Depende também dos pormenores a confiança que um jornal conquista ou desbarata junto do público
Os jornalistas devem estar atentos ao rigor do que editam até ao mais ínfimo pormenor. Num jornal não existem secções de primeira (a produzir com atenção) e de segunda (que admitem a displicência). Aquilo que para alguns leitores é insignificante, para outros será prioritário. Uma coisa é certa: haverá sempre alguém a escrutinar os mais pequenos detalhes do que se publica num periódico. E pode também depender disso a confiança que um jornal conquista ou desbarata junto do público.
Vem isto a propósito de dois temas que podem parecer despiciendos para quem trabalha no PÚBLICO, mas que pelo menos alguns leitores – com todas as razões que lhes assistem e não se contestam – levam muito a peito.
Um deles tem a ver com a foto-legenda publicada nas páginas centrais da edição da passada segunda-feira, 26 de Maio. Sob o título “Não parece, mas o mar está calmo”, nela se mostra o surfista português Tiago Pires a “cavalgar” uma onda algures numa recente etapa do Campeonato ASP da modalidade, em curso no Pacífico, que a legenda sugere ser relativa ao Billabong Pro, em Taiti, acrescentando tratar-se da sua “quarta ronda”. Um segundo parágrafo informa sobre o estado decepcionante da ondulação.
O que para os leitores distraídos não terá passado de uma cativante imagem, com a curiosidade acrescida (e quiçá desconhecida para a maioria) de ser protagonizada por um compatriota competindo numa prova mundial, constituiu um crime de lesa-pátria para os adeptos do surf que acompanham este campeonato com a mesma atenção que hoje outros portugueses dedicam aos preparativos da selecção nacional para o Euro-2008. E já não é a primeira vez que tal acontece com o mesmo tema nas mesmas páginas: no ano passado, o anterior provedor do PÚBLICO dedicou uma crónica a uma foto-legenda sobre surf que, entre outros erros, transladava Biarritz para o Mediterrâneo.
Que se passou agora? As Ilhas Fiji foram transferidas para Tahiti. A palavra ao leitor Pedro Adão e Silva: “A legenda (...) que acompanha a foto de Tiago Pires (o primeiro português a integrar os top-44 que correm as 10 etapas do circuito que apura o campeão mundial de surf, o WCT) está errada do princípio ao fim. (...) A foto não é do Billabong Pro em Taiti, mas sim da quarta paragem do campeonato, o Globe Pro nas Ilhas Fiji – como se pode ler na camisola de competição. Quanto ao segundo parágrafo, ele reporta-se à etapa anterior (que ocorreu há duas semanas) e não à que se iniciou este fim-de-semana. Aliás, é provavelmente essa confusão que faz com que no título se fale em mar calmo – pois em Teahupoo a ondulação não esteve particularmente favorável. Já em Fiji, como bem atesta a foto, as ondas têm estado com um tamanho muito significativo”.
Também outro leitor, Henrique Pereira dos Santos (que aliás já reclamara aquando da retirada de Biarritz do Atlântico), alerta para os “disparates facilmente verificáveis (por exemplo, que Tiago Pires não chegou à quarta ronda de nenhuma das etapas até agora ou que a fotografia não é no Billabong Pro do Havai [outra confusão insular - Taiti] mas nas Fiji)”, acrescentando ainda: “Que opções editoriais para mim absurdas façam com que o PÚBLICO gaste mais espaço com os jogos de basquete nos EUA (ou mesmo com o hóquei no gelo) do que, por exemplo, acompanhando Tiago Pires, que está no restrito grupo dos 45 [ou 44?] melhores surfistas do mundo a correr o circuito mundial é uma coisa que não percebo, mas deixo à liberdade editorial do jornal” (o provedor também deixa).
Pedro Adão e Silva põe o dedo na ferida: “Que é que me diz que o PÚBLICO não comete sucessões de erros idênticos quando trata temas que não domino e sobre os quais confio na credibilidade da informação do jornal? Não saindo do desporto, que seria se o PÚBLICO tivesse hoje escrito sobre o grande prémio de fórmula 1 da Turquia, realizado há um par de semanas, com uma imagem da corrida do Mónaco, que ocorreu este fim-de-semana, misturando tudo na legenda? O que me parece particularmente grave é que não será difícil pensar em situações semelhantes estando em causa assuntos bem mais sérios. Gostava, quando leio o jornal, de ter a certeza que posso confiar no que nele vem escrito”.
E remata o segundo leitor: “Amanhã, quando me apresentarem uma fotografia dizendo que são chapéus de chuva na China, como vou ter a certeza de que não são chapéus de sol no Vietname?”
A propósito de chuva e sol, passemos ao segundo tema: a informação meteorológica, que todos os dias ocupa a última página do caderno P2. Além do mapa nacional com a previsão do tempo para o próprio dia, publicam-se na secção mapas mais pequenos (só do continente) com a antecipação dos três dias seguintes. E é aí que tem residido o problema. O leitor Albano Nogueira Guedes reclamou com este exemplo: “Nos dias 18 e 19 de Maio, respectivamente domingo e 2.ª feira, (...) a sinalética (...) para os dias seguintes indicou SEMPRE ‘quarta-feira’, ‘quinta-feira’ e ‘sexta-feira’… Não será possível um pouco mais de cuidado?”
Também o leitor Abílio Ferreira não deixou de reparar na discrepância: “Parece inadmissível que esse erro não tenha sido detectado. Nem hoje nem em edições anteriores. E porque actualmente já despendemos semanalmente quase oito euros para ler o PÚBLICO [argumento muito pertinente – entende o provedor], parece-me lícito solicitar maior atenção”.
Não se trata de ocorrência única. Já em Março, o leitor Carlos Dantas Teixeira (um octogenário que se orgulha de ler o PÚBLICO desde os primeiros tempos do jornal) comunicou ao provedor os casos de 12 e 13 desse mês, em que a primeira das previsões para os dias seguintes era relativa ao dia de edição do jornal (ainda por cima, a 12, com informações contraditórias no mapa grande e no mapa pequeno – chuva num e sol parcial noutro). “Sinais claros de desleixo”, classificou o leitor. “Se a informação meteorológica não interessa ao jornal, acabe-se com ela. Se interessa, que se faça bem. O espaço no jornal não tem valor e pode ser preenchido com disparates?” (A resposta é “sim” à primeira questão e “não” à segunda).
A meteorologia é provavelmente ignorada pelos responsáveis do PÚBLICO, e o mais certo é que nenhum jornalista sequer a supervisione. Mas, como tudo o resto, também esta secção contribui para construir a credibilidade do jornal. Escreve Albano Nogueira Guedes: “Habituado a ter o PÚBLICO como uma referência, acho estranho que esteja a ser muito frequente o descuido com algumas informações que podem parecer pouco importantes ou simples rotinas para muitas pessoas, mas na verdade são consultadas amiudadas vezes”.
Recomendação do provedor. Os “critérios de rigor”, proclamados no segundo ponto do Estatuto Editorial do PÚBLICO, devem ser aplicados em tudo o que o jornal publica, sem excepção. Faça sol ou faça chuva.
CAIXA:
De tudo um pouco
Dois leitores reclamam quanto a um “excesso” de informação desportiva no PÚBLICO. Escreveu André Marques: “Comprei o PÚBLICO de 11 de Maio e reparei que a edição deste dia tem um defeito muito grave: dedica 11 páginas ao desporto e apenas duas à economia. Uma vez que o PÚBLICO não é um jornal desportivo, esta disparidade é inexplicável. Gostava de me informar acerca do preço do petróleo, por exemplo, mas não encontro informações sobre este tema. Por que é que a edição do PÚBLICO de 11 de Maio foi tão pobre em relação à economia?” E Luís Santos acrescentou, logo dois dias depois: “Quando eu quiser ter acesso a DOZE páginas de desporto [por essa altura, o máximo que o provedor contou foram 11 páginas], compro um dos ditos jornais desportivos! Assim não!”
Estaremos perante aquilo que José Pacheco Pereira, na sua crónica de 17 de Maio neste mesmo jornal, criticou como sendo “a cultura da irrelevância”? O provedor não vê nesta matéria razões de censura ao PÚBLICO (desde que não deixe, porém, de informar do preço do petróleo), dado que o jornal se mantém dentro dos parâmetros de variedade temática que caracterizam a sua linha editorial: “O PÚBLICO aposta numa informação diversificada, abrangendo os mais variados campos de actividade e correspondendo às motivações e interesses de um público plural” e “estabelece as suas opções editoriais sem hieraquias prévias entre os diversos sectores” – lê-se no Estatuto Editorial.
Em tempo de Euro-2008 e de Jogos Olímpicos, enquanto terminava o campeonato nacional de futebol, se caminhava para a final da Taça de Portugal e se discutiam as implicações dos apitos “Dourado” e “Final”, o desporto terá sido incontornável na hierarquia informativa do PÚBLICO. Um jornal generalista faz-se de tudo um pouco, de “grandes” e “pequenos” temas, “sérios” e “frívolos”, que importam às mais variadas camadas de um público necessariamente diversificado. O PÚBLICO, que, tanto quanto saiba o provedor, não aspira a grande educador do povo, também não pretende trocar este povo por outro.
Publicada em 1 de Junho de 2008
DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR (cartas dos leitores):
Bem sei que o assunto é surf, modalidade normalmente vista como marginal (por remeter frequentemente para a contra-cultura, mas, também, por apenas esporadicamente ultrapassar as fronteiras da comunicação social especializada), mas ainda assim, e tendo em conta que o assunto ocupa as páginas centrais da edição de hoje [26 de Maio], não posso deixar de fazer notar que a legenda de dois parágrafos que acompanha a foto de Tiago Pires está errada do princípio ao fim. Aliás, já não é a primeira vez que tal acontece quando o surf é escolhido para ilustrar o jornal. Em Setembro, o PÚBLICO também publicou uma foto de duas páginas, de uma etapa do WCT, com uma legenda sem sentido nenhum (tema que na altura foi justamente tratado pelo provedor de então).
Vamos aos factos: a foto é de facto de Tiago Pires (o primeiro português a integrar os top-44 que correm as 10 etapas do circuito que apura o campeão mundial de surf, o WCT) e corresponde a uma onda da eliminatória contra o norte-americano de origem mexicana (e não americano, como erradamente se escreve), Bobby Martinez. Tiago Pires ganhou também o heat com as pontuações assinaladas. Acontece que a foto não é do Billabong Pro em Taiti, mas sim da quarta paragem do campeonato, o Globe Pro nas ilhas Fiji - como se pode ler na camisola de competição. Quanto ao segundo parágrafo, ele reporta-se à etapa anterior (que ocorreu há duas semanas) e não à que se iniciou este fim-de-semana. Aliás, é provavelmente essa confusão que faz com que no título se fale em mar calmo - pois em Teahupoo a ondulação não esteve particularmente favorável. Já nas Fiji, como bem atesta a foto, as ondas têm estado com um tamanho muito significativo.
Dir-me-á que o assunto é surf, ou seja, relativamente marginal. Mas, tendo em conta que é um assunto que acompanho com muita atenção - e que como tal conheço -, que é que me diz que o PÚBLICO não comete sucessões de erros idênticos quando trata temas que não domino e sobre os quais confio na credibilidade da informação do jornal? Não saindo do desporto, o que seria se o PÚBLICO tivesse hoje escrito sobre o Grande Prémio de fórmula 1 da Turquia, realizado há um par de semanas, com uma imagem da corrida do Mónaco, que ocorreu este fim-de-semana, misturando tudo na legenda? O que me parece particularmente grave é que não será difícil pensar em situações semelhantes estando em causa assuntos bem mais sérios. Gostava, quando leio o jornal, de ter a certeza de que posso confiar no que nele vem escrito (se nada mais, pelo menos do ponto de vista factual). Ao ler as páginas centrais de hoje, é-me sugerido que nem sempre é assim.
Pedro Adão e Silva
Há alguns meses, dirigi-me ao seu antecessor por causa de um pequeno texto sobre outra fotografia de surf nas páginas centrais do PÚBLICO. O pequeno texto tinha tantos disparates que até colocava Biarritz no Mediterrâneo. O seu antecessor dedicou uma página inteira ao assunto, de tal maneira era disparatada a prosa. Mas pelos vistos o jornal não aprendeu.
Hoje [26 de Maio], outra fotografia de surf (aliás óptima) e mais disparates.
Declaração de interesses: aos fins de semana emprestam-me uma prancha para eu ir molhando o fato sempre no nível básico da escola de surf. Os meus quatro filhos fazem surf, duas fazem competição e uma é a campeã nacional. Não sou pois um leitor isento.
Que opções editoriais para mim absurdas façam com que o PÚBLICO gaste mais espaço com os jogos de basquete nos EUA (ou mesmo com o hóquei no gelo) do que, por exemplo, acompanhando Tiago Pires, que está no restrito grupo dos 45 melhores surfistas do mundo a correr o circuito mundial, é uma coisa que não percebo, mas deixo à liberdade editorial do jornal. Mas que me faz confusão que um jornal como o PÚBLICO reduza-o deixando de fora uma das modalidades de maior crescimento no país (para além das fotografias de que se gosta quase sempre - basta ver o prémio na categoria do World Press Photo com um body boarder na Nazaré, o único prémio português), lá isso faz.
Agora que, por essa miopia do editor de desporto, o jornal resolva escrever disparates como os que escreveu hoje, disparates facilmente verificáveis (por exemplo, que Tiago Pires não chegou à quarta ronda de nenhuma das etapas até agora ou que a fotografia não é no Billabong Pro do Havai mas nas Fiji), já me parece de mais.
Amanhã, quando me apresentarem uma fotografia dizendo que são chapéus-de-chuva na China, como vou ter a certeza de que não chapéus-de-sol no Vietname?
Henrique Pereira dos Santos
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Faça sol ou faça chuva
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Secção: Crónicas
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Acusação de censura
Na sua edição de 21 de Maio (pág. 25), esse jornal publicou uma artigo dedicado à questão da Rede Sete da Carris intitulado "Especialista da Carris aponta falhas na reestruturação da rede 7". Este artigo, com origem num despacho da Agência Lusa, tece uma série de considerações sobre as reestruturações da Carris, fazendo referência a várias pessoas envolvidas na contestação a esta rede, inclusive à acção de um representante de um partido politico, na sua qualidade de presidente da Comissão de Assembleia de Freguesia, para as questões dos transportes.
Nada disso seria estranho ou não ético se o mesmo artigo na edição on-line, e mesmo o despacho da Lusa, não referissem actuações de representantes de outros partidos, na sua qualidade de vereadores na CML, a respeito do mesmo tema, o que foi completamente omitido na versão impressa.
Questiona-se o porquê da diferença de tratamento dado nas duas versões? Pergunta-se também se esta omissão não distorce os factos e dá à opinião pública que não tem acesso à edição on-line uma versão truncada e portanto deturpada da realidade?
Tratando-se da completa omissão da actuação de veradores da oposição na CML, poderia questionar-se mesmo se o acto de retirar deliberadamente a actuação destes não representa um acto de censura sobre o texto original?
A Plataforma das Comissões de utentes, que há muito mais tempo vinha actuando nesta matéria, tendo um abaixo-assinado com cerca de 10 000 assinaturas, nunca foi motivo do interesse deste jornal, e não por falta de fazer chegar atempadamente a informação, mas disto nem nos queixamos, por sabermos que neste país alguns são mais iguais de que outros, e portanto as nossas acções dificilmente fariam parte do critério jornalístico do seu responsável editorial. Só que, apesar de tudo, isto é muito diferente de censurar notícias.
Carlos Moura
NOTA DO PROVEDOR. Claramente, não houve censura mas necessidade de confinar a notícia ao espaço existente (que aliás se pode considerar "generoso"). Essa é uma prerrogativa do jornal e dos jornalistas (mesmo sobre certas matérias previamente escritas, como os telegramas de agência), desde que mantenham o equilíbrio, a isenção e o rigor da notícia, parâmetros que em nada parecem ter sido afectados pelo corte operado.
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Secção: Homepage
Questão pouco Clara
Este é um caso já antigo, mas que o provedor pretende não omitir. Começou com um carta do leitor Luís Manuel Lima, em 13 de Janeiro último:
“Desde que o primeiro número do PÚBLICO saiu para as bancas, tenho sido um leitor fiel. No entanto, de há alguns tempos para cá, começo a ter dúvidas sobre se valerá a pena continuar a comprar o jornal. O PÚBLICO cada vez mais me falha como fonte de informação correcta e isenta. Hoje, por exemplo, na pág. 21, escreve Fernando Sousa que a ex-refém das FARC Clara Rojas, ao ser interrogada ‘sobre se considera a guerrilha um grupo rebelde (...) ou terrorista’ disse: ‘Qualquer acção que permita (...) a troca humanitária é válida’. É fácil de entender que aquilo que o jornalista diz ter sido a resposta em nada responde à questão. Como tenho o hábito de ler mais do que um jornal, verifico que no Jornal de Notícias a resposta é totalmente diferente, tendo Clara Rojas considerado o dito grupo como um grupo terrorista. Fica-me a dúvida: qual dos jornalistas transcreveu, correctamente, a resposta de Clara Rojas? Por que razão chama o jornalista ‘guerrilha’, ‘grupo rebelde’, a quem é considerado pela UE um bando terrorista? Haverá aqui alguma desculpabilização, fruto de uma qualquer ‘contaminação’ ideológica?”
Colocada a questão a Fernando Sousa, o provedor recebeu a seguinte resposta:
“Não me parece que o leitor tenha razão. Resulta claramente do texto que quem está a falar é a ex-refém Consuelo González, a quem pertencem todas as afirmações constantes nos três últimos parágrafos da peça a que se refere, e não Clara Rojas, citada na primeira parte. Aliás, se o leitor tivesse lido o artigo principal da mesma página teria reparado na mesma declaração, aqui mais completa, da antiga congressista. É também claro que Consuelo, entrevistada pela rádio colombiana Caracol, está a responder a uma questão concreta, que passo a citar: ‘Interrogada sobre se considera a guerrilha um grupo rebelde, como propôs Caracas, ou terrorista, como quer Bogotá, disse: ‘Qualquer acção que permita (…) a troca humanitária é válida’’”.
O provedor não ficou satisfeito, pois, pondo de parte a questão da troca de nomes existente na carta do leitor, também lhe pareceu que aquela resposta da entrevistada não tinha a ver com a pergunta mencionada. Insistiu por isso junto do jornalista, pedindo-lhe ainda para se referir à questão da terminologia utilizada na notícia, a que ele não se referira no primeiro esclarecimento. Fernando Sousa respondeu da seguinte forma:
“Sobre a resposta da antiga congressista, esta, interrogada pela rádio Caracol sobre se considera as FARC um grupo rebelde, como propôs Caracas para amenizar o diálogo sobre a paz e a libertação dos reféns, ou terrorista, como a considera Bogotá, responde implicitamente que se a alteração de estatuto da guerrilha ajudar a mais resgates será bem-vinda. Para mim a frase fez sentido no contexto geral do tema e da própria página. Mas reconheço que não é clara, e neste caso peço desculpa ao leitor. Em relação à terminologia utilizada, ela não é minha - é de Caracas e Bogotá, retomada pela Caracol, e está devidamente atribuída. Enfim, perante a insinuação do nosso leitor de ‘contaminação ideológica’, não me pronuncio sequer.”
Em conclusão, o provedor entende que a passagem em questão partiu de um adquirido que para os leitores não era claro, pelo que deveria ter havido uma “descodificação”, para que tal passagem se tornasse minimamente clara e lógica. Quanto à terminologia, o repórter usa a expressão “grupo rebelde” para se referir às FARC. Se se pode considerar esta organização como terrorista, é também um facto que se trata de um grupo rebelde, pelo que a designação não é errada. Já que o epíteto “terrorista”, no contexto da notícia, é objecto de disputa, o jornalista fez bem em não utilizar o termo como classificativo das FARC, para não dar a ideia de estar a favorecer um dos lados dessa disputa.
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sábado, 24 de maio de 2008
As fronteiras da objectividade
Isenção e da equidistância implicam que o jornalista deve esforçar-se por atingir a objectividade, desígnio porém muito difícil de cumprir
Em complemento a uma notícia sobre a aquisição pelo Grupo Leya das editoras da Explorer Investments (pág. 41 da edição de 14 deste mês), a jornalista Ana Rita Faria escreveu um texto sob o título “Cada vez mais livros nas mãos de poucos”, acerca do processo de concentração em curso no sector editorial português, que suscitou do leitor Gabriel Silva o seguinte comentário:
“Tal peça padece, a meu ver, de algumas infelicidades, pois está pejada de considerandos e opinião da jornalista. Vejam-se os seguintes exemplos:
’Poucas foram as empresas que conseguiram escapar aos tentáculos de grandes grupos’. ‘Tentáculos’ porquê? Em termos económicos, se uma empresa se torna atractiva para outra, tal será positivo, julgo eu.
‘O primeiro sinal de alarme deu-se com a investida da Explorer Investments’. ‘Sinal de alarme’? A propósito de quê? Só pequeninas e pobretas é que as empresas são boas? Sinal de alarme seria uma empresa ter prejuízo, correr o risco de falência e não propriamente tornar-se atractiva para ser adquirida, sinal de reconhecimento do seu desempenho e mais-valia.
‘Resta agora saber quem serão as próximas vítimas’. ‘Vítimas’? Mas alguém lhes fez mal? Alguém as adquiriu contra vontade?
Parece que a jornalista terá preferência por determinado modelo económico, nada a opor, mas descrever os factos enquadrando-os nesse modelo, de forma crítica, parece-me provavelmente abusivo, e limitador das interpretações que os leitores poderiam eventualmente fazer”.
Este tema é um dos mais sensíveis quanto ao estilo de jornalismo do PÚBLICO – aliás, do jornalismo em geral. Dizem os manuais que, num órgão de informação adepto da isenção e da equidistância (conceitos ausentes do Estatuto Editorial do PÚBLICO mas decorrentes do seu Livro de Estilo, ao vincular os jornalistas a “elaborar as notícias da forma o mais imparcial possível, independentemente das suas convicções pessoais” – ponto 2 dos “Princípios e normas de conduta profissional”), a objectividade é de rigor (ponto 7 do mesmo articulado). Mas na prática esse é um dos desígnios mais difíceis de cumprir em jornalismo.
O próprio director do PÚBLICO o reconhece, ao ser solicitado pelo provedor para se pronunciar sobre este caso: “As normas do Livro de Estilo resultam da doutrina de acordo com a qual um jornalista deve ser o mais imparcial possível, mesmo sabendo-se que, como ser humano, por definição subjectivo, este olhará sempre para a realidade que descreve de acordo com as suas referências e preocupações. Ou seja, mesmo fazendo um esforço para se abstrair dos seus preconceitos pessoais ou ideológicos, dificilmente deixará de dar mais importância ao que sente ser mais importante”. Resumindo, conclui José Manuel Fernandes: “O jornalista persegue a objectividade sabendo que esta é virtualmente inalcançável devido à sua própria subjectividade, razão pela qual deve realizar um esforço acrescido de imparcialidade”.
Circula nos últimos anos entre os jornalistas uma moda segundo a qual, sendo a objectividade utópica, o esforço para a alcançar redunda num acto hipócrita, pelo que mais transparente será cada um assumir, nas matérias que publica, a sua própria visão do mundo. O PÚBLICO, ao longo da sua história, não se pode considerar imune a esta corrente, tanto mais que admite no seu Livro de Estilo, no ponto 1.a do capítulo “Os factos e a opinião”, que, “tal como não existe objectividade em estado puro, não existem nos textos jornalísticos fronteiras absolutas entre informação, interpretação e opinião”. Uma interpretação, digamos, subjectiva desta frase abre a porta a um jornalismo opinativo, se bem que mais à frente se estabeleça que “a apresentação dos factos não deve ser ‘enviesada’ por forma a sugerir sub-repticiamente uma conclusão resultante da opinião particular do jornalista” e se declare que “uma relação séria e leal com o leitor pressupõe o respeito pela diferença de códigos entre informação e opinião” (ou seja, o jornalista não deve fazer passar de contrabando juízos subjectivos sob a capa da objectividade).
O facto é que, da leitura do PÚBLICO ao longo da sua existência, se conclui pela adopção de uma grande amplitude estilística que admite a introdução, em muitas peças jornalísticas, dos pontos de vista do autor, como prática normal e aceitável, sem intervenção correctiva por parte dos editores.
Assim que o provedor iniciou funações (no início deste ano), recebeu uma queixa de um leitor (apenas identificado por Nuno) acerca de um trabalho de Rita Siza (RS), correspondente deste jornal em Washington, sobre as primárias norte-americanas, publicado em 3 de Janeiro nas págs. 2/3: “Rita Siza classifica as propostas económicas do [então] candidato John Edwards como populistas [‘populismo económico’]. Longe de saber que a referida senhora fazia parte do painel de comentadores do PÚBLICO, gostava que me explicassem o que quer ela dizer com essa afirmação. (...) Desde quando é que o preconceito ideológico ou o diz que disse classificatório deram entrada no Livro de Estilo do jornal? Já agora, que [John] McCain seja um dos políticos mais respeitados parece-me confirmável, daí à conclusão de que é dos mais consistentes já vai um juízo de valor formulado pela jornalista comentadora”.
Ambas as jornalistas apresentam justificação para o tom ou a maioria das expressões utilizados. Explica Ana Rita Faria: “O propósito deste artigo era traçar um quadro da crescente concentração que o sector editorial está a atravessar, com cada vez mais editoras nas mãos de poucas e grandes empresas. Nesse sentido, expressões como ‘sinal de alarme’ ou ‘tentáculos’ pretendem transmitir uma imagem dessa realidade de crescente concentração editorial e não veicular qualquer tipo de opinião, crítica ou preferência por determinado modelo económico. (...) Quanto a ‘vítimas’, não foi empregue com o sentido de vitimização de determinados protagonistas, mas sim no sentido de ‘alvos’. Reconheço, contudo, que, para não gerar interpretações dúbias, teria sido melhor optar por outra expressão’.
E alega Rita Siza: “É verdade que escrevi diversas vezes que a candidatura de John Edwards insistia numa mensagem de populismo económico, nunca como analista ou comentadora, mas antes reproduzindo aquilo que era veiculado e reconhecido pelos porta-vozes da campanha de Edwards como sendo a sua plataforma política. Nos EUA, o ‘populismo económico’ está estudado e referenciado pelos historiadores e académicos desde os finais do século XIX como o movimento de defesa da lavoura e do operariado contra o patronato – os termos foram entretanto actualizados para a luta da classe média contra os poderes corporativos ou os grupos de interesse. Essa era exactamente a mensagem de Edwards, o candidato presidencial que mais falou sobre a pobreza, a desigualdade económica e a corrupção e cuja campanha assentou (como se comprova em todas as suas intervenções) na luta do ‘povo contra os poderosos’”. Quanto a McCain ser “um dos políticos mais consistentes dos EUA, é fácil de confirmar: a sua longa carreira no Senado foi avaliada e classificada com a nota de 82 por cento pela American Conservative Union, que publica um ranking sobre o sentido dos votos dos políticos – McCain vota consistentemente de forma conservadora”.
José Manuel Fernandes encara porém estas situações de forma diferente: “É para mim claro que o texto a que se refere Gabriel Silva violou as regras do bom jornalismo e não cumpriu com o recomendado no Livro de Estilo O caso em apreço não remete para nenhum valor fundamental da vida em sociedade [área onde o Livro de Estilo admite que o jornalista ‘não está obrigado à neutralidade’], pelo que se exigiria sempre uma leitura mais distanciada e não adjectivada ou valorativa da compra da Oficina do Livro [uma das editoras da Explorer Investments] pelo Grupo Leya”. Quanto ao outro caso: “Podemos considerar um adquirido que Hitler, Estaline ou Salazar governaram de forma ditatorial, se bem que existam enormes diferenças entres estes regimes, mas já é mais discutível que possamos classificar o ex-candidato presidencial John Edwards como um populista ou que classifiquemos, numa notícia ou reportagem, as políticas de José Sócrates como, digamos, neoliberais (algo que julgo nunca ter acontecido, a não ser quando se cita alguém com essa opinião)”. (Recomenda-se a leitura no blogue do provedor da resposta completa de José Manuel Fernandes, que devido à sua extensão não pode ser aqui reproduzida integralmente).
Recomendação do provedor. Não existindo a objectividade em estado bacteriologicamente puro, é desejável que o PÚBLICO a tenha como meta, pelo que se aconselha aos seus jornalistas e editores seguir com mais atenção, rigor e exigência as indicações do Livro de Estilo nessa matéria.
CAIXA:
Revisão, precisa-se
Na sua permanente luta contra a praga da discordância verbal em frases contendo como sujeito o pronome relativo “que” (recordemos ter Camões escrito em Os Lusíadas “Era este Catual um dos que estavam corruptos pela Maumetana gente” e não “Era este Catual um dos que estava corrupto pela Maumetana gente”), o provedor regista mais alguns casos recentes retirados da leitura ocasional do PÚBLICO: “É daquelas coisas que acontece e contra a qual ninguém pode fazer nada” (P2, 24 de Maio, pág. 16); “Uma das razões que tem levado os supervisores financeiros a olhar à lupa para o grupo” (20 de Maio, pág. 41); “Um dos empresários que se mostrava mais agastado com a situação” (PUBLICO.PT, 13 de Maio); “Uma mulher chora a morte de um neto numa das escolas que colapsou” (17 de Maio, pág. 17 – legenda de foto); “Um dos vários livros que preserva frases dessa época” (P2, 10 de Maio, pág. 5); “É daquelas coisas que mais profundamente afecta o inultrapassável ego de Mourinho” (2 de Maio, pág. 38); “Um dos descompassos que contribuiu para reforçar o sentido do trajecto” (P2, 24 de Abril, pág. 9); “Uma das ideias que caiu” (P2, 20 de Abril, pág. 7); “Na verdade é uma das formações que melhor merece essa classificação” (P2, 14 de Abril, pág. 9); “O escândalo sexual coloca em causa a carreira de um dos homens que transformou a Fórmula 1” (6 de Abril, pág. 33); “José António Camacho não é daqueles treinadores conhecidos por ser um mestre de táctica” (11 de Fevereiro, pág. 31).
Publicada em 25 de Maio de 2008
DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR
Explicações de José Manuel Fernandes:
As normas do Livro de Estilo resultam da doutrina de acordo com a qual um jornalista deve ser o mais imparcial possível mesmo sabendo-se que, como ser humano, por definição subjectivo, este olhará sempre para a realidade que descreve de acordo com as suas referências e preocupações. Ou seja, mesmo fazendo um esforço para se abstrair dos seus preconceitos pessoais ou ideológicos, dificilmente deixará de dar mais importância ao que sente ser mais importante. Isto não significa que tenha um “agenda” ou que deixe conspurcar os seus textos em função das suas prioridades políticas, antes que nunca se consegue abstrair por completo do que é e do que sente. Ao filtrar o que é mais importante num simples press-release qualquer jornalista deve avaliar o que nele é mais relevante para aqueles a quem se dirige, acto que implica um julgamento naturalmente subjectivo.
Colocando os temas de outra forma, o jornalista persegue a objectividade sabendo que esta é virtualmente inalcançável devido à sua própria subjectividade, razão pela qual deve realizar um esforço acrescido de imparcialidade.
Para o leitor perceber melhor, um exemplo concreto: ajuizar se, num jogo de futebol, houve ou não grande penalidade. Sabemos que duas pessoas imparciais, alheias às paixões clubísticas, podem ver e rever a jogada e não estar de acordo porque podem divergir sobre, por exemplo, se houve mão na bola intencional ou bola na mão involuntária. Sendo o caso claro – a bola bateu na mão de um defesa dentro da grande área –, a leitura sobre se essa ocorrência deve ou não dar origem a uma grande penalidade pode diferir conforme a experiência do observador não apaixonado. Basta – imaginemos - que tenha jogado como defesa e protagonizado uma situação semelhante. Contudo, se podemos imparcialmente não chegar a acordo, e isso é legítimo, aquilo que as regras do jornalismo interditam é que sejamos parciais em função da nossa opção clubística.
Feito este brevíssimo enquadramento, é para mim claro que o texto a que se refere o leitor Gabriel Silva violou as regras do bom jornalismo e não cumpriu com o recomendado no Livro de Estilo. O caso em apreço não remete para nenhum valor fundamental da vida em sociedade, pelo que se exigiria sempre uma leitura mais distanciada e não adjectivada ou valorativa da compra da Oficina do Livro pelo Grupo Leya.
É certo que o jornalismo permite diferentes graus de subjectividade, mas estes têm de ser claros para o leitor. O texto de uma notícia deve ser o mais imparcial possível e não deve estar contaminado por qualquer preconceito (como, por exemplo, o de que é melhor existirem pequenas editoras do que grandes grupos editoriais). Uma notícia mais detalhada poderia ouvir opiniões diversas sobre essa ocorrência, exigindo o Livro de Estilo que os juízos qualitativos devem sempre ser atribuídos fontes identificadas (um pequeno editor, por exemplo), não devendo passar “de contrabando” no corpo da notícia. Já num trabalho de análise – ou naquilo a que na imprensa anglo-saxónica se designa por news analysis – o jornalista tem a possibilidade de, mesmo sem escrever um comentário onde exprime as suas opiniões, seleccionar as opiniões que se enquadram melhor na sua própria análise, assim a sustentando.
Infelizmente estas distinções, muito claras na imprensa anglo-saxónica, nem sempre são respeitadas no PÚBLICO, ocorrendo por vezes que a adjectivação numa notícia ultrapassa o limite do que temos por adquirido. De novo, um exemplo: podemos considerar um adquirido que Hitler, Estaline ou Salazar governaram de forma ditatorial, se bem que existem enormes diferenças entres estes regimes, mas já é mais discutível que possamos classificar o ex-candidato presidencial John Edwards como um populista (com já aconteceu numa notícia do PÚBLICO) ou que classifiquemos, numa notícia ou reportagem, as políticas de José Sócrates como, digamos, neoliberais (algo que julgo nunca ter acontecido a não ser quando se cita alguém que tem essa opinião).
A recente remodelação gráfica do jornal procurou encontrar fórmulas que permitam ao leitor distinguir de forma clara o que é uma notícia, uma reportagem, uma análise ou um comentário, mas a verdade é que nem sempre isso é bem concretizado, e há mais textos onde, contra o que estabelece o Livro de Estilo, a adjectivação do jornalista transforma o que devia ser uma notícia seca (eventualmente acompanhada de um comentário claramente separado pelo estilo e pelo grafismo) quase num texto de opinião.
Aí já não há a desculpa da subjectividade – há o erro da leitura parcial, para não dizer facciosa.
JMF
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Secção: Crónicas
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Caça-gralhas (V)
Envio um extracto de um texto publicado hoje no PÚBLICO, na secção de opinião de Graça Franco (pág. 51):
“Assistimos a um crescendo de violência doméstica entre jovens nos mais diversos extractos sociais”.
Claramente houve um extracto errado e estratificado.
Manuel Ferreira dos Santos
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Secção: Homepage
domingo, 18 de maio de 2008
A voz do público
Alguns reparos críticos de leitores que, a serem acatados, poderiam melhorar o PÚBLICO
Escreve o leitor Gabriel Silva: “A coluna ‘Sobe e desce’, publicada na última página, nunca vem assinada, o que me parece descabido e estranho, na medida em que nela se faz um destaque e se emite um juízo de valor ou opinião. Por uma vez, no dia em que José Pacheco Pereira foi director [5 de Março último], o mesmo assinou tais textos. Com esse indicador, dever-se-á pressupor que tal artigo é feito pelo director ou pela direcção? Seria desejável que de uma forma ou de outra alguém passasse a assumir as posições vertidas naqueles artigos, tanto mais que nem sempre se percebe os respectivos critérios ou juízos de valor”.
Não sendo assinada, esta secção, onde se emitem juízos subjectivos sobre figuras públicas, assume valor de editorial (num jornal onde, curiosamente, os editoriais são assinados). É essa a intenção? O provedor colocou a questão ao director do PÚBLICO, mas não obteve resposta. Seria bom a direcção do jornal clarificar o assunto. Sublinhe-se que o Livro de Estilo do PÚBLICO não prevê a existência de espaços de opinião não assinados (ponto 6 do capítulo “Os factos e a opinião”). Estabelece ainda o ponto 12 dos “Princípios gerais” que os textos de opinião, “quer os dos colunistas regulares quer os dos ocasionais, devem identificar o seu autor (...)”.
O espaço do caderno P2 reservado ao anúncio da programação do dia relativa à televisão por cabo tem sido algumas vezes preenchido, ao invés, por publicidade. Reclama o leitor Eugénio de Sousa: “A informação sobre programação de TV nos jornais não só não é desprezível como é útil (...). Pergunto se será razoável, ou mesmo legítima, a substituição esporádica da informação, que os leitores habitualmente esperam, por publicidade”.
A programação de TV (tal como, por exemplo, a informação sobre a meteorologia ou as farmácias de serviço) faz parte do serviço básico prestado pelo jornal aos leitores, que se habituam a encontrá-la no sítio certo com a regularidade certa. Não faz sentido a sua interrupção colocando a publicidade como valor mais elevado. Sendo certo que os anúncios são cruciais para a viabilidade do jornal, os seus responsáveis deveriam procurar soluções que não prejudicassem a continuidade desse serviço.
Por falar em TV, Rogério Togeiro reparou na seguinte contradição na edição de 25 de Abril do suplemento “Economia”: “Na pág. 12, está escrito no primeiro parágrafo do artigo ‘Televisão e companhia’: ‘Nos dias que correm, poucas são as casas em que os quatro canais generalistas persistem estóica e teimosamente sós’. Mas na pág. 13, no sétimo parágrafo do artigo ‘TDT é mais uma alternativa’, fala-se do que ‘acontece ainda hoje com cerca de 60% dos portugueses, que no pequeno ecrã assistem apenas às emissões da RTP, RTP2, SIC e TVI". E pergunta: “Qual das afirmações está errada? E o que está escrito no resto dos artigos estará correcto?”
Embora de jornalistas diferentes, os dois artigos integram o mesmo dossiê, pelo que uma edição atenta deveria eliminar este tipo de incongruências.
Uma questão já antiga, envolvendo o suplemento “Digital” do PÚBLICO (entretanto desaparecido), mas que o provedor não quer deixar em claro, foi suscitada por um leitor anónimo acerca da edição de 20 de Janeiro, onde se convidou um painel exterior à redacção para uma avaliação qualitativa dos sites de museus portugueses (pág. 9): “Para mim é muito grave o facto de não se ter informado os leitores que um dos elementos do júri é da empresa responsável pela construção da presença web do Museu de Serralves, eleito como ‘o melhor’. É curioso como a ‘avaliadora’ da Seara.com não se inibe de comentar a qualidade do site de Serralves feito pela Seara.com, sem o seu vínculo ser minimamente mencionado. Eu, que tenho alguns conhecimentos desta área, identifico a falha. Mas, fico com muito receio de estar a ser mal informado em todos os assuntos noticiados pelo PÚBLICO.
Acho que a escolha dos ‘especialistas’ que comentam notícias é um dos aspectos mais opacos do jornalismo actual. Gostaria de saber qual é o protocolo do PÚBLICO neste aspecto. Existem algumas regras para salvaguardar interesses?”
Pedro Ribeiro, ex-editor do “Digital”, e o jornalista Hélder Beja, autor do artigo em causa, esclareceram o provedor que nem um nem outro sabiam da ligação entre a Seara e Serralves. Lamentou o segundo: “Procurei que profissionais ligados à construção de sites colaborassem (...). Entre as empresas contactadas esteve a Seara, reconhecidamente importante na área. (...) O site do Museu de Serralves foi o que melhor cotação mereceu – não apenas da Seara mas de todas as partes ouvidas. O erro da minha parte, que assumo: não fiz um match entre as empresas/profissionais que contactei e os responsáveis pela construção das ditas páginas web. Em nenhum momento a empresa, que sabia quais os objectivos do trabalho, me informou de que o site era da sua autoria. Não serve para desculpar a minha falha mas é um comportamento igualmente reprovável. Compreendo a posição do leitor. Eu mesmo fiquei indignado quando soube do sucedido”. Acrescenta o editor: “Se tivéssemos sabido da associação entre a Seara e o Museu de Serralves, teríamos procurado outra pessoa; ou, no mínimo, teríamos identificado claramente essa ligação. Não sabíamos, e não o fizemos. Erro nosso”.
Quanto às regras que o PÚBLICO deve seguir neste tipo de situações, elas pautam-se naturalmente pela salvaguarda da sua independência, pedra de toque do estatuto editorial do jornal, que não foi desta vez devidamente acautelada.
Particularmente irritante para um autor (e disso também já se queixou o provedor) é quando quando a revisão altera para mal o que estava bem. Assim parece ter acontecido com a crónica de Frei Bento Domingues publicada ao lado desta página a 13 de Abril. O caso já foi abordado no blogue do provedor, mas vale a pena retomar aqui o protesto enviado pela leitora Mariana Mendes Pereira no próprio dia: “Estranhei de tal modo as últimas palavras desta crónica que entrei, de imediato, em contacto com o Frei Bento, que logo me sossegou e esclareceu. Os senhores já têm apresentado gralhas, o que sendo lamentável pode ser desculpável. Na crónica de hoje, porém, não se trata de uma gralha. É algo de muito grave! Introduziram o artigo “a” na frase final: “Nós somos Igreja” [“Nós somos a Igreja”]!. Não perceberam que alteraram o sentido da frase? Se, por acaso, tivessem alguma dúvida, por que não esclarecê-la com o autor? Como podem fazer isso? Quem, entre os vossos colaboradores, se imagina na cabeça do autor a ponto de mudar o sentido dos seus textos?! Que credibilidade oferecem aos leitores? No mínimo, o que podem fazer é apresentar uma rectificação já amanhã, alterar o texto na edição online e pedir desculpa ao autor com a maior urgência”.
Tanto quanto o provedor se pôde aperceber, a rectificação nunca foi feita.
Por fim, de novo a difícil relação dos jornalistas com os números. Ontem mesmo, Arie Somsen enviava ao provedor a seguinte reclamação: “No suplemento ‘Economia’ [da passada sexta-feira], escreve R.A.C., na pág. 2, sob o titulo “A mão que embala o bolso”, que 193 milhões de dólares são 300 milhões de euros. Vai repetindo o erro mais umas vezes [quatro, contou o provedor]. Já tenho notado que o forte da maioria dos jornalistas não são as contas; no entanto, deveria haver alguém a chamar a atenção de que, se um euro é igual a 1,55 dólares, deveria dividir a verba em dólares para obter o valor em euros, e não multiplicar. Mais grave ainda num suplemento de economia”.
Vai de facto uma enorme distância entre 300 milhões de euros e 123,905 milhões, que é quanto valiam 193 milhões de dólares ao câmbio de ontem. Há sites na internet que fazem a conversão directa, sem nenhum esforço para o jornalista.
CAIXA:
Lost in translation
Esta expressão inglesa, que não encontra equivalente no nosso idioma, indica o muito que se perde quando se traduz de uma língua para outra. Não vale a pena perder ainda mais por uma má tradução, o que porém acontece com frequência no nosso jornalismo, obrigado constantemente a consultar fontes escritas e orais de língua inglesa.
Ainda há pouco, o leitor Marques da Silva alertava para a qualidade da tradução do artigo "A vulnerabilidade moral dos mercados", de Robert Skidelsky, publicado na pág. 15 do caderno “Economia” de 11 de Abril. E mencionava um exemplo (já abordado no blogue do provedor): a frase ‘the simplest way of doing this is to restrict advertising” era traduzida como “a publicidade é a forma mais simples de o conseguir”, quando se queria dizer o contrário, “a restrição da publicidade é a forma mais simples de o conseguir”.
Já esta semana, outro leitor, Carlos António Acabado, reclamava, a propósito do artigo "Israel e os seus mitos 60 anos depois", da “Pública” de domingo passado, quanto à tradução de declarações de entrevistados ou referências a livros. “Na pág. 30, fala-se da ‘coragem e ingenuidade do Haganah’. Ora, ou muito me engano ou esta ‘ingenuidade’ é filha... ‘bastarda’ (...) do termo ‘ingenuity’, que hoje, só, digamos, por grande ‘distracção’ se ‘traduz’ (...) por ‘ingenuidade’. Se há coisa, de resto, que o Haganah e o ‘primeiro Israel’ moderno não foram (nem são!) é ingénuos... ‘Engenhosos’, para não dizer ‘astutos’ e mesmo ‘manhosos’, ah isso sim, com certeza”. Noutro ponto (pág. 33), fala-se da “condescendência dos judeus que tinham emigrado para a Palestina em relação às vítimas do Holocausto”, quando, como considera o leitor, “’condescend’ (...) significa basicamente ‘olhar alguém ou alguma coisa com algum desdém ou distanciamento’, ‘com altivez’, ‘com desafectação’, ‘com sobranceria’. Ou seja, a atitude referida seria de paternalismo, não de condescendência.
Talvez seja por isto que o “Inimigo Público” prefere não traduzir os cartoons internacionais que publica, atitude elitista que segrega parte significativa dos leitores. Que tal serem, ao menos, bilingues?
Publicada em 18 de Maio de 2008
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Secção: Crónicas
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Anual ou mensal?
Continuo a não pretender encontrar erros no PÚBLICO, mas aparecem, e na 1ª pág. Na notícia "Famílias gastam mais 800 euros/ano com alta de preços": "(...) e o agravamento da factura (...) pode chegar ao final de 2008 aos 1200 euros mensais". Não percebi nada e foi necessário passar à pág. 2: "(...) e o agravamento da factura (...) pode chegar no final de 2008 aos 100 euros mensais".
Augusto Küttner de Magalhães
Porto
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