No "Escrito na pedra" do P2 de hoje [3] escreve-se que Júlio César foi imperador romano. Qualquer pessoa medianamente culta sabe que César nunca foi imperador, que o primeiro imperador foi Octávio. Conclusão: como se comprova tantas vezes, o PÚBLICO tem jornalistas que nem chegam a ser medianamente cultos.
João Vasconcelos Costa
sábado, 10 de maio de 2008
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A independência de um jornal
Parabéns pela inserção do comentário "Bob Geldof, cidadão angolano" [de Miguel Gaspar, 8 de Maio, pg. 52]. Demonstra distanciamento relativamente ao poder politico e à tenebrosa ligação entre ele e os grandes interesses económicos. Muito foi dito, mas sobrou muito mais por dizer: os interesses no Algarve (Castro Marim - Altura), os "testas-de-ferro" em Portugal, a escandalosa maneira como se movem aqui os protegidos do governo de Luanda, a maneira arrogante, abusadora e intencionalmente grosseira como se comportam alguns cidadãos angolanos, ricos sem que se lhes conheça de onde vem o dinheiro e aos quais os bancos não questionam a origem.
No fim fica esta questão:
Tem o PÚBLICO o mesmo distanciamento (publicando-os) quando a ele dirigimos os nossos comentários, mesmo que os mesmos, apesar de legítimos, possam de alguma forma "chamuscar" os interesses do seu grupo?
Rui Figueiredo
(assinante versão PDF)
NOTA DO PROVEDOR: Se o provedor não acreditasse que o PÚBLICO possui esse distanciamento, não ocuparia o cargo.
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Desespero de um leitor
PÚBLICO de quinta-feira, 8 de Maio, página 3, destaque sobre o novo Museu do Oriente (tema que muito me interessa; li o destaque com curiosidade). Mas dizia: artigo de Lurdes Ferreira. Título: "Fim das receitas do jogo obrigaram a diversificação". O FIM (...) OBRIGARAM??? Decididamente, a luta continua. Enfim, a minha, claro..., e o desespero aumenta, meu Deus!
José Oliveira, Cruz Quebrada
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A gravidez de Carolina
Não me parece muito curial que, querendo o PÚBLICO ser um jornal de referência, dê uma notícia sobre a gravidez da Carolina Salgado! Bem sei que é no P2 [9 de Maio, pg. 16], mas, mesmo assim... Acho que é o género de notícias mais da esfera do 24 Horas (sem desprimor para o 24 Horas, claro). Penso e espero que os leitores do PÚBLICO pouco se interessarão pelas actividades da Srª Salgado. É o tipo de notícias que em França se diria que são para os chamados jornais de concierge, que acredito não seja o objectivo do PÚBLICO. E que o PÚBLICO não deve deixar-se arrastar para um certo populismo da notícia, que realmente não deve ser para o seu público alvo.
Paula de Oliveira
NOTA DO PROVEDOR: Um jornal generalista tem forçosamente de ser variado nos temas que aborda. Carolina Salgado ganhou estatuto de figura pública, sendo natural a curiosidade da opinião pública (e portanto dos media) sobre a sua figura. Tudo depende da projecção que se dá à história. Neste caso, está equilibrada nos parâmetros da linha editorial do PÚBLICO.
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quarta-feira, 7 de maio de 2008
Os golos "irregulares" do FC Porto
O jornalista do PÚBLICO Jorge Miguel Matias, autor do texto “Uma vitória regular do FC Porto com dois golos irregulares”, analisado na última crónica do provedor, enviou a este o seguinte esclarecimento posteriormente à publicação dessa crónica:
Segundo sei, entrou em contacto com o editor do Desporto na tentativa de obter uma resposta para as cartas recebidas em relação a uma crónica de jogo de minha autoria, não tendo recebido uma reacção em tempo útil. Refiro-me à crónica da partida entre o Vitória de Setúbal e o FC Porto, publicada na edição do dia 13 de Abril.
Confesso que esperava ter sido directamente contactado pelo provedor, uma vez que sou o autor do texto. Por isso, aproveito para manifestar a minha estranheza por tal não ter sucedido.
Agora os factos.
O título da crónica do jogo está errado. Isto porque as imagens televisivas comprovaram posteriormente que o primeiro golo do FC Porto é legal e não ilegal, como foi escrito. Trata-se portanto de um erro grave, porque induz em erro o leitor e deveria ter sido alvo de um PÚBLICO errou. E do qual, obviamente, me penitencio e apresento as minhas desculpas.
Posto isto, não pretendendo justificar mas sim explicar o erro, desejo acrescentar o seguinte.
Pergunta um dos leitores: “E o jornalista não teve pelo menos uma ligeira dúvida antes de ditar a sua sentença e de a destacar em título do artigo?” Sim, teve uma ligeira dúvida, até porque as condições de trabalho no Estádio do Bonfim estão longe de ser as ideais para analisar lances de alegado fora-de-jogo. Por isso ligou para a redacção e falou com um colega. Fê-lo, precisamente, para esclarecer a dúvida recorrendo às imagens televisivas. E a resposta que obteve foi a de que o golo era irregular.
Mas, para além desta “confirmação”, o jornalista estava a acompanhar o jogo também pelo relato da Antena 1. E nessa estação de rádio é comentador residente para a arbitragem o ex-árbitro internacional Jorge Coroado, referido pelo leitor como tendo escrito na edição do dia seguinte no jornal O Jogo que o golo era regular. Só que ao longo dessa emissão de rádio, e recorrendo às imagens televisivas, esse mesmo árbitro considerou o golo irregular. Aparentemente, mudou de opinião posteriormente. Mas, em antena, a sua avaliação do lance foi a de que se tratava de uma jogada irregular, talvez porque as primeiras imagens televisivas davam a entender que o lance era, de facto, irregular.
Em suma.
O jornalista teve dúvidas em relação ao lance e para as esclarecer fez exactamente o que foi sugerido por um outro leitor. Utilizou o telemóvel e ligou para a redacção à procura de uma segunda opinião fundamentada em imagens televisivas e recolheu a informação de um ex-árbitro internacional. E as duas opiniões foram coincidentes, servindo de base ao título e à crónica de jogo. Já em relação ao recurso à internet, ele era simplesmente impossível. De facto, estamos na era da world wide web, mas o computador portátil que foi entregue ao jornalista para a cobertura do jogo não permite o acesso à internet.
Mais.
Esse mesmo computador pura e simplesmente não funcionou. Ou seja. Toda a crónica e o positivo e negativo do jogo tiveram que ser ditados para a redacção. Uma situação excepcional, tanto mais grave quanto o facto de a partida se ter iniciado às 21h15, terminando pouco depois das 23h. Se em condições normais já há muito pouco tempo para enviar os textos dada a proximidade da hora de fecho, numa situação destas tudo se complicou e impossibilitou uma eventual reponderação de um lance que, por intermédio de duas fontes autónomas, tinha merecido uma interpretação semelhante.
Por último.
Mesmo partindo do princípio de que os dois golos do FC Porto tinham sido obtidos de forma irregular (comprovou-se depois que isso não tinha sucedido no primeiro caso), a crónica reflecte a justiça do resultado que se verificava até ao intervalo. “A forma tortuosa como o FC Porto conseguiu uma vantagem tão ampla não tira mérito à equipa de Jesualdo Ferreira, que até esta altura foi a melhor equipa em campo”, lê-se na crónica.
Assim, à parte o erro factual que não tem justificação (porque é um erro), aqui fica a explicação para o erro. Uma explicação que serve apenas para deixar claro que não faço processos de intenção em relação a qualquer clube, nem tenho ideias preconcebidas sobre quaisquer equipas de futebol. Apenas erro, como qualquer ser humano. Mesmo tentando prevenir um eventual erro, como foi o caso.
Jorge Miguel Matias
NOTA DO PROVEDOR. O provedor agradece a explicação do jornalista, assim como o reconhecimento das falhas havidas, e esclarece que não o contactara previamente porque lhe pareceu, nos casos analisados, estar-se em presença de uma questão de política editorial, pelo que resolvera escrever directamente ao editor de secção (o qual, como foi dito na crónica, não respondeu a tempo, mas que, em nota posterior enviada ao provedor, afirmou pensar que essa crónica era para publicar mais tarde). Por essa razão, o nome dos autores dos textos em causa não era aliás mencionado na crónica. A narrativa de Jorge Miguel Matias sobre a forma como construiu o seu texto leva o provedor a reforçar a recomendação de mencionar outras fontes quando se faz referência aos chamados casos do jogo.
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terça-feira, 6 de maio de 2008
O paralelismo petróleo/combustíveis
O PÚBLICO refere com chamada de primeira página da edição de 1 de Maio ["Combustíveis sobem menos que o petróleo no curto prazo, mas sobem mais no longo prazo", de Lurdes Ferreira, pg. 38] uma comparação entre os preços dos combustíveis e o do petróleo brent, onde é dito que os primeiros subiram menos que o segundo (em termos percentuais) desde o início do ano.
1. A comparação que é feita não faz qualquer sentido - e este é um erro que ultimamente tem sido frequente na imprensa, com o pão por exemplo - porque o preço do brent não é o único factor a determinar o preço dos combustíveis. Há os preços de transporte do petróleo, de refinação, da distribuição dos combustíveis, de funcionamento das bombas, de mão-de-obra, impostos não-proporcionais, etc.. etc.. etc.. Isto é, nem seria sequer de esperar que a variação do preço fosse a
mesma.
2. A comparação que é feita não faz qualquer sentido porque o petróleo negociado hoje não é o combustível vendido amanhã. O preço negociado não são preços para entregas imediatas, há depois o transporte, há depois a refinação, há depois a distribuição. Não sei qual o tamanho exacto deste hiato temporal (alguns meses provavelmente), mas não será certamente zero. Isto é, deveria comparar-se os preços do combustível com o brent de uns meses atrás.
3. Por fim, um enorme disparate, que cheira a intenção política: "Consoante a perspectiva e os números usados, os portugueses têm e não têm razão de queixa, havendo apenas dois pontos sem discussão:(...) segundo, a carga fiscal, sobretudo com o aumento do IVA de 19 para 21 por cento, ajudou muito". Quando o aumento em causa é de 100% no gasóleo e 61% (desde 2000), insistir neste aumento do IVA (eu até me lembro de dois aumentos do IVA, mas a Lurdes Ferreira lá sabe porque será que só um é que conta), que levou a um aumento de 1,7% no preço ao consumidor, é ridículo.
Miguel Carvalho
O provedor solicitou esclarecimento à autora do texto, que escreveu o seguinte:
O artigo em questão partiu da alegação frequente, nos últimos meses, segundo a qual o preço da gasolina/gasóleo está a aumentar mais do que o do petróleo e que as petrolíferas estão a repercutir esse aumento de forma imediata e ignorando a diferença euro/dólar. Na quarta-feira, as reclamações ouvidas eram ainda mais frequentes, inclusive na redacção do jornal, face à reacção das petrolíferas assim que o petróleo (WTI) tocou no patamar dos 120 dólares. O artigo pretendeu mostrar se a ligação percepcionada se manifestava ou não nos números no curto e no longo prazo: um objectivo muito definido e limitado.
Primeiro passo, a lista mais recente de aumentos de preços dos combustíveis, em euros. Apesar de, durante todo o dia de quarta-feira, se ter afirmado que tinha havido 14 aumentos de preço e três descidas desde o início de Janeiro, o PÚBLICO, que teve acesso à lista, verificou que ela começava a 31 de Janeiro, e não no dia 1. Foi essa lista que usou e com essa explicitação no texto.
Segundo passo, os preços do brent, em euros. Para o efeito, o PÚBLICO utilizou os preços do fecho do mercado do brent entre um a três dias anteriores aos dos aumentos dos combustíveis (consoante os dias disponíveis das bolsas, por causa dos fins-de-semana). Este pormenor poderia ter constado de uma nota de rodapé no quadro. O resultado da comparação é descrito no texto. Findo o regime administrativo de preços máximos (31 de Dezembro de 2003), que impunha uma fórmula de cálculo que fazia com que os preços em Portugal diferissem em cerca de três semanas em relação aos europeus, as petrolíferas transferem agora mais rapidamente os aumentos. Se fosse este o objectivo do trabalho, ter-se-iam procurado outras variáveis, já que as petrolíferas afirmam que actualizam mais os seus preços em função dos preços internacionais da gasolina e dos produtos refinados do que em função do crude. Nesse sentido, o leitor tem razão quando afirma que o preço do brent não é o único factor a determinar o preço dos combustíveis na Europa.
Terceiro passo, olhar para o longo prazo, em euros. Foi escolhido o ano 2000 como referência, por permitir uma perspectiva longa, e por ser ainda um ano de preços baixos. Os dados comparados estão disponíveis no site da Direcção-Geral de Energia e reportam ao ano 2000 (média) e a Março de 2008 (média). O gráfico publicado falha na referência das datas e de se tratarem de médias. O resultado da comparação é também descrito no texto.
A aparente contradição que resultou deste exercício surpreendeu, justificando o destaque na peça e o cuidado quanto à sua leitura, referindo-se, por isso, que era “consoante a perspectiva”. Admito que a metodologia podia ser mais exigente, mas o artigo estava condicionado pelo “tempo” da informação. Por outro lado, sabemos como os números escapam frequentemente a leituras lineares. A associação que reúne os interesses das petrolíferas, a Apetro, tem no seu site contas semelhantes, mas escolhe o ano de 2002 e Março de 2008 e o resultado volta a “baralhar”, com um aumento dos preços da gasolina 95 inferior ao aumento das cotações do crude, neste período.
O leitor tem também razão quanto à falha na referência do primeiro aumento do IVA de 17 para 19 por cento, quando Manuela Ferreira Leite era ministra das Finanças.
Não sei a que o leitor se refere quando afirma que o artigo “cheira a intenção política”.
Lurdes Ferreira
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domingo, 4 de maio de 2008
Filhos de um jornalismo menor?
O Livro de Estilo do PÚBLICO não prevê nenhuma excepção ou tratamento diferenciado para a informação desportiva
Em 23 de Abril de 1939, FC Porto e Benfica enfrentaram-se na cidade nortenha num dos mais dramáticos desafios da história do futebol português. Era a última jornada do Campeonato da I Liga, que o FC Porto liderava com um ponto de vantagem sobre os encarnados. O empate bastava por isso à equipa da casa, enquanto os lisboetas estavam obrigados a ganhar. O Campo da Constituição transbordava e muita gente não havia conseguido entrar. A um minuto do termo de um jogo disputado taco-a-taco, o marcador registava 3-3, quando o Benfica obteve o golo que podia dar-lhe o título. O árbitro anulou-o porém, alegando que o autor agarrara um adversário antes de atirar à baliza, e, perante o desespero benfiquista no terreno, o campeonato acabou por ficar nas mãos do FC Porto. Mas a revista Stadium, que nesses tempos anteriores à fundação de A Bola (e, para não ferir susceptibilidades, do Record e de O Jogo), era a bíblia do futebol nacional, publicaria uma foto provando que “o ‘homem que agarrou’ só poderia ter agarrado a sua sombra”. Reacenderam-se os ânimos: na capital, organizava-se uma homenagem à equipa vítima da “injustiça”, enquanto no Porto se acusava a Stadium de “falsificação”, pouco faltando para, nas ruas, se destruir a revista em auto-de-fé.
Depois dos árbitros e das suas mães, os jornalistas desportivos deverão ser as pessoas mais vilipendiadas pelos adeptos do futebol. Num país onde as sensibilidades clubísticas estão à flor da pele, os próprios jornalistas não costumam ajudar a pacificar o ambiente, com os seus julgamentos categóricos acerca do que num jogo está certo e errado, as suas classificações absolutas sobre a actuação dos árbitros e o seu escasso empenho em fazerem o contraditório ao emitirem arrasadoras sentenças sobre os comportamentos no relvado.
Estão aliás no seu direito, à luz da liberdade de expressão. O problema é quando tais atitudes comprometem os estatutos editoriais dos respectivos órgãos de informação, se estes preconizarem a isenção, a equidistância, a comprovação dos factos ou a audição das partes visadas nas notícias. As secções desportivas de muitas redacções parecem um mundo à parte, com os seus códigos distintos dos dos restantes jornalistas. É habitual, por exemplo, ver repórteres condenarem sumariamente decisões dos árbitros em órgãos de informação onde seria impensável fazer-se o mesmo perante as sentenças judiciais.
Um título recente do PÚBLICO, na pág. 35 da edição de 13 de Abril, indignou sobremaneira alguns leitores. Aí se escrevia: “Uma vitória regular do FC Porto com dois golos irregulares”. E a respectiva notícia era desenvolvida no mesmo tom, dos “dois golos irregulares [que] deram a vitória ao FC Porto frente ao Vitória de Setúbal, ontem no Bonfim”: primeiro, “por Lisandro, que, em posição irregular, inaugurou o marcador”; depois, por Mariano, numa “jogada em que o sul-americano ajeitou a bola com a mão sem que o lance tivesse sido sancionado pela equipa de arbitragem”. Em suma, uma ampla vantagem obtida de “forma tortuosa”.
A partir de Bruxelas, o leitor Manuel Leal escreveu logo no próprio dia ao provedor, “surpreendido” e “chocado” pelo título: “Vi o jogo e os dois golos pareceram-me regulares”. E desenvolvia: “Claro que a arbitragem não é uma ciência exacta, e até dois árbitros competentes analisam frequentemente o mesmo lance de formas diferentes. Mas neste caso parece-me que há erro clamoroso do jornalista. E, como não tenho competência especial na matéria, socorro-me dos quatro árbitros internacionais de um diário desportivo que analisam hoje também os mesmos lances (Jorge Coroado, Soares Dias, Rosa Santos e António Rola, em O Jogo [online]): quanto ao primeiro lance, depois de visualizarem as repetições, todos consideraram o golo regular; quanto ao segundo, dividiram-se a meio, dois considerando que houve falta e dois que o golo foi limpo”. Remate do leitor: “E o jornalista não teve pelo menos uma ligeira dúvida antes de ditar a sua sentença e de a destacar em título do artigo? É que espalhou-se ao comprido numa matéria em que deveria ser especialista”.
Colocado antes no PUBLICO.PT, o mesmo relato já havia suscitado não poucos comentários críticos. O que levou o assinante Luís Valente a reclamar junto do provedor: “É inadmissível que, apesar dos imensos protestos dos leitores, o texto online tenha sido mantido inalterado pelo menos durante grande parte do dia, induzindo os menos informados em erro”. E que erro era esse? “Qualquer pessoa que perceba o mínimo dos mínimos deste desporto (e veja as imagens...) consegue ver que é mentira o que o jornalista escreveu e que o primeiro golo foi perfeitamente legal”. Quanto ao segundo, tratou-se de um “lance duvidoso em que até árbitros discordam na análise”.
E o mesmo leitor discorre sobre esta “falha grave” na origem da “notícia falsa”: “Compreendo que noticiar desporto não é tarefa fácil porque, por vezes, o mesmo acontecimento pode ter diferentes interpretações. Nesses casos um jornalista responsável deve ser cuidadoso na análise e falar em dúvidas... (…) Não entendo como, na era do telemóvel e da internet, o jornalista não foi capaz de confirmar as suas impressões antes de enviar o texto que escreveu para publicação”.
Mas é preciso sublinhar que, neste terreno minado dos relatos desportivos, os adeptos podem prender um jornalista por ter cão e por não o ter. Situações existem em que os repórteres dão por válidas as decisões dos árbitros para logo surgirem protestos de leitores. Na notícia “Dois avançados, dois penáltis e o Benfica encontrou a vitória” (pág. 31 da edição de 11 de Fevereiro), sobre um jogo na Luz com o Paços de Ferreira (4-1), o jornalista assumiu a autenticidade dos penáltis de que fala o título e que o árbitro assinalou. O leitor e assinante Antero Simões Seguro contestou porém, dois dias depois, este “jornalismo de sarjeta”, achando “absolutamente escandaloso que [o PÚBLICO] acoberte na sua redacção pretensos jornalistas que não passam de autênticos papagaios do pirata”.
E porquê tamanha veemência (para lá de considerações insultuosas que aqui não se reproduzem)? Quanto ao primeiro castigo máximo: “Para além de não ter havido qualquer penálti, houve sim falta do avançado do Benfica que afasta (empurra) com o braço direito o defesa do Paços. (…) No fim de contas, o SLB ganhou (mais um) penálti fantasma (…), com o mérito e a ajuda escandalosa do [árbitro] Sr. Augusto Duarte, que, impunemente, levou o SLB ao colo para mais uma vitória”. Sobre o segundo: “Outra aldrabice mal contada. Houve, sim, puxões e agarrões de ambos (um ao outro) e se por este motivo é penálti então deveria haver aí dez penáltis por jogo”. Mas há mais: “E então aquele fora de jogo escandaloso arrancado, ainda na primeira parte, ao jogador do Paços de Ferreira, que ficaria isolado com todas as condições para fazer golo, e isto quando o Paços já ganhava por 1-0? O escriba do rei, claro, nem sequer comenta, passando por esta jogada decisiva, e com evidente influência no resultado, como cão por vinha vindimada. Para ele (e para quem ler), simplesmente não existiu”.
Ambas as reportagens se integram no estilo de cobertura das competições futebolísticas adoptado pelo PÚBLICO, e por isso o provedor procurou ouvir o editor de Desporto da redacção de Lisboa, José Mateus, sobre a linha editorial na matéria. Prometida para sexta-feira última, a resposta não chegou a tempo de integrar esta crónica, o que o provedor lamenta.
Duas passagens das cartas atrás mencionadas põem o dedo na ferida. Escreve Luís Valente: “Muitos consideram que estes erros, por surgirem no jornalismo desportivo, são menores. Não faço parte deste grupo. Um jornal, para ser sério e de referência, não pode conter mentiras, muito menos com chamadas ao título! Estejam elas na secção de desporto, local ou política internacional”. O provedor não lhes chamará “mentiras” (já que verdade e mentira em futebol são categorias quase sempre subjectivas, a que recorrem os facciosos), mas sim, pelo menos em certas situações, abusos de interpretação – e quanto ao resto concorda que o jornalismo desportivo não pode ser encarado como género menor, isento das regras da profissão. Quanto a Antero Seguro, considera que “os relatos dos jogos de futebol não são, nem devem ser, artigos de opinião”. Pensamento judicioso, apesar de não ser esse o caso do artigo onde parece criticar, pelo contrário, a ausência de opinião.
O Livro de Estilo do PÚBLICO não prevê, com efeito, excepção ou tratamento diferenciado para a informação desportiva, pelo que também aqui deverão ser respeitados os seus “Princípios Gerais” de elaboração das notícias “da forma o mais imparcial possível” (ponto 2), do “rigor” como “preocupação central” (ponto 3) e de recurso “aos indispensáveis mecanismos de objectividade”, entre eles a “pluralidade das fontes” (ponto 9). De destacar ainda este aspecto, do subcapítulo “Opinião, interpretação, informação”: “A apresentação dos factos não deve ser ‘enviesada’ por forma a sugerir sub-repticiamente uma conclusão resultante da opinião particular do jornalista”.
Recomendação do provedor. Exceptuando os casos da existência de provas videográficas, o jornalista desportivo do PÚBLICO deveria relatar as competições de forma distanciada, evitando julgamentos pessoais sobre as jogadas e baseando-se antes no testemunho de outras fontes. As decisões da arbitragem, embora a respeitar sempre (por uma questão de civilização), não têm de ser havidas por verdades definitivas (ensina-o o Apito Dourado, entre muitas outras ocorrências).
Publicada em 4 de Maio de 2008
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Secção: Crónicas