Nova troca de correspondência, hoje, entre Vítor Belanciano e o provedor, a propósito da última crónica deste e dos seus desenvolvimentos:
Só ontem, tarde, tive oportunidade de ver o seu blogue. Pelo tom, pareceu-me dar o tema por encerrado. Não creio que esteja. A minha questão é simples: depois do que lhe transmiti sobre o processo de elaboração da fotolegenda, ainda acha que o que foi feito é “jornalismo prospectivo?”
Sou, provavelmente, o jornalista e crítico que mais reflectiu sobre o “fenómeno” Amy Winehouse em Portugal. Fi-lo a partir dos mais diversos ângulos. Já tinha visto anteriormente espectáculos seus. Tinha perfeita consciência do grau de imprevisibilidade das suas actuações. Acha que iria arriscar conclusões antecipadas?
O que existiu, sim, foi um processo de elaboração da fotolegenda, que abriu espaço para múltiplas leituras. Em nenhum lugar me parece caber a hipótese de “jornalismo prospectivo”. Parece-me que teria toda a relevância os leitores perceberem que um processo de trabalho, realizado em condições longe das ideais, como já explicitei, concretizado por mais do que uma pessoa, com resultados que podem induzir a várias leituras, não corresponde necessariamente ao caso de um jornalista a querer brincar aos deuses, antecipando-se à realidade.
É isso que está em questão. Não são avaliações de valor que se possam fazer sobre a cantora, o concerto e as reacções do público. Sobre isso escrevi no dia 1 de Junho, de forma que considero ser equilibrada e correcta, explicitando diversos ângulos, sem teses especulativas.
Já agora, permita-me que lhe diga, com o máximo de respeito, enquanto alguém que se interessa pelos assuntos da cultura popular e a sua relação com os media, que o acontecimento tinha imenso material de reflexão.
Deixo apenas duas pistas, muito óbvias, mesmo sabendo que estou a fugir ao assunto: as relações diversas que o público estabelece com uma “celebridade” do tipo da cantora – não é por acaso que o seu disco voltou a subir esta semana ao 2ª lugar do top e a sua biografia se vendeu muito mais depois do concerto, apesar das fragilidades do mesmo – e a relação que suportes (TV, internet e imprensa escrita) com características diferentes, ao nível da velocidade, da proximidade e muitas outras, podem e devem ter, ao nível da abordagem, com um acontecimento deste tipo. Porque, em fundo, é isso que também está aqui em causa.
Mas isso dava uma longa conversa. Deixo-lhe, apenas, a questão que enuncio no final primeiro parágrafo.
Vítor Belanciano
Considero de facto o assunto encerrado. Falo em "jornalismo prospectivo" porque, a meu ver, a fotolegenda criou a ideia de o concerto ter corrido de uma certa forma que não veio a verificar-se. Concluí depois que o Vítor Belanciano não terá sido a única pessoa responsável por isso (talvez nem sequer o máximo responsável, não sei), mas guiei-me pela assinatura existente na legenda. Não ponho em causa o seu conhecimento do percurso de Amy Winehouse, mas apenas um cálculo distorcido do que se passaria na Bela Vista, que não tem nada a ver com o acompanhamento anteriormente feito da carreira da cantora.
Joaquim Vieira
Pensava que eram evidentes, desde a minha primeira resposta, a forma e as condições em que foi produzida a fotolegenda, apesar de ter estranhado que na sua crónica tenha surgido a frase “escreveu o jornalista”.
Evidentemente que a fotolegenda pode ter várias interpretações – tem um título informativo, uma legenda passível de várias leituras e uma foto que algumas pessoas, inclusive, acharam “desadequada” – e revela até alguns sinais contraditórios. Mas é, precisamente, por ser passível de ter várias leituras que nunca poderia ser “jornalismo prospectivo.”
“Jornalismo prospectivo” implica uma ideia clara. Uma intencionalidade precisa. Coisa que, evidentemente, não existe.
Como é que é possível comparar este caso com o “caso” Hugo Chávez?
Vítor Belanciano
quarta-feira, 11 de junho de 2008
Ainda o caso Amy Winehouse
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terça-feira, 10 de junho de 2008
O portuguesismo de Pepe
Considero indigno que uma publicação com o posicionamento da vossa permita manifestações parciais e politizadas numa crónica desportiva. Bruno Prata utiliza no vosso jornal de hoje [8 de Junho, pág. 3, "Scolari tinha razão e o temor talvez tenha sido exagerado"] um espaço dedicado ao jogo Portugal-Turquia de ontem. Parece que o que se passou dentro do campo não interessa, o importante é utilizar o trampolim para o comentário político.
Então um brasileiro, porque sabe cantar o Hino, é português? E se aprender o "God Save the Queen", passa a ser súbdito de Isabel II? E um brasileiro, por ter êxito e marcar um golo, cala os "estúpidos" que reclamam direito a uma representação digna, interpretada por portugueses? O golo altera alguma coisa?
Penso que a ética jornalística se terá ficado a vestir em casa.
Caso se digne a considerar este escrito, não dê respostas do género "o espaço é da responsabilidade do cronista" ou "respeitamos a independência das ideias", etc. Deve exitir um orientação editorial, e não é o Sr. Prata o responsável por ela. É quem o deixa escrever e, pior de tudo, lhe paga.
Evidentemente, caso volte a ver textos do Sr. Prata no vosso jornal, este será o último que compro, uma vez que não pago para ser insultado.
José Pinheiro
Bruno Prata chama estúpidos a todos os que não concordam com a inclusão do Pepe. Ele pode chamar estúpidos aos amigos no café, nunca aos leitores do jornal. No texto aparece a palavra verborreia, o que é diferente. Em que ficamos?
Vitorino Guerra
NOTA DO PROVEDOR. É de facto verdade que as ideias são livres e que o provedor não se pronuncia sobre o conteúdo dos textos de opinião (salvo em situações extremas de defesa de ideias atentatórias dos direitos humanos, o que não é o caso). O provedor deu porém a Bruno Prata a possibilidade de responder a estas reclamações, tanto mais que havia a necessidade de explicar o facto de aparecer escrito "verborreia dos puristas da nacionalidade" no texto e "estupidez dos puristas da nacionalidade" no destaque. A sua resposta:
"A primeira carta já se encontra (ou pelo menos uma boa parte dela) publicada no espaço do Euro 2004 que o PÚBLICO criou numa zona autónoma dentro do seu site. No mesmo local estão outras mensagens a defender exactamente o contrário. É uma questão de opinião, tão ou mais respeitável do que a minha.
O caso é diferente relativamente à segunda carta. O leitor tem razão. No texto aparece verborreia, enquanto na citação (que devia ser retirada do texto está 'estupidez'. Isso aconteceu porque achei, entretanto, que esta última palavra era excessiva e decidi alterá-la. Mas, por esquecimento, só o fiz no texto. Ainda me lembrei disso a tempo, e, como o texto já estava na revisão, foi o próprio director Manuel Carvalho que pediu para que se fizesse a troca das palavras também na citação. Infelizmente, no entanto, alguma coisa correu mal (estávamos em cima da hora do fecho do jornal...), sendo eu naturalmente o principal responsável.
Sobre a questão da nacionalidade: não é a primeira vez que expresso esta minha opinião, apesar de saber que ela está longe de reunir consenso. No caso concreto do Pepe, estou completamente à vontade para o fazer, porque o conheço bem e sei que não aceitou jogar por Portugal por uma questão de oportunismo. De facto, ele fez questão de representar Portugal quando tinha mais do que qualidade para jogar na selecção brasileira. Ninguém escolhe o local onde nasce, e Pepe, não tenho a menor dúvida, sente-se tão português como qualquer um de nós. As referências que fiz ao facto de ele ter cantado o hino com visível emoção foi apenas uma forma de salientar isso mesmo".
Bruno Prata
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segunda-feira, 9 de junho de 2008
Reacção de um leitor
O leitor que enviou um protesto contra o título de primeira página “Gays: Lisboa já tem um clube privado de sexo”, abordado na última crónica do provedor, responde a este:
1. Agradeço, desde já, a atenção dispensada ao meu “protesto”. Permita-me, no entanto, o desabafo: julgo que fui incompreendido e o srº provedor foi um pouco exagerado e “duro” (sinto-me triste, incomodado) ao acusar-me, assim, de ânimo leve, de homofóbico - isto perante milhares de leitores que no pretérito dia 8 leram o PÚBLICO. E eu, sem possibilidade de esclarecer, pois não acredito muito que publique esta carta (devê-lo-ía fazer), ficando deste modo penalizado, molestado e em desvantagem pela ultima ratio do srº provedor.
Eu não tenho “atitudes homofóbicas ancoradas em preconceitos segregacionistas - só me faltava mais esta!- à moda do século XIX, ignorando que vivemos no século XXI”.
Viver no século XXI não nos vai trazer a felicidade almejada e não vai resolver as questões “fracturantes”. O século XXI vai, isso sim, trazer-nos enormes problemas a vários níveis. Até nos prazeres dissolutos e desregrados que nós tentamos - numa de bom tom - “incorporar” e interiorizar como “normais”.
2. Quanto ao tema do dia 17 de Maio do PÚBLICO que me impeliu a escrever, dei o exemplo de um jovem que, eventualmente, possa pegar no jornal e ler a notícia escarrapachada com grande notoriedade na primeira página. Já sei, já sei que as crianças têm de estar preparadas para tudo neste ensandecido mundo e ao fim e ao cabo compete aos adultos, de forma pedagógica e construtiva, explicar-lhes “as coisas da vida”, inclusive a tolerância. Mas de tolerância em tolerância podemos desembocar na estupidez e na anomia e converter pessoas racionais e pensantes em títeres acéfalos.
Entendamo-nos srº provedor: a questão primordial do meu comentário à notícia do PÚBLICO de 17 de Maio prende-se, tão-só, com o despropósito, com o sensacionalismo do destaque da notícia (e isso é que devia ser referenciado e não “a minha atitude homofóbica” que nunca tive, tenho e terei. Simplesmente não embarco em simplismos, nem sou “obrigado” a concordar com a visão e relação sexual que os gays cultivam como seja uma relação normal, perfeitamente natural). Aliás, nunca pretendi que a notícia fosse cortada, abafada, censurada, ignorada.
E, ao fim e ao cabo, o srº provedor até acha que o meu “protesto” tem razão de ser na questão do sensacionalismo da notícia. Como se depreende - concordará comigo - das suas palavras do último período do texto do passado dia 8 de Junho... Afinal, neste ponto de vista, deu-me razão e devia assinalar isso inequivocamente na “recomendação" final do provedor. No entanto achou mais interessante apelidar-me de homofóbico.
António Cândido Miguéis
P.S. A dado passo da carta que lhe enviei e que reproduziu no dia 8 de Maio, o srº provedor, com a melhor das intenções, “emendou-me” e escreveu “contranatural”. Ora eu, julgo, não escrevi isso mas sim contra natura. Que também pode ser contra naturam. As três expressões estão correctas.
NOTA DO PROVEDOR. Não foi o provedor que alterou "contra natura" para "contranatural", mas sim a revisão do PÚBLICO.
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Reacção de Vítor Belanciano
O jornalista Vítor Belanciano, que assinou a notícia sobre o concerto de Amy Winehouse no Rock in Rio Lisboa analisada na última crónica do provedor, enviou a seguinte réplica:
Venho expressar surpresa perante as conclusões por si efectuadas referente à possível discrepância na caracterização do concerto de Amy Winehouse no evento Rock in Rio, entre a fotolegenda de sábado, 31 de Maio, e o texto saído no domingo, 1 de Junho.
Como referi na resposta ao seu mail, a fotolegenda não pretendia – nem podia ser – uma crítica ao espectáculo. Não faço análises a concertos, nem tiro conclusões definitivas, baseado em poucos minutos de observação dos mesmos. Se o fizesse, o título da fotolegenda não seria certamente “Amy Winehouse provoca enchente”, um título meramente informativo.
Afirmar que fiz “jornalismo prospectivo” e que joguei numa espécie de lotaria é totalmente abusivo. Se tivesse lido textos meus sobre concertos a que assisti da cantora ou à antevisão do mesmo, publicada no próprio dia do espectáculo, percebia-o facilmente.
No dia do concerto foram publicados textos assinados por mim que diziam coisas como: “Da mais polémica figura pop do momento, nunca se sabe o que esperar. É capaz de concertos memoráveis, mas também são inúmeras as histórias de falta de comparência, de abandono a meio ou de grande desencontro entre a cantora e os músicos que estão em palco com ela. Por isso, tudo pode acontecer no Parque da Bela Vista.”
Ou “o seu drama, como tantos outros casos da história da cultura popular, parece ser como encontrar o equilíbrio entre a expressão pessoal e a exposição pública. Até lá vão continuar certamente as especulações, os escândalos quase diários (...)"
Ou ainda: “Os romanos tinham circo, com gladiadores, leões e sangue. Na bancada exultava-se e apostava-se. Nós temos Amy Winehouse. (...) A maior parte esperará apenas que o dinheiro do bilhete tenha sido bem empregue. Mas por alguns deverá perpassar o desejo inconfessável que tropece. Existe até quem faça apostas se virá, até porque é o seu primeiro concerto dos últimos meses, já depois de mais alguns escândalos.”
Parece-lhe que quem escreve isto tem vontade de jogar à lotaria e escrever, antecipadamente, que o concerto foi um êxito?
Dito isto, e como também lhe referi, concordo que a maneira como a fotolegenda está escrita podia ser mais clara. Talvez devesse haver uma menção ao facto de se reportar, apenas, ao início. A mesma resultou, como me foi pedido pelas editorias, de uma comunicação móvel com o editor de fecho, que foi quem redigiu o texto, baseado numa troca de impressões, como também combinado. Não existiu nenhum “envio de informações”, como é sugerido por si.
Mas mesmo assim, nunca é escrito que o concerto foi um êxito, como sugere. Estão lá três ideias: a cantora apareceu, não desiludindo quem por ela esperava; o terceiro tema foi um dos que agarraram o público; e a cantora denotava algum nervosismo, mostrando a fragilidade que revelou, por norma, em mais do que um concerto que presenciei da dita cantora. Foi isto que aconteceu durante os minutos iniciais da sua actuação. Nada disto é uma conclusão ou uma análise sobre a globalidade do concerto.
Citar a Lusa e um texto de um leitor – ambos impressões finais do espectáculo – em contraponto a uma fotolegenda que reporta o início não é compreensível. Se o fizesse em relação ao texto final publicado no dia seguinte, então sim, seria atingível.
Quanto ao acontecimento propriamente dito, depois de finalizado, escrevi o que presenciei e pensava sobre o assunto. Mas esse não era o centro da questão. Como tal, quando lhe respondi, limitei-me a fazer menção ao texto que foi publicado no dia 1 de Junho, onde os acontecimentos relatados pelo leitor são também mencionados, obviamente, por mim.
Por isso, ainda mais estranho se me afigura, que pegue nas considerações do leitor, referentes à globalidade do espectáculo visto através da TV, para demonstrar a sua tese.
As considerações do leitor quando diz que as aclamações do público eram “uma clara tentativa de fazer com que a cantora ‘acordasse’ do estado depressivo em que notoriamente se encontrava” e do provedor quando utiliza expressões como “farrapo humano” ou “se havia alguém ‘agarrado’ era a própria cantora” não as partilho, nem tenho que o fazer. São apenas especulativas.
Também não percebo o “testemunho consensual” das 100 mil pessoas que invoca. Ao contrário do que sugere, notaram-se as reacções mais diversas. A peça da BBC, de 31 de Maio, é apenas um exemplo onde são nítidas diversas reacções: "It took so much time for her to come on - people were getting impatient," agreed Alexandra Marques, 26. "And her voice really wasn't in a good state." Their friend Marta Hugens, 26, was more scathing: "For someone who earns so much money, it shows a lack of respect for the public - although I suppose it was expected she'd make a scene." Other spectators were more accepting. "I think she was how she is normally and that's all," said Anabela Costa, 27.
Como reflecti na peça de 1 de Junho, o que aconteceu foi bem mais contraditório, complexo e, já agora, perturbador. Que tenha existido quem tivesse analisado o que aconteceu de forma, no mínimo, simplista, não me compete a mim ajuizar.
Com tudo isto não estou a “defender” nem a ser “indulgente” com a cantora ou o seu comportamento, como já me foi sugerido, como se não fosse possível relacionarmo-nos com os acontecimentos para além dessa lógica maniqueísta, onde aqueles que não têm uma atitude reflexiva – mas apenas reactiva – nos tendem a colocar.
A mim, compete-me ter distanciamento, um olhar ponderado e analisar a complexidade de relações a que cada acontecimento está ligado. Foi isso que fiz com o concerto do Rock in Rio.
Vítor Belanciano
NOTA DO PROVEDOR. O provedor enviou a Vítor Belenciano a seguinte resposta à sua mensagem: "Ao dizer-se que Amy Winehouse 'não desiludiu quem esteve ontem no parque da Bela Vista' e que 'agarrou o público' está-se não só a transmitir a ideia de que o concerto foi um êxito como a omitir os graves problemas que afectaram a sua actuação. Quanto aos detalhes da produção da legenda, percebo, das suas explicações, que ela foi escrita pelo editor de fecho, mas o facto é que está assinada por si, o que implica uma assunção de responsabilidade própria. Ao falar em consenso entre os presentes, baseio-me nas opiniões entretanto lidas noutros locais, assim como nas reportagens mais desenvolvidas, incluindo a sua, que foram feitas (e nos vídeos no YouTube que acabei por ir procurar, pois não tinha assistido à transmissão do espectáculo). Penso não existirem dúvidas a esse respeito. Eu próprio admito na crónica que, nas condições e no timing existentes, não seria possível dar uma visão global do concerto, pelo que o texto devia ser mais defensivo ou interrogativo, não se criando a ideia daquilo que não foi. Não se esperava uma crítica na fotolegenda, mas sim um relato autêntico do que se passara. Independentemente do que se pensa de Amy Winehouse, quem paga 50 euros por um espectáculo seu esperará pelo menos algum profissionalismo, que nitidamente não existiu - e nesse aspecto acho que o leitor que reclamou tem razão (embora admita que as três canções iniciais não tenham chegado para avaliar - mas deviam pelo menos ter deixado adivinhar). Estou de acordo consigo quanto a dever dizer-se que aquela era a impressão do início do concerto. Mas o jornal quis arriscar transmitindo uma ideia global, e errou".
Como o provedor não procura ficar com a última palavra, aqui fica a tréplica de Vítor Belanciano: "Que o texto deveria ser mais defensivo ou interrogativo, já o expressei, nas duas vezes que me dirigi a si. Mas isso é completamente diferente de, a partir daí, ajuizar que aquilo que foi feito é 'jornalismo prospectivo'. Não foi".
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domingo, 8 de junho de 2008
Sexo gay só com membros
A propósito de uma nota do provedor, na sua crónica de hoje, motivada pelo título “Gays: Lisboa já tem um clube privado de sexo”, inserido na primeira página do PÚBLICO de 17 de Maio, o autor da respectiva reportagem, Bruno Horta, faz o seguinte esclarecimento:
"Como autor da reportagem sobre o clube de sexo gay Labyrinto (...), parece-me importante reafirmar que até hoje nunca tinha existido em Lisboa, ou Portugal, qualquer clube de sexo dirigido a homossexuais masculinos.
As pessoas com quem falei enquanto escrevia a reportagem atestam isso mesmo. Algumas delas pertencem a associações de defesa dos direitos dos gays, outras trabalham há muitos anos na noite gay de Lisboa.
O que se conhecia até hoje na capital, e isso vem no texto, eram as saunas e os chamados 'quartos escuros'. Funcionam em bares e discotecas e estão abertos a todas as pessoas (não somente a sócios, como o Labyrinto)".
NOTA DO PROVEDOR. No seu comentário, o provedor referia-se, com efeito, às reportagens já anteriormente publicadas sobre saunas e 'quartos escuros', o que no seu entender desvalorizaria o valor noticioso da fundação de um clube, onde o acesso é, à partida, mais restrito (se bem que, da leitura da reportagem, não pareça existir qualquer limitação para se ser membro). Semanticamente, porém, o jornalista tem razão, já que um local de acesso livre não pode, em rigor, ser designado como um clube.
à(s)
14:22
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Nada está escrito
O relato do que se passou num concerto do Rock in Rio Lisboa alerta de novo para os perigos do jornalismo prospectivo
Enorme era a expectativa com o concerto de Amy Winehouse (AW) anunciado para o Rock in Rio Lisboa no passado dia 30 de Maio. Seria, em vários meses, a primeira actuação pública da cantora britânica, conhecida pelas suas extravagâncias pessoais, incluindo o consumo de um substancial cocktail de álcool e drogas que nem sempre lhe permite subir ao palcos ou manter-se neles. Galardoada em Fevereiro com cinco Grammys (prémios internacionais de música), Winehouse era alvo em Lisboa até da curiosidade da imprensa mundial, interessada em verificar se a artista havia ou não superado as suas dependências.
Apesar de a actuação estar prevista para a hora de fecho da edição do PÚBLICO, fizeram bem os seus responsáveis ao darem ainda conta, na primeira página do dia seguinte, da aparição da cantora, com uma fotografia e a respectiva legenda.
AW sempre apareceu – e isso era já notícia –, mas o provedor julga reunir o testemunho mais consensual entre os cerca de 100 mil presentes ao afirmar que em palco não estava uma artista, antes um farrapo humano, incapaz de levar ao público as canções que lhe deram notoriedade.
A legenda, sob o título “Amy Winehouse provoca maior enchente de sempre” e assinada por Vítor Belanciano (VB), era porém, no mínimo, indulgente perante a catástrofe. “Amy Winehouse não desiludiu quem esteve ontem no parque da Bela Vista”, escreveu o jornalista. “Amy apareceu nervosa mas com o look habitual (...). Ao terceiro tema, Me and Mr. Jones, agarrou o público”.
Se havia alguém “agarrado” era a própria cantora, a acreditar aliás no relato difundido no mesmo dia pelo PUBLICO.PT (mas com base na Agência Lusa): “Amy Winehouse (...) pediu desculpa pela fraca voz e admitiu que devia ter cancelado o concerto (...). Ao longo da actuação, a cantora esqueceu-se das letras, improvisou, tentou tocar guitarra, dançou e quase caiu, comeu, bebeu e chorou (...). O público (...) nem sempre reagiu às canções”.
Desde logo, o provedor reparou na discrepância de notícias entre as edições em papel e on-line. Aliás, na cobertura desenvolvida do espectáculo, no PÚBLICO do dia seguinte, VB transmitia já uma impressão algo diferente, concedendo, perante a soma de incidentes ocorridos, que “não foi por isso um bom concerto” – mas por essa altura já a desilusão estava estampada em toda a parte e já a blogosfera criticava a notícia inicial do jornal.
De qualquer modo, o leitor Rodrigo de Almada Martins, que acompanhou o concerto em directo na televisão, escreveu do Porto ao provedor expressando “espanto” e “tristeza” pela primeira notícia: “Apenas um jornalista que nunca tenha ouvido uma actuação (ou mesmo um CD) de AW poderá escrever que ‘Amy não desiludiu (...)’. Totalmente mentira. AW desiludiu e muito todos os seus fãs. (...) Nem respeitou grande parte das letras das canções e muitas vezes ficava prostrada em frente do microfone sem emitir qualquer som. Aquela não é a voz nem a postura de AW, ou pelo menos da AW que ficou conhecida pela sua excelente voz e pelos seus concertos fantásticos. (…) Será que o jornalista confunde os sintomas de nervosismo com os efeitos que a ingestão prolongada de álcool ou de drogas provoca nas pessoas?O jornalista optou por omitir a queda de AW em palco; optou por não referir o facto de a britânica ter pegado numa guitarra e ter começado a tocar quando a guitarra nem sequer estava ligada aos amplificadores; não referiu o facto de toda a sua banda estar notoriamente preocupada com o estado da cantora e desejosa de que tudo aquilo terminasse rápido; não referiu que AW afirmou em pleno palco que deveria ter cancelado o concerto porque não tinha voz; não referiu que a cantora começou a chorar a meio do concerto (…); não referiu os seus cortes nos braços e no pescoço; não mencionou os seus constantes tiques... (…) Aquilo que aconteceu, na realidade, foi um péssimo concerto, onde AW não mostrou nenhuma das suas potencialidades como cantora e entertainer e onde demonstrou total falta de respeito e de profissionalismo (porque é isto que está em causa para quem paga 50 euros de entrada) por aqueles que se deslocaram ao Parque da Bela Vista”.
As justificações de VB, por solicitação do provedor:
“Admito que alguns leitores possam ter ficado confusos quanto à possível discrepância na caracterização da atmosfera do concerto entre a fotolegenda de sábado [31 de Maio] e o texto saído no domingo.
Passo a explicar: no sábado, estava combinada uma fotolegenda na primeira página se o concerto ocorresse (…). Os objectivos eram constatar se [AW] viria ou não, dar conta do início do concerto e reportar o que era óbvio naquele dia, que uma multidão se havia deslocado para a ver. Uma abordagem alargada, de teor mais analítico, seria feita no dia seguinte.
Sábado, estava no local, no meio das 100 mil pessoas, numa zona lateral, um pouco mais resguardada, onde fosse possível ouvir o telefone em condições, quando o editor de fecho efectuasse a chamada combinada a partir do jornal, para reportar se a cantora sempre actuava ou não. Quando a ligação foi efectuada, disse que, apesar da espera, [AW] tinha aparecido e, nesse sentido, não havia desiludido o mar de gente que havia aguardado.
O ambiente, ao longo do concerto, mas com incidência no início, foi muito confuso. Verbalizei o que via: em palco AW parecia nervosa, com problemas com o microfone, e, na assistência, as reacções eram contraditórias, do apupo ao aplauso. Aclamação foi o que existiu ao terceiro tema, com parte significativa do público a incitar a cantora”.
Ainda acerca deste terceiro tema, o provedor inquiriu VB sobre uma crítica surgida num blogue segunda a qual, ao contrário do que escreveu o repórter, não se trataria de Me and Mr. Jones (como estaria previsto no programa). VB reconhece-o, sem adiantar qualquer explicação para a troca: “Está, de facto, errado: não foi Me & Mr. Jones, mas sim Tears dry on their own”. E, quanto às aclamações do público, Rodrigo de Almada Martins adianta que se trataria de “uma clara tentativa de fazer com que a cantora ‘acordasse’ do estado depressivo em que notoriamente se encontrava”.
VB conclui:
“Sobre outras considerações, a minha visão sobre o que aconteceu está exposta no artigo de domingo, onde tento ter uma perspectiva ampla sobre o sucedido, sem me cingir a classificações redutoras. (…) Foi um evento – muito mais do que um concerto foi um acontecimento sociológico – que despoletou paixões e que começou a ser lido, antecipadamente, segundo as convicções mais íntimas de cada um, [que] decifrou o que aconteceu à sua maneira. A partir de determinada altura todos os gestos – simbólicos ou reais – passaram a ser alvo de leituras simplificadoras. (…) Na assistência perceberam-se emoções contraditórias, na forma como cada um se relacionou com alguém que já não é apenas uma cantora, mas uma celebridade, que aguardavam com imensa expectativa”.
Nada disto obsta à evidência de que AW defraudou essa expectativa, com uma fracassada tentativa de criar pelo menos um arremedo de actuação musical. Admite-se que, nas condições e no horário em que a notícia foi produzida, VB não pudesse transmitir uma ideia global do espectáculo, duvidando-se sequer, pelo exposto, que tenha deixado concluir o tal terceiro tema antes de enviar as suas informações. Mas os indícios recolhidos não permitiam sugerir que o concerto seria um êxito.
A realidade é imprevisível, e esse é um dos motivos que dão fascínio ao jornalismo. “Nada está escrito [por antecipação]”, dizia Lawrence da Arábia no filme homónimo, após atravessar um deserto em condições que lhe garantiam serem impossíveis para o ser humano. Agora foi ao contrário: apesar de possuir as condições, AW não conseguiu a travessia.
Recomendação do provedor. Tal como quando o PÚBLICO noticiou erradamente a vitória de Hugo Chávez no referendo venezuelano de Dezembro último, volta-se a prevenir para os perigos do jornalismo prospectivo: quando se acerta, ganhou-se a lotaria, mas, quando se falha, é um desastre que arrasta a credibilidade do órgão de informação.
CAIXA:
O lugar do sexo gay
Escreve de Vila Real, António Cândido Miguéis, “como leitor indefectível do PÚBLICO, seguramente o melhor jornal diário português”, acerca do título “Gays: Lisboa já tem um clube privado de sexo”, inserido na primeira página de 17 de Maio:
“Não seria de elementar bom senso – parece que vai rareando – remeter para outra parte do jornal, de forma mais discreta, este título? A esmagadora maioria da população (e dos leitores do PÚBLICO) é, felizmente, heterossexual e não estará disposta a ser ‘agredida’ com esta notícia, que dirá mais respeito aos gays e seus eventuais seguidores e admiradores. Sendo esta orientação sexual atípica, anormal e contra-natura, quer se queira quer não (isto, sem pretender ofender ou estigmatizar quem quer que seja, é uma realidade), porque é que o PÚBLICO lhe deu todo este destaque? Sensacionalismo, exibicionismo, voyeurismo, pretensão de impor a uma clara maioria condutas insalubres de uma minoria que, de facto, tem todo o direito a notícias sobre sexo como muito bem entenda desde que não exiba (e se exiba) essas notícias de forma ridícula e desmesurada?
É bonito uma criança ou um jovem (em crescimento, em maturação biológica, corporal e psíquica) pegar no PÚBLICO e deparar com esta escatológica notícia, verdadeiramente edificante?”
Pensava o provedor, que há anos lê na imprensa relatos sobre clubes de sexo gay em Lisboa, que o leitor iria criticar o título por ser uma não-notícia. Fá-lo afinal numa atitude homofóbica, ancorada em preconceitos segregacionistas à moda do século XIX, ignorando vivermos no século XXI. O que retira todo o fundamento a um protesto que até teria razão de ser na questão do sensacionalismo.
Publicada em 8 de Junho de 2008
DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR.
Carta do leitor Rodrigo de Almada Martins:
Venho por este meio expressar o meu espanto e a minha tristeza pela capa do PÚBLICO no dia 31 de Maio de 2008, sábado. Falo mais concretamente do texto (e da foto que o acompanha) sobre a actuação da cantora britânica Amy Winehouse no festival Rock In Rio.
Sendo eu fã da música e da voz desta cantora, sentei-me em frente ao televisor para ver o concerto em directo pela SIC Radical, já que não está nos meus horizontes gastar cerca de 50€ (mais gasolina, portagens, alimentação, etc. - o que provavelmente faria a deslocação a Lisboa, ao Parque da Bela Vista, chegar até cerca de 100€) para assistir ao festival de música mais comercial de sempre em Portugal, travestido de festival amigo do ambiente e protector da paz no mundo.
Mas não é o festival em si que me faz escrever estas linhas.
1 - A verdade é que apenas um jornalista que nunca tenha ouvido uma actuação (ou mesmo um CD) de Amy Winehouse poderá escrever que "Amy não desiludiu quem ontem esteve no parque da Bela Vista". Totalmente mentira. Amy desiludiu e muito todos os seus fãs. Estava completamente sem voz, sob influência de álcool (supomos) e sem a mínima vontade de actuar. O que ainda valeu foi o grande profissionalismo de toda a sua banda, que tudo fez para que não se notasse o triste estado da cantora. Mas a verdade é que Amy nem respeitou grande parte das letras das canções e muitas vezes ficava prostrada em frente do microfone sem emitir qualquer som. Aquela não é a voz nem a postura de Amy Winehouse ou pelo menos da Amy Winehouse que ficou conhecida pela sua excelente voz e pelos seus concertos fantásticos (basta assitir a um DVD que está no mercado Amy Winehouse: I told you I was trouble, para verificar isto mesmo).
2 - Além disso, o jornalista decidiu ser benevolente ao dizer que "Amy apareceu nervosa mas com o look habitual: penteado e vestido muito anos 60". Nervosa? Será que o jornalista confunde os sintomas de nervosismo com os efeitos que a ingestão prolongada de álcool ou de drogas provoca nas pessoas? O jornalista optou por omitir a queda de Amy em palco; optou por não referir o facto de a britânica ter pegado numa guitarra e ter começado a tocar quando a guitarra nem sequer estava ligada aos amplificadores; não referiu o facto de toda a sua banda estar notoriamente preocupada com o estado da cantora e desejosa de que tudo aquilo terminasse rápido; não referiu que Amy afirmou em pleno palco que deveria ter cancelado o concerto porque não tinha voz; não referiu que a cantora começou a chorar a meio do concerto ao falar sobre o seu marido que está detido; não referiu os cortes da cantora nos braços e no pescoço; não mencionou os seus constantes tiques...
3 - Mas o jornalista diz mais: "Ao terceiro tema, Me and Mr. Jones, agarrou o público". Agarrou o público? Antes de mais, temos que verificar que aquele público esteve sempre agarrado. Tirando aqui e ali alguns assobios, a maioria das 100 mil pessoas que lá se deslocaram aplaudiram Amy Winehouse numa clara tentativa de fazer com que a cantora "acordasse" do estado depressivo em que notoriamente se encontrava. É impossível que o público tenha gostado de um concerto que começou com meia hora de atraso e que não durou sequer uma hora, o que para quem paga 50€ deve ser importante.
Para fazer prova do que digo, coloco aqui três vídeos do YouTube acerca do triste concerto de Amy Winehouse no Rock In Rio 2008: nº 1, nº2 e nº 3.
Que as televisões e os patrocinadores, que apostam forte neste tipo de eventos, optem pelo discurso vergonhoso (não escondendo o sorriso amarelo) do tipo "não podemos dizer que é o concerto das nossas vidas, mas também não saímos defraudados. É o estilo dela, faz parte..! Era pior se ela não tivesse vindo, mas afinal veio... e cantou, as pessoas gostaram, foi a maior enchente de sempre num concerto em Portugal... a Amy arrasta multidões sem dúvida", compreende-se, pois estamos a falar de altas quantias monetárias envolvidas.
Mas o caso muda de figura quando é o próprio PÚBLICO (um jornal de referência nacional e que deve analisar os eventos que acontecem em Portugal com o máximo de isenção possível) a noticiar em plena capa que Amy não defraudou as expectativas e que ao terceiro tema agarrou o público, acompanhando com uma foto de dimensões consideráveis. Quando aquilo que aconteceu, na realidade, foi um péssimo concerto, onde Amy não mostrou nenhuma das suas potencialidades como cantora e entertainer e onde demonstrou uma total falta de respeito e de profissionalismo (porque é isto que está em causa para quem paga 50€) por aqueles que se deslocaram ao Parque da Bela Vista.
Suspeito, claro está, que o artigo foi escrito à pressa para aparecer na capa do jornal, pois com certeza o concerto acabou já depois do fecho da edição de sábado. E, talvez por isso, o jornalista não pôde ficar com uma visão geral e abrangente do triste espectáculo protagonizado por Amy Winehouse no Rock In Rio. Mas a verdade é que a capa é enganadora e nada representativa daquilo que se passou no palco, onde Amy deu a impressão de estar completamente "perdida" e sem a mínima vontade de actuar. E isso num jornal como o PÚBLICO não se deve admitir.
Rodrigo de Almada Martins, Porto
Explicações do jornalista Vítor Belanciano:
Admito que alguns leitores possam ter ficado confusos quanto à possível discrepância na caracterização da atmosfera do concerto entre a fotolegenda de sábado e o texto saído no domingo.
Passo a explicar: no sábado, estava combinada uma fotolegenda na primeira página se o concerto ocorresse. Recordo que havia dúvidas que viesse a efectuar-se. Escrevi sobre o assunto no suplemento P2 de sexta-feira.
Os objectivos eram constatar se viria ou não, dar conta do início do concerto e reportar o que era óbvio naquele dia, que uma multidão se havia deslocado para a ver. Uma abordagem alargada, de teor mais analítico, seria feita no dia seguinte.
Sábado, estava no local, no meio das 100 mil pessoas, numa zona lateral, um pouco mais resguardada, onde fosse possível ouvir o telefone em condições, quando o editor de fecho efectuasse a chamada combinada a partir do jornal, para reportar se a cantora sempre actuava ou não.
Quando a ligação foi efectuada disse que, apesar da espera, tinha aparecido e, nesse sentido, não havia desiludido o mar de gente que havia aguardado.
O ambiente, ao longo do concerto, mas com incidência no início, foi muito confuso. Verbalizei o que via: em palco Winehouse parecia nervosa, com problemas com o microfone, e, na assistência, as reacções eram contraditórias, do apupo ao aplauso. Aclamação foi o que existiu ao terceiro tema, com parte significativa do público a incitar a cantora.
Sobre outras considerações, a minha visão sobre o que aconteceu está exposta no artigo de domingo, onde tento ter uma perspectiva ampla sobre o sucedido, sem me cingir a classificações redutoras.
Como expus no texto de domingo, foi um evento – muito mais do que um concerto foi um acontecimento sociológico – que despoletou paixões e que começou a ser lido, antecipadamente, segundo as convicções mais íntimas de cada um.
No local, e obviamente de forma ampliada a partir da proximidade da TV, cada um decifrou o que aconteceu à sua maneira. A partir de determinada altura, todos os gestos – simbólicos ou reais – passaram a ser alvo de leituras simplificadoras.
A minha visão está exposta no texto: o que se passou em palco não gerou um bom concerto. Na assistência perceberam-se emoções contraditórias, na forma como cada um se relacionou com alguém que já não é apenas uma cantora, mas uma celebridade, que aguardavam com imensa expectativa.
Quanto ao terceiro tema do concerto ele está, de facto, errado: não foi Me & Mr Jones, mas sim Tears dry on their own.
Vítor Belanciano
Carta do leitor António Cândido Miguéis:
Como leitor indefectível do PÚBLICO, seguramente o melhor jornal diário português, dirijo-me ao senhor provedor para lhe manifestar o meu desagrado e estupefacção pela sua primeira página do passado dia 17 de Maio (no melhor pano cai a nódoa...).
Na parte superior do jornal, junto ao P vermelho, deparei com um título inusitado: ”Gays: Lisboa já tem um clube privado de sexo”. Eu pergunto: porquê todo este realce, verdadeiramente despropositado, na primeira página do PÚBLICO? Não seria de elementar bom senso - parece que vai rareando - remeter para outra parte do jornal (P2), de forma mais discreta, este título e texto respectivo? A esmagadora maioria da população (e dos leitores do PÚBLICO) é, felizmente, heterossexual e não estará disposta a ser “agredida” com esta notícia que dirá mais respeito aos gays e aos seus eventuais seguidores e admiradores. Sendo esta orientação sexual atípica, anormal e contra-natura, quer se queira quer não (isto, sem pretender ofender ou estigmatizar quem quer que seja, é uma realidade), porque é que o PÚBLICO lhe deu todo este destaque? Sensacionalismo, exibicionismo, voyeurismo, pretensão de impor a uma clara maioria condutas insalubres de uma minoria que, de facto, tem todo o direito a notícias sobre sexo como muito bem entenda desde que não exiba (e se exiba) essas notícias de forma ridícula e desmesurada?
É bonito uma criança ou um jovem (em crescimento, em maturação biológica, corporal e psíquica) pegar no PÚBLICO e deparar com esta escatológica notícia, verdadeiramente edificante?
O que é que o senhor director do PÚBLICO, pessoa judiciosa que eu prezo e admiro - procuro estar sempre atento aos seus editoriais e intervenção nos media, pese embora não concorde com alguns deles, de forma parcial ou totalmente -, tem a dizer sobre isto? Gostaria de ouvir as suas explicações.
Provavelmente no PÚBLICO - como noutros lugares e noutros empregos - existirão algumas pessoas que enveredam por estas orientações sexuais (gays e lésbicas), mas isso será justificativo para o PÚBLICO hiper-realçar na primeira página: “Gays, Lisboa já tem um clube privado de sexo”?
Que me interessa a mim (e seguramente a muitas pessoas) este tipo de notícias? Não existirão revistas da especialidade que dão conta destes “acontecimentos”?
Por estas e por outras é que o artigo de José Pacheco Pereira no PÚBLICO desse mesmo dia, “A cultura da irrelevância está a crescer exponencialmente”, vem mesmo a propósito... Enquanto isso, Sodoma e Gomorra e os políticos vão-se enchendo...
António Cândido Miguéis, Vila Real
à(s)
11:28
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Secção: Crónicas
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Faça sol ou faça chuva
Depende também dos pormenores a confiança que um jornal conquista ou desbarata junto do público
Os jornalistas devem estar atentos ao rigor do que editam até ao mais ínfimo pormenor. Num jornal não existem secções de primeira (a produzir com atenção) e de segunda (que admitem a displicência). Aquilo que para alguns leitores é insignificante, para outros será prioritário. Uma coisa é certa: haverá sempre alguém a escrutinar os mais pequenos detalhes do que se publica num periódico. E pode também depender disso a confiança que um jornal conquista ou desbarata junto do público.
Vem isto a propósito de dois temas que podem parecer despiciendos para quem trabalha no PÚBLICO, mas que pelo menos alguns leitores – com todas as razões que lhes assistem e não se contestam – levam muito a peito.
Um deles tem a ver com a foto-legenda publicada nas páginas centrais da edição da passada segunda-feira, 26 de Maio. Sob o título “Não parece, mas o mar está calmo”, nela se mostra o surfista português Tiago Pires a “cavalgar” uma onda algures numa recente etapa do Campeonato ASP da modalidade, em curso no Pacífico, que a legenda sugere ser relativa ao Billabong Pro, em Taiti, acrescentando tratar-se da sua “quarta ronda”. Um segundo parágrafo informa sobre o estado decepcionante da ondulação.
O que para os leitores distraídos não terá passado de uma cativante imagem, com a curiosidade acrescida (e quiçá desconhecida para a maioria) de ser protagonizada por um compatriota competindo numa prova mundial, constituiu um crime de lesa-pátria para os adeptos do surf que acompanham este campeonato com a mesma atenção que hoje outros portugueses dedicam aos preparativos da selecção nacional para o Euro-2008. E já não é a primeira vez que tal acontece com o mesmo tema nas mesmas páginas: no ano passado, o anterior provedor do PÚBLICO dedicou uma crónica a uma foto-legenda sobre surf que, entre outros erros, transladava Biarritz para o Mediterrâneo.
Que se passou agora? As Ilhas Fiji foram transferidas para Tahiti. A palavra ao leitor Pedro Adão e Silva: “A legenda (...) que acompanha a foto de Tiago Pires (o primeiro português a integrar os top-44 que correm as 10 etapas do circuito que apura o campeão mundial de surf, o WCT) está errada do princípio ao fim. (...) A foto não é do Billabong Pro em Taiti, mas sim da quarta paragem do campeonato, o Globe Pro nas Ilhas Fiji – como se pode ler na camisola de competição. Quanto ao segundo parágrafo, ele reporta-se à etapa anterior (que ocorreu há duas semanas) e não à que se iniciou este fim-de-semana. Aliás, é provavelmente essa confusão que faz com que no título se fale em mar calmo – pois em Teahupoo a ondulação não esteve particularmente favorável. Já em Fiji, como bem atesta a foto, as ondas têm estado com um tamanho muito significativo”.
Também outro leitor, Henrique Pereira dos Santos (que aliás já reclamara aquando da retirada de Biarritz do Atlântico), alerta para os “disparates facilmente verificáveis (por exemplo, que Tiago Pires não chegou à quarta ronda de nenhuma das etapas até agora ou que a fotografia não é no Billabong Pro do Havai [outra confusão insular - Taiti] mas nas Fiji)”, acrescentando ainda: “Que opções editoriais para mim absurdas façam com que o PÚBLICO gaste mais espaço com os jogos de basquete nos EUA (ou mesmo com o hóquei no gelo) do que, por exemplo, acompanhando Tiago Pires, que está no restrito grupo dos 45 [ou 44?] melhores surfistas do mundo a correr o circuito mundial é uma coisa que não percebo, mas deixo à liberdade editorial do jornal” (o provedor também deixa).
Pedro Adão e Silva põe o dedo na ferida: “Que é que me diz que o PÚBLICO não comete sucessões de erros idênticos quando trata temas que não domino e sobre os quais confio na credibilidade da informação do jornal? Não saindo do desporto, que seria se o PÚBLICO tivesse hoje escrito sobre o grande prémio de fórmula 1 da Turquia, realizado há um par de semanas, com uma imagem da corrida do Mónaco, que ocorreu este fim-de-semana, misturando tudo na legenda? O que me parece particularmente grave é que não será difícil pensar em situações semelhantes estando em causa assuntos bem mais sérios. Gostava, quando leio o jornal, de ter a certeza que posso confiar no que nele vem escrito”.
E remata o segundo leitor: “Amanhã, quando me apresentarem uma fotografia dizendo que são chapéus de chuva na China, como vou ter a certeza de que não são chapéus de sol no Vietname?”
A propósito de chuva e sol, passemos ao segundo tema: a informação meteorológica, que todos os dias ocupa a última página do caderno P2. Além do mapa nacional com a previsão do tempo para o próprio dia, publicam-se na secção mapas mais pequenos (só do continente) com a antecipação dos três dias seguintes. E é aí que tem residido o problema. O leitor Albano Nogueira Guedes reclamou com este exemplo: “Nos dias 18 e 19 de Maio, respectivamente domingo e 2.ª feira, (...) a sinalética (...) para os dias seguintes indicou SEMPRE ‘quarta-feira’, ‘quinta-feira’ e ‘sexta-feira’… Não será possível um pouco mais de cuidado?”
Também o leitor Abílio Ferreira não deixou de reparar na discrepância: “Parece inadmissível que esse erro não tenha sido detectado. Nem hoje nem em edições anteriores. E porque actualmente já despendemos semanalmente quase oito euros para ler o PÚBLICO [argumento muito pertinente – entende o provedor], parece-me lícito solicitar maior atenção”.
Não se trata de ocorrência única. Já em Março, o leitor Carlos Dantas Teixeira (um octogenário que se orgulha de ler o PÚBLICO desde os primeiros tempos do jornal) comunicou ao provedor os casos de 12 e 13 desse mês, em que a primeira das previsões para os dias seguintes era relativa ao dia de edição do jornal (ainda por cima, a 12, com informações contraditórias no mapa grande e no mapa pequeno – chuva num e sol parcial noutro). “Sinais claros de desleixo”, classificou o leitor. “Se a informação meteorológica não interessa ao jornal, acabe-se com ela. Se interessa, que se faça bem. O espaço no jornal não tem valor e pode ser preenchido com disparates?” (A resposta é “sim” à primeira questão e “não” à segunda).
A meteorologia é provavelmente ignorada pelos responsáveis do PÚBLICO, e o mais certo é que nenhum jornalista sequer a supervisione. Mas, como tudo o resto, também esta secção contribui para construir a credibilidade do jornal. Escreve Albano Nogueira Guedes: “Habituado a ter o PÚBLICO como uma referência, acho estranho que esteja a ser muito frequente o descuido com algumas informações que podem parecer pouco importantes ou simples rotinas para muitas pessoas, mas na verdade são consultadas amiudadas vezes”.
Recomendação do provedor. Os “critérios de rigor”, proclamados no segundo ponto do Estatuto Editorial do PÚBLICO, devem ser aplicados em tudo o que o jornal publica, sem excepção. Faça sol ou faça chuva.
CAIXA:
De tudo um pouco
Dois leitores reclamam quanto a um “excesso” de informação desportiva no PÚBLICO. Escreveu André Marques: “Comprei o PÚBLICO de 11 de Maio e reparei que a edição deste dia tem um defeito muito grave: dedica 11 páginas ao desporto e apenas duas à economia. Uma vez que o PÚBLICO não é um jornal desportivo, esta disparidade é inexplicável. Gostava de me informar acerca do preço do petróleo, por exemplo, mas não encontro informações sobre este tema. Por que é que a edição do PÚBLICO de 11 de Maio foi tão pobre em relação à economia?” E Luís Santos acrescentou, logo dois dias depois: “Quando eu quiser ter acesso a DOZE páginas de desporto [por essa altura, o máximo que o provedor contou foram 11 páginas], compro um dos ditos jornais desportivos! Assim não!”
Estaremos perante aquilo que José Pacheco Pereira, na sua crónica de 17 de Maio neste mesmo jornal, criticou como sendo “a cultura da irrelevância”? O provedor não vê nesta matéria razões de censura ao PÚBLICO (desde que não deixe, porém, de informar do preço do petróleo), dado que o jornal se mantém dentro dos parâmetros de variedade temática que caracterizam a sua linha editorial: “O PÚBLICO aposta numa informação diversificada, abrangendo os mais variados campos de actividade e correspondendo às motivações e interesses de um público plural” e “estabelece as suas opções editoriais sem hieraquias prévias entre os diversos sectores” – lê-se no Estatuto Editorial.
Em tempo de Euro-2008 e de Jogos Olímpicos, enquanto terminava o campeonato nacional de futebol, se caminhava para a final da Taça de Portugal e se discutiam as implicações dos apitos “Dourado” e “Final”, o desporto terá sido incontornável na hierarquia informativa do PÚBLICO. Um jornal generalista faz-se de tudo um pouco, de “grandes” e “pequenos” temas, “sérios” e “frívolos”, que importam às mais variadas camadas de um público necessariamente diversificado. O PÚBLICO, que, tanto quanto saiba o provedor, não aspira a grande educador do povo, também não pretende trocar este povo por outro.
Publicada em 1 de Junho de 2008
DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR (cartas dos leitores):
Bem sei que o assunto é surf, modalidade normalmente vista como marginal (por remeter frequentemente para a contra-cultura, mas, também, por apenas esporadicamente ultrapassar as fronteiras da comunicação social especializada), mas ainda assim, e tendo em conta que o assunto ocupa as páginas centrais da edição de hoje [26 de Maio], não posso deixar de fazer notar que a legenda de dois parágrafos que acompanha a foto de Tiago Pires está errada do princípio ao fim. Aliás, já não é a primeira vez que tal acontece quando o surf é escolhido para ilustrar o jornal. Em Setembro, o PÚBLICO também publicou uma foto de duas páginas, de uma etapa do WCT, com uma legenda sem sentido nenhum (tema que na altura foi justamente tratado pelo provedor de então).
Vamos aos factos: a foto é de facto de Tiago Pires (o primeiro português a integrar os top-44 que correm as 10 etapas do circuito que apura o campeão mundial de surf, o WCT) e corresponde a uma onda da eliminatória contra o norte-americano de origem mexicana (e não americano, como erradamente se escreve), Bobby Martinez. Tiago Pires ganhou também o heat com as pontuações assinaladas. Acontece que a foto não é do Billabong Pro em Taiti, mas sim da quarta paragem do campeonato, o Globe Pro nas ilhas Fiji - como se pode ler na camisola de competição. Quanto ao segundo parágrafo, ele reporta-se à etapa anterior (que ocorreu há duas semanas) e não à que se iniciou este fim-de-semana. Aliás, é provavelmente essa confusão que faz com que no título se fale em mar calmo - pois em Teahupoo a ondulação não esteve particularmente favorável. Já nas Fiji, como bem atesta a foto, as ondas têm estado com um tamanho muito significativo.
Dir-me-á que o assunto é surf, ou seja, relativamente marginal. Mas, tendo em conta que é um assunto que acompanho com muita atenção - e que como tal conheço -, que é que me diz que o PÚBLICO não comete sucessões de erros idênticos quando trata temas que não domino e sobre os quais confio na credibilidade da informação do jornal? Não saindo do desporto, o que seria se o PÚBLICO tivesse hoje escrito sobre o Grande Prémio de fórmula 1 da Turquia, realizado há um par de semanas, com uma imagem da corrida do Mónaco, que ocorreu este fim-de-semana, misturando tudo na legenda? O que me parece particularmente grave é que não será difícil pensar em situações semelhantes estando em causa assuntos bem mais sérios. Gostava, quando leio o jornal, de ter a certeza de que posso confiar no que nele vem escrito (se nada mais, pelo menos do ponto de vista factual). Ao ler as páginas centrais de hoje, é-me sugerido que nem sempre é assim.
Pedro Adão e Silva
Há alguns meses, dirigi-me ao seu antecessor por causa de um pequeno texto sobre outra fotografia de surf nas páginas centrais do PÚBLICO. O pequeno texto tinha tantos disparates que até colocava Biarritz no Mediterrâneo. O seu antecessor dedicou uma página inteira ao assunto, de tal maneira era disparatada a prosa. Mas pelos vistos o jornal não aprendeu.
Hoje [26 de Maio], outra fotografia de surf (aliás óptima) e mais disparates.
Declaração de interesses: aos fins de semana emprestam-me uma prancha para eu ir molhando o fato sempre no nível básico da escola de surf. Os meus quatro filhos fazem surf, duas fazem competição e uma é a campeã nacional. Não sou pois um leitor isento.
Que opções editoriais para mim absurdas façam com que o PÚBLICO gaste mais espaço com os jogos de basquete nos EUA (ou mesmo com o hóquei no gelo) do que, por exemplo, acompanhando Tiago Pires, que está no restrito grupo dos 45 melhores surfistas do mundo a correr o circuito mundial, é uma coisa que não percebo, mas deixo à liberdade editorial do jornal. Mas que me faz confusão que um jornal como o PÚBLICO reduza-o deixando de fora uma das modalidades de maior crescimento no país (para além das fotografias de que se gosta quase sempre - basta ver o prémio na categoria do World Press Photo com um body boarder na Nazaré, o único prémio português), lá isso faz.
Agora que, por essa miopia do editor de desporto, o jornal resolva escrever disparates como os que escreveu hoje, disparates facilmente verificáveis (por exemplo, que Tiago Pires não chegou à quarta ronda de nenhuma das etapas até agora ou que a fotografia não é no Billabong Pro do Havai mas nas Fiji), já me parece de mais.
Amanhã, quando me apresentarem uma fotografia dizendo que são chapéus-de-chuva na China, como vou ter a certeza de que não chapéus-de-sol no Vietname?
Henrique Pereira dos Santos
à(s)
19:39
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