fundação informa que esta tem ‘cerca de 850 obras’. O bom jornalismo adquire credibilidade nos factos que apresenta, o mau perde-a nos erros que comete.
Fontes: Da única fonte consultada resultou apenas a declaração: ‘É cedo, logo se verá’. O bom jornalismo assenta na análise das fontes. O mau recusa-a.
Informação: O núcleo da notícia resume-se a que ‘uma das medidas (...) poderá ser a venda da colecção’. Logo também poderá não ser. Trata-se de uma hipótese e não de uma informação. O bom jornalismo informa, o mau especula.
Relevância: Em relação à questão de fundo – a necessidade de 500 milhões de euros por parte do BPP –, não se percebe qual a relevância de uma colecção que resultou de um investimento de 20 milhões e cujo valor, no actual contexto, foi ‘cortado para metade’. O bom jornalismo é relevante. O mau jornalismo explora a irrelevância.
Se, no futuro, a colecção for vendida o artigo em causa não se torna um bom exercício de jornalismo. Sem fontes onde se basear, contendo erros factuais, resultando de um exercício de especulação e sendo irrisório para a questão de fundo, o mau jornalismo mancha um bom jornal.”
Através de Cristina Ferreira, o provedor solicitou uma resposta às autoras, que porém não chegou a receber. Mas entende como oportunas as observações apresentadas.
Publicada em 4 de Janeiro de 2009
DOCUMENTAÇÂO COMPLEMENTAR
Carta de Horácio Piriquito
Segue em baixo a carta que acabei de enviar por mail para um jornalista do PÚBLICO, de seu nome Ricardo Garcia, mostrando a minha indignação em relação à matéria referida.
Fico ao dispor para qualquer esclarecimento e informo que este confronto de ideias e o debate que é necessário fazer sobre este assunto não serão travados por um único jornalista, condicionado e comprometido.
Pelo contrário, vai ter de alargar a sua penetração e os timings da sua intervenção. Contra todos os Ricardos Garcias que sejam hornalistas tendenciosos e comprometidos.
Como este assunto já foi largamente debatido em diversos fora, incluindo no âmbito do Provedor do Espectador da RTP, é muito importante que o PÚBLICO avalie a forma como tem desinformado os seus leitores, única e exlusivamente pela forma interessada como um dos seus jornalistas tem abordado a temática. Mais, assumindo publicamente as suas preferências e afirmando que a "outra parte" não pode ter o mesmo nível de destaque na informação à opinião pública (in Provedor da RTP).
Horácio Piriquito
Carta de Horácio Piriquito ao jornalista Ricardo Garcia
A desinformação continua. Sem vergonha! Mas qual “aquecimento global"? Estamos a viver tremendas alterações climáticas! Referir apenas um tal “aquecimento global” é um disparate! Desinforma! Um jornalista tem de ser imparcial. Não pode sonegar informações por estar coligado ou ao serviço de interesses!
Não pode dizer na televisão que as duas frentes de opinião não podem passar as suas mensagens ao mesmo nível e com as mãos gesticular e colocar uma mais alta e outra mais em baixo! Não pode ser!
Não é jornalismo sério. Eu fui jornalista durante 25 anos e repugna-me este jornalismo servil, obediente, condicionado e preconceituoso, que abafa as vozes de uns para ampliar as de outros!
Não sou cientista, e por isso estou condicionado neste debate, mas leio pelas mesmas cartilhas que o jornalista lê: cada vez é maior o disparate quando se fala em "aquecimento global"!
Mas qual "aquecimento global"? Aquele que está a trazer cada vez mais ondas de frio em cada vez mais zonas do Globo e bate records (de frio!) com maior intensidade que o calor? Não entender isto é apostar na desinformação e no ridiculo e é estar ao serviço de alguém!
Mas não quero ir por aí, porque não sou cientista. Apenas comento o assunto com a indignação de um ex-jornalista quando se apercebe de que um ex-colega está ao serviço de alguém e não é um profissional respeitável!
Quando editei em Portugal o livro A Ficção Cientifica de Al Gore e sugeri que déssemos o exclusivo da pré-publicação ao PÚBLICO, os tradutores e consultores do livro para Portugal avisaram-me de imediato que não ia conseguir. Garantiram-me que o PÚBLICO estava "controlado", que não era imparcial, que estava ao serviço assumido apenas de uma corrente e que tinha um jornalista (que eu não conhecia) que não iria permitir que o livro sequer fosse citado no jornal.
Eu sorri! Recorri aos meus 25 anos nos jornais e garanti que os jornalistas não são assim e que essas opiniões (alarves) não passam de uma má deformação da opinião pública sobre os jornalistas.
Defendi eu que bastava mostrar o livro ao PÚBLICO para se perceber que – gostando-se ou não do que lá está escrito! – o bom jornalismo obriga a que o livro seja avaliado e citado! A polémica interessa sempre aos jornais. O livro permitiria até ampliar o debate! E essa é umas das funções mais respeitáveis dos jornais.
Falei com a Lurdes Ferreira e disse-lhe logo a abrir que os meus parceiros neste projecto tinham muito má opinião do PÚBLICO, que achavam que não ia sair nada, o livro iria ser ignorado e até escondido. E reforcei que eu tinha teimado que os jornalistas não eram nada assim... A Lurdes Ferreira reconheceu que eu tinha razão, isso eram preconceitos errados de quem não entende a comunicação social. E passou o livro para o colega dela que tratava destes assuntos!
Pois! Afinal, apesar dos bons oficios da Lurdes Ferreira, uma grande jornalista que não vai em "coutadas", os tradutores e consultores do livro, infelizmente, tinham razão!
A opinião pública pode perfeitamente continuar a criticar alguma classe jornalistica manipulada e instrumentalizada. Pior! Nem se dignam lançar o debate, porque esse é o primeiro sinal do medo que os condiciona e dos compromissos que têm assumidos! Quer melhor prova do que esta?
Quando eu era jornalista, tinha as minhas opiniões, mas delirava, em favor do interesse dos jornais onde trabalhei, quando tinha uma boa polémica e um bom debate de ideias.
Do seu director tenho igualmente a ideia da independência e do confronto de ideias e opiniões. Porque isso é jornalismo!
Mas o jornalista do PÚBLICO sonega, abafa, esconde, manipula! Afinal tem medo de quê? Se a sua opinião, e a daqueles que defende e protege, não pode ser confrontada na opinião pública com nenhuma outra, se o jornalista comandado abafa e esconde as outras opiniões, não pode ser jornalista! Terá de dedicar-se a outra coisa qualquer na vida...
Eu ainda tenho carteira profissional, não actualizada, porque nao estou a exercer directamente a profissão, e combaterei sempre enquanto puder, com a autoridade que o tempo de jornalismo e a minha própria carreira me autorizam.
Afinal o PÚBLICO, através desse jornalista de quem eu nunca tinha ouvido falar, era um jornal controlado, viciado, manipulado e instrumentalizado.
Estamos sempre a tempo de emendar os erros! O Provedor do Leitor do PÚBLICO tem de ajudar a desmontar esta manipulação vergonhosa e assumida da opinião pública protaganizada por alguém que, infelizmente, consegue exercer a digna profissão de jornalista.
Horácio Piriquito
Carta do provedor a Horácio Piriquito
Relativamente à reclamação que envia, pergunto-lhe se se refere a alguma matéria publicada no PÚBLICO ou à questão da não pré-publicação relativa ao seu livro. Se se trata do segundo caso, em princípio o jornal tem a liberdade de escolher os livros sobre os quais faz pré-publicação. Entende que, a este respeito, houve alguma irregularidade? Detectou algum comportamento abusivo da parte do jornalista Ricardo Garcia? Sem mais informação, não poderei debruçar-me sobre o caso.
Joaquim Vieira
Nova carta de Horácio Piriquito
Muito obrigado pela sua resposta e por me dar a possibilidade de esclarecer esta questão.
Vou tentar explicar - tentando, dentro do possivel, não ser muito maçador - as razões pelas quais um pequeno caso acabou por se transformar numa verdadeira causa!
Não há nenhum problema da minha parte com a não publicação do livro no PÚBLICO. Nem podia haver. Era o que mais faltava! O PÚBLICO obviamente divulga os livros que entender. Eu edito dezenas de livros por ano e nunca se colocou essas questão com ninguém. Se alguém tentar usar esse argumento não está de boa fé e tenta desviar as atenções do centro da questão.
Tudo começou quando a minha editora (Booknomics) estava a terminar a edição para Portugal do livro A Ficção Científica de Al Gore, de Marlo Lewis, e íamos passar à fase de promoção e lançamento.
Eu sugeri aos tradutores e consultores do livro - reconhecidos técnicos do IST (Jorge Oliveira e Rui Moura) - que escolhessemos o PÚBLICO para uma primeira divulgação, cedendo a pré-publicação em exclusivo. No meu espírito apenas estava uma simples colaboração jornalística, obviamente com o natural e legítimo interesse de divulgação do livro que qualquer editor tem nestas situações. O Joaquim Vieira também é autor e entende.
Eu sabia ter na mão uma excelente "peça", um documento que facilmente poderia interessar a qualquer jornal, pelo debate de ideias que poderia promover, pela polémica que iria provocar. Enfim, também fui jornalista durante 25 anos e sei muito bem o valor que se dá a estas oportunidades quando estamos descomprometidos e de boa fé.
É nesse momento que os tradutores e consultores me chamam a atenção para o facto de o PÚBLICO ser um jornal condicionado nesta matéria e alinhado pela tese do "aquecimento global". E identificaram o nome de um jornalista, de quem eu nunca tinha ouvido falar, como a pessoa que normalmente no jornal defendia sistematicamente uma das tendências, promovia os seus arautos e abafava as outras.
(Como vê, isto não é de agora. E eu nem sabia!).
Porque é importante percebermos que, neste momento, há mais do que uma tese em confronto! Não sou cientista, não posso abalançar-me por essa zona do debate, mas já li o suficiente para perceber que a expressão "aquecimento global" começa a ficar incorrecta na sua lógica. O que estamos a viver são tremendas "alterações climáticas". Tanto de calor... como de frio. Por isso os adeptos do "aquecimento global" estão a ficar aflitos para explicar as ondas de frio que batem recordes todos os anos. Mais: as ondas de frio estão a bater recordes com maior intensidade do que as ondas de calor.
Mas este é um debate científico, não é para nenhum de nós dois, e só o referi para o Joaquim Vieira se enquadrar um pouco melhor e perceber onde está o problema.
Perante este aviso dos tradutores e consultores do livro, fiz aquilo que qualquer jornalista faz e sublinhei-lhes que não tinham razão, que essa ideia sobre os jornalistas é um preconceito, que podiam confiar em mim, que as coisas não era nada assim...
De seguida - tenho imensos amigos ou conhecidos no PÚBLICO - liguei para a Lurdes Ferreira, jornalista por quem tenho o máximo respeito e consideração há mais de duas décadas, e fiz a proposta de cedência da pré-publicação do livro. A Lurdes Ferreira sugeriu-me que lhe enviasse o livro por mail (em PDF porque não havia ainda o livro fisico) que ela encaminharia para o seu colega que tratava desta temática.
Aí... lembrei-me do comentário dos tradutores e consultores e disse de imediato à Lurdes: "Cuidado, que eu tenho informações de que o PÚBLICO tem um jornalista que está alinhado com estas coisas, não é imparcial, só defende e promove uma das partes, abafa as outras, eu não acredito, mas...". E a Lurdes obviamente defendeu o seu colega e disse-me para eu não me preocupar. Esta não-preocupação batia certo com a defesa que eu próprio tinha feito dos jornalistas, e indirectamente do PÚBLICO, perante os tradutores e consultores do livro! Portanto, fiquei tranquilo e enviei o PDF.
Passaram semanas e... nada! Nem uma palavra! Silêncio! E o livro, antes mesmo da sua publicação estava (em PDF) nas mãos de um jornalista que me tinha sido catalogado como tendencioso e manipulador! Não gostei! É um direito que me assiste.
O jornalista poderia ter evitado tudo isto. Nada! O jornalista devia ter-me devolvido o livro (PDF), justificando as razões por que não o iria utilizar. Ponto final! O respeito e o profissionalismo do jornalista não chegaram a este ponto! Considero isto uma vergonha e um verdadeiro crime deontológico.
Hoje tenho o direito de admitir que os apoiantes do "aquecimento global", protegidos pelo referido jornalista, devem ter lido – à borla! - o livro. Mesmo antes da sua publicação já o PDF deveria circular. Peço desculpa, mas perante a falta de deontologia e profissionalismo do jornalista assiste-me o direito em elevar estas suspeita e não me importo nada de lhe fazer esta acusação!
O jornalista nem se apercebeu (será que não se apercebeu?) de que tinha nas mãos um processo de grande responsabilidade deontológica e de grande responsabilidade ética. Porque o livro estava ainda em produção e ele já dispunha do mesmo em PDF, podendo fazer dele o que muito bem entendesse! Abusou da confiança de toda a gente, incluindo da sua colega Lurdes Ferreira. Porque eu só enviei o livro por causa da confiança que tinha na Lurdes! E o jornalista abusou dessa confiança de forma vergonhosa, interessada e comprometida.
Entretanto, o lançamento do livro aproximava-se ... e nem uma palavra do PÚBLICO. Melhor, do jornalista do PÚBLICO! Achei que não devia estar mais tempo à espera e avancei para o Expresso, porque obviamente sabia que nenhum jornal rejeitaria o que eu estava a oferecer, desde que fosse descomprometido.
E tinha razão! O Expresso mostrou desde logo interesse no tema. Falei com o Virgilio Azevedo, creio que somos todos jornalistas mais ou menos da mesma geração, e ele naturalmente pediu-me para lhe enviar o livro (ainda em PDF porque continuava a não ter o livro fisico).
Com toda a naturalidade, o livro saiu no suplemento "Actual". E até saiu ao lado de outro livro defensor do "aquecimento global", num texto muito interessante, com duas teses antagónicas em confronto. Jornalismo sério e descomprometido. Tão simples quanto isso! Só complica, quem quer, ou quem está comprometido!
Do PÚBLICO nada! Silêncio. E o PDF a circular sei lá muito bem por onde! Até hoje! Isto é muito grave, caro Joaquim Vieira!
Escrevi na altura uma carta (mail) para o director, José Manuel Fernandes, mostrando a minha indignação. O director, por quem tenho o máximo respeito e a que reconheço uma independência a todos os títulos inatacável, garantiu-me que iria verificar o que se tinha passado.
Enfim, o tempo foi passando, naturalmente todos temos mais que fazer, eu fui esquecendo, mas fui acompanhando o que os tradutores e consultores do livro escrevem regularmente no blogue "mitosclimáticos", e de facto o PÚBLICO sai sempre muito mal no meio disto tudo, por culpa exclusiva de um jornalista que está condicionado e, por isso, condiciona o jornal em que escreve.
Por uma razão muito simples: o jornalista já assumiu publicamente que toma partido por uma das partes. Ele próprio impõe o seu critério e diz que a "outra" facção não pode ser promovida ao mesmo nível. Ele arvora-se o direito de abafar uma das partes porque se sente no direito de dizer que "só há uma verdade!". Onde é que já ouvimos isto?!
Este tema volta de novo ao meu interesse imediato porque, num sábado à noite, em horário nobre, no "Provedor do Espectador da RTP", reparo no jornalista do PÚBLICO a comentar (nem o conhecia fisicamente), e lá estava ele. Sic: "Não podemos dar o mesmo destaque às duas frentes de opinião", dizia ele, e colocava uma mão acima da outra, confirmando gestualmente que uma delas (a dele, o "aquecimento global") tinha direito a maior destaque e estar acima do debate.
Esté é o problema, caro Joaquim Vieira! Este jornalista está errado. Não é assim que se faz jornalismo. O jornalista tem de equilibrar todas as opiniões. E ele defende e protege uma delas. Só tem um mérito: assume-o pública e desacaradamente. Não o faz às escondidas! Só que não o pode fazer. Ele é jornalista, não é cientista! O jornalista é apenas o link de todas as opiniões até à opinião pública. Enfim, sabemos do que estamos a falar, não precisamos de retórica.
Para além do comportamento deontológica e eticamente vergonhoso e incorrecto de não me ter devolvido o PDF do livro quando ele próprio sabia que não o iria utilizar, o jornalista não pode ter opções e reduzir ou aumentar os méritos ou deméritos a seu bel prazer. É importante que alguém lhe explique isso! Ou então, claro, o jornalista - e por sequência o PÚBLICO - assume só há uma verdade: a do "aquecimento global". Tudo bem! Se o assumirem publicamente, ficamos todos esclarecidos. O PÚBLICO pode defender aquilo que muito bem entender, pode tomar opções e ter opinião. Sou leitor há 20 anos e não é essa a ideia que tenho do jornal. Por isso insisto que quem está errado neste processo é o jornalista. Mais ninguém!
Neste momento, este é um debate aberto e cada vez mais intenso e até agressivo. Não acredito que numa lógica de jornalismo puro e transparente alguém posso sonegar isto! O jornalista deve tentar transmitir a ideia de que todos os que não defendem o "aquecimento global" estão errados e não merecem nenhum destaque... a bem do planeta! Ele está errado! Não é verdade! A tese do "aquecimento global" começou a ser desmascarada de forma que até os seus críticos não esperavam tão cedo! Atenção a isto!
Importante: ao escrever tudo isto, não estou a defender definitivamente nenhuma das teses! Porque eu posso ter a minha opinião - e tenho! - mas sou editor e posso perfeitamente editar o próximo best-seller do Al Gore (quem me dera!)! Sei distinguir as coisas... O jornalista não sabe! Ou pior... Não quer!
Apenas alerto para tudo aquilo que o jornalista do PÚBLICO - comprometido, manipulado e interessado - tenta desesperadamente esconder. Tenho a certeza de que não vai conseguir. Vai acabar descmascarado...
Horácio Piriquito
Esclarecimento do director do PÚBLICO
Efectivamente, tive conhecimento deste caso, ainda antes do desfecho final, através de um mail que me foi enviado pelo Horácio Piriquito. Mas devo admitir que não lhe dei porventura toda a atenção que devia, tendo-o encaminhado para quem habitualmente trata das pré-publicações de livros. Nunca mais me ocupei do assunto, mas, conhecendo as limitações de espaço do jornal e as muitas escolhas que têm de ser feitas, não estranhei.
Desconheço em absoluto o episódio que comprovaria ter o Ricardo Garcia a ideia de que se deve dar mais relevo a uma posição do que a outra, tal como sei que existe um aparente enorme consenso científico favorável à tese do aquecimento global, da mesma forma que não desconheço que alguns cientistas tendem a exagerar nas suas previsões (eles próprios o admitem) para pressionar os decisores políticos.
Como jornalista, este é um tema que acompanho há quase 30 anos, e julgo mesmo ter publicado o primeiro texto sobre alterações climáticas em jornais portugueses: na revista do Expresso, e até foste tu [Joaquim Vieira] que o reviste a pedido do Vicente [Jorge Silva]. E o texto mais recente que escrevi foi uma reportagem nas ilhas Svalbard, no Árctico, onde a certa altura achei importante citar esta frase de um dos cientistas que aí acompanhei: “As simplificações excessivas nem sempre prestam um bom serviço à divulgação pública de um problema”. Uma frase que subscrevo.
Apesar de não ter lido o livro referido, mesmo o PDF, lamento que ao não ter prestado suficiente atenção a este tema o PÚBLICO não o tenha tratado da forma que sempre procura fazer: com abertura e espírito crítico, mas sem omitir posições.
E devo um pedido de desculpas ao Horácio Piriquito por não ter respondido ao seu mail, que acabou por ficar perdido entre os muitos a que não consigo dar resposta imediata.
José Manuel Fernandes
Esclarecimendo do jornalista Ricardo Garcia
Não me recordava de ter recebido, reenviado pela minha colega Lurdes Ferreira, o livro A Ficção Científica de Al Gore, de Marlo Lewis. Perguntei-lhe, entretanto, e ela de facto relembrou-me que sim, que me reenviara o livro. Possivelmente, o que aconteceu foi eu não ter tido a oportunidade de dar atenção à mensagem de imediato, e depois o assunto foi soterrado por outras solicitações. O editor tem razão num ponto: se ele propôs a pré-publicação, deveria ter recebido uma resposta do jornal. Mas não recebeu, e eu assumo a minha quota-parte de responsabilidade nisso.
No entanto, o editor do livro engana-se hiperbolicamente ao associar essa não-resposta a uma suposta tentativa minha de “esconder” o livro ou de “abafar” vozes dissonantes – por deliberada manipulação ou alegado comprometimento meu com interesses que o editor vislumbra, mas não esclarece.
As teses contrárias à das alterações climáticas merecem, obviamente, ser ouvidas e avaliadas, como mais uma peça de informação neste complexo tema. E nem o PÚBLICO nem eu próprio deixamos de o fazer. Recordo que o jornal deu tanto ou mais destaque ao livro O Ambientalista Céptico, de Bjørn Lomborg, do que a Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore. Eu próprio fiz um artigo desenvolvido sobre as posições contrárias ao aquecimento global [em 06/11/06], no qual entrevistei directamente alguns dos técnicos e cientistas, norte-americanos e europeus, mais activos neste domínio. A questão das incertezas científicas sobre o clima – e sobre o conhecimento do clima - voltou ao jornal em outras ocasiões, em artigos meus ou de outros colegas, e, não tenho dúvidas, regressará às páginas do PÚBLICO.
A teoria de que o clima está a alterar-se, com possibilidade de agravamento do aquecimento global no futuro, recolhe uma ampla aceitação, por quase todos os governos, por milhares de cientistas, por muitas das suas mais representativas academias, por instituições internacionais, por organizações não-governamentais. Em termos gerais, a teoria contrária nunca conseguiu o mesmo grau de consensualidade, tendo alguma dificuldade em obter o aval da própria comunidade científica. Estes são sinais importantes, que nenhum jornalista de bom senso deve ignorar.
É por isto que digo que, ao tratar da suposta polémica científica sobre as alterações climáticas, o jornalista não pode olhar para os dois lados como sendo absolutamente equitativos. O editor Horácio Periquito diz que, nos seus anos de jornalismo, “delirava” quando tinha “uma boa polémica”, e que “as polémicas sempre interessam aos jornais”. É verdade: a polémica tem um valor noticioso em si, e qualquer jornalista sabe disso. Mas, da minha experiência profissional e intelectual, aprendi que colocar a polémica acima de tudo, sem um razoável enquadramento – o que signifiica esgotar a notícia na própria polémica -, pode resultar num péssimo serviço de informação. Na mera lógica da supremacia noticiosa do confronto, um cientista que advogue que o tabaco faz bem à saúde deveria ter a mesma atenção jornalística do que décadas de estudos epidemiológicos a provar que o tabaco mata. Na minha opinião, isto seria mau jornalismo.
Sobre o livro de Marlo Lewis – cujo PDF não pus a circular, como diaboliza Horácio Piriquito –, de facto não lhe dei a atenção que o editor desejava, assim como não escrevi sobre mais de uma dezena de livros que defendem a tese vigente do aquecimento global, e que me foram enviados pelas respectivas editoras. Escrevo apenas ocasionalmente sobre livros, sobretudo por uma questão de gestão do tempo.
Quanto ao conteúdo mais pessoal das apreciações do editor Horácio Piriquito, com a carga primária que é inerente a qualquer tentativa de insulto, não tenho comentários a fazer.
Ricardo Garcia
domingo, 4 de janeiro de 2009
Uma verdade inconveniente
à(s)
12:30
0
comentários
Secção: Crónicas
domingo, 28 de dezembro de 2008
Um jornal analisado à lupa
Dada a hipersensibilidade da sociedade portuguesa ao tema, multiplicam-se críticas pela cobertura do conflito da educação
Para o director, a mobilização dos professores mostra que estes “empurram” os sindicatos, não o contrário
Com o extremar de posições no conflito entre o governo e os professores (ou os sindicatos de professores, como – ver-se-á mais à frente – haja quem prefira dizer), tudo o que se publica sobre a matéria acaba lido à lupa.
A leitora Catarina Cachapuz, por exemplo, contesta que o PÚBLICO escreva, na entrada do artigo "Professores que estão perto da reforma não vão ser avaliados", na pág. 5 da edição de 18 deste mês, que “as férias começam amanhã [sexta-feira antes do Natal]”: “Tal afirmação é errónea e pode levar a opinião pública a pensar que esta classe profissional entrará de férias. De facto, é verdade que as aulas terminam hoje (dia 18) e que a partir de amanhã os alunos estarão de férias. Os professores continuarão nas escolas a trabalhar na avaliação dos alunos relativa ao 1º período lectivo. Na escola onde lecciono (Secundária c/3 Aurélia de Sousa, no Porto), este processo inicia-se no dia 18 às 18h45 e só termina a 23. De referir que, para evitar que a 24 de Dezembro ainda seja necessário estar a trabalhar, vamos efectuar reuniões de conselho de turma de avaliação no sábado [20] durante todo o dia. Estes factos podem ser confirmados junto de qualquer escola”.
Contrariando o jornalismo canónico, a frase consta da entrada mas não do corpo da notícia, pelo que não se sabe se o editor pretendia referir-se ao descanso dos alunos (as “férias escolares”) ou dos professores – embora, por associação, se possa entender tratar-se do corpo docente. De qualquer modo, a reacção da leitora não deixa de reflectir a hipersensibilidade com que se encara hoje o tema do ensino nos órgãos de informação.
O mesmo se passa com a reclamação de Jorge Gonçalves perante a manchete de 21 de Novembro, “Ministra recua, Professores não”, sobre as propostas governamentais de simplificação do modelo de avaliação dos docentes: “A manchete tem um erro grosseiro. Dou de barato a parte ‘Ministra recua’. É interpretação do jornal sobre as medidas anunciadas pela ministra da Educação, interpretação de que aliás discordo. Mas nem é essa liberdade interpretativa (que roça a intromissão editorial do jornal no próprio debate político) que me choca mais. É a parte seguinte: ‘Professores não’. Deveria antes ler-se aí ‘Sindicatos não’. O PÚBLICO ‘fala’ pelos professores? Representa-os? Presume que a posição dos sindicatos é comum a todos os professores? Ou acha que ‘sindicatos’ e ‘professores’ significam o mesmo? Certamente não acha, por isso esta manchete é particularmente criticável – embora não surpreendente no PÚBLICO, que na actualidade faz mais política do que notícias”.
“O leitor levanta dois problemas em relação a essa manchete”, responde o director do PÚBLICO, a quem o provedor solicitou uma explicação. “Curiosamente, outros leitores têm levantado problemas de sentido diferente, ou mesmo oposto. A manchete parece ter funcionado como a história do copo meio cheio e do copo meio vazio. Quando a escolhi – e fui eu que a escolhi – pareceu-me uma descrição factual do que se estava a passar (a ministra alterara algumas das regras que antes dissera inalteráveis), mas os professores continuavam intransigentes. O resultado foi que alguns apoiantes da ministra viram no termo ‘recua’ uma conotação negativa e alguns professores viram na formulação do título um sinal de que estaríamos a acusá-los de intransigência”.
Prossegue José Manuel Fernandes: “Face ao clima político do momento, antevi ambas as leituras, mas considerei que isso não impedia que o título estivesse correcto, provavelmente podendo resultar mais desfavorável aos professores: havia muitos comentários contra a sua intransigência e a ministra abrira uma porta (...). Já quanto a utilizar o termo ‘professores’ e não ‘sindicatos’, desde início que as indicações dos nossos jornalistas apontavam para uma luta onde tinham sido os professores a ‘empurrar’ os sindicatos, e não a banal luta sindical como as que juntam umas centenas de pessoas à frente do ministério. As duas manifestações e os níveis de adesão à greve são tão fora do comum que ultrapassaram muito a capacidade habitual de mobilização dos sindicatos e abarcaram muitos, mas mesmo muitos, professores não sindicalizados. Mas mesmo que não fosse essa a leitura o título não deixaria de estar correcto, a não ser que demonstrássemos que a plataforma sindical não representava os professores. Se representa – e é o que se espera que aconteça se respeitamos o movimento sindical, concordemos ou não com as suas reivindicações –, escrever ‘sindicatos’ ou ‘professores’ é tão diferente como, por exemplo, escrever ‘PS’ ou ‘socialistas’”.
E remata: “Duas coisas são porém certas: nem o PÚBLICO representa os professores, nem faz política. Mas faz as leituras da realidade que tenta que sejam o mais possível correctas e equilibradas, assim como abre espaço para opiniões diferentes sobre essa mesma realidade”.
O provedor considera estas explicações adequadas ao estatuto editorial do jornal, nada encontrando de objectável na manchete e parecendo-lhe a reclamação, de novo, fruto do radicalismo que se apossou da opinião pública acerca do conflito da educação.
Recuando mais dois meses, temos outra reclamação relacionada com este grande tema nacional de 2008, do leitor Henrique Pereira: “Ontem, 10 de Setembro, no PÚBLICO [em manchete], 85 professores diziam o que ‘vão fazer para melhorar a escola’. O PÚBLICO omite se são professores de escolas públicas ou privadas. Hoje, 11 de Setembro, no PÚBLICO [págs. 8/9 do P2], 76 crianças ‘dizem o que esperam da escola dos crescidos’. Curiosamente, uma significativa maioria das crianças [59, segundo a contagem do provedor] frequentam o ensino privado. Como explicam a diferença de critérios de identificação? Por que razão a amostra das crianças é tão desequilibrada?”
O provedor considera a observação pertinente. Embora os trabalhos tenham sido elaborados por jornalistas diferentes para diferentes áreas do jornal, o conceito é idêntico (somatório de fotos de cada depoente, com a sua frase ao lado), pelo que o critério de identificação também o deveria ser. Não que venha daí grande mal, mas na perspectiva do leitor seria mais interessante saber onde leccionava cada um dos professores contactados, o que aliás podia até certo ponto ajudar a compreender melhor o seu depoimento.
Quanto à distribuição dos alunos, sabendo-se que quatro em cada cinco jovens portugueses do pré-primário ao secundário estão no ensino público, não há dúvida acerca do grande desequilíbro da amostra. Embora longe do rigor da ciência estatística, seria interessante que se tivesse procurado uma distribuição das crianças proporcional à estratificação do universo que era suposto representar-se.
Ainda antes do agravamento do conflito já se manifestavam susceptibilidades, como a do leitor Ricardo Sardo, sobre a manchete de 8 de Abril, relativa às novas normas do concurso para professor titular: “A Fenprof acusava este diploma de ser totalmente inconstitucional. Decisão do TC [Tribunal Constitucional]: com excepção de uma única norma, o diploma (...) está conforme com a Constituição. Primeira página do jornal: ‘Concurso para professor titular com norma inconstitucional’. Diz-nos o Código Deontológico dos Jornalistas Portugueses (...): ‘1. O jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade. (...) A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público’. Qualquer pessoa interpreta a decisão do TC como tendo sido favorável ao Ministério da Educação e desfavorável às pretensões da Fenprof. A que deu mais importância o jornalista? Ao único ponto desfavorável ao Ministério”.
Deve esclarecer-se que o TC não actuou com base numa participação da Fenprof contra a totalidade do diploma em questão, mas sim a partir do pedido de verificação de constitucionalidade de três dos seus artigos apresentado por um grupo de deputados. É do ponto de vista noticioso mais relevante que o Governo, ao qual compete respeitar a Constituição, tenha violado a lei fundamental em um terço das normas contestadas do que a tenha cumprido nos outros dois terços. À lupa do provedor, parece assim correcta a opção da manchete.
CAIXA:
Jornalismo e pedagogia
O jornalismo deveria possuir como uma das suas obrigações éticas a pedagogia da língua em que se exprime. Ou seja, no nosso caso, cada órgão de informação tinha o dever de se constituir como reduto de bom português. Coisa que quem lê jornais sabe nem sempre acontecer, até quando a matéria se relaciona com educação. Repare-se nesta passagem do artigo “Estar sempre muito à frente”, sobre um dos docentes que este ano foram distinguidos com o Prémio Nacional de Professores, publicado na pág. 7do P2 de 20 de Dezembro: “Fala sempre na segunda pessoa do plural – o ‘nosso’ trabalho, ‘nós aqui na biblioteca’”. A frase foi retomada ipsis verbis, com o erro que os leitores já terão detectado, para destaque. Os protestos não tardaram. O leitor Armando Mouta Pinto limitou-se a chamar a atenção, já que o destaque chamou a atenção dele. Quanto a Jorge Falé, foi muito mais acerbo: “É lastimável o modo como o jornal trata a língua portuguesa. (...) Sai um texto assinado por quem ignora a diferença entre as várias pessoas do discurso. Não contente com tal disparate, o jornal, revelando uma revisão deficientíssima, dá destaque à brutalidade linguística. (...) Ocorre perguntar: que tipo de provas de selecção prestam estes profissionais? Quem admite o pessoal não se apercebe das incapacidades destas pessoas? A não ser que o objectivo seja afastar os leitores – aí sim, estão de parabéns”. E, em retrospectiva: “A 11 de Dezembro, saiu um texto péssimo, a nível de estudante do primeiro ano de linguística, que falava da história da língua portuguesa [secção Iniciativas, pg. 46]. É tal a pobreza franciscana da redacção, tão rudimentar a sintaxe, que se espera não corresponda ao nível do projecto que pretende divulgar”. Neste caso, o leitor entra na hipérbole, já que uma revisão atenta faria o artigo cumprir a sua função. O que nem sempre se pratica no PÚBLICO, expondo-se assim uma das suas fragilidades.
Publicada em 28 de Dezembro de 2008
à(s)
06:19
0
comentários
Secção: Crónicas
domingo, 21 de dezembro de 2008
Gente de lá, problemas de cá
O jornalista do PÚBLICO deve exercer um olhar crítico sempre que se atropelam direitos e regras de cidadania
O leitor queixa-se de se ter omitido que “as eleições foram transparentes” em Angola
Apesar da diferença de continentes, há leitores que reagem de sensibilidade à flor da pele perante as notícias dos acontecimentos mais remotos, como se estivessem no meio deles.
A cobertura jornalística do conflito israelo-árabe, por exemplo, nunca agradará a todos. Haverá sempre quem veja aqui ou ali o parcial favorecimento de uma das partes. Uma vez por outra, o provedor recebe queixas por esse motivo, mas de tal modo imbuídas de fanatismo que nem merecem análise. É o caso do leitor José Leitão, que recentemente lamentou a pequena notícia não assinada “Israel abateu 4 militantes do Hamas”, na pág. 17 da edição de 13 de Novembro, não por causa do seu conteúdo, irrepreensível de equilíbrio, mas do título: “Abateu? Os militantes do Hamas são bandidos (todos?), aviões, árvores? Semântica só utilizada para os ’maus’?” (Esclareça-se que qualquer dicionário português admite o termo “abater” como “matar, assassinar”).
Também Francisco Furtado se queixou da série de reportagens que o enviado do PÚBLICO à Bolívia, Nuno Amaral, redigiu em meados de Setembro acerca do conflito entre as províncias autonomistas que não apoiam as políticas de Evo Morales e as forças favoráveis ao presidente: “Os artigos (...) são mais comunicados de imprensa da oposição autonomista do que exercícios de jornalismo. Essas peças são declarações textuais dos movimentos que tomaram instalações públicas e que assassinaram e espancaram os populares pró-Evo (na legalidade, diga-se de passagem) que ousaram levantar a cabeça nessas áreas. Que isso faça parte da reportagem até percebo, agora que um repórter cubra apenas um lado da história e, pior, que o jornal não procure equilibrar esses artigos com outros já é mais grave”.
Estando o jornalista a escrever de Santa Cruz, o epicentro do movimento rebelde, seria natural que as suas reportagens reflectissem maioritariamente as posições aí dominantes, tanto mais que os apoiantes de Morales receavam manifestar-se. Quanto à necessidade de equilíbrio com o “outro lado da história”, é coisa que deve ser vista a prazo e não numa observação pontual do jornal: no caso, o PÚBLICO, tendo já feito um esforço meritório para colocar um repórter no epicentro no conflito, não teria certamente os meios para, ao mesmo tempo, dispor de outro em território “unionista”.
Reclamação mais substanciada foi enviada por Luís Marvão acerca de uma notícia sobre o recente escrutínio eleitoral em Angola publicada em 9 de Setembro na pág. 13 e elaborada por Ana Dias Cordeiro (A.D.C.) em Lisboa (já que, como é sabido, o PÚBLICO foi um dos órgãos de informação portugueses aos quais as autoridades de Luanda recusaram visto para a cobertura local do acontecimento). Escreveu o leitor: “Habituei-me a vê-lo [ao jornal] como um diário de referência, cuja actividade se rege por critérios de rigor e isenção (...). Lamentavelmente, a cobertura que A.D.C. tem feito das eleições angolanas ameaça constituir-se em excepção à regra. Veja-se, por exemplo, o modo como é noticiada a posição da missão de observadores da União Europeia: a jornalista encima o artigo noticioso com o título ‘Missão de Observação da EU opta por não declarar as legislativas livres e justas’, destacando os não ditos da chefe daquela missão, Luisa Morgantini, e omitindo que esta última considerou que, passo a citar, ‘as eleições foram transparentes’. E que ‘as pessoas puderam votar em total liberdade e não vimos nenhum sinal de violência durante o processo’. Dessa forma, A.D.C. altera deliberadamente o sentido do comunicado dos observadores europeus, que, embora não isento de críticas (mas como poderíamos esperar um imaculado processo eleitoral, num país que só há pouco mais de cinco anos conhece a paz?), faz apreciação positiva das eleições angolanas. A.D.C. empola as críticas ao processo, procurando escamotear ou diluir o que de positivo os observadores disseram. É, em suma, um convite ao logro”.
A pedido do provedor, A.D.C. explicou como elaborou a notícia: “O texto baseou-se essencialmente no relatório preliminar que a missão da UE colocou no seu site, à hora da conferência de imprensa em Luanda para a sua divulgação (...). Também foram ouvidos o nº 2 da missão, José António Gabriel Pérez, e um politólogo angolano, Nelson Pestana, ligado a um partido da oposição. Foi inquirida a possibilidade de Luísa Morgantini conceder uma entrevista telefónica. Mas (...) a chefe da missão não estava disponível. (...) Refere-se a conferência de imprensa na parte em que Morgantini optou por não qualificar as eleições de ‘livres e justas’, por ser uma posição pouco comum e reveladora da própria indefinição espelhada no relatório. No documento, a transparência é assinalada nalguns pontos, mas noutros é posta em causa. Por exemplo: ‘A contagem [dos votos] foi conduzida de forma pacífica e transparente’. Mas também: o facto de as acreditações a observadores terem sido dadas de forma ‘tardia e parcial’ ‘afectou a transparência do processo’. O documento (...) salienta situações ‘contrárias às leis eleitorais angolanas e às normas eleitorais internacionais’. Critica a cobertura jornalística dos media do Estado, ‘tendenciosa’ e favorável ao partido no poder, o ‘uso indevido dos recursos do Estado por parte do MPLA’ e ‘a distribuição de ofertas do Governo’ a líderes tradicionais. Sobre a votação em si e o facto de em algumas assembleias de voto, pela ausência de listas e cadernos eleitorais, não ter sido possível fazer o controlo de quem votou nem que cada eleitor votou apenas uma vez, considera: ‘Este aspecto remove uma das principais garantias contra a fraude previstas na Lei Eleitoral (...)’.”
Remata o leitor: “Sabemos que as autoridades angolanas não tiveram um comportamento decente com o PÚBLICO e outros órgãos informação portugueses, mas isso não isenta os jornalistas destes periódicos do dever de imparcialidade e rigor no tratamento dos factos (...). Ou não há mundo (informativo) para além do jornalismo oficioso ao serviço dos poderes de Luanda e do alinhamento com as forças da oposição? A não ser que o PÚBLICO afirme, no seu estatuto editorial, o ponto de vista da oposição ao regime de Luanda. Seria, ao menos, uma clarificação”.
Isso não consta de facto do estatuto editorial, onde porém se escreve que “o jornalista do PÚBLICO não está obrigado à neutralidade quando estão em causa valores fundamentais da vida em sociedade, designadamente os relativos aos direitos humanos” ou perante “conflitos entre liberdade e escravidão, compaixão e crueldade, tolerância e intolerância, democracia e ditadura, livre informação e censura, paz e guerra”.
O mínimo que se pode dizer do regime angolano é que está muito longe de se constituir como modelo de vida democrática (as anteriores legislativas tinham-se realizado há 16 anos), pelo que, à luz do que preconiza o estatuto editorial, o jornalismo independente praticado no PÚBLICO deve exercer um olhar crítico sobre o que se passa naquele país, questionando em particular os atropelos aos direitos e regras de cidadania.
Aliás, noticiou este diário no passado dia 13 (pág. 20): “As eleições legislativas de Setembro em Angola careceram de ‘transparência’ e foram marcadas por sérias falhas organizacionais, concluíram os observadores da UE no relatório que ontem publicaram”. Fez bem o PÚBLICO em salientar esses aspectos.
CAIXA:
Como ler as audiências de TV
O leitor Pedro Rodrigues mostra-se desiludido com a crónica diária “A minha TV”, de Jorge Mourinha, falando, em extensa carta, de “uma coluna onde tudo transpira superficialidade, sem qualquer tentativa de análise ao fenómeno televisivo (...), escrita ao correr da pena, para encher o espaço, sem a preocupação mínima de uma reflexão prévia”. Ao provedor não compete pronunciar-se sobre esses aspectos, mas já lhe importam, como defensor dos interesses dos leitores, as “dificuldades de convivência com a língua portuguesa, mormente a pontuação e a concordância verbal” ou os “textos cuja ideia nem sequer se percebe” (e o leitor junta vários recortes com exemplos do que diz). Nota-se que Jorge Mourinha escreve despreocupadamente ao ritmo da coloquialidade, e seria de facto aconselhável, pelo menos, uma revisão prévia dos seus textos, para que a pontuação correcta pudesse dar sentido ao pensamento.
Mas outra coisa nesta coluna preocupa o provedor: é que o autor costuma aferir o sucesso público dos programas televisivos, não através da sua “quota de mercado” (ou share, percentagem de telespectadores com a TV ligada que viram o programa), mas sim através da “audiência média” (ou rating, percentagem dos que viram o programa no universo de todos os potenciais telespectadores). É natural que cerca das 21h00-21h30, o período do dia em que mais portugueses, por hábito social, vêem TV, um programa tenha mais rating do que a outra hora, mas isso não significa que o seu sucesso seja maior, sobretudo se o seu share foi menor do que o dos programas de outros canais emitidos ao mesmo tempo.
Assim, não fazem sentido a frase com que Jorge Mourinha abre a sua crónica da passada sexta-feira – “Será que existe uma ‘maldição’ do horário nobre do dia da semana a partir das dez da noite?” – nem os exemplos que apresenta a seguir, baseados na comparação da ratings (se a RTP1 mudou Os Contemporâneos das 22h00 para as 21h00, é natural que o seu rating tenha subido de 5,0 para 9,4, sem que o sucesso seja forçosamente maior, sobretudo quando não nos são fornecidos números de share). A única “maldição” das 22h00 é que a essa hora já grande parte dos portugueses está a desligar o aparelho porque tem de se levantar cedo para trabalhar no dia seguinte. Basta consultar qualquer folha diária de audiências para o perceber – e um crítico de TV competente tem de saber ler folhas de audièncias.
Publicada em 21 de Dezembro de 2008
DOCUMENTAÇÃO SUPLEMENTAR:
Carta do leitor José Leitão
Ultimamente têm aparecido na página internacional algumas pequenas notícias, não assinadas, sobre o conflito israelo-palestiniano, com títulos desajustados(inqualificáveis?) às notícias editadas. Dia 13 de Setembro: "Israel abateu 4 militantes do Hamas". Abateu? Os militantes do Hamas são bandidos(todos?), aviôes, árvores? Semântica só utilizada para os "maus"? Porque é que as fontes citadas são, quase sempre, de Israel. Nâo há outras fontes?
Dia 17 de Setembro: "Olmert ameaça lançar...", é o título. No articulado, a certa altura, o "jornalista" diz que Olmert acusa os dirigentes do Hamas de terem "feito em cacos" a trégua que.... Continua o "jornalista": O Hamas contra-ataca em tom de propaganda... São uns marotos os do Hamas, pois segundo o "jornalista" não respondem, fazem propaganda...
Nem mesmos os jornais israelitas escrevem como tem vindo a escrever o PÚBLICO nestes "inofensivos" artigos não assinados. Acabem com isto, por favor. O PÚBLICO é um jotrnal sério, creio. Por isso é o meu jornal.
José Leitão
Carta do leitor Francisco Furtado
Venho por este meio expressar a minha crítica à cobertura que o vosso jornal tem feito da crise na Bolívia. Os artigos enviados pelo vosso correspondente em Santa Cruz [Nuno Amaral], são mais comunicados de imprensa da oposição autonomista do que exercícios de jornalismo. Essas peças são declarações textuais dos movimentos que tomaram instalações públicas, assassinaram e espancaram os populares pró-Evo (na legalidade, diga-se de passagem) que ousaram levantar a cabeça nessas áreas. Que isso faça parte da reportagem até percebo, agora que um repórter cubra apenas um lado da história e, pior, que o jornal não procure equilibrar esses artigos com outros já é mais grave.
Francisco Furtado
Carta do leitor Luís Marvão
Escrevo-lhe por força do artigo "Eleições em Angola - Contagem entra hoje na recta final" da autoria de Ana Dias Cordeiro, in PÚBLICO - edição impressa, 09/09/08.
Sou leitor do PÚBLICO desde a primeira hora, e habituei-me a vê-lo como um diário de referência, cuja actividade se rege por critérios de rigor e isenção no tratamento dos acontecimentos do país e do mundo. Dito de outro modo, a fidelidade ao relato dos factos, mesmo reconhecendo que estes nem sempre são de leitura fácil, é o que espero encontrar nas páginas do PÚBLICO.
Lamentavelmente, a cobertura que a jornalista Ana Dias Cordeiro tem feito das eleições angolanas ameaça constituir-se em excepção à regra. Veja-se, por exemplo, o modo como é noticiada a posição da missão de observadores da União Europeia: a jornalista encima o artigo noticioso com o título "Missão de Observação da EU opta por não declarar as legislativas 'livres e justas'", destacando os não ditos da chefe daquela missão, Luisa Morgantini, e omitindo que esta última considerou que, passo a citar, "as eleições foram transparentes". E que "as pessoas puderam votar em total liberdade e não vimos nenhum sinal de violência durante o processo". Dessa forma, a jornalista Ana Dias Cordeiro altera deliberadamente o sentido do comunicado dos observadores europeus, que embora não isento de críticas (mas como poderíamos esperar um imaculado processo eleitoral, num país que só há pouco mais de cinco anos conhece a paz?), faz apreciação positiva das eleições angolanas. Ana Dias Cordeiro empola as críticas ao processo, procurando escamotear ou diluir o que de positivo os observadores disseram. É, em suma, um convite ao logro.
Mais à frente, procura ensombrar os resultados com o espectro da abstenção, como se este fenómeno assaz disseminado nas nossas democracias fosse de leitura linear ou unidimensional, algo que qualquer manual de ciência política esclarecerá que não (com efeito, sugerir que os abstencionistas angolanos seriam simpatizantes da oposição é, no mínimo, extrapolação indevida).
Sabemos que as autoridades angolanos não tiveram um comportamento decente com o PÚBLICO e outros órgãos de informação portugueses, mas isso não isenta os jornalistas destes periódicos do devere de imparcialidade e rigor no tratamento dos factos (no caso em apreço, a jornalista Ana Dias Cordeiro). Ou não há mundo (informativo) para além do jornalismo oficioso ao serviço dos poderes de Luanda e do alinhamento com as forças da oposição? A não ser que o PÚBLICO afirme, no seu estatuto editorial, o ponto de vista da oposição ao regime de Luanda. Seria, ao menos, uma clarificação.
Luís Marvão
Explicações da jornalista Ana Dias Cordeiro
O texto baseou-se essencialmente no relatório preliminar que a missão de observadores da União Europeia às eleições em Angola colocou no seu site, à hora da conferência de imprensa em Luanda para a sua divulgação, onde o PÚBLICO não esteve presente. Também foram ouvidos o “número dois” da missão, José António Gabriel Pérez, e um politólogo angolano, Nelson Pestana, ligado a um partido da oposição. Foi inquirida a possibilidade de Luisa Morgantini conceder uma entrevista telefónica. Mas, no momento em que o contacto foi feito, a chefe da missão não estava disponível. Nestas condições, foi uma opção não relatar a conferência de imprensa, a partir das agências, mas sim salientar o que de mais questionável continha o relatório.
Mesmo assim, refere-se a conferência de imprensa, na parte em que Morgantini optou por não qualificar as eleições de “livres e justas”, por ser uma posição pouco comum e reveladora da própria indefinição espelhada no relatório. No documento, a transparência é assinalada nalguns pontos, mas noutros é posta em causa. Por exemplo: “A contagem [dos votos] foi conduzida de forma pacífica e transparente”. Mas também: o facto de as acreditações terem sido dadas de forma “tardia e parcial” a observadores “afectou a transparência do processo”.
O documento elogia alguns aspectos do processo, mas ao mesmo tempo salienta situações “contrárias às leis eleitorais angolanas e às normas eleitorais internacionais”. Critica a cobertura jornalística dos media do Estado “tendenciosa” e favorável ao partido no poder, o "uso indevido dos recursos do Estado por parte do MPLA” e “a distribuição de ofertas do Governo” a líderes tradicionais.
Sobre a votação em si e o facto de em algumas assembleias de voto, pela ausência de listas e cadernos eleitorais, não ter sido possível fazer o controlo de quem votou nem que cada eleitor votou apenas uma vez, o relatório considera: “Este aspecto remove uma das principais garantias contra a fraude previstas na Lei Eleitoral na medida em que não há registo de como muitas pessoas votaram nas assembleias de voto.” (Este ponto é importante, porque com base nele e noutros, como o não acesso de observadores e representantes de partidos políticos à introdução dos resultados no sistema informático nacional, a missão de observadores, no seu relatório final, divulgado este mês, considera que houve “falta de transparência” no apuramento dos resultados das eleições em Angola).
Entre os aspectos positivos, o relatório salienta, por outro lado, o ambiente calmo e sereno em que decorreram as eleições e refere que, na ausência de sondagens, os resultados (ou seja a vitória esmagadora do MPLA) reflectiam aquilo que era a paisagem política em Angola. Além disso, congratula-se pelo claro “compromisso democrático” de todos os intervenientes. Tudo isso foi salientado pelo PÚBLICO, que ainda referiu que a missão da UE não corroborou as denúncias da oposição de estar instalado um “clima de medo” para não se votar no MPLA e num texto à parte deu conta dos elogios ao processo “livre” do presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, do primeiro-ministro, José Sócrates, e do presidente Cavaco Silva.
Sobre a não participação de eleitores em zonas urbanas onde o sentido do voto era de possível protesto contra o Governo, e onde problemas logísticos levaram muitas pessoas a não poder votar, foi citado o politólogo Nelson Pestana. Essa preocupação de pessoas em musseques não terem podido votar já antes tinha sido adiantada por outros observadores e analistas ao longo do processo, e não apenas em entrevistas ao PÚBLICO.
Em vários outros textos, foram citados analistas próximos de Governo e de alguns partidos da oposição, tanto uns como outros atribuindo a pesada derrota da UNITA à fraca campanha e acção do principal partido da oposição, e também ao receio que ainda existiria entre as populações que viveram nas áreas da UNITA durante a guerra.
Ana Dias Cordeiro
à(s)
03:47
0
comentários
Secção: Crónicas
domingo, 14 de dezembro de 2008
Quem, como, onde, quando, porquê?

Quem, como, onde, quando e porquê? São estas as cinco regras elementares do jornalismo que vejo sistematicamente negligenciadas em grande entrevistas televisivas (onde apenas uma vez por programa é identificado o nome do especialista convidado a intervir sobre determinado assunto) e reportagens, entrevistas ou perfis de imprensa. Nas págs. 8-9 do suplemento P2 do PÚBLICO de 28 Setembro, no destaque dado por Teresa de Sousa a um senhor de bicicleta, a regra principal (quem era?) foi liminarmente empurrada para segundo plano: embora se tratasse de um perfil sério, não percebíamos nunca quem era o "ciclista" visado. Só ao 11º parágrafo, décimo-primeiro, meus senhores, Teresa de Sousa mencionava alguém chamado "David Cameron", líder do Partido Conservador Britânico. Que por acaso também anda de bicicleta.
Parte da culpa não é de Teresa de Sousa, mas da editoria. Percebe-se que, na opção do título mais sensacionalista ("Ele vai ter de provar que também é líder em termos de crise"), o nome de David Cameron possa ter sido sacrificado. O mesmo terá acontecido no lead de abertura, um súmula de frases constantes no próprio texto. Seja como for, a partir da primeira frase, a responsabilidade é de Teresa de Sousa, que, apesar da sua experiência, caiu na armadilha de pressupor que os seus leitores conheciam bem David Cameron (quem não conhece, bolas?), escrevendo um texto com frases como "o jovem de 39 anos", ou "o Tony Blair do Partido Conservador" sem nunca mencionar o nome do "ciclista" em questão. Note-se que, até ao final do extenso perfil, só quatro vezes é referido o nome de David Cameron. A penúltima frase é elucidativa: "Quem é afinal David Cameron?".
Miguel Somsen
à(s)
12:06
0
comentários
Secção: Homepage
Há almoços gourmet grátis

Venho saudá-lo pelo seu artigo de hoje [14 de Dezembro] sobre a inauguração do supermercado do Corte Inglês. Eu fiquei exactamente com a mesma dúvida (notícia paga), e a sua investigação ajudou-me ao esclarecimento da situação. Assim, reforço que, mesmo sem reclamações de leitores, apresente casos destes, porque há sempre leitores como eu que reparam mas não reclamam e, sem o seu artigo, ficariam com a dúvida.
Miguel Águas
à(s)
07:04
0
comentários
Secção: Homepage
Journalismo gourmet
Com o predomínio de agentes de comunicação e relações públicas, alerta-se para a manutenção dos padrões do bom jornalismo
A notícia da abertura do supermercado é justificada por os clientes terem o perfil do leitor do jornal
O PÚBLICO da passada quarta-feira vinha “embrulhado” numa sobrecapa anunciando, nas suas quatro páginas, a inauguração de um supermercado da rede Supercor (El Corte Inglés) no Parque das Nações, em Lisboa. A página da frente tinha a indicação de “Publicidade” – nada a apontar quanto a isso. Mas na secção “Local” da Edição Lisboa desse dia, na pág. 17, uma notícia a três colunas incidia sobre a mesma ocorrência comercial, com o título “Supercor do Parque das Nações aposta em produtos biológicos e gourmet”. A notícia baseava-se num press-release da empresa e mantinha o mesmo carácter promocional, mencionando a “vasta área de produtos gourmet”, o “especial destaque às zonas de peixaria, charcutaria, talho e vegetais”, a “criação de 107 postos de trabalho”, o “período de formação que teve início há três meses e envolveu uma equipa de 12 formadores e especialistas internos”, os “serviços de envio ao domicílio, pedidos por telefone, encomenda de produtos perecíveis, cozedura de mariscos no momento e atendimento personalizado” e a “zona de pratos já confeccionados, confirmando-se assim a lógica actual de aposta em refeições já preparadas para levar”. O texto, apenas temperado pela referência a um estabelecimento idêntico aberto na estação de Santa Apolónia por uma rede concorrente (Pingo Doce), terminava com uma porta-voz do El Corte Inglés declarando, pelas palavras de quem redigiu a notícia, a “intenção de continuar a investir no formato de proximidade do Supercor”.
O leitor mais cínico seria até levado a pensar que, com tal notícia, o El Corte Inglés poderia ter poupado o dinheiro da publicidade exterior, mas a verdade é que o provedor não recebeu nenhuma reclamação sobre o assunto. Entendeu porém tomar a iniciativa de esclarecer o que se passou, sobretudo por lhe parecer crucial, num jornal com o estatuto editorial do PÚBLICO, que não subsistam suspeitas de uma ligação – proibida – entre matéria editorial e matéria publicitária.
Solicitou assim uma explicação ao director do PÚBLICO, que respondeu: “Não houve qualquer relação causal entre o anúncio (que também saiu noutros jornais) e a notícia. E a razão é simples: só eu e mais duas pessoas da direcção editorial conhecíamos o conteúdo do anúncio, que vem sempre para aprovação e para nos assegurarmos de que a arte final contém a menção ‘publicidade’. Na empresa, o tema só passou pelo director comercial e pelo chefe do departamento de produção, para inserir a menção de publicidade conforme as indicações da direcção editorial. Da mesma forma, ninguém da direcção editorial sabia que aquela notícia ia sair e o editor de fecho, que reviu a página e viu a notícia, não sabia do anúncio. Ou seja, a existência do anúncio não teve qualquer influência na decisão de dar aquela notícia”.
Tranquilizado a este respeito, o provedor ficou porém na dúvida quanto à lógica da notícia. Tanto mais que, segundo o próprio texto, a abertura deste tipo de supermercados pelo grupo em causa não é novidade: trata-se da quarta unidade do género que instala em Portugal (e porventura – mas isso o provedor não confirmou – a primeira a ter honras de tal cobertura jornalística do PÚBLICO).
“Foi essa decisão correcta?”, questionou o próprio José Manuel Fernandes, para responder: “Ela foi tomada pelo editor do ‘Local Lisboa’ após receber um comunicado de imprensa do El Corte Inglés. Pareceu-lhe adequado dar a notícia, já que os supermercados daquele grupo são frequentados por clientes com um perfil social e económico semelhante ao dos leitores-tipo do PÚBLICO, logo era uma notícia que interessava aos nossos leitores. Mais: na mesma peça também se referia a abertura de uma loja do Pingo Doce em Santa Apolónia, pois esta inaugurava um novo conceito da marca. Por outro lado, da mesma forma que o editor não se sentiu condicionado por publicar uma notícia sobre dois supermercados de cadeias concorrentes à que pertence ao accionista do PÚBLICO, se soubesse da existência do anúncio isso devia ser-lhe indiferente no acto de tomar a decisão. Só o valor noticioso do evento (que pode ser discutível, como o de todas as notícias, mas à luz apenas de critérios jornalísticos) devia ter tomado em consideração. Foi isso que aconteceu”.
O provedor não quer (nem deve) interferir na liberdade de escolha dos editores quanto aos objectos de notícia, mas, nesta época em que as agências de comunicação e os departamentos de relações públicas das grandes instituições e sociedades aspiram cada vez mais (e com êxito cada vez maior) a conformar as opções editoriais dos órgãos de informação, não pode deixar de alertar para a necessidade de manter sempre, nas matérias publicadas, a linguagem e o tipo de escrutínio que são apanágio do bom jornalismo.
Luiz Filipe F. R. Thomaz (L.F.T.), director do Instituto de Estudos Orientais (IEO) da Universidade Católica, reclamou ao provedor por no artigo “Mais de uma centena de alunos do superior aprendem Chinês”, assinado por Bárbara Wong (B.W.) e publicado na pág. 9 da edição de 20 de Outubro, “sobre o ensino do chinês e da civilização chinesa no nosso país” e onde se nomeiam “os estabelecimentos que ministram tais disciplinas”, não haver menção ao seu departamento: “Lamentavelmente, da enumeração não consta o nosso Instituto, que, para mais, é, tanto quanto sabemos, o único que ministra esse ensino a nível de mestrado”.
Para o queixoso, a lacuna fará tanto menos sentido quanto a existência do IEO já fora comunicada a B.W.: “Em 2006, passara-se exactamente a mesma coisa, tendo a citada jornalista argumentado que a sua omissão de devera a ignorância e prometido que de futuro levaria em linha de conta as informações que então lhe fornecemos”. Com efeito, na correspondência electrónica trocada entre os responsáveis do IEO e B.W. há cerca de dois anos, de que L.F.T. enviou cópia ao provedor, a jornalista escreveu: “Peço desculpa pela falha. De facto estive na internet à procura de todos os cursos de chinês e fui descobrindo-os e tentando falar com os responsáveis. Desconhecia as vossas iniciativas”.
Mas o reclamante recusa fazer um processo de intenções: “Embora esteja crente de que esta nova omissão de deveu a negligência e não a qualquer intuito discriminatório em relação a este Instituto, há que reconhecer que ela redunda em prejuízo dele, pois vem a equivaler na prática a uma espécie de propaganda negativa que nada fizemos por merecer”.
Solicitada pelo provedor, B.W. justificou: “O texto era sobre licenciaturas em Estudos Orientais; para tal recorri às listagens do Concurso Nacional de Acesso (ao ensino superior), feitas pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Nessas só aparecem os cursos da Universidade do Minho e do Instituto Politécnico de Leiria (...). Do que me lembrava, da troca de e-mails em 2006 com o responsável do IEO, é que as formações que leccionavam eram cursos livres e pós-graduações. Portanto, a sua oferta não se enquadrava no que procurava, que eram as licenciaturas, e, de facto, só existem estas duas, uma vez que o curso do IEO é um mestrado”.
Formalmente, a jornalista tem razão, embora, com tão escassa formação de chinês em Portugal, não fosse despropositado mencionar o IEO, até para corresponder ao título da notícia, que apenas se refere aos alunos do ensino superior em aprendizagem desta matéria.
Aliás, o texto procurava informar ainda da existência de outro tipo de cursos: “Além das licenciaturas, as universidades do Minho, de Lisboa, a Nova de Lisboa, a Técnica de Lisboa, a de Coimbra, a do Porto, e o Instituto de Engenharia de Coimbra oferecem cursos livres”. E pelo menos aqui os cursos livres que também o IEO promove ficaram de fora.
CAIXA:
Atenção às letras
A ortografia ocupa lugar especial nas preocupações dos leitores: “Foi com desagrado que constatei erros de ortografia bastante graves no artigo de 8 de Dezembro [Edição Porto] ‘Último Clubbing do ano ao som dos The Faint e dos portuenses Sizo’”, escreve a leitora Marta Nunes Leão. “Na frase ‘A expontaneidade e entrega em palco também contribuiram para que a inclusão do grupo no programa do Clubbing não destoasse, embora grande parte do entusiasmo se podesse, também, explicar...’, é possível encontrar três erros ortográficos: ‘expontaneidade’ não se escreve com ‘x’ mas com ‘s’; ‘contribuiram’ está sem acento no segundo ‘i’ e ‘pudesse’ não é escrito com ‘o’ mas com ‘u’. Onde está o trabalho de revisão dos artigos deste jornal de referência?!”
José João D. Carvalho foi ainda mais atento: “Tem sido rara a ocasião em que leio um artigo do PÚBLICO sem encontrar uma falha ou erro ortográfico (...). Ontem [10 de Dezembro] fiquei envergonhado quando um colega alemão, que está a aprender português, me pediu que lhe clarificasse duas passagens em artigos vossos [no PUBLICO.PT]. Na notícia ‘Nova manifestação de milhares de pessoas em Atenas’, aparece a seguinte frase: ‘As duas grandes centrais sindicais do país, a Confederação General dos Trabalhadores Gregos...’. Não diríamos Confederação Geral de Trabalhadores? (...) Na notícia ‘Grécia: Adolescente foi morto por ricochete de bala disparada pela polícia’, escreve-se: ‘Fazia aparte de um grupo de cerca de 30 pessoas...’. Perguntava-me o meu colega o que queria dizer a expressão, pois não fazia sentido; ao que tive de responder que era um erro de impressão. Hoje deparo outra vez com uma dúvida, pois não sei se se trata de um erro ou se o entrevistado quereria mesmo dizer ‘enfardar’ em vez de ‘enfadar’: ‘Grilo, novamente: É muito mais fácil, daqui por 20 anos, as pessoas enfardarem-se com o Bergman do que com o Oliveira’ [‘Não existem cinco cineastas que sejam assim tão livres’, 11 de Dezembro, pg. 4]”.
O provedor, que se enfarda de Ingmar Bergman sem se enfadar dele, compreende a perplexidade do leitor, o qual lança ainda um alerta muito pertinente: “Vejo por vezes também uma tentativa de utilização de palavras menos comuns que em nada, em minha opinião, enriquecem o texto das notícias. (...) Por vezes o keep it simple [manter a simplicidade], com uma boa estrutura de texto e linguagem corrente mas apropriada, resulta numa notícia mais elegante e sóbria”.
Publicada em 14 de Dezembro de 2008
à(s)
06:55
0
comentários
Secção: Crónicas
domingo, 30 de novembro de 2008
A Casa Pia da ministra da Educação
Será relevante colocar num título sobre a venda de um imóvel do Estado que Maria de Lurdes Rodrigues estudou nele?
Tender-se-á a ver insinuado na menção à ministra algo que afinal não se desvenda
O título, relativo à notícia principal da pág. 27 da edição do PÚBLICO de 19 deste mês, na secção Local, chamava a atenção pelo carácter insólito: “Estado quer vender colégio da Casa Pia onde a ministra da Educação fez o curso comercial”. Na verdade, Maria de Lurdes Rodrigues não fazia parte desta história, assinada pelo jornalista José António Cerejo (J.A.C.), acerca das regulares transacções imobiliárias de património público, a não ser pela circunstância totalmente marginal de a ministra ter estudado no colégio casapiano que até há dois anos funcionou no edifício agora em leilão (Convento do Desagravo, contíguo ao Panteão Nacional).
O leitor Vítor Moura exprimiu a sua perplexidade: “Não percebi a razão do título nem percebi as razões que levaram o jornalista a referir no texto por duas vezes a frequência do referido estabelecimento de ensino pela actual ministra da Educação (...). O facto parece absolutamente irrelevante. Mas, quando um jornalista refere um facto deste tipo (...) sugere a existência de uma relação e suscita curiosidade. Será que, nas entrelinhas, se sugere que uma escola frequentada por uma ministra nunca deveria ser vendida pelo Estado? É pouco provável. Ou será que apenas nos quer dizer que a ministra andou numa escola comercial? A notícia será um pretexto para dizer que ‘a ministra da Educação fez o curso comercial’, como se lê no título, em vez de num colégio privado suíço? Da Casa Pia, para mais? Há uma coisa que não se pode negar: o texto é exemplar. Raramente se atinge este nível. Terá o director do PÚBLICO alguma coisa a dizer sobre ele? Não quererá felicitar publicamente o seu autor?”
Contactado pelo provedor, J.A.C. admite ter sido assaltado pela dúvida: “Neste caso, como em muitos outros, o título escolhido é muito discutível. Confesso que sou o autor dele e que eu próprio me interroguei sobre a relevância da minha opção. Sucede que não sabia que a ministra lá tinha estudado e achei curioso o facto. É decerto um pormenor lateral à notícia, e por isso talvez não merecesse vir no título. Ao mesmo tempo, porém, fiz um raciocínio que me parece legítimo: se acho piada, é provável que muitos leitores achem também. Foi apenas por isso que decidi assim, e não, como é óbvio, por uma qualquer das várias sugestões mais ou menos deslocadas do leitor. Devo aliás dizer que a referência ao curso comercial só ficou no título para o equilibrar graficamente, uma vez que não gosto de linhas penduradas e deselegantes, como resultaria da expressão ‘Estado quer vender Colégio onde andou a ministra da Educação’, ou outra semelhante e igualmente curta em palavras. Acresce que a insinuação do leitor sobre a minha suposta intenção de desvalorizar o curso comercial que a ministra fez na Casa Pia é completamente infundada, quanto mais não seja porque eu próprio fiz, e tenho muito orgulho nisso, o curso comercial na Escola Veiga Beirão, no Largo do Carmo, em Lisboa”.
E para o jornalista as referências ao curso comercial de Maria de Lurdes Rodrigues “não resultam de uma qualquer intenção de repisar e repetir um facto para apoucar a senhora”: “Resultam apenas de uma regra da minha profissão: a ideia resumida nas primeiras linhas da notícia (lead) dever ser (em princípio) desenvolvida ou complementada no corpo do texto. Não o fiz da melhor maneira? É bem possível! Todos os dias tento fazer melhor”.
Também contactado pelo provedor, o director do PÚBLICO, José Manuel Fernandes, informou: “O título foi discutido na reunião de editores da manhã em que saiu a notícia. A opinião geral foi que se tratava de um aspecto lateral e sem relação de causa-efeito com a notícia. Podia e devia constar do corpo do texto, como curiosidade, mas não se justificava que estivesse no título”.
Essa é também a opinião do provedor. É certo que não há qualquer aspecto a objectar em relação ao recorte técnico da notícia, que para a construção do título obedeceu inclusive à regra do Livro de Estilo do PÚBLICO segundo a qual “os títulos dos textos informativos devem ser sempre inspirados no lead, o que implica o rigor deste.” E também não está em causa tal rigor, pois a ministra frequentou a escola em questão.
O problema é que os media têm pelo menos dois níveis de leitura: aquele mais imediato transmitido pelas meras palavras e um outro mais subtil (ou subliminar) que tem a ver com a disposição, o jogo e a interacção dos diversos elementos que constituem a mensagem: maquetagem, imagens, sons, títulos, sequências noticiosas, associações por proximidade, etc. Foi essa a questão que o provedor já suscitou há três semanas, a propósito de uma fotografia da zona púbica do David de Miguel Ângelo contígua a uma manchete sobre Paulo Pedroso e o caso Casa Pia, com a qual não tinha qualquer relação directa (como, já agora, esse caso também não tem a ver com o de hoje).
Dada a linguagem a que o PÚBLICO habituou os seus leitores, tender-se-á a ler neste título, ou ver nele insinuado, algo que afinal acaba por não se desvendar, o que causou o desconforto do leitor.
A notícia “Portugal não tem registo de erros de medicação que são responsáveis por sete mil mortes anuais nos EUA”, assinada por Catarina Gomes (C.G.) e inserida na pág. 6 da edição de 27 de Outubro, motivou a reclamação de um leitor anónimo por suposta troca de país: “Segundo as próprias palavras da presidente da Associação Portuguesa dos Farmacêuticos Hospitalares [APFH], numa entrevista que ouvi ontem na rádio (...), o número de sete mil mortes/ano está estimado para Portugal e não para os EUA. Aida Batista [A.B.] (...) Quando penso que, por ano, podem morrer 7000 pessoas nos hospitais por erros de medicação, gostaria que tal facto fosse, ao invés de menosprezado num exercício de péssimo jornalismo, trazido para a primeira página”.
Esclarece afinal C.G.: “As informações que o PÚBLICO veiculou são as correctas. O artigo da [agência] Lusa que deu origem a esta notícia (...) foi tendo vários desmentidos ao longo do dia. O PÚBLICO teve que voltar a falar com os implicados. A história inicial da Lusa assentava num erro: A.B. estava de facto convencida de que as sete mil mortes se referiam a Portugal. Acontece que a sua fonte eram números apresentados em 2005 pelo então vice-presidente do Infarmed, Faria Vaz [F.V.], e foram mal interpretados. Tal como o próprio disse ao PÚBLICO, e a outros órgãos, trata-se de números referentes aos EUA. Portugal não tem registos, tal como se diz na notícia, nem sequer estimativas. (...) A Lusa passou ao final da tarde já a falar de 7000 mortos internacionalmente, mas F.V. (...) esclareceu-me que os dados que divulgou são só dos EUA. O dia foi a prova de que a rapidez da informação nem sempre é amiga da verdade dos factos”. De facto
Perante as evidências, C.G. só pode ser elogiada por ter corrigido uma notícia errada – e aliás bastante alarmista para Portugal.
NOTA: A crónica do provedor não se publicará no próximo domingo.
CAIXA:
Respeito pela História
Neste mesmo canto, alertou o provedor na crónica anterior para o pouco rigor por vezes verificado na menção de factos históricos. Atente-se a esta carta da leitora Alexandra Pelúcia, sobre as informações contidas nas págs. 46/47 de 15 deste mês, que, embora de divulgação de uma iniciativa comercial do PÚBLICO, Arte de Portugal no Mundo, constituem matéria editorial:
“Considero admissível a existência de gralhas ou lapsos em qualquer género de publicação, talvez ainda mais numa de periodicidade diária (...). Talvez seja neste âmbito que se possa explicar a divulgação das datas de 1487 e de 1637 para evocar, respectivamente, a passagem do Cabo da Boa Esperança por Bartolomeu Dias e o fim da presença portuguesa no Japão, apesar de, na realidade, os referidos factos terem ocorrido nos anos de 1488 e de 1639. Conhecidos os pârametros de exigência e de qualidade do PÚBLICO, bem como a missão formativa que também o norteia, afiguram-se bem mais desconcertantes, se não preocupantes, outras afirmações veiculadas no texto e no mapa anexo. Assim, o leitor incauto ficou a saber que o descobrimento do Brasil se deveu a Vasco da Gama e não a Pedro Álvares Cabral; que a ilha de Socotorá está localizada no Golfo Pérsico e não perto do Corno de África, na zona de acesso ao Mar Vermelho; e que Afonso de Albuquerque ocupou o reino de Ormuz em 1507, quando apenas levou a cabo uma tentativa fracassada, ficando adiada a concretização desse objectivo até 1515. Em face do exposto, parece-me imperiosa a correcção dos dados junto dos leitores, e sugiro com veemência que, de futuro, seja dedicada maior atenção à redacção e à revisão final de textos, se possível por parte de alguém suficientemente credenciado na matéria.
Por último, estando longe de constituir o motivo principal desta chamada de atenção, diria que é de todo escusado o tom panegírico adoptado pelo mesmo artigo e por outros antes dedicados à mesma colecção, traduzido no uso do adjectivo ‘glorioso’ para qualificar o processo dos descobrimentos e da expansão portuguesa. A importância deste é aferida e reconhecida, objectivamente, pelos impactos profundos que ocasionou a váriados níveis. Neste sentido, tanto a História como o jornalismo deverão evitar a tentação do elogio fácil e rasgado”.
Como Bartolomeu Dias andou duas semanas sem terra à vista em fins de 1487, talvez nem o próprio saiba se passou para “o lado de lá” antes ou depois do réveillon, mas a maior parte das fontes consultadas pelo provedor inclina-se para 1487. Também é um facto que Albuquerque ocupou Ormuz em 1507, apesar de ter sido obrigado a retirar antes da conquista definitiva, oito anos depois. E o desembarque de Vasco da Gama no Brasil parece um claro lapso de quem redigiu, embora devesse ter sido objecto de rectificação em “o PÚBLICO errou”. Fica porém mais este alerta para a necessidade de respeitar o rigor histórico.
Publicada em 30 de Novembro de 2008
DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR
Carta do leitor Vítor Moura:
Gostava de saber as razões que levaram o PÚBLICO a publicar uma notícia assinada pelo jornalista José António Cerejo com o título "Estado quer vender colégio da Casa Pia onde a ministra da Educação fez o curso comercial" (dia 19). Não percebi a razão do título nem percebi as razões que levaram o mesmo jornalista a referir no texto por duas vezes a frequência do referido estabelecimento de ensino pela actual ministra da Educação: “onde a ministra da Educação frequentou o Curso Comercial na década de 60” e “Nas suas instalações chegaram a estudar cerca de 500 alunos, incluindo a actual ministra Maria de Lurdes Rodrigues”.
O facto parece absolutamente irrelevante. Mas, quando um jornalista refere um facto deste tipo, em aparência irrelevante, sugere a existência de uma relação e suscita curiosidade. Será que, nas entrelinhas, se sugere que uma escola frequentada por uma ministra nunca deveria ser vendida pelo Estado? É pouco provável.
Ou será que apenas nos quer dizer que a ministra andou numa escola comercial? A notícia será um pretexto para dizer que “a ministra da Educação fez o curso comercial” como se lê no título, em vez de num colégio privado suíço? Da Casa Pia, para mais? Há uma coisa que não se pode negar: o texto é exemplar. Raramente se atinge este nível. Terá o director do PÚBLICO alguma coisa a dizer sobre ele? Não quererá felicitar publicamente o seu autor?
Vítor Moura
Explicações do jornalista José António Cerejo
Neste caso, como em muitos outros, o título escolhido é muito discutível. Confesso que sou o autor dele e que eu próprio me interroguei sobre a relevância da minha opção. Sucede que não sabia que a ministra lá tinha estudado e achei curioso o facto. É decerto um pormenor lateral à notícia, e por isso talvez não mercesse vir no título. Ao mesmo tempo, porém, fiz um raciocínio que me parece legítimo: se eu acho piada, é provável que muitos leitores achem também.
Foi apenas por isso que decidi assim, e não, como é óbvio, por uma qualquer das várias sugestões mais ou menos deslocadas do leitor. Devo aliás dizer que a referência ao curso comercial só ficou no título para o equilibrar graficamente, uma vez que não gosto de linhas penduradas e deselegantes como resultaria da expressão “Estado quer vender colégio onde andou a ministra da Educação”, ou outra semelhante e igualmente curta em palavras. Acresce que a insinuação do leitor sobre a minha suposta intenção de desvalorizar o curso comercial que a ministra fez na Casa Pia é completamente infundada, quanto mais não seja porque eu próprio fiz, e tenho muito orgulho nisso, o curso comercial na Escola Veiga Beirão, no Largo do Carmo, em Lisboa.
Já agora convém lembrar que o título das notícias mais destacadas, no modelo gráfico do PÚBLICO, é imediatamente complementado com uma “entrada” impressa em letras maiores e que, neste caso, está logo aí a dimensão do negócio que o Estado se propunha fazer. Seria melhor ter ido ai - aos 30 milhões de euros, ou aos dois conventos - buscar a ideia do título?
Admito que sim!
Mas, que diabo? É isso motivo para que o leitor se permita, ironicamente, dizer que “o texto é exemplar”, além de me fazer um processo de intenções que me deixa boaquiaberto?
Nota: as duas referências que fiz no texto à ministra não resultam de uma qualquer intenção de repisar e repetir um facto para apoucar a senhora. Resultam apenas de uma regra da minha profissão: a ideia que é resumida nas primeiras linhas da notícia (lead) dever ser (em princípio) desenvolvida ou complementada no corpo do texto. Não o fiz da melhor maneira? É bem possível! Todos os dias tento fazer melhor; Só espero que o severo leitor que assim me avalia faça o mesmo na sua profissão.
José António Cerejo
à(s)
16:19
0
comentários
Secção: Crónicas