domingo, 24 de agosto de 2008

Bem prega o provedor!

Acabado de ler a página do provedor no jornal de hoje [24 de Agosto], qual não é o meu espanto por verificar que a famigerada "praga de Catual", de tão comum que é, atingiu já... o próprio provedor! Assim sendo, no último parágrafo do texto, dignou-se escrever, e passo a citá-lo: "Entende, contudo, que iniciativas como a deste blogue, com cidadãos, individualmente ou em grupo, constitui (?) ainda a forma mais eficaz..."

Creio que quaisquer comentários adicionais serão desnecessários!

Ouso, apenas, questionar se V. Ex.a se dignará publicar esta minha observação daqui a quatro semanas, aquando do seu regresso às páginas do meu jornal diário.

João Chambers

NOTA DO PROVEDOR: O provedor só pode, claro, enfiar humildemente a carapuça, embora deste modo se prove mais uma vez a necessidade de revisão, para o que já por várias vezes alertou.

sábado, 23 de agosto de 2008

Os pobres e a inflação

A propósito da crónica que se publica este domingo (24 de Agosto), o provedor retoma um caso envolvendo o mesmo leitor (Miguel Carvalho) e o mesmo jornalista (Sérgio Aníbal), que não abordou em crónica porque entretanto a reclamação já havia sido publicada no blogue A Pente Fino:

Carta de Miguel Carvalho:

"Os mais pobres sofrem mais com a inflação", diz a capa do PÚBLICO de 21 de Abril em letras gordas [não é manchete]. Ainda na capa: "As famílias portuguesas com rendimentos mais baixos são as que mais estão a sentir os efeitos da inflação, conclui um relatório do INE". Lá dentro, na secção de Economia (pág. 38), temos: "Cálculos feitos pelo PÚBLICO...".

O facto de os dados usados serem baseados num relatório do INE não dá o direito ao PÚBLICO de dizer que as conclusões são do INE. Para lá desta inverdade, há ainda a questão de saber se o INE teria tantas certezas como o PÚBLICO parece ter.

Antes de mais um fenómeno paranormal nos resultados do Sérgio Aníbal, que lhe deveria ter saltado à vista. TODAS as classes de rendimento sofreram, segundo ele, inflações iguais ou acima da inflação! Ou seja, teremos a média (feita sobre os rendimentos) acima da média. Algo como a média de 10, 9, 8, 7, 6 e 5 ser... 5! O que já mostra que as suas contas estão certamente erradas.

Apesar de ter que reconhecer que Sérgio Aníbal se deu ao trabalho de fazer algo que provavelmente poucos fariam, não se pode tirar as conclusões que ele tira. Mais uma vez, e bem, ele próprio reconhece isso dizendo: "A análise feita pelo PÚBLICO não leva em conta esse nível de desagregação da despesa familiar..." Mas logo a seguir
estraga tudo mostrando bem o seu facciosismo, quando diz: "Ainda poderia acentuar as disparidades do impacto da inflação sobre os diferentes tipos de famílias". Dou-lhe razão, mas não há razão nenhuma para acreditar que seja para cima ou para baixo. Por que será que não escreveu o oposto, que poderia diminuir e até inverter as disparidades do impacto da inflação? Não dava jeito. Como exemplo, posso indicar os legumes, que desceram 15%, o que mostra quão difícil é tirar o tipo de conclusões que Sérgio Aníbal quer tirar, com os poucos dados disponíveis que existem.

Outro aspecto que mostra quão forçadas são as suas conclusões é o facto de ele chegar ao valor de 3,1% de inflação para as famílias ricas e 3,6% para as pobres. A diferença é ridiculamente baixa e insignificante~, dados os problemas de agregação. Mais, esta pequeníssima diferença que foi medida em Março (0,5pp) pode pura e simplesmente inverter-se em Abril, já que a inflação dentro de cada classe de produtos é altamente volátil (com variações de mais de 1pp de mês para mês em termos anuais).

Por último, o texto atribui a culpa aos "bens essenciais" que têm subido acima da inflação. É preciso ter muito cuidado com o nível de agregação quando falamos em "bens essenciais". Primeiro - e como já disse - termos alimentação a subir pode dever-se aos caviares e patas negras, logo é complicado chamar "bem essencial" à classe alimentação. Segundo, a este nível grande parte das classes são bens essenciais! Descontando cinco das 12 classes, temos Alimentação, Vestuário, Habitação, Produtos correntes para a Habitação, Saúde, Transportes, Educação, que julgo serem todos "bens essenciais". Pois bem, três delas estão abaixo da inflação. É sempre fácil pegar na que subiu mais destas sete (estatisticamente haverá uma acima da inflação, em 99,99999% dos casos) e em tom sensacionalista clamar bem alto que os "bens essenciais" sobem acima da inflação.

Miguel Carvalho

Resposta de Sérgio Aníbal:

"Os mais pobres sofrem mais com a inflação", diz a capa do PÚBLICO de 21 de Abril em letras gordas. Ainda na capa: "As famílias portuguesas com rendimentos mais baixos são as que mais estão a sentir os efeitos da inflação, conclui um relatório do INE". Lá dentro, na secção de Economia, temos: "Cálculos feitos pelo PÚBLICO...". O facto de os dados usados serem baseados num relatório do INE não dá o direito ao PÚBLICO de dizer que as conclusões são do INE. Para lá desta inverdade, há ainda a questão de saber se o INE teria tantas certezas como o PÚBLICO parece ter.

O leitor tem toda a razão. Na primeira página nunca deveria ter sido escrito que as conclusões surgem num relatório do INE, é falso. No meu texto isso nunca é afirmado, os cálculos são meus, utilizando dados do INE.

"Antes de mais um fenómeno paranormal nos resultados do Sérgio Aníbal, que lhe deveria ter saltado à vista. TODAS as classes de rendimento sofreram, segundo ele, inflações iguais ou acima da inflação! Ou seja, teremos a média (feita sobre os rendimentos) acima da média. Algo como a média de 10, 9, 8, 7, 6 e 5 ser... 5! O que já mostra que as suas contas estão certamente erradas."

Não há qualquer fenómeno paranormal. Como é explicado no texto, o cálculo da inflação por classes de rendimento que é feito utiliza os pesos na despesa familiar obtidos no inquérito aos orçamentos das famílias 2005/2006. O INE utiliza ainda os pesos obtidos no inquérito de 2000. Por isso, como penso que é referido no texto, e como escrevi num anterior artigo meu, o valor da inflação global usando os orçamentos 2005/2006 é superior à taxa de inflação oficial declarada pelo INE.

"Apesar de ter que reconhecer que Sérgio Aníbal se deu ao trabalho de fazer algo que provavelmente poucos fariam, não se pode tirar as conclusões que ele tira. Mais uma vez, e bem, ele próprio reconhece isso dizendo: "A análise feita pelo PÚBLICO não leva em conta esse nível de desagregação da despesa familiar..." Mas logo a seguir estraga tudo mostrando bem o seu facciosismo, quando diz: "Ainda poderia acentuar as disparidades do impacto da inflação sobre os diferentes tipos de famílias". Dou-lhe razão, mas não há razão nenhuma para acreditar que seja para cima ou para baixo. Por que será que não escreveu o oposto, que poderia diminuir e até inverter as disparidades do impacto da inflação? Não dava jeito. Como exemplo, posso indicar os legumes, que desceram 15%, o que mostra quão difícil é tirar o tipo de conclusões que Sérgio Aníbal quer tirar, com os poucos dados disponíveis que existem."

Estou convicto (foi por isso que escrevi e não por facciosismo, como diz o leitor mostrando como assume que qualquer jornalista está, por princípio, sempre pronto a aldrabar) que, mesmo desagregando, as famílias mais pobres poderiam sair mais prejudicadas. O leitor dá o exemplo dos legumes, mas a verdade é que as maiores subidas (pão, arroz, leite, ovos, massas) são tudo bens a que com toda a probabilidade as famílias mais pobres dão maior importância no seu orçamento. De qualquer forma, compreendo a crítica, deveria estar mais claro que é apenas uma convicção do jornalista. Esta questão tem, no entanto, pouca importância na conclusão principal do texto.

"Outro aspecto que mostra quão forçadas são as suas conclusões é o facto de ele chegar ao valor de 3,1% de inflação para as famílias ricas e 3,6% para as pobres. A diferença é ridiculamente baixa e insignificante~, dados os problemas de agregação. Mais, esta pequeníssima diferença que foi medida em Março (0,5pp) pode pura e simplesmente inverter-se em Abril, já que a inflação dentro de cada classe de produtos é altamente volátil (com variações de mais de 1pp de mês para mês em termos anuais)."

Não considero a diferença ridiculamente baixa e insignificante.

"Por último, o texto atribui a culpa aos "bens essenciais" que têm subido acima da inflação. É preciso ter muito cuidado com o nível de agregação quando falamos em "bens essenciais". Primeiro - e como já disse - termos alimentação a subir pode dever-se aos caviares e patas negras, logo é complicado chamar "bem essencial" à classe alimentação. Segundo, a este nível grande parte das classes são bens essenciais! Descontando cinco das 12 classes, temos Alimentação, Vestuário, Habitação, Produtos correntes para a Habitação, Saúde, Transportes, Educação, que julgo serem todos "bens essenciais". Pois bem, três delas estão abaixo da inflação. É sempre fácil pegar na que subiu mais destas sete (estatisticamente haverá uma acima da inflação, em 99,99999% dos casos) e em tom sensacionalista clamar bem alto que os "bens essenciais" sobem acima da inflação."

O objectivo principal do texto foi o de comparar qual a inflação registada para uma distribuição da despesa de uma família de baixo rendimento e de outra de elevado rendimento. Os números mostram que ela é maior para os mais pobres, precisamente porque estas famílias gastam proporcionalmente mais em alimentação e habitação, classes em que os preços têm subido mais. Há sempre limitações neste tipo de cálculos, mas penso que as conclusões são correctas e não contêm qualquer tipo de sensacionalismo, que nunca foi o objectivo do texto quando decidimos realizá-lo.

Sérgio Aníbal

Pontos de vista sobre a crise

É legítimo que o PÚBLICO não se limite à apresentação seca da notícia, mas faça também a sua análise, com uma interpretação própria

“Principais problemas da economia portuguesa são internos, diz o FMI” – e isto dizia por sua vez o PÚBLICO em manchete publicada a 18 de Julho. O conteúdo da notícia, apontando para razões estruturais da economia portuguesa, e não para a conjuntura internacional, como principal motivo da crise que o país atravessa, suscitou uma chamada de atenção do leitor Miguel Carvalho, alegando que as análises do FMI (Fundo Monetário Internacional) invocadas não permitiam tal conclusão.

Explanava o texto da pág. 1 do PÚBLICO: "A crise internacional não é a principal causa para o ritmo de crescimento lento que Portugal irá continuar a apresentar neste ano e no próximo, ao contrário do que tem vindo a ser defendido pelo Governo. A garantia é dada pelo FMI". A fonte era o mais recente relatório sobre Portugal elaborado pela instituição financeira. A ideia-base reforçava-se no desenvolvimento publicado na secção de Economia (pág. 37), sob o título “FMI garante que principais problemas da economia portuguesa são domésticos”, com autoria do jornalista Sérgio Aníbal.

Defende porém o leitor que “não há contradição nenhuma entre o relatório do FMI e o que o Governo diz sobre o abrandamento este ano da economia”. E “para que fique claro” o que afirma, cita a “visão do FMI”: "O crescimento abrandará provavelmente em 2008 para cerca de 1,25 por cento e para cerca de 1,00 por cento em 2009, por influência do fraco crescimento dos países parceiros, da turbulência financeira internacional e da subida do preço das mercadorias”. Conclui Miguel Carvalho: “Não há mais referência nenhuma no relatório sobre este abrandamento de curto prazo. Agora repare: todos os pontos que o FMI refere são externos. A contradição é portanto inventada”.

Existe aqui uma nuance: a questão do curto prazo. Alega o leitor que é isso que está em causa (ou seja, o que se passará neste ano e no próximo) e que para esse período o FMI não aponta outros factores na evolução da situação nacional: “O Governo tem-se queixado de questões conjunturais externas para explicar o abrandamento este ano da economia, o próprio texto da capa refere a quebra de curto prazo”, explica, adiantando que o problema seria diferente se a perspectiva fosse o longo prazo, pois, a esse nível, sim, “o FMI refere-se a questões estruturais (que por definição explicam comportamentos num horizonte temporal largo, e não de apenas um ano) internas.”

Mas são precisamente as mesmas razões apontadas pelo FMI que levam Sérgio Aníbal a defender o que escreveu, em particular este período do relatório da instituição, que cita na notícia (aqui traduzido pelo provedor de forma um pouco diferente, se bem que sem alterar o sentido): “A deterioração do ambiente económico global está a obstaculizar a retoma portuguesa, mas os problemas fundamentais condicionando a economia do país são de natureza doméstica: elevados défices externo e público; endividamento muito alto das famílias, das empresas e do Estado; e um substancial desnível em matéria de competitividade”.

Conclui por isso o jornalista, solicitado pelo provedor a esclarecer o assunto: “Assim, o FMI considera que, apesar de haver problemas conjunturais (externos) a afectar Portugal, são os problemas estruturais (internos) que mais estão a limitar o crescimento da economia. O Governo, por seu lado, tem salientado no seu discurso que os problemas estruturais (internos) estão a ser resolvidos pelas políticas postas em prática e que são os problemas conjunturais (externos) o principal entrave ao crescimento da economia. ‘Estamos agora melhor preparados para enfrentar a crise’, tem sido a frase mais utilizada pelos membros do Governo. Foi aqui, quando escrevi o artigo, que encontrei a contradição. E, ao citar aquela frase do relatório, referi igualmente a existência de problemas conjunturais externos, ao contrário do que diz o leitor. Admito que, em questões de análise de discurso político, outras interpretações sejam possíveis, porventura até mais correctas do que a minha. Mas gostava de deixar claro que procuro não inventar quando escrevo os meus artigos, coisa que o leitor, de forma injusta, rapidamente concluiu”.

Em suma, acerca do mau momento que estamos a viver (e que, na verdade, não sabemos se é a curto prazo, já que o sofremos desde quase o início do século XXI), a conjuntura externa só terá vindo agravar ainda mais uma situação já de si difícil de sustentar devido aos problemas estruturais do edifício económico e financeiro nacional.

Poderá não ser esta a perspectiva que mais agradará às autoridades portuguesas, mas é uma leitura que, quanto ao provedor, não só é possível extrair do relatório do FMI como é legítimo que o PÚBLICO faça, dado que a sua função como jornal não se limita à apresentação seca da notícia, mas também ao seu desenvolvimento analítico: “A informação complementar e diferente, o background e protagonização da notícia, a análise e a interpretação indispensáveis à sua compreensão integram e distinguem o estilo do PÚBLICO”, lê-se no seu Livro de Estilo, a abrir o subcapítulo “Os factos e a opinião”.

Claro que teria sido interessante exercer-se o contraditório com uma fonte oficial (preferencialmente do gabinete do primeiro-ministro ou do ministro das Finanças), até para satisfazer o ponto 15 dos “Princípios e normas de conduta profissional” do mesmo Livro de Estilo (“Qualquer informação desfavorável a uma pessoa ou entidade obriga a que se oiça sempre o ‘outro lado’ em pé de iguladade e com franqueza e lealdade”) – e, na verdade, não parece que tenha sido sequer esboçada uma tentativa nesse sentido.

O que não elimina o mérito do jornalista em procurar aprofundar a informação. Mas que, na óptica do provedor (embora não sendo objecto da queixa apresentada), importa sublinhar, uma vez que se observa frequentemente a fuga ao contraditório na atitude de muitos jornalistas do PÚBLICO, aqui se deixando a recomendação para o cumprimento escrupuloso desse princípio.

Miguel Carvalho tem sido um leitor atento deste jornal, adiantando regularmente observações críticas que, com frequência, o provedor considera pertinentes. Mais do que isso, é o principal animador do blogue “A Pente Fino” (http://apentefino.blogs.sapo.pt), onde um grupo de pessoas se dedicam a registar o que consideram “disparates” dos órgãos de informação.

Nem sempre o provedor tem atendido às reclamações de Miguel Carvalho, enviadas após divulgação no blogue, pois, em regra, prefere dar voz a queixas originais e não àquelas já colocadas no espaço público (a não ser que sejam incontornáveis no diagnóstico às questões editoriais do jornal). Entende, contudo, que iniciativas como a deste blogue, com cidadãos, individualmente ou em grupo, escrutinando a actividade dos jornalistas, constituem ainda a forma mais eficaz de regulação dos media, os quais nunca deixarão de estar atentos ao feedback que recolhem por parte da sociedade civil. Afinal de contas, garantida a liberdade de expressão, cada sociedade tem a informação que merece.

CAIXA:

Bota e perdigota
Há uma semana, o provedor recenseava algumas das últimas manifestações da “praga de Catual” nas páginas do PÚBLICO. Mas esta frequente falta de concordância entre sujeito e predicado não é a única situação em que, na escrita do jornal, a bota muitas vezes não dá com a perdigota. Outros casos comuns têm a ver com falta de correspondência no género ou na flexão de número. Exemplos recentes: “O temas negros e obscurantistas da sua poesia, muita dela enraizada em lendas sérvias, gerava estranheza” (23 de Julho, pág. 5); “A colagem ao discurso oficial e à propaganda do Governo continuam a render” (antetítulo de artigo de opinião, 17 de Julho, pág. 33); “A inflação e a alta de juros colocou ainda mais famílias em dificuldade” (entrada de artigo, 10 de Julho, pág. 4); “A qualidade dos produtos do mar foram uma surpresa para mim” (“Pública”, 22 de Junho, pág. 38); “A decisão por parte da Estónia de banir os símbolos do martelo e da foice e da cruz suástica foi descrito pela Rússia, na altura, como uma ‘blasfémia’” (18 de Junho, pág. 19); “Mais de metade ‘fica ansioso’ se não tiver o telemóvel” (título de notícia sobre um inquérito à juventude, 3 de Junho, pág. 10); “Os berros do speaker da Volta a Portugal em bicicleta não deixou ninguém dormir” (“Inimigo Público”, 15 de Agosto, pág. 2); “A vontade que o Presidente francês mostrou em acalmar os ânimos no conflito russo-georgiano são meritórios” (13 de Agosto, pág. 36); “As diferenças entre o que é dito e a realidade é ainda maior do que aquela que separa os homens das mulheres" (5 de Agosto, pág. 35); "O resultado das peritagens efectuadas ontem pela PJ ainda não são conhecidos" (8 de Julho, pág. 22); "O ex-investigador da PJ, cujo afastamento das funções de coordenador das investigações foram atribuídas pelos responsáveis da Judiciária a declarações prestadas” (5 de Julho, pág. 14). O leitor José Oliveira, que detectou as últimas cinco ocorrências, pergunta “se é isto que nos dão em troca dos oito euros semanais que damos, com esforço, pelo jornal”. Dão-nos muito mais (e o público também dá mais: 8,7 euros), mas, de qualquer modo, volta a recomendar-se mais atenção aos jornalistas e (quando existem) revisores.

Publicada em 24 de Agosto de 2008

NOTA: Não se publicará a crónica do provedor nas próximas três semanas.

Ouvindo os leitores

Alguns comentários do público, que podiam motivar reflexões com vista a melhorar o PÚBLICO

O provedor julga que se os responsáveis dos media prestassem maior atenção a algumas das críticas feitas pelo público muita coisa podia melhorar na forma como a informação é prestada e apreciada. Aqui se seleccionam observações pertinentes de leitores que o PÚBLICO faria bem em escutar.

J. Barbosa chama a atenção para o facto de, na edição de 2 de Agosto, um artigo sobre «três pontes no Douro» vir inserido na secção Local Porto (e só reproduzido na edição dessa cidade), ao passo que um outro sobre «carros na Baixa pombalina» aparece na edição nacional. E interroga o leitor: “Carros na Baixa pombalina não é uma questão eminentemente local? As pontes sobre o Douro são menos importantes para o País do que uma ideia (mais uma ideia megalómana...) para retirar carros da Baixa pombalina?”

É preciso esclarecer que o primeiro texto é de carácter noticioso, elaborado por um jornalista do PÚBLICO, enquanto o segundo é um artigo de opinião, da autoria de um especialista do tema focado. Mas o leitor toca uma corda muito sensível: no momento de escolher entre o âmbito regional e o âmbito nacional para a colocação de certas matérias, não haverá, por proximidade geográfica do centro de decisão, uma tendência para privilegiar a Grande Lisboa (e o Sul) em detrimento do Grande Porto (e o Norte)? Comungarão todos os leitores das mesmas afinidades face ao jornal, não se sentindo alguns discriminados em função da distância? A questão é importante na medida em que o PÚBLICO se pretende um diário de carácter e expansão nacionais.

João Sousa André alerta para uma permanente dor de cabeça da imprensa: como transliterar nomes originalmente escritos noutros alfabetos. “Por altura da morte de Aleksander Soljenitsine, reparei que ao longo de diversos meios de comunicação social se iam multiplicando as formas de escrita, no alfabeto latino, do nome do antigo escritor russo”, observa. “Desde a repetição da grafia anglo-saxónica (Solzhenitsyn) até uma grafia portuguesa que poderia ou não ter o ‘e’ no fim do nome [o PÚBLICO tem escrito ‘Alexandre Soljenitsin’]. Sendo o alfabeto russo cirílico e com uma base mais fonética do que o latino/português, fica a dúvida se não deveria haver uma forma mais uniformizada de escrever aqueles nomes”.

O russo nem será o caso mais complicado: “Uma questão semelhante é a que sucede quando se escreve o nome de Radovan Karadžić. A forma que utilizei é a correcta para escrever o nome, usando a versão latina do alfabeto servo-croata. Esta questão não é menor, uma vez que os alfabetos servo-croatas (tanto a versão latina como a cirílica) são eminentemente fonéticos, com cada símbolo a ter apenas uma correspondência fonética (...). Neste caso, o nome, a ser escrito de forma foneticamente mais próxima do original mas no alfabeto português, deveria surgir semelhante a ‘Radovan Karadjitch’. Como se vê, o som é completamente diferente [o PÚBLICO tem escrito ‘Radovan Karadzic’]. Da mesma forma que não me agrada ver os nomes portugueses a serem mudados no estrangeiro (o til em ‘Durão Barroso’ é frequentemente omitido, por exemplo), também gosto que os nomes estrangeiros sejam correctamente escritos. Apesar de isto ser frequentemente pacífico em muitos casos, pergunto se existe alguma convenção definida para os restantes. (...) Um nome deve ser pronunciado correctamente por quem lê uma notícia na televisão ou na rádio, mas também por quem a lê num jornal. E, caso se opte por não se transcrever o nome de forma fonética (causaria problemas com nomes mais simples, como os ango-saxónicos ou francófonos), o ideal seria utilizar a simbologia original para os escrever, sempre que possível. Claro que isto não seria o caso de alfabetos exclusivamente cirílicos, mas aí já temos os exemplos russos, que podem ser seguidos”.

Não existe em Portugal nenhuma convenção que os jornais sigam a este respeito (veja-se o caso de "Gorbachev", ou "Gorbatchev", ou "Gorbachov", ou "Gorbatchov"). Mas o provedor recomenda que, nas transliterações, o jornal consagre para cada nome a forma fonéticamente mais aproximada em português, e não siga a mera grafia usada na imprensa anglo-saxónica, que é o que mais se pratica (tal como antes se seguia a francófona).

No seguimento das recentes crónicas do provedor sobre a edição de imagens, Nuno Barreto faz alguns curiosos comentários acerca do actual modelo gráfico do PÚBLICO. “Sou daqueles que aprovaram genericamente as alterações introduzidas na última renovação gráfica que o jornal fez”, começa por esclarecer. Mas não deixa por isso de fazer “reparos”.

O primeiro é este: “O jornal é impresso com um tipo [de letra] demasiado pequeno. Nem todos os leitores serão jovens adultos com olhos de lince. Muitos usam óculos e outros já ultrapassaram a idade de máxima acuidade visual. Consegue-se ler, é certo, mas exige maior esforço visual e melhor iluminação, tanto mais que o jornal é impresso a cinzento – e não a preto – sobre um papel de cor pardacenta. Curioso é notar que a direcção reservou para o seu editorial o privilégio de um tipo maior, como que a premiar quem o queira ler. Mais ou menos na mesma altura em que o PÚBLICO renovou o seu grafismo, o Expresso também o fez, mas teve o bom senso de aumentar ligeiramente o tamanho dos seus tipos para facilitar a leitura e, portanto, a vida aos seus leitores”.

Segue-se o tema das fotos: “As fotografias não têm legendas que descrevam, situem, datem e nomeiam o que nelas se representa. Ao contrário do que se poderia esperar de um jornal objectivo, o PÚBLICO reproduz fotografias acompanhadas de frases que são uma espécie de subtítulos, epígrafes, lemas e reminders [chamadas]. Não se dá ao trabalho de referir a data aproximada, o local e o contexto. Tem que se ler o artigo para se fazer uma ideia do que se mostra (...). Habituei-me ao exemplo dos jornais ingleses, do Times Magazine, do antigo L’Express francês, e parece-me que eles têm a fórmula adequada. Podem fazer todos os comentários às imagens, mas nunca deixam de identificar o seu conteúdo, sem esquecer a data e o local, mesmo que sejam fotos de arquivo. (...) Ao fim e ao cabo, as fotos num jornal diário devem ser documentos de actualidade e não meramente elementos decorativos. (...) Ainda por cima, [as legendas] são colocadas a ‘morder’ o assunto, num caso muito recente a tocar na cara do fotografado. Sou totalmente contra esta moda de colocar a legenda dentro da fotografia. (...) Respeitem a legibilidade”.

Mais ainda: “As legendas das fotografias e muitos subtítulos espalhados pelo jornal são impressos em tons desbotados de vermelho ou laranja, diminuindo assim a clareza e legibilidade, que deviam ser valores acima de qualquer outro no projecto gráfico (...). Calculo que os propósitos do autor do grafismo do PÚBLICO fossem mais bem sucedidos se a impressão fosse sobre papel de maior qualidade (...). Mas não é”.

E, por último: “O jornal usa frequentemente grandes fotografias, a quatro ou cinco colunas (...). Costumam colocar essas fotos no centro de duas páginas abertas. A 3 de Agosto, era Rafael Nadal nas págs. 2/3. A 4, uma médica (ou uma enfermeira, ou uma auxiliar, enfim…) nas págs. 6/7; mais adiante, um notável do PS nas págs. 16/17. Será por desinteresse ou sadismo do grafista, mas, quase sempre, nestas grandes fotos a cara do retratado cai em cima da dobra das folhas e a cabeça aparece dividida (...). Algum respeito pela identidade do retratado deveria merecer outro tratamento”.

Problemas sem resposta única, que porém deveriam suscitar reflexão por parte do PÚBLICO.

CAIXA:

A praga

O leitor que acompanha esta crónica deverá ter lido já referência àquilo que o provedor designou como “a praga de Catual”, pelo que sem mais explicações passa-se à recolha de recentes contaminações no PÚBLICO: “Porter é um desses insiders que toda a vida escreveu sobre Hollywood” (“Ípsilon”, 15 de Agosto, pág. 7); “um dos dois homens que seguia na carrinha” (14 de Agosto, pág. 8); “um dos edifícios que ainda resiste” (P2, 14 de Agosto, pág. 8); “uma das pessoas que melhor conheceu a fadista” (P2, 13 de Agosto, pág. 5); “um dos arrumadores que trabalha há vários anos na Praça do Município” (“Inimigo Público”, 8 de Agosto, pág. 4); “uma das pessoas que visitou o seu apartamento” (P2, 4 de Agosto, pág. 5); “um dos poucos que ficou foi Lori Sell” (2 de Agosto, pág. 16); “Somos dos raros países europeus que não generalizou as vantagens da descentralização” (29 de Julho, pág. 36); “uma das medidas que tinha sido adoptada” (27 de Julho, pág. 1); “O meu pai foi um dos que pegou na bandeira” (P2, 27 de Julho, pág. 8); “uma das coisas que me faz desconfiar da democracia” (27 de Julho, pág. 12); “foi um dos 11 arguidos que abandonou as instalações judiciais” (19 de Julho, pág. 3); “uma das coisas que nos move” (destaque de artigo, P2, 18 de Julho, pág. 8); “uma das perguntas que ficou no ar” (23 de Junho, pág. 5); e “uma das situações que terá começado a levantar suspeitas às autoridades” (19 de Junho, pág. 9). A praga pode manifestar-se até mais do que um vez na mesma frase: “O Campeonato Europeu de Futebol viveu ontem um daqueles momentos que não passa pela cabeça de ninguém, um jogo impróprio para cardíacos, um daqueles momentos de futebol que deixa meio estádio num pranto e a outra metade com uma vontade incontrolável de saltar para a relva e celebrar com os seus heróis” (16 de Junho, pág. 8). E dela não estão livres os membros da direcção: “Foi um dos que diabolizou a União Europeia” (editorial de Paulo Ferreira, 22 de Junho); “É um dos criminosos que saiu com uma das penas mais leves” e “um dos generais que cumpriu as ordens do comandante supremo” (ambos os casos no editorial de José Manuel Fernandes de 23 de Julho).

Publicada em 17 de Agosto de 2008

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Sol mas não solar

Na última parte do (excelente) artigo sobre as recentes mortes ocorridas no K2
(página 4 do P2 de 5 de Agosto), Luís Francisco escreve: "...Um dia solarengo e calmo...". É este o equívoco que, frequentemente, ocorre nas páginas do PÚBLICO, à semelhança de um outro que, há bem pouco, o levou a citar Os Lusíadas.

A bem da língua portuguesa,

João Chambers~

NOTA: Solarengo - relativo ou pertencente a solar (casa ou herdade nobre); soalheiro - exposto ao sol; que tem sol; de sol.

Hiper-sensibilidade

Há leitores que revelam uma hiper-sensibilidade para com falhas ou diferenças de orientação, mas não se importam de chamar "triste personagem" [aqui] a alguém de que não gostam, sem que o provedor faça qualquer reparo a esse facto. Agora o leitor é que diz que fotografia é que deve ser publicada?

M. Emílio Carvalho

Déjà vu

Parece-me desadequado que na edição de 21 de Julho, em dois textos de dois colunistas, venha exactamente a mesma fotografia de Luís Filipe Menezes: na crónica de Frei Bento Domingues (pág. 38) e na de Vasco Pulido Valente (pág. 40)! São miudezas, mas...

Augusto Küttner de Magalhães