domingo, 30 de novembro de 2008

A Casa Pia da ministra da Educação

Será relevante colocar num título sobre a venda de um imóvel do Estado que Maria de Lurdes Rodrigues estudou nele?



Tender-se-á a ver insinuado na menção à ministra algo que afinal não se desvenda


O título, relativo à notícia principal da pág. 27 da edição do PÚBLICO de 19 deste mês, na secção Local, chamava a atenção pelo carácter insólito: “Estado quer vender colégio da Casa Pia onde a ministra da Educação fez o curso comercial”. Na verdade, Maria de Lurdes Rodrigues não fazia parte desta história, assinada pelo jornalista José António Cerejo (J.A.C.), acerca das regulares transacções imobiliárias de património público, a não ser pela circunstância totalmente marginal de a ministra ter estudado no colégio casapiano que até há dois anos funcionou no edifício agora em leilão (Convento do Desagravo, contíguo ao Panteão Nacional).

O leitor Vítor Moura exprimiu a sua perplexidade: “Não percebi a razão do título nem percebi as razões que levaram o jornalista a referir no texto por duas vezes a frequência do referido estabelecimento de ensino pela actual ministra da Educação (...). O facto parece absolutamente irrelevante. Mas, quando um jornalista refere um facto deste tipo (...) sugere a existência de uma relação e suscita curiosidade. Será que, nas entrelinhas, se sugere que uma escola frequentada por uma ministra nunca deveria ser vendida pelo Estado? É pouco provável. Ou será que apenas nos quer dizer que a ministra andou numa escola comercial? A notícia será um pretexto para dizer que ‘a ministra da Educação fez o curso comercial’, como se lê no título, em vez de num colégio privado suíço? Da Casa Pia, para mais? Há uma coisa que não se pode negar: o texto é exemplar. Raramente se atinge este nível. Terá o director do PÚBLICO alguma coisa a dizer sobre ele? Não quererá felicitar publicamente o seu autor?”

Contactado pelo provedor, J.A.C. admite ter sido assaltado pela dúvida: “Neste caso, como em muitos outros, o título escolhido é muito discutível. Confesso que sou o autor dele e que eu próprio me interroguei sobre a relevância da minha opção. Sucede que não sabia que a ministra lá tinha estudado e achei curioso o facto. É decerto um pormenor lateral à notícia, e por isso talvez não merecesse vir no título. Ao mesmo tempo, porém, fiz um raciocínio que me parece legítimo: se acho piada, é provável que muitos leitores achem também. Foi apenas por isso que decidi assim, e não, como é óbvio, por uma qualquer das várias sugestões mais ou menos deslocadas do leitor. Devo aliás dizer que a referência ao curso comercial só ficou no título para o equilibrar graficamente, uma vez que não gosto de linhas penduradas e deselegantes, como resultaria da expressão ‘Estado quer vender Colégio onde andou a ministra da Educação’, ou outra semelhante e igualmente curta em palavras. Acresce que a insinuação do leitor sobre a minha suposta intenção de desvalorizar o curso comercial que a ministra fez na Casa Pia é completamente infundada, quanto mais não seja porque eu próprio fiz, e tenho muito orgulho nisso, o curso comercial na Escola Veiga Beirão, no Largo do Carmo, em Lisboa”.

E para o jornalista as referências ao curso comercial de Maria de Lurdes Rodrigues “não resultam de uma qualquer intenção de repisar e repetir um facto para apoucar a senhora”: “Resultam apenas de uma regra da minha profissão: a ideia resumida nas primeiras linhas da notícia (lead) dever ser (em princípio) desenvolvida ou complementada no corpo do texto. Não o fiz da melhor maneira? É bem possível! Todos os dias tento fazer melhor”.

Também contactado pelo provedor, o director do PÚBLICO, José Manuel Fernandes, informou: “O título foi discutido na reunião de editores da manhã em que saiu a notícia. A opinião geral foi que se tratava de um aspecto lateral e sem relação de causa-efeito com a notícia. Podia e devia constar do corpo do texto, como curiosidade, mas não se justificava que estivesse no título”.

Essa é também a opinião do provedor. É certo que não há qualquer aspecto a objectar em relação ao recorte técnico da notícia, que para a construção do título obedeceu inclusive à regra do Livro de Estilo do PÚBLICO segundo a qual “os títulos dos textos informativos devem ser sempre inspirados no lead, o que implica o rigor deste.” E também não está em causa tal rigor, pois a ministra frequentou a escola em questão.

O problema é que os media têm pelo menos dois níveis de leitura: aquele mais imediato transmitido pelas meras palavras e um outro mais subtil (ou subliminar) que tem a ver com a disposição, o jogo e a interacção dos diversos elementos que constituem a mensagem: maquetagem, imagens, sons, títulos, sequências noticiosas, associações por proximidade, etc. Foi essa a questão que o provedor já suscitou há três semanas, a propósito de uma fotografia da zona púbica do David de Miguel Ângelo contígua a uma manchete sobre Paulo Pedroso e o caso Casa Pia, com a qual não tinha qualquer relação directa (como, já agora, esse caso também não tem a ver com o de hoje).

Dada a linguagem a que o PÚBLICO habituou os seus leitores, tender-se-á a ler neste título, ou ver nele insinuado, algo que afinal acaba por não se desvendar, o que causou o desconforto do leitor.

A notícia “Portugal não tem registo de erros de medicação que são responsáveis por sete mil mortes anuais nos EUA”, assinada por Catarina Gomes (C.G.) e inserida na pág. 6 da edição de 27 de Outubro, motivou a reclamação de um leitor anónimo por suposta troca de país: “Segundo as próprias palavras da presidente da Associação Portuguesa dos Farmacêuticos Hospitalares [APFH], numa entrevista que ouvi ontem na rádio (...), o número de sete mil mortes/ano está estimado para Portugal e não para os EUA. Aida Batista [A.B.] (...) Quando penso que, por ano, podem morrer 7000 pessoas nos hospitais por erros de medicação, gostaria que tal facto fosse, ao invés de menosprezado num exercício de péssimo jornalismo, trazido para a primeira página”.

Esclarece afinal C.G.: “As informações que o PÚBLICO veiculou são as correctas. O artigo da [agência] Lusa que deu origem a esta notícia (...) foi tendo vários desmentidos ao longo do dia. O PÚBLICO teve que voltar a falar com os implicados. A história inicial da Lusa assentava num erro: A.B. estava de facto convencida de que as sete mil mortes se referiam a Portugal. Acontece que a sua fonte eram números apresentados em 2005 pelo então vice-presidente do Infarmed, Faria Vaz [F.V.], e foram mal interpretados. Tal como o próprio disse ao PÚBLICO, e a outros órgãos, trata-se de números referentes aos EUA. Portugal não tem registos, tal como se diz na notícia, nem sequer estimativas. (...) A Lusa passou ao final da tarde já a falar de 7000 mortos internacionalmente, mas F.V. (...) esclareceu-me que os dados que divulgou são só dos EUA. O dia foi a prova de que a rapidez da informação nem sempre é amiga da verdade dos factos”. De facto

Perante as evidências, C.G. só pode ser elogiada por ter corrigido uma notícia errada – e aliás bastante alarmista para Portugal.

NOTA: A crónica do provedor não se publicará no próximo domingo.

CAIXA:
Respeito pela História

Neste mesmo canto, alertou o provedor na crónica anterior para o pouco rigor por vezes verificado na menção de factos históricos. Atente-se a esta carta da leitora Alexandra Pelúcia, sobre as informações contidas nas págs. 46/47 de 15 deste mês, que, embora de divulgação de uma iniciativa comercial do PÚBLICO, Arte de Portugal no Mundo, constituem matéria editorial:

“Considero admissível a existência de gralhas ou lapsos em qualquer género de publicação, talvez ainda mais numa de periodicidade diária (...). Talvez seja neste âmbito que se possa explicar a divulgação das datas de 1487 e de 1637 para evocar, respectivamente, a passagem do Cabo da Boa Esperança por Bartolomeu Dias e o fim da presença portuguesa no Japão, apesar de, na realidade, os referidos factos terem ocorrido nos anos de 1488 e de 1639. Conhecidos os pârametros de exigência e de qualidade do PÚBLICO, bem como a missão formativa que também o norteia, afiguram-se bem mais desconcertantes, se não preocupantes, outras afirmações veiculadas no texto e no mapa anexo. Assim, o leitor incauto ficou a saber que o descobrimento do Brasil se deveu a Vasco da Gama e não a Pedro Álvares Cabral; que a ilha de Socotorá está localizada no Golfo Pérsico e não perto do Corno de África, na zona de acesso ao Mar Vermelho; e que Afonso de Albuquerque ocupou o reino de Ormuz em 1507, quando apenas levou a cabo uma tentativa fracassada, ficando adiada a concretização desse objectivo até 1515. Em face do exposto, parece-me imperiosa a correcção dos dados junto dos leitores, e sugiro com veemência que, de futuro, seja dedicada maior atenção à redacção e à revisão final de textos, se possível por parte de alguém suficientemente credenciado na matéria.

Por último, estando longe de constituir o motivo principal desta chamada de atenção, diria que é de todo escusado o tom panegírico adoptado pelo mesmo artigo e por outros antes dedicados à mesma colecção, traduzido no uso do adjectivo ‘glorioso’ para qualificar o processo dos descobrimentos e da expansão portuguesa. A importância deste é aferida e reconhecida, objectivamente, pelos impactos profundos que ocasionou a váriados níveis. Neste sentido, tanto a História como o jornalismo deverão evitar a tentação do elogio fácil e rasgado”.

Como Bartolomeu Dias andou duas semanas sem terra à vista em fins de 1487, talvez nem o próprio saiba se passou para “o lado de lá” antes ou depois do réveillon, mas a maior parte das fontes consultadas pelo provedor inclina-se para 1487. Também é um facto que Albuquerque ocupou Ormuz em 1507, apesar de ter sido obrigado a retirar antes da conquista definitiva, oito anos depois. E o desembarque de Vasco da Gama no Brasil parece um claro lapso de quem redigiu, embora devesse ter sido objecto de rectificação em “o PÚBLICO errou”. Fica porém mais este alerta para a necessidade de respeitar o rigor histórico.

Publicada em 30 de Novembro de 2008

DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR

Carta do leitor Vítor Moura:

Gostava de saber as razões que levaram o PÚBLICO a publicar uma notícia assinada pelo jornalista José António Cerejo com o título "Estado quer vender colégio da Casa Pia onde a ministra da Educação fez o curso comercial" (dia 19). Não percebi a razão do título nem percebi as razões que levaram o mesmo jornalista a referir no texto por duas vezes a frequência do referido estabelecimento de ensino pela actual ministra da Educação: “onde a ministra da Educação frequentou o Curso Comercial na década de 60” e “Nas suas instalações chegaram a estudar cerca de 500 alunos, incluindo a actual ministra Maria de Lurdes Rodrigues”.

O facto parece absolutamente irrelevante. Mas, quando um jornalista refere um facto deste tipo, em aparência irrelevante, sugere a existência de uma relação e suscita curiosidade. Será que, nas entrelinhas, se sugere que uma escola frequentada por uma ministra nunca deveria ser vendida pelo Estado? É pouco provável.

Ou será que apenas nos quer dizer que a ministra andou numa escola comercial? A notícia será um pretexto para dizer que “a ministra da Educação fez o curso comercial” como se lê no título, em vez de num colégio privado suíço? Da Casa Pia, para mais? Há uma coisa que não se pode negar: o texto é exemplar. Raramente se atinge este nível. Terá o director do PÚBLICO alguma coisa a dizer sobre ele? Não quererá felicitar publicamente o seu autor?

Vítor Moura

Explicações do jornalista José António Cerejo

Neste caso, como em muitos outros, o título escolhido é muito discutível. Confesso que sou o autor dele e que eu próprio me interroguei sobre a relevância da minha opção. Sucede que não sabia que a ministra lá tinha estudado e achei curioso o facto. É decerto um pormenor lateral à notícia, e por isso talvez não mercesse vir no título. Ao mesmo tempo, porém, fiz um raciocínio que me parece legítimo: se eu acho piada, é provável que muitos leitores achem também.
Foi apenas por isso que decidi assim, e não, como é óbvio, por uma qualquer das várias sugestões mais ou menos deslocadas do leitor. Devo aliás dizer que a referência ao curso comercial só ficou no título para o equilibrar graficamente, uma vez que não gosto de linhas penduradas e deselegantes como resultaria da expressão “Estado quer vender colégio onde andou a ministra da Educação”, ou outra semelhante e igualmente curta em palavras. Acresce que a insinuação do leitor sobre a minha suposta intenção de desvalorizar o curso comercial que a ministra fez na Casa Pia é completamente infundada, quanto mais não seja porque eu próprio fiz, e tenho muito orgulho nisso, o curso comercial na Escola Veiga Beirão, no Largo do Carmo, em Lisboa.

Já agora convém lembrar que o título das notícias mais destacadas, no modelo gráfico do PÚBLICO, é imediatamente complementado com uma “entrada” impressa em letras maiores e que, neste caso, está logo aí a dimensão do negócio que o Estado se propunha fazer. Seria melhor ter ido ai - aos 30 milhões de euros, ou aos dois conventos - buscar a ideia do título?
Admito que sim!

Mas, que diabo? É isso motivo para que o leitor se permita, ironicamente, dizer que “o texto é exemplar”, além de me fazer um processo de intenções que me deixa boaquiaberto?

Nota: as duas referências que fiz no texto à ministra não resultam de uma qualquer intenção de repisar e repetir um facto para apoucar a senhora. Resultam apenas de uma regra da minha profissão: a ideia que é resumida nas primeiras linhas da notícia (lead) dever ser (em princípio) desenvolvida ou complementada no corpo do texto. Não o fiz da melhor maneira? É bem possível! Todos os dias tento fazer melhor; Só espero que o severo leitor que assim me avalia faça o mesmo na sua profissão.

José António Cerejo

sábado, 29 de novembro de 2008

Confusão histórico-geográfica

Uma carta de um leitor anónimo, datada de 4 de Junho mas actual:

Em 8 de Abril, na pág. 13, o PÚBLICO divulgou uma notícia sobre a visita do ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, ao sultanato do Omã, que, segundo informava, era um "país do Golfo Pérsico onde são mais visíveis os traços da presença portuguesa (...), com dezenas de fortes ao longo da costa".

Porém, a realidade é bem diferente, desde logo porque o Omã NÃO É UM PAÍS DO GOLFO PÉRSICO, situando-se sim na costa do Oceano Índico da Península Arábica, e o pequeno e quase inacessível enclave do Cabo Musandam, que delimita, a sul, o Estreito de Ormuz, não justifica, de nenhuma forma, aquela designação.

Depois, porque na costa em causa os portugueses, na época em questão, apenas recensearam 11 (e não dezenas de!) fortificações, e, nesse conjunto, quatro delas – Quelba (Kalba), Libédia (Bydiyah), Corfacão (Khor Fakkan) e Doba – situam-se na costa do Índico dos Emirados Árabes Unidos, nomeadamente no Fujairah, e Mada (Mada), também encravada nesse emirado, uma pequena povoação, é considerada como fazendo parte do Omã, e, portanto, mais uma vez não é verdadeiro aquilo que foi afirmado.

O que torna inevitável a conclusão de que aquela notícia fala de Omã com tanto rigor como se falasse da Lua ou de Marte, o que não deixa de ser surpreendente, atendendo a que estamos no séc. XXI.

Por outro lado, acontece ainda que, das referidas 11 fortificações, a maior parte foi apenas ocupada pelos portugueses, e, por isso, não se trata de "fortes portugueses", mas sim de construções árabes temporariamente utilizadas pelos portugueses.

Os textos da época são bem claros e esclarecem que Curiate "fizeram mouros", Sibo era um forte "já antigo, feito pelos arábios", etc., e, na realidade, apenas as construções de Mascate são da inteira responsabilidade dos portugueses. Mas nesta cidade a diplomacia portuguesa irá chegar (quando chegar!) com inultrapassável atraso, porque em 1983 o sultão mandou demolir totalmente as muralhas que defendiam o perímetro urbano e que estavam relacionadas com a ocupação portuguesa, para as substituir por umas "novas", todas "bonitinhas" e acabadas de fazer, assim um pouco como o actual "Portão dos Varadouros" da cidade do Funchal. [A notícia fala de um "programa de inventariação, conservação e reabilitação da presença portuguesa"].

Sucedendo também que, com respeito ao património português no Omã, circula na internet o apelo de um arqueólogo (fvcastro@tamu.edu) relativamente ao espólio de navios portugueses naufragados nas costas desse país no séc. XVII, que, provavelmente, irá ser explorado por "caçadores de tesouros" com objectivos meramente comerciais.

Depois destes esclarecimentos, nota-se que o Sr. ministro dos Negócios Estrangeiros declarou com a natural pompa e circunstância: "Quero anunciar o lançamento de um programa de inventariação, conservação e reabilitação do património da presença portuguesa no Mundo". Mas parece ter esquecido que, a partir de Setembro do ano passado, a Fundação Calouste Gulbenkian iniciou um inventário com esse objectivo, sob a coordenação do historiador José Mattoso e a óbvia cooperação com o governo do Sr. ministro, e, por isso, não se percebe como é que irá surgir um novo "inventário", a não ser que a palavra seja vista em relação com a sua origem, ou seja, se trate de uma "invenção" governativa…

Além disso, vinda de um ministro dos Negócios Estrangeiros, era um bocado estranha a afirmação de que o Governo português tem um programa de "reabilitação" desse património, porque o mesmo se situa em países soberanos, e, portanto, para que seja possível fazer o que quer que seja, será primeiramente imprescindível negociar com os governos desses países, não fazendo qualquer sentido um anúncio que não tem essa realidade em conta.

Sem se pretender aprofundar afirmações que têm a ver com outro tipo de matérias, que não se dominam, não deixa de parecer estranha a afirmação de que a visita de Luís Amado seria a primeira da diplomacia portuguesa ao Omã, dado que o Presidente da República Mário Soares (só podia ser ele…) já pernoitou nesse país, na sua qualidade de Chefe de Estado português e acompanhado de numerosa comitiva nacional em representação do País.

Independentemente deste aspecto, que é totalmente marginal ao assunto que se pretendeu abordar, seria bom que a nossa comunicação social dedicasse maior atenção quanto à localização do Golfo Pérsico e aos vestígios da presença portuguesa naquela zona do globo, não sendo de mais recordar que o Barem restaurou a sua "Fortaleza Portuguesa" sem qualquer interligação com os responsáveis do nosso País e que, ainda em Dezembro do ano passado, um importante encontro internacional que aí foi realizado e onde "brilhou" essa fortaleza não teve qualquer representação nacional.

Tudo leva a crer que o ministro dos Negócios Estrangeiros não terá responsabilidade nos erros inicialmente referidos na imprensa, mas pode-se colocar a dúvida se estará devidamente informado quanto à importância dos vestígios portugueses na Península Arábica e Golfo Pérsico.

NOTA DO PROVEDOR: Eis uma boa matéria para questionar as autoridades portuguesas e pôr em causa as notícias oficiais, o que parece não ter acontecido da parte de nenhum jornalista.

domingo, 23 de novembro de 2008

Mais jovem 70 anos

Pelos vistos, fazer coisas antes de nascer está para o PÚBLICO como as abóboras gigantes para o Entroncamento. Ora vejam o que diz a edição impressa de 21 de Outubro [pág. 17, sob o título "Leilão - Francis Bacon pintado por Lucien Freud vendido por quase sete milhões"]:

"Um retrato de Francis Bacon (1909-1992) pintado pelo seu amigo Lucien Freud (n. 1992) foi vendido no domingo na Christie's de Londres por 6,97 milhões de euros. Pertencente a uma colecção privada e arrematado por um comprador não identificado, o referido retrato foi pintado em 1956/7 e é o mais recente dos dois que Freud dedicou ao seu mestre e especial amigo - o outro, pintado em 1952, foi roubado de uma exposição em Berlim, em 1988, e continua desaparecido".

Nasceu em 1992, conseguiu de chucha e fraldas ser amigo de Bacon e ainda o pintou em 1956/57 e em 1952, ou seja, várias décadas antes de nascer. Milagre, milagre!

Artur Lopes Cardoso

E Beethoven era austríaco...

Repara o leitor Augusto Küttner de Magalhães que na pág. 22 do PÚBLICO de 19 de Outubro, na notícia "Jörg Haider teve um funeral digno da princesa de Gales", se escreve: "Além do mais, chegara a elogiar a política de tabalho seguida pelo líder nazi alemão Adolph Hitler".

E comenta: "Como sabemos, Adolph Hitler, sendo chefe supremo do nacional-socialismo e consequentemente do nazismo, era austríaco, e isto é demasiado importante, dado que se tivesse sido bem aceite na Áustria como pintor talvez não viesse a ser o que foi... E ao falar-se de Jörg Haider, austríaco, mais uma razão para sublinhar: Hitler, também austríaco..."

Como alguém disse, os austríacos tiveram a capacidade para convencer o mundo de que Beethoven era austríaco e Hitler alemão. Aquela notícia terá sido apenas uma prova do sucesso da campanha.

Uma originalidade económica

A propósito da crise do sistema financeiro, notou o leitor P. Ferrão na edição de 4 de Outubro:
“Pude ler na pág. 2: ‘O Governo francês afirmou que o país está em recessão técnica nesta segunda metade do ano, após dois trimestres consecutivos com o PIB negativo.’ Sugeria ao jornalista que atentasse na frase ‘dois trimestres consecutivos com o PIB negativo’, ainda que possa tratar-se de uma transcrição da fonte. Como é óbvio, o PIB não pode ser negativo, mas, no caso, apenas a sua variação trimestral”.

O eterno retorno

Por falta de melhorias palpáveis, reincide-se num tema já abordado: os detalhes que prejudicam a imagem do jornal









Um leitor confessa que “não sabia que o urso polar representado [na camisa de Palin] era assim tão popular”





O “Bartoon” da edição do PÚBLICO de 18 de Setembro repetia-se no dia seguinte, assim como era também a mesma a crónica “A minha TV” de 20 e 21 desse mês. Nada disto é novo (a própria coluna de Jorge Mourinha já havia saído também repetida, como o provedor assinalou, em 17 e 18 de Junho). Mas, apesar das chamadas de atenção, constata-se que permanecem por aplicar os elementares sistemas de controlo que poderiam evitar estes e muitos outros lapsos reveladores de um lado mais desleixado na produção do jornal.

Uma das ocorrências mais exasperantes para os leitores são os textos que não acabam. Mesmo com os alertas já lançados acerca deste problema de resolução simples, o mal persiste. Verifiquem-se estes finais: “’O Governo conseguiu estar à altura do próprio Carlos Fragateiro na maneira como o exonerou’ com” (2 de Novembro, pág. 14); “Aqui, Cruise, gordo e calvo, interpreta um agente de” (P2, 21 de Agosto, pág. 13); “conseguiu comemorar o sucesso com um calmo jantar com” (idem); “Como Barreto é um comentador realmente independente, deveria sair da Regra do Jogo, deixando Júdice a falar sozinho com” (P2, 15 de Junho, pág. 14) “Seis horas depois a Polícia Judiciária deslocou-se ao” (1 de Maio de 2008, pág. 12).

O leitor Luís Filipe Lopes explica a frustração de se chegar ao fim de um texto e se descobrir que está incompleto: “O artigo de Jorge Almeida Fernandes publicado na edição de hoje, 10 de Agosto (P2, pág. 9), não tem conclusão: a última expressão é mas também por ’nacionalismo – sem fecho de aspas e sem ponto final. Por acaso, Almeida Fernandes é um dos poucos colaboradores que ainda me fazem comprar este jornal. Azar o meu: li o artigo e, chegado ao seu termo gráfico, fiquei a ignorar o que lhe faltava para o termo lógico (uma palavra, um parágrafo, duas páginas?). Sinto-me obviamente defraudado: comprei mercadoria deficiente, perdi o meu tempo. Vai o PÚBLICO republicar o artigo, com a conclusão do autor, ou, como tem sido hábito, nem sequer mencionar o erro?” Desta vez, as palavras em falta saíram em “O PÚBLICO errou” do dia seguinte (obrigando à aquisição de duas edições para se ler o artigo), mas o mesmo não aconteceu nos restantes casos mencionados.

Especial atenção será necessário ter também ao facto de saírem duas edições diárias do PÚBLICO, uma em Lisboa e outra no Porto, sem que por vezes a primeira página esteja articulada com distintos conteúdos na secção Local. Queixa-se Carlos Dantas Teixeira de que a chamada “Água do Alqueva contaminada por fontes poluentes”, na 1ª pág. na edição Porto de 29 de Junho, remetendo para a secção Local, remetia de facto para coisa nenhuma. Leitor interessado no assunto e antes nele envolvido, ficou na ignorância do que agora se passava (o provedor confirma que o texto vinha na edição Lisboa, o que mais uma vez obrigaria à compra de dois jornais para o ler).

Outro pormenor a ter em atenção: as legendas de fotografias. Para evitar o que aconteceu na pág. 7 do P2 de 23 de Setembro, onde a foto estava legendada do seguinte modo: “Legenda com duas linhas alinhada a uma coluna”.

A propósito de legendas, um leitor anónimo chamou a atenção para a que acompanha uma foto de Sarah Palin na pág. 16 de 24 de Outubro: ”O urso popular na camisa preserva a marca Alasca”. O leitor confessa que “não sabia que o urso polar representado era assim tão popular”.

Por falar em política norte-americana, no dia das recentes eleições presidenciais dos EUA, 4 deste mês (quando se provou que, afinal, o tal urso polar de Palin não era assim tão popular), foi perguntado a várias figuras públicas, para o destaque do PÚBLICO, o que fariam nessa noite e quais as suas espectativas, mas o depoimento de João Gil acabou por ser a reimpressão do de Joana Vasconcelos (ou terá sido o contrário?), sem que tenha havido correcção posterior.

E como estamos quanto à praga de Catual, que os leitores regulares desta crónica conhecerão, dada a denúncia que o provedor tem feito de tal pecha da comunicação pública nacional? Há sinais de que os jornalistas do PÚBLICO estarão agora um pouco mais atentos à armadilha, mas mesmo assim, numa leitura longe de ser exaustiva, foi possível detectar nos últimos meses discordãncias como estas: “Esta eleição é uma das coisas mais extraordinárias que alguma vez aconteceu na América” (frase a abrir um depoimento de Paul Auster na pág. 7 do P2 da passada segunda-feira); “Um dos lotes que irá à praça no leilão do espólio de Fernando Pessoa” (13 de Novembro, pág. 11); “Manuel Alegre parece ser dos poucos dentro do PS que continua a pensar por si” (P2, 12 de Novembro, pág. 2); “Era uma das centenas de milhares de pessoas que ali estava” (P2, 10 de Novembro, pág. 4); “Uma das estrelas que mais brilhou durante as décadas de 40 e 50 do cinema português” (“Pública”, 9 de Novembro, pág. 6); “Esta é uma das coisas que o distingue do actual Presidente” (1 de Novembro, pág. 7); “Esse foi um dos factores que fez a diferença entre Kennedy e Nixon” (27 de Setembro, pág. 3); “Nenhum dos crimes que está imputado à senhora presidente foi cometido” (11 de Setembro, pág. 8); “É um daqueles livros que tem a palavra ‘romance’ bem visível na capa” (“Ípsilon”, 29 de Setembro, pág. 2); “Um dos bombeiros que chegou ao local do acidente” (22 de Agosto, pág. 16); “Este é um daqueles casamentos que não funciona” (“Bartoon”, 19 de Agosto).

Nem estas são as únicas discordâncias regulares. Vejamos as de singular/plural, também muito frequentes: “Eles mantém a memória viva” ( título da capa do P2, 9 de Novembro); “O crescimento das cidades levaram a uma recomposição do eleitorado” (6 de Novembro, pág. 3); “A busca de soluções e de propostas para a sociedade são sempre ideológicas” (1 de Novembro, pg. 44, frase repetida no destaque do artigo); “Há quem sustente que o texto destas críticas saíram da boca do próprio Estaline” (P2, 25 de Setembro, pgs. 2/3; “disse ao PÚBLICO que os problemas levantados com a fonética dos signos foi superada” (24 de Setembro, pág. 5); “A idade avançada e os problemas de saúde dos acusados torna imprevisível o desenlace do processo” (entrada de artigo, 13 de Setembro, pág. 18); "O comediante inglês Russell Brand acabou por ser a principal atracção da entrega dos prémios da MTV, que decorreram ontem nos Estados Unidos" (PUBLICO.PT, 8 de Setembro). O provedor penaliza-se aliás por, precisamente na sua anterior crónica dedicada a este problema (23 de Agosto), ter incorrido no mesmo tipo de distracção (não corrigida na revisão) ao escrever: "Iniciativas como a deste blogue, com cidadãos, individualmente ou em grupo, constitui ainda a forma mais eficaz de regulação dos media”.

Depois há ainda outros maus tratos linguísticos que, de tanto reiterados, ameaçam passar a norma. É o caso do uso errado da palavra “solarengo” (relativo a solar, casa nobre ou senhorial) como sinónimo de “soalheiro”: “A cidade japonesa de Ota, situada num dos locais mais solarengos do país, é testemunha da aposta nas energias renováveis” (PUBLICO.PT, 11 de Novembro); “O tempo foi passando. Solarengo, queimando o pasto e levando o ganadeiro a não pagar o empréstimo” (24 de Agosto, pág. 8). E agora até temos um clamoroso desconhecimento do tratamento do verbo haver: “A disposição das ossadas mostra o cuidado de quem sepultou a família à 4600 anos” (início de artigo na pág. 21 da passada quarta-feira). Ou da correcta conjugação verbal: “O anúncio, segundo a Reuters, vem a público no dia em que blogues liberais norte-americanos terem dito que Sarah teria fingido estar grávida” (PUBLICO.PT. 1 de Setembro).

E se o rigor é de regra no texto, também o deve ser nos gráficos. Não é aceitável, por exemplo, que num mapa das matas nacionais publicado na pág. 4 da edição de 21 de Agosto, a Mata Nacional das Mestras, nas Caldas da Rainha, apareça localizada no concelho da Marinha Grande, junto a Leiria, ou que Alcobaça esteja a sul das Caldas, surgindo a sua Mata Nacional do Vimeiro perto do Bombarral. (Noutro mapa de Portugal impresso 14 páginas à frente, a propósito de um tema diferente, já surgem correctamente situadas estas localidades).

Regressou-se nesta crónica a um tema já por diversas vezes aqui abordado, o dos detalhes que prejudicam a imagem do PÚBLICO – periódico que se define como “orientado por critérios de rigor”, “numa tradição europeia de jornalismo exigente e de qualidade” (do Estatuto Editorial), mas onde muitas vezes se nota a falta do esforço extra que dê sentido a estas palavras. É a falta de melhorias palpáveis que obriga à reincidência.

A História a pente fino

O tratamento das efemérides históricas evocadas nas págs. 2/3 do P2 costuma ser detalhadamente escrutinado pelos leitores, que desmonstram especial atenção à secção. “O jornalista faz uma quase exacta síntese do que fora a batalha de Trafalgar”, escreve Luis Manuel Alvarez Garcia a propósito da menção a este evento em 21 de Outubro. “Mas a certa altura diz que ‘para chegar ao canal da Mancha, a esquadra franco-espanhola teria de atravessar o cabo de Gibraltar’. Imagino que está a querer dizer ‘estreito de Gibraltar’, porque ninguém atravessa um cabo (?). Mesmo assim, consta que a esquadra franco-espanhola estava em Cádis, a oeste do dito estreito de Gibraltar. Ou seja, só teria que atravessá-lo se fosse para a Turquia, nas antípodas da Mancha. Peço para corrigir este erro geográfico e histórico, em favor das futuras gerações!”

Também José Paulo Vieira de Andrade, dias mais tarde, considerou: “Dá a ideia de que a esquadra francesa e espanhola se dirigia para o Canal da Mancha para se iniciar um desembarque próximo. Nada mais errado, como qualquer pessoa que estude essa batalha e a situação política na Europa no início do século XIX verificará”. Mas a sua preocupação era outra, a evoção, em 24 de Outubro, da conquista de Lisboa aos mouros: “Ultrapassa os limites do aceitável. De facto, essa crónica termina afirmando que a nação portuguesa se iniciou com a conquista de Lisboa!”

Publicada em 23 de Novembro de 2008

domingo, 16 de novembro de 2008

Um drible de Cristiano Ronaldo

Não há prazo máximo a observar entre a realização de uma entrevista e a sua publicação, mas o ideal é ser tão cedo quanto possível

Um site inglês sustentou que a entrevista do PÚBLICO ao craque foi retida um mês

A entrevista foi dada à estampa pelo PÚBLICO em 7 de Agosto (manchete e págs. 2/3), houve quem dissesse que fora feita cerca de um mês antes, mas o protesto pelo suposto diferimento só chegou quase um mês depois. Em 4 de Setembro, o leitor Luís Paiva escrevia ao provedor alegando que a empresa Gestifute, que representa os interesses do futebolista Cristiano Ronaldo (C.R.), alegadamente “conseguiu fazer publicar uma entrevista” ao jogador neste jornal “apenas um mês depois de ter sido efectuada.”

Não era uma entrevista qualquer, porque o craque não se abre assim todos os dias à imprensa, mas um exclusivo com repercussões além-fronteiras, em que C.R. punha termo à incerteza quanto ao tema mais especulado no defeso do futebol europeu deste ano, anunciando que acabara de optar por permanecer no Manchester United pelo menos por mais uma temporada, apesar da insistência do Real Madrid para a sua contratação e do seu próprio desejo de jogar em Espanha. “Ficar no Manchester United não será um sacrifício mas uma honra enorme”, anunciava o jogador no título da entrevista, conduzida por Bruno Prata (B.P.).

Para sustentar o que dizia, o leitor remetia para um texto difundido, no dia a seguir à saída da entrevista, no site inglês football365.com, onde se escrevia: “Uma cuidadosa leitura da entrevista exclusiva (...) na qual C.R. anunciou a sua decisão de ficar no Manchester United indica que tanto a entrevista como a decisão datam de há cerca de um mês. No início da entrevista, (...) C.R. é citado como afirmando: ‘O meu treinador teve a amabilidade de se vir encontrar comigo há dias, em Lisboa, como já penso ser público.’ De facto, embora se desconheça a data exacta, é sabido que [Alex] Ferguson se encontrou com C.R. na segunda semana de Julho.” O artigo on-line explicava a seguir que fora Ferguson a convencer em Lisboa C.R. a ficar, especulando que o anúncio público da decisão só interessaria “na semana em que o avançado deverá regressar a Inglaterra”, como o “início de uma tentativa coreografada do lado de C.R. para ganhar de novo a confiança dos adeptos do United, que se puseram contra o seu ex-herói ao serem conhecidas as suas manobras para se desvincular de Old Trafford”. E o site dizia ainda: “Não deve ter dado muito trabalho convencer B.P. a adiar a publicação da sua entrevista exclusiva: ele é casado com Manuela Brandão, funcionária de Jorge Mendes, [dono da Gestifute e] agente de C.R.”

O leitor limitava-se a perguntar: “A que título ‘congela’ o jornal uma entrevista por um mês? E qual a relação desta matéria com o facto de o editor de desporto do jornal [cargo que B.P. já ocupou mas de que, de facto, se desvinculou há dois anos] ser casado com uma funcionária da Gestifute?”

Chegado a este ponto, o provedor entende ter a obrigação de fazer uma declaração de interesses: dirigiu nos últimos dois anos e meio um projecto editorial sobre a história do futebol em Portugal (Crónica de Ouro do Futebol Português, Círculo de Leitores, 2008) do qual B.P. foi um dos colaboradores, e cujos cinco volumes têm vindo agora a ser distribuídos. Mas julga que esta proximidade não afectará a sua capacidade de análise independente do assunto (da mesma forma que acha, aliás, para responder a uma das questões levantadas, não ser legítimo deduzir que as opções editoriais de um jornalista são automaticamente determinadas ou influenciadas pelos interesses do cônjuge).

Solicitadas as necessárias explicações, respondeu B.P.: “A notícia publicada no site inglês (...) contém um erro grave. É mentira que a entrevista tenha sido guardada na gaveta durante um mês. Um mês e meio antes da data de publicação, (...) existiu de facto uma conversa com C.R., mas acabou por ficar desactualizada e não foi utilizada. Ou seja, foi para o lixo – isso aconteceu quando Alex Ferguson utilizou um avião particular para ir a Lisboa conversar com C.R., que na altura chegou a um princípio de entendimento com o seu técnico para se manter em Inglaterra, como de resto foi noticiado nos mais diversos órgãos de informação. A realidade tinha mudado, e quem esteve atento ao arrastado ‘romance’ (...) não terá dificuldade em entender isso mesmo. Basta atentar ao facto de, um mês e meio antes, C.R. ter proferido diversas declarações públicas em que indiciava claramente a sua vontade de se transferir para o Real Madrid. Um mês e meio depois, foi combinada nova conversa, de que resultou a entrevista publicada, em que jogador explica, designadamente, por que alterou a sua posição, coisa que evidentemente não poderia ter feito se a entrevista já tivesse um mês. Estes factos sempre foram do conhecimento da Direcção do PÚBLICO, que sempre insistiu para eu não desistir definitivamente da entrevista.”

Esclarece ainda B.P.: “É verdade que a minha mulher trabalha há vários anos na Gestifute. Mas isso nunca foi segredo para ninguém. É público, inclusive, que foi ela que escreveu a biografia de C.R. [Momentos, editora Ideias & Rumos, 2007]. Retirar daí qualquer outro tipo de ilação é mais do que maldade – é pura burrice.”

O leitor justificava a sua reclamação “pelo facto de o PÚBLICO estar a ser utilizado, pela segunda vez, como veículo de uma empresa privada” – e daí só ter protestado mais tarde: “No dia em que escrevo, surge um texto em tom laudatório sobre o jogador Ricardo Quaresma [R.Q.].” Esse artigo, que o provedor detectou no PUBLICO.PT mas não na edição em papel, abria do seguinte modo: “É o último grande artista da nova geração a abandonar o futebol português. R.Q. foi uma das poucas razões para ir ao futebol em Portugal nos anos mais recentes.” Rematava o leitor: “Afinal, o PÚBLICO anda a servir os interesses de uma empresa privada? Se sim, a que título? E a credibilidade do jornal, como fica?”

B.P. afirma não ter sido o autor deste segundo texto nem saber de quem se trata (o artigo não está assinado): “De facto, ele deve ter sido publicado nas minhas folgas, e nem sequer o li ainda.” E alega em sua defesa: “R.Q. é um jogador representado pelo empresário Jorge Mendes a exemplo de tantos outros. Nos meus textos, já disse bem das exibições de uns e mal das de outros. Isso já aconteceu, em diferentes jogos naturalmente, relativamente ao próprio R.Q., como é normal, sendo uma tremenda maldade e falsidade tentar fazer crer que as minhas opiniões variam em função do representante de cada jogador. A prova disso é que fui dos mais acérrimos críticos de Luiz Felipe Scolari durante a sua passagem pelo futebol português. Para quem não sabe, o ex-seleccionador nacional é representado por Jorge Mendes, de quem sou (e pretendo continuar a ser) amigo desde os tempos em que ele ainda estava longe de ser um empresário de sucesso no mundo do futebol.”

Não está estabelecido um prazo máximo a observar entre a realização de uma entrevista e a sua publicação, o que depende do critério editorial do respectivo órgão de informação. Mas é claro que o ideal é que a sua difusão se realize com a máxima brevidade possível, por uma questão de actualidade. No caso vertente, desconhece-se se a tal “conversa com C.R.” que B.P. teve mês e meio antes se destinava a ser publicada em forma de entrevista e, se sim, as razões por que não o foi logo. Mas é compreensível, do ponto de vista editorial, que se uma entrevista é ultrapassada pela evolução dos factos a sua publicação pode deixar de fazer sentido, e terá se ser posta de parte ou repetida. De alguma forma, é o que parece ter aqui acontecido com C.R,, pelo que o provedor não encontra fundamentos para criticar a conduta editorial do PÚBLICO neste episódio.

CAIXA:

Casos da semana

Para ilustrar a manchete de domingo passado, sobre a manifestação de professores na véspera em Lisboa, os editores do PÚBLICO escolheram, como a grande fotografia de primeira página, a imagem de... um microfone. É certo que atrás, desfocadas, sem se perceber o que representavam, se via uma meia-dúzia das bandeiras desfraldadas no desfile. Mas em grande plano, para onde convergia todo o olhar, a única coisa em evidência era mesmo o tal artefacto electrónico. A mensagem perdia-se por ela própria, mas sobretudo se comparada com a da capa do mesmo dia do concorrente mais directo do jornal, o Diário de Notícias, mostrando em perspectiva, na Avenida da Liberdade, os 120 mil professores que terão tomado parte no evento. O provedor gostaria de saber que informação pretendia transmitir aos leitores o responsável por aquela opção.

Já que se fala do matutino que disputa idêntico terreno ao PÚBLICO, faz-se aqui uma correcção ao que este jornal noticiou na pág. 8 do P2 da passada quarta-feira, a propósito da visita a Portugal de Daniel Okrent, primeiro provedor do New York Times (não, não é Matusalém: apesar de este jornal ter sido fundado em 1851, só admitiu a figura do provedor do leitor em 2003): “Amanhã, vai a Coimbra para também apresentar o seu livro, juntamente com o provedor dos leitores do Diário de Notícias, José Carlos Abrantes”. José Carlos Abrantes findou o seu mandato no DN em Julho de 2007, tendo-lhe sucedido Mário Bettencourt Resendes, actual detentor do cargo. O provedor aguardou por uma rectificação em “O PÚBLICO errou”, que porém nunca chegou.

Publicada em 16 de Novembro de 2008

DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR

Carta do leitor Luís Paiva

Escrevo esta reclamação pelo facto de o PÚBLICO estar a ser utilizado, pela segunda vez, como veículo de uma empresa privada.

Refiro-me em concreto à Gestifute, que conseguiu fazer publicar uma entrevista a Cristiano Ronaldo nesse jornal apenas um mês depois de ter sido efectuada.

A história é contada com mais desenvolvimento aqui.

A que título "congela" o jornal uma entrevista por um mês? E qual a relação
desta matéria com o facto de o editor de desporto do jornal ser casado com
uma funcionária da Gestifute?

E no dia em que escrevo, surge um texto em tom laudatório do jogador Ricardo Quaresma.

Afinal, o PÚBLICO anda a servir os interesses de uma empresa privada? Se sim, a que título? E a credibilidade do jornal, como fica?

Luís Paiva

Explicações do jornalista Bruno Prata

A notícia publicada no site inglês a que se refere o leitor contém um erro grave. É mentira que a entrevista tenha sido guardada na gaveta durante um mês. Um mês e meio antes da data de publicação da entrevista no PÚBLICO existiu, de facto, uma conversa com o futebolista Cristiano Ronaldo, mas a mesma acabou por ficar desactualizada e não foi utilizada. Ou seja, foi para o lixo – isso aconteceu quando Alex Ferguson utilizou um avião particular para ir a Lisboa conversar com Ronaldo, que na altura chegou a um princípio de entendimento com o seu técnico para se manter em Inglaterra, como de resto foi noticiado nos mais diversos órgãos de informação. A realidade tinha mudado, e quem esteve atento ao arrastado “romance” relacionado com a possibilidade de Ronaldo se mudar do Manchester United para o Real Madrid não terá dificuldade em entender isso mesmo. Basta atentar ao facto de, um mês e meio antes, Ronaldo ter proferido diversas declarações públicas em que indiciava claramente a sua vontade de se transferir para o Real Madrid.

Um mês e meio depois, foi combinada nova conversa, de que resultou a entrevista publicada, em que o jogador explica, designadamente, por que alterou a sua posição, coisa que evidentemente não poderia ter feito se a entrevista já tivesse um mês. Estes factos sempre foram do conhecimento da Direcção do Público, que sempre insistiu para eu não desistir definitivamente da entrevista. O Provedor do leitor do PÚBLICO poderá confirmar estes factos, designadamente, com o director-adjunto Manuel Carvalho. Não são da minha responsabilidade, naturalmente, as fugas de informações para o exterior do jornal, mais a mais sendo elas erróneas e/ou maldosas, mesmo que misturadas com meias verdades. Também não vou perder tempo a comentá-las.

Sobre a notícia relativa a Ricardo Quaresma, não fui o autor do referido texto. Não sei sequer quem o escreveu. De facto, ele deve ter sido publicado nas minhas folgas, e nem sequer o li ainda.

De resto, Quaresma é um jogador representado pelo empresário Jorge Mendes a exemplo de tantos outros. Nos meus textos, já disse bem das exibições de uns e mal das de outros. Isso já aconteceu, em diferentes jogos naturalmente, relativamente ao próprio Quaresma, como é normal, sendo uma tremenda maldade e falsidade tentar fazer crer que as minhas opiniões variam em função do representante de cada jogador. A prova disso é que fui dos mais acérrimos críticos do treinador Luiz Felipe Scolari durante a sua passagem pelo futebol português. Para quem não sabe, o ex-seleccionador nacional é representado por Jorge Mendes, de quem sou (e pretendo continuar a ser) amigo desde os tempos em que ele ainda estava longe de ser um empresário de sucesso no mundo do futebol. Poderia acrescentar diversos outros exemplos.

Aproveito ainda para esclarecer que já não edito o desporto do PÚBLICO há cerca de dois anos. Desde aí, não tenho (nem pretendo vir a ter) quaisquer responsabilidades ou intervenções sobre a edição ou sobre os temas abordados no jornal, com excepção obviamente dos meus próprios trabalhos.

É verdade que a minha mulher trabalha há vários anos na Gestifute. Mas isso nunca foi segredo para ninguém. É público, inclusive, que foi ela que escreveu a biografia de Cristiano Ronaldo. Retirar daí qualquer outro tipo de ilação é mais do que maldade. É pura burrice.

Bruno Prata