(Actualizado em 9 de Fevereiro, sábado, com nova carta e nova resposta)
Na sua réplica ao desmentido que lhe enviámos (“A excepção e a regra”, PÚBLICO de 3 de Fevereiro p. p.), Joaquim Vieira (JV) volta a distorcer o que está estabelecido no Livro de Estilo do jornal, tanto na sua 1.ª edição, de que fomos os autores, como na sua actual versão. Escreveu ele o seguinte:
«Existe algo de esquizofrénico num Livro de Estilo que, por um lado, pede a identificação das fontes “com a maior precisão possível” e, por outro lado, apresenta como única alternativa a omissão total de referência a essas mesmas fontes.»
Convenhamos: se verdadeiramente há «algo de esquizofrénico», é a relação do novo provedor com um Livro de Estilo que, enquanto estiver em vigor, constitui a principal referência técnica e ética para os jornalistas do PÚBLICO. Ou será que os jornalistas passarão a ter de enfrentar, esquizofrenicamente, dois critérios contraditórios: os do Livro de Estilo e os de Joaquim Vieira? É imperioso que a direcção editorial do PÚBLICO esclareça esta matéria e também que explique aos leitores e aos jornalistas do PÚBLICO se a relação conflitual do novo provedor com o Livro de Estilo foi previamente discutida com ele. Fará sentido contratar um provedor que discorda de normas importantes do Livro de Estilo? E, sendo assim, fará sentido ele aceitar o cargo? Já nada nos espanta, tendo em conta a velha hostilidade militante do novo provedor à criação deste diário. Ei-lo, 18 anos depois, investido no papel de grande educador da ética e da deontologia dos jornalistas do PÚBLICO. Não será este um sintoma suplementar – e irónico – de esquizofrenia?
Entretanto, somos forçados a voltar ao assunto, esperando que, desta vez, a nossa resposta seja integralmente publicada, ao contrário do que sucedeu na semana passada. Assim,
a) Não é verdade que, nas condições excepcionais das informações confirmadas sob condição de sigilo, o Livro de Estilo «apresente como única alternativa a omissão total de referência a essas (…) fontes». Bastaria a JV um pouco do rigor que costuma exigir aos outros, uma vez mais:
«(…) o sigilo deverá ser admitido apenas em último recurso e só quando não há outra forma de obter a informação ou a sua confirmação. Nesses casos, e só nesses casos, pode utilizar-se a fórmula “uma fonte do organismo X que solicitou o anonimato” (…). Nos casos excepcionais em que [se] aceita atribuir uma informação não identificada, a despistagem ou protecção do informador deve ser cuidada, mas não enganosa e implica rigor e seriedade.
Rigor: uma fonte não são “fontes”, uma informação prestada pelo dirigente X, pela tendência Y ou pelo MNE não pode ser atribuída indistintamente a “meios clubísticos”, “partidários” ou “diplomáticos” (…).
Seriedade: o leitor tem o direito de saber, por exemplo, que a informação X envolve especificamente a corrente (ou os interesses) Y. Uma declaração ou um comentário nunca devem ser atribuídos a fontes anónimas. (…)
O sigilo deve ser sempre justificado, de modo a não ser pretexto fácil de desresponsabilização do autor ou da fonte de informação. A protecção das fontes determina uma maior responsabilidade do jornalista naquilo que escreve, e nela se joga boa parte da credibilidade do jornal. (…)
As expressões do tipo “várias fontes” não podem ser utilizadas sem que o jornalista as individualize, na mesma notícia. O jornalista deve quantificar de forma exacta as suas fontes (ex.: “duas fontes disseram ao ‘Público’”; “três fontes reconheceram…” [págs. 71-72 e 33-34, respectivamente].»
b) O que está em causa nesta matéria – excepcional, repete-se – da confidencialidade das fontes não é, pois, a «ausência de regras», como fica atrás sobejamente demonstrado – e que, só por si, dispensaria JV de mais uma recomendação… gratuita. O que está em causa são as circunstâncias ainda mais especiais em que o simples recurso à fórmula “fonte próxima de” pode denunciar directa ou indirectamente a origem da informação. Por exemplo, uma informação política. Se ela foi obtida, e confirmada junto de um determinado ministro, sob compromisso de absoluto sigilo, acaso seria mais honesto o recurso sugerido por JV do subterfúgio da “fonte partidária” ou da “fonte bem informada”, em vez da sua assunção pelo jornalista, como advoga o Livro de Estilo do jornal?
c) Ou seja (e foi esta a questão final que deixávamos a JV e a que ele evitou responder, não a transcrevendo sequer na nossa anterior resposta): uma notícia não rigorosa ou simplesmente falsa tornar-se-á mais rigorosa ou verdadeira se o seu autor recorrer a qualquer das fórmulas sugeridas por JV? E o autor ficará mais ou menos responsabilizado perante os seus leitores?
José Mário Costa/Vicente Jorge Silva
(autores da 1.ª edição do Livro de Estilo do PÚBLICO)
RESPOSTA DO PROVEDOR:
O provedor está perplexo com esta carta. Não se trata apenas da hostilidade, que chega a ser insultuosa (e, a esse respeito, a carta define quem a escreve). Trata-se sobretudo da total falta de rigor, invocando regras certamente bem intencionadas mas que, na realidade, não fazem parte do actual Livro de Estilo do PÚBLICO (conferir as tais páginas 33-34, citadas pelos subscritores, do Livro de Estilo, 2ª edição, Lisboa, ed. Público, 2005).
É o que acontece com estas passagens:
«(…) Nesses casos, e só nesses casos, pode utilizar-se a fórmula “uma fonte do organismo X que solicitou o anonimato”.
O leitor tem o direito de saber, por exemplo, que a informação X envolve especificamente a corrente (ou os interesses) Y.
O sigilo deve ser sempre justificado, de modo a não ser pretexto fácil de desresponsabilização do autor ou da fonte de informação. A protecção das fontes determina uma maior responsabilidade do jornalista naquilo que escreve, e nela se joga boa parte da credibilidade do jornal.»
O provedor ignora onde foram Vicente Jorge Silva e José Mário Costa buscar estas normas, admitindo, como hipótese mais benigna, que possam ter integrado a primeira versão do Livro de Estilo – que porém ele não conhece nem tem de conhecer. Com efeito, o actual provedor do leitor é-o do PÚBLICO de hoje, não do PÚBLICO dos anos 90, pelo que é sua obrigação usar como referência apenas o normativo em vigor no seu mandato. O facto é que tais lapsos (hipótese benigna, de novo) dos subscritores (tal como, já na sua anterior carta, a incorrecta colocação da inexistente palavra «sempre» na norma «uma informação deve ser [sempre] atribuída à fonte de origem, identificada com a maior precisão possível») acabam por destruir pela base a sua argumentação, e vir até – decerto involuntariamente – dar razão às considerações do provedor sobre o que considera ser uma insuficiência do actual Livro de Estilo.
Isto quanto à questão substancial. No que respeita ao resto, valerá apenas responder a estas perguntas suscitadas por Vicente Jorge Silva e José Mário Costa: «Fará sentido contratar um provedor que discorda de normas importantes do Livro de Estilo? E, sendo assim, fará sentido ele aceitar o cargo?» Como o provedor escreveu na sua primeira crónica (publicada em 06/01/08), «recorrerei também a esses normativos [Estatuto Editorial e Livro de Estilo do PÚBLICO e Código Deontológico dos Jornalistas Portugueses], não me coibindo, se julgar necessário, de apontar aí fragilidades, deficiências ou contradições e, no caso do Livro de Estilo, de fazer sugestões para o seu aperfeiçoamento.» É com efeito entendimento do provedor que o Livro de Estilo não é a Bíblia sagrada, mas um documento dinâmico e evolutivo, que pode e deve ser melhorado com a experiência e a reflexão (já houve uma revisão, é natural que venham a existir outras – até a Constituição norte-americana sofreu, até hoje, 27 emendas, e a portuguesa vai pelo mesmo caminho). É claro que o guia orientador do trabalho dos jornalistas do PÚBLICO é o Livro de Estilo, não as recomendações do provedor, e que os responsáveis do jornal nem sequer têm a obrigação de seguir essas recomendações (o que também era dito na crónica inaugural). Se, contudo, a reflexão efectuada pelo provedor contribuir para o aperfeiçoamento do Livro de Estilo, ele sentirá ter cumprido uma das componentes mais importantes da sua missão.
Esclarecimento final: o corte de que os subscritores se queixam na sua anterior carta foi feito não pelo provedor, como acusam, mas por quem na véspera fechou a edição do PÚBLICO, presumivelmente por falta de espaço. Porém, o provedor acata inteiramente esse corte. Como sabem Vicente Jorge Silva e José Mário Costa, jornalistas com muitos anos de experiência profissional, o espaço de um jornal é limitado, o que implica muitas vezes a redução de documentos e outros textos, embora mantendo-se o essencial do seu conteúdo. Também a crónica do provedor não é elástica. Para obviar a isso, é que a anterior carta, tal como esta, foi publicada aqui na íntegra.
NOVA RÉPLICA DE VICENTE JORGE SILVA E JOSÉ MÁRIO COSTA:
Joaquim Vieira continua a não responder à questão de fundo que nos levou a confrontá-lo desde que entendeu fazer tábua rasa do que está estabelecido no Livro de Estilo do PÚBLICO, desde a sua fundação: uma notícia não rigorosa ou simplesmente falsa não se torna mais rigorosa ou verdadeira mesmo que “sustentada” na estafada fórmula anónima da “fonte próxima de”.
JV não só não responde a esta questão como deturpa por completo o sentido das transcrições que fazíamos propositadamente das duas edições do Livro de Estilo (a 1.ª, de que fomos os autores, e a vigente, que, no essencial, segue a matriz da edição pioneira – nomeadamente na questão em causa das fontes e do tratamento do off-the-record).
Em qualquer delas se atestava a falsidade recorrente de JV, que “descobriu” que o jornal, imagine-se, nestes 18 anos de existência, primava pela «ausência de regras universalmente aceites»!
Numa e noutra edição – na nossa opinião, de forma bem mais clara, até de consulta, na primeira –, a doutrina é a mesma, variando, por vezes, só a formulação.
Daí, propositadamente, as transcrições que fizemos do que está estabelecido desde sempre no jornal – seja na regra geral da identificação das fontes, seja nos casos excepcionais do anonimato e do off-the-record.
a)
«(…) Uma informação deve ser sempre atribuída à fonte de origem, identificada com a maior precisão possível – nome, idade e profissão, cargo ou função. O jornalista deve bater-se sempre por esse nível de identificação. A identificação – e a individualização – da fonte favorece a autoridade e a credibilidade da informação. (…)» [1.ª edição, pág. 69]
«Uma informação deve ser atribuída à fonte de origem, identificada com a maior precisão possível – nome, idade e profissão, cargo ou função. O jornalista deve bater-se sempre por esse nível de identificação. A identificação – e a individualização – da fonte favorece a autoridade e a credibilidade da informação.» [edição vigente, pág.32]
b)
«(…) o sigilo deverá ser admitido apenas em último recurso e só quando não há outra forma de obter a informação ou a sua confirmação. O sigilo deve ser sempre justificado, de modo a não ser pretexto fácil de desresponsabilização do autor ou da fonte de informação. A protecção das fontes determina uma maior responsabilidade do jornalista naquilo que escreve, e nela se joga boa parte da credibilidade do jornal. (…)» [1.ª edição, pág. 69]
«O anonimato e o off-the-record devem ser considerados excepções e só existem para proteger a integridade e a liberdade das fontes, não são formas de incitamento à irresponsabilidade das fontes. O jornalista deve sempre confrontar a fonte (…)» [edição vigente, pág.33]
«(...) Nesses casos, e só nesses casos, pode utilizar-se a fórmula "uma fonte do organismo X que solicitou o anonimato".» [1.ª edição, pág. 69]
«As expressões do tipo “várias fontes” não podem ser utilizadas sem que o jornalista as individualize, na mesma notícia. O jornalista deve quantificar de forma exacta as suas fontes (ex.: “duas fontes disseram ao PÚBLICO”; “três fontes reconheceram…”» [edição vigente, pág.33]
Pergunta-se, de novo: o que é que há aqui de «esquizofrénico», como escreveu JV («por um lado, pede[-se] a identificação das fontes “com a maior precisão possível” e, por outro, apresenta[-se] como única alternativa a omissão total de referência a essas mesmas fontes»)?
Só mesmo o provedor do “Público” poderá explicar a sua leitura, ditada por uma lógica, essa, sim, que escapa às «regras universalmente aceites».
Não admira por isso que a publicação desta nossa discordância tenha sido desviada do espaço impresso do jornal, sob o absurdo pretexto invocado por JV.
José Mário Costa/Vicente Jorge Silva
RESPOSTA DO PROVEDOR:
O provedor congratula-se por Vicente Jorge Silva e José Mário Costa reconhecerem finalmente que tresleram o actual Livro de Estilo do PÚBLICO e que aquilo que antes insistiam ser seu articulado afinal não está lá. É particularmente o que se passa com esta norma crucial: “Pode utilizar-se a fórmula ‘uma fonte do organismo X que solicitou o anonimato’”. Ficamos agora a saber, pela nova carta de ambos, que esta era uma regra constante do Livro de Estilo original, desaparecida com a sua revisão.
E isso faz toda a diferença. A manter-se, esta norma, que faz parte das tais “regras universalmente aceites no jornalismo” aconselhadas pelo provedor, ela permitia a gradação progressiva da referência às fontes entre, por um lado, a identificação total e, por outro, o anonimato total – o qual para o Livro de Estilo pode significar nem sequer mencionar contactos com fontes, o que permite esta terrível frase: “Um jornal bem informado não precisa de justificar permanentemente as suas notícias. Assume-as e responsabiliza-se por elas”.
Nesse caso, já não haveria razão para o provedor ter lançado o alerta que desencadeou este debate. Mas, não sendo assim, o provedor insiste que está criado um vazio no Livro de Estilo, que admite só as duas atitudes extremas no que respeita à imputação de informações às fontes, vazio cuja inexistência Vicente Jorge Silva e José Mário Costa, nas citações que têm feito com mais ou menos rigor (que inicialmente não tinham, apesar de o exigirem aos outros) não conseguem provar.
Apesar dos progressos, o provedor sublinha que os seus dois antagonistas continuam a recorrer a raciocínios falaciosos, como por exemplo alegarem que “ele ‘descobriu’ que o jornal, imagine-se, nestes 18 anos de existência, primava pela ‘ausência de regras universalmente aceites’”. Quem ler os textos do provedor sabe que eles se debruçam apenas sobre a prática actual do PÚBLICO, não a do seu passado, e portanto o argumento nem sequer merece resposta.
A Vicente Jorge Silva e José Mário Costa incomoda que o provedor não tenha respondido a esta “questão de fundo” por eles já antes colocada: “Uma notícia não rigorosa ou simplesmente falsa não se torna mais rigorosa ou verdadeira mesmo que ‘sustentada’ na estafada fórmula anónima da ‘fonte próxima de’”. Com toda a sinceridade, o provedor julgava não ter de responder: por um lado, porque a resposta ficou dada logo na primeira crónica que dedicou ao assunto, por outro, porque julgou tratar-se de questão meramente retórica, daquelas para as quais não se espera resposta. Mas, uma vez que insistem (derradeira trincheira argumentativa?), o provedor tem todo o gosto em esclarecer:
Não é a forma de imputação às fontes que torna as notícias mais verdadeiras, é o profissionalismo e a consciência ética do jornalista. A imputação, tão rigorosa e aproximada quanto possível, deve ser feita sobretudo tendo em atenção o destinatário da notícia. Era essa a resposta que o provedor dera na sua primeira crónica sobre a matéria: “Conhecendo a origem das notícias, o público está em melhores condições para avaliar o seu contexto e julgar da sua solidez e fundamentação”. Ou seja, o interesse do público deve estar acima do interesse da fonte, e essa é a razão fundamental para o esforço a fazer por um jornal de referência no sentido de evitar a total ausência de menção das suas fontes, como se elas nem existissem.
As regras de The Washington Post sobre fontes, citações e atribuições, já mencionadas numa das crónicas do provedor, são a este respeito particularmente enfáticas ao estabelecerem exemplos: “Isto significa evitar atribuições a ‘fontes’ ou a ‘fontes informadas’. Em vez disso, devemos tentar fornecer ao leitor algo mais, como ‘fontes conhecedoras do pensamento dos advogados de defesa do processo’, ‘fontes cuja actividade lhes permite contacto com o executivo municipal’ ou ‘fontes no gabinete do governador que discordam da sua política’”. As regras do diário norte-americano nem sequer prevêem formulações do género “o PÚBLICO sabe que”, “segundo o PÚBLICO apurou” ou “segundo informações apuradas pelo PÚBLICO”, tão ao gosto do nosso meio jornalístico.
É claro que o jornalista mais descuidado, não estando obrigado a mencionar fontes, poderá sentir-se dispensado de se sujeitar apenas à informação recebida dessas fontes, entrando facilmente na especulação. Foi isso que o provedor quis mostrar ao lembrar a notícia do PÚBLICO de há três anos intitulada “Cavaco Silva aposta em maioria absoluta do PS”.
O provedor constata que, infelizmente, este não é problema exclusivo do PÚBLICO, tratando-se antes de uma prática expandida pela generalidade do jornalismo português, e sobre a qual não se produz reflexão doutrinária substancial.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Vicente Jorge Silva e José Mário Costa reagem à última crónica do provedor
à(s)
12:46
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Mais mil milhões, menos mil milhões
Acabei de ler o artigo (escrito por Rosa Soares) sobre o último orçamento norte-americano no PÚBLICO do dia 5 de Fevereiro ["Bush apresenta despesa recorde e défices ultrapassam 400 mil milhões de dólares", pg. 31] e não consigo deixar de estar estupefacto com os erros em relação aos números apresentados. As minhas suspeitas de que algo estaria errado surgiram com a referência feita a milhões de milhões quando se fala em biliões: "Bush apresentou um plano de despesas que ultrapassa pela primeira vez os três biliões de dólares (milhões de milhões)." Esperava que os jornalistas do PÚBLICO soubessem que para os norte-americanos um bilião é um milhar de milhões e não um milhão de milhões. Em seguida, fiz uma pesquisa rápida na internet e facilmente encontrei toda a informação na página oficial da Casa Branca (http://www.whitehouse.gov/omb/budget/fy2008/summarytables.html). Comecei a comparar números e cheguei a conclusão de que são raros os números iguais no artigo e na página. Esperava uma maior qualidade na redacção dos artigos no PÚBLICO. Depois disto, vai ser muito difícil para mim acreditar nos números que possam aparecer em artigos no vosso jornal.
Nuno Curado
RESPOSTA. Por solicitação do provedor, a jornalista Rosa Soares produziu o seguinte esclarecimento:
O leitor tem toda a razão em relação à questão de os biliões, para os norte-americanos, serem milhares de milhões e não milhões de milhões. O próprio Livro de Estilo do PÚBLICO tem essa informação. Não serve de desculpa, mas gostaria apenas de dizer que a primeira informação que li sobre a matéria falava em triliões. Acabei por utilizar a informação de várias agências internacionais que referiam biliões, tendo sido traída pela primeira referência. A notícia foi construída com base em informação difundida por agências de informação internacionais (Reuters, AFP) e não por consulta directa à informação oficial, o que evitaria o erro. Peço desculpa aos leitores do PÚBLICO e agradeço a chamada de atenção de Nuno Curado.
à(s)
12:19
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Escrito subscrito sobre o sobrescrito
A propósito de um texto publicado hoje, 6 de Fevereiro, venho apenas chamar a atenção para alguma falta de cuidado na redacção e revisão (será que existe?) das notícias. No artigo "Hospital cobra 152 euros em casos de violência doméstica" [pg. 2], lê-se, a dada altura, uma frase que se inicia por "no mesmo subscrito". Ora, se nem o jornalista nem o revisor sabem como se deve escrever a palavra "sobrescrito", existem por aí muitos dicionários que os poderiam auxiliar. O que não me parece correcto, e muito menos didáctico, é que se utilize uma palavra que, além de mal escrita, tem um significado completamente diferente. Mais valia ter escolhido o tão mais simples "envelope".
Ana Manso
P.S. - Não quero com isto parecer "picuinhas" em relação à escrita. No entanto, numa época em que, cada vez mais, as pessoas tomam como lei aquilo que vêem escrito na comunicação social, parece-me necessário chamar a atenção para este tipo de situações.
NOTA DO PROVEDOR. Os puristas dizem que "envelope" é um galicismo desnecessário. Mas que toda gente o usa, isso é verdade.
à(s)
03:33
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domingo, 3 de fevereiro de 2008
Detalhes que contam
Na edição de 20 de Janeiro, deparei com algumas anomalias em textos insertos nas rubricas "Destaque" e "Portugal":
Texto de Fernando Sousa (pág. 2, 1ª coluna): "e só 17 por cento conheceu o capitalismo"; "Candidatou-se, pois sem esse requesito"; "foram fartos de rumores, o mais insistente que estava à morte."; 2ª coluna: uma construção que se não é totalmente anfibológica também não é explícita, "Se não for confirmado no cargo, como alguns dirigentes desejam, como o presidente da ANPP, Ricardo Alarcón, que no mês passado disse sobre Fidel que "seria o melhor candidato para presidir ao país"; pág. 3, 3ª coluna: "Cinquenta por cento dos concorrentes saem da escolha de Fevereiro-Março. Os restantes pelos sindicatos e 'organizações de massas'".
Texto de Filomena Fontes e Lurdes Ferreira (pág. 4, 2ª coluna): não haveria forma mais imediatamente descodificável de nos dizer o que é causa (e de quê) e consequência (e de quê) do esta construção: "Sócrates reafirmou, por outro lado, que não haverá quaisquer atrasos no calendário das ligações de comboio de alta velocidade (TGV) entre Portugal e Espanha, em resposta às dúvidas sobre eventuais atrasos na ligação Lisboa-Madrid, prevista para 2013, por causa da construção da terceira travessia do Tejo que vai apoiar o futuro aeroporto no campo de tiro de Alcochete."? Talvez a mudança de alguns constituintes frásicos ajudasse (por exemplo: "Sócrates reafirmou, por outro lado, em resposta às dúvidas sobre eventuais atrasos na ligação Lisboa-Madrid, prevista para 2013, que não haverá quaisquer atrasos no calendário das ligações de comboio de alta velocidade (TGV) entre Portugal e Espanha por causa da construção da terceira travessia do Tejo que vai apoiar o futuro aeroporto no campo de tiro de Alcochete.").
Texto de Filomena Fontes (pág. 5, 3ª coluna): "de utilizar o acombate (sic) ao terrorismo do Governo socialista"; há, de facto, governos cuja actuação mais parece terrorismo puro, mas, na situação em causa, se o combate fosse do "Governo socialista ao terrorismo" não "disfarçaria" mais?
Mário Pinto
à(s)
18:09
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Anglicismo
Desagrada-me cada vez mais encontrar frequentemente inglesismos e outros estrangeirismos nas notícias do PÚBLICO, quando existem termos portugueses para o efeito. Vem a propósito da palavra ranking, que abusivamente se utiliza, sem todavia esclarecerem os simples ignorantes como eu do que ela significa. Fui aos dicionários Novo Michaelis, 1974, v. I, inglês-português, pg. 768; Inglês-Português do P.e Júlio Albino Ferreira, 1935, pg. 567; Webster's Third New International Dictionary, pg. 1881. No de língua portuguesa a palavra não consta e neste de língua inglesa só existe ranking bar; ranking jumper, ranking member. The Heritage Illustrated Dictionary of the English Language de 1975 é o único que tem a palavra (pg. 1081), mas com o significado: of the highest rank e pre-eminent. Naqueles dicionários a palavra rank significa "classificar", "ordenar", etc. É óbvio que o ranking que aparece no PÚBLICO quer dizer outra coisa, pois, se assim fosse, utilizariam as palavras portuguesas. Agradeço-lhe que me informe qual o significado verdadeiro de ranking nas várias notícias que aparecem no jornal.
António Serralheiro
NOTA DO PROVEDOR. A palavra "ranking", que já aparece no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, embora em itálico (significando tratar-se de um estrangeirismo), é daqueles anglicismos que, à força da repetição, acabarão mesmo por ser incorporados na língua poruguesa. O significado que o Houaiss lhe dá é "classificação". A língua é uma realidade dinâmica, que não pode ser contrariada por decreto. Nada a fazer.
ACTUALIZAÇÂO:
Quer dizer que temos que admitir o termo "ranking"? Então por que não o escrevem "rânquingue", de acordo com a índole do idioma?
A. Serralheiro
RESPOSTA DO PROVEDOR:
A ortografia é um dos poucos aspectos da língua que ainda podem ser impostos por decreto. Mas, para chegarmos à grafia sugerida pelo leitor, temos de esperar que os linguistas se pronunciem oficialmente. Até lá, será melhor ir escrevendo a palavra à inglesa, em itálico.
à(s)
17:32
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Contra a discriminação animal
Hoje [30/01/08] comprei o PÚBLICO mas estou arrependido. Na capa tinham o título "Conheça os 10 anfíbios mais estranhos (e nojentos) do mundo". Por que razão é que os anfíbios são nojentos? Já viu algum anfíbio "nojento"? Eu estudei-os ao longo de diversos anos e nunca nenhum deles me meteu qualquer género de asco, como certos mamíferos, nomeadamente algumas pessoas com cheiro a suor ou urina ou cães com um cheiro intenso, peladas, babados e por aí fora. Estou muito triste porque o meu jornal favorito, que leio desde criança, se deixou levar por um cliché - ainda por cima na capa! - tão estúpido quanto desinformado, pois aposto que quem o escreveu não conhece bem o que é um anfíbio. Eu conheço-os. Este género de títulos, além de desnecessários, podem levar as pessoas a maltratar estes animais, pois afinal são apenas animais "nojentos" dos quais nos devemos livrar. Os anfíbios são o mais ameaçado de todos os grupos animais, com mais de um terço das espécies em risco de extinção, e são absolutamente indispensáveis na cadeia alimentar, pois são predados em massa por aves, répteis e mamíferos. Assim, despertar ódios face a um grupo animal fulcral, além de odioso e absolutamente gratuito, é também irresponsável.
Nuno Baptista
ex-herpetólogo da Unidade de Biologia da Conservação da Universidade de Évora
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A excepção e a regra
A anterior crónica do provedor, sobre a ausência de imputação de notícias a fontes de informação, suscitou reacções de quem teve e de quem tem grande relevo na produção deste jornal, pelo que vale a pena regressar hoje ao assunto, tanto mais que é ponto fulcral na prática do jornalismo.
Dois dos fundadores do PÚBLICO, Vicente Jorge Silva (VJS), seu primeiro director, e José Mário Costa (JMC), escreveram ao provedor acusando-o de, no texto de há uma semana, “distorcer por completo o que nessa matéria está estabelecido no Livro de Estilo (LE) do jornal”:
“Não é verdade que o LE ‘aconselhe’ a não imputação das fontes – antes pelo contrário! Nem é verdade, tão-pouco, que a ressalva aí referida sobre as condições excepcionais do sigilo profissional (é disso que se trata, e não de ‘norma’ nenhuma) ‘desobriga o jornalista de reproduzir com rigor as informações recolhidas junto das fontes, abrindo o caminho à especulação e à fantasia’.
Bastava a JV [o provedor] um pouco mais de rigor, não se limitando a truncar a frase citada, descontextualizando-a de todo o respectivo capítulo de 10 pormenorizadas páginas especialmente dedicadas ao tema das fontes e do sigilo profissional – seja na 1.ª edição do LE (da nossa inteira responsabilidade), seja na sua posterior e mais aligeirada (e confusa) versão actual. Numa e noutra, está prescrito, sem qualquer margem de ambiguidade: ‘Uma informação deve ser sempre atribuída à fonte de origem, identificada com a maior precisão possível – nome, idade e profissão, cargo ou função. O jornalista deve bater-se sempre por esse nível de identificação. A identificação – e a individualização – da fonte favorece a autoridade e a credibilidade da informação.’ E vem agora JV recomendar, ex cathedra, ‘a adopção [em próxima revisão do LE] das regras universalmente aceites quanto à invocação das fontes para fundamento das notícias’!...
O que JV escamoteia é que nessas ‘regras universalmente aceites’ há também as situações-limite do anonimato e do off-the-record. No que o LE ‘inovou’ – como depreciativamente lhe chama JV – foi na dissuasão do uso e do abuso das fontes anónimas, quantas vezes enganosas e perfeitamente fantasmas, sem o mínimo de rigor e seriedade, nomeadamente quando está em causa informação sigilosa.
É nestas condições excepcionais de preservação da confidencialidade de uma ou mais fontes (‘circunstâncias especiais justificam, por vezes, a não identificação das fontes de informação’), admitidas ‘apenas em último recurso e só quando não há outra forma de obter a informação’, que o LE advoga – e bem – a responsabilização acrescida do jornalista e do jornal. Na seguinte alínea, que JV deturpou: ‘Quando o jornalista está em condições de assumir a informação – i. e., quando a confirmou junto de fontes independentes entre si, embora todas tenham exigido o anonimato – deverá noticiá-la no PÚBLICO sem necessidade de recorrer às habituais, retóricas e desacreditadas fórmulas do género fonte digna de crédito, fonte segura ou fonte próxima de. As fontes, a sê-lo, devem estar sempre bem colocadas para falar sobre o assunto. Um jornal bem informado não precisa de justificar permanentemente as suas notícias. Assume-as e responsabiliza-se por elas.’
O que se passou com as seis notícias citadas por JV é que qualquer delas veio a revelar-se falsa ou de duvidosa fiabilidade. Ou seja, nunca deviam ter sido publicadas. Ou será que ganhariam um grama que fosse de credibilidade se os seus autores tivessem recorrido ao subterfúgio comum nestes casos (...). E os respectivos autores acaso ficariam mais desresponsabilizados aos olhos dos seus leitores?”
Por seu turno, o actual director do PÚBLICO remeteu também ao provedor alguns considerandos sobre o texto de domingo passado. Começa José Manuel Fernandes (JMF) pela “matéria de facto”:
“Pareceu-me incorrecto misturar uma infeliz manchete de há mais de três anos, formalmente desmentida pelo protagonista, com manchetes que não foram desmentidas, tendo podido sê-lo, ou foram mesmo confirmadas no conteúdo essencial da sua informação. A manchete de há três anos foi objecto de uma análise interna longa e profunda e, para além da Nota de Direcção que motivou, o Conselho de Redacção considerou-a um ‘erro indesculpável’ (...).
Quanto às notícias que suscitaram o comentário importa referir que as duas relativas às alterações de posição do primeiro-ministro eram verdadeiras, como resultou claro para quem acompanhou o debate quinzenal na AR realizado depois da sua publicação. A não identificação das fontes, mesmo de forma indirecta, não foi feita pois permitiria identificar a origem da informação. Eu próprio acompanhei o caso, fiz contactos e, como se clarifica na nova versão do LE, discuti com eles a identidade e fiabilidade das fontes que sustentaram a notícia. Também a notícia sobre o financiamento pela CGD de accionistas do BCP estava correcta, com excepção da confusão feita entre Armando Vara ter o pelouro do crédito e ter aprovado os empréstimos como membro da comissão de crédito do banco público. Foi uma falha num detalhe importante mas que não anula o título principal da notícia nem a sua relevância pública. Mais uma vez o jornal, em nome da protecção das suas fontes, não as identificou, nem indirectamente.”
JMF passa depois à “matéria de doutrina”, dizendo que releu as normas de jornais como Le Monde, The New York Times e The Washington Post e encontrou aí os mesmos princípios do LE, “com formulações e desenvolvimentos distintos”:
“A saber: o ideal é poder citar abertamente todas as fontes; quando isso não é possível, deve-se identificar a fonte o mais correctamente possível mas sem a denunciar; quando também isso não é possível, deve-se cruzar a informação com diferentes fontes, também anónimas ou formais, e assumir a informação quando se está suficientemente seguro de que é verdadeira. Nestes casos foi exactamente isso que sucedeu.”
Ao contrário do que estes comentários possam sugerir, a veracidade das manchetes analisadas na semana passada nunca foi posta em causa pelo provedor, como avisava logo no primeiro parágrafo. O que apenas se questionava era a forma como os jornalistas comunicavam a informação ao público, sem menção às fontes contactadas. Ao contrário do que consideram VJS e JMC, para o provedor o que está em questão não é pois a “falsa ou duvidosa fiabilidade” dessas manchetes (que não desmonstram). Quanto ao título de há três anos (que não era manchete), ele não foi analisado (nem podia sê-lo, por estar fora do alcance temporal do mandato do actual provedor), mas referido como exemplo extremo de um jornalismo que dispensa mencionar as suas fontes. O facto de o jornal ter feito a sua autocrítica não apaga esse texto da história do PÚBLICO.
As cinco manchetes analisadas pelo provedor baseavam-se em presumíveis fontes de natureza confidencial – como JMF agora confirma –, pelo que não se aplicava na circunstância o ponto do LE recomendando que “uma informação deve ser atribuída à fonte de origem, identificada com a maior precisão possível” (o “sempre” da citação desta norma feita por VJS e JMC não consta da versão em vigor). O que, à luz do LE, deixava como única opção possível, a esse respeito, a outra norma citada por VJS e JMC, autorizando o jornalista a não fazer qualquer menção às suas fontes “quando está em condições de assumir a informação”. O LE não faz depender este expediente de circunstâncias excepcionais (o que só é mencionado no subcapítulo seguinte do documento), tornando-o por isso um refúgio acessível e frequente dos jornalistas, como sabe quem lê o PÚBLICO.
Existe algo de esquizofrénico num LE que, por um lado, pede a identificação das fontes “com a maior precisão possível – nome, idade e profissão, cargo ou função” (prática aliás raramente seguida no PÚBLICO) e, por outro, apresenta como única alternativa a omissão total de referência a essas mesmas fontes. É aqui que o provedor entende haver ausência de regras universalmente aceites. As quais, apresentando desculpas a VJS e a JMC por nova atitude ex cathedra, resume do seguinte modo:
O jornalista deve revelar ao público o máximo de dados sobre a origem da informação que leva ao seu conhecimento. Quando as fontes reclamam o anonimato, o jornalista deve bater-se por situar da maneira mais rigorosa e aproximada possível a posição dessas fontes (inclusive negociando com elas a forma autorizada de o fazer). Uma fórmula como “fonte próxima de”, à falta de outra mais exacta, não é desacreditada, mas um modo legítimo de identificar a área onde foi recolhida a informação (ao contrário das expressões “o PÚBLICO sabe que”, “segundo o PÚBLICO apurou” ou “segundo informações apuradas pelo PÚBLICO”, que proliferam e que o LE não proíbe).
A protecção da confidencialidade das fontes não tem de ser considerada acto excepcional, mas sim método comum num jornalismo que se queira independente. Sem esse princípio, um órgão de informação não passaria de veículo para press-releases e declarações oficiais ou oficiosas. A confidencialidade não desobriga porém o jornalista de comunicar ao público que tipo de fontes contactou e se só falam sob anonimato (havendo algum mal nas fontes confidenciais, o problema não são elas, mas o crédito que o jornalista lhes possa dar). Como estabeleceu The Washington Post há quatro anos, ao definir normas internas sobre fontes e imputação de notícias, ”queremos que o nosso relato jornalístico seja tão transparente quanto possível aos olhos dos leitores, de forma a que eles possam saber como e onde obtivemos a informação.”
Publicada em 03 de Fevereiro de 2008
Documentação complementar:
Carta de Vicente Jorge Silva e José Mário Costa:
Na sua última crónica enquanto provedor do leitor (“Para onde foram as fontes?”, de 27/01/2008), Joaquim Vieira (JV) aproveitou cinco recentes manchetes do PÚBLICO e um outro título de 1.ª página mais antigo, deficientemente sustentados ou que vieram a revelar-se pura e simplesmente falsos, para distorcer por completo o que nessa matéria está estabelecido no Livro de Estilo do jornal, desde a sua fundação.
Não é verdade que o Livro de Estilo «aconselhe» a não imputação das fontes – antes pelo contrário! Nem é verdade, tão-pouco, que a ressalva aí referida sobre as condições excepcionais do sigilo profissional (é disso que se trata, e não de “norma” nenhuma) «desobriga o jornalista de reproduzir com rigor as informações recolhidas junto das fontes, abrindo o caminho à especulação e à fantasia».
Bastava a JV um pouco mais de rigor, não se limitando a truncar a frase citada, descontextualizando-a de todo o respectivo capítulo de 10 pormenorizadas páginas especialmente dedicadas ao tema das fontes e do sigilo profissional – seja na 1.ª edição do Livro de Estilo do PÚBLICO (da nossa inteira responsabilidade), seja na sua posterior e mais aligeirada (e confusa) versão actual.
Numa e noutra das duas edições do Livro de Estilo do PÚBLICO está lá prescrito, sem qualquer margem de ambiguidade: «Uma informação deve ser sempre atribuída à fonte de origem, identificada com a maior precisão possível – nome, idade e profissão, cargo ou função. O jornalista deve bater-se sempre por esse nível de identificação. A identificação – e a individualização – da fonte favorece a autoridade e a credibilidade da informação [págs. 69 e 32, respectivamente].»
E vem agora JV recomendar, ex cathedra, «a adopção [em próxima revisão do Livro de Estilo do PÚBLICO] das regras universalmente aceites quanto à invocação das fontes para fundamento das notícias»!...
O que JV escamoteia é que nessas «regras universalmente aceites» há também as situações-limite do anonimato e do off-the-record. No que o Livro de Estilo do PÚBLICO «inovou» – como depreciativamente lhe chama JV – foi na dissuasão do uso e do abuso das fontes anónimas, quantas vezes enganosas e perfeitamente fantasmas, sem o mínimo de rigor e seriedade, nomeadamente quando está em causa informação sigilosa.
É nestas condições excepcionais de preservação da confidencialidade de uma ou mais fontes («circunstâncias especiais justificam, por vezes, a não identificação das fontes de informação», págs. 71 e 33), admitidas «apenas em último recurso e só quando não há outra forma de obter a informação» [ibidem], que o Livro de Estilo advoga – e bem – a responsabilização acrescida do jornalista e do jornal. Na seguinte alínea, que JV deturpou:
«Quando o jornalista está em condições de assumir a informação – i. e., quando a confirmou junto de fontes independentes entre si, embora todas tenham exigido o anonimato – e noticiá-la no PÚBLICO, não tem necessidade de recorrer às habituais, retóricas e desacreditadas fórmulas do género “fonte digna de crédito”, “fonte segura” ou “fonte próxima de”. As fontes, a sê-lo, devem estar sempre bem colocadas para falar sobre o assunto. Um jornal bem informado não precisa de justificar permanentemente as suas notícias. Assume-as e responsabiliza-se por elas (…) [págs. 70-71 e 33].»
O que se passou com as seis notícias citadas por JV é que qualquer delas veio a revelar-se falsa ou de duvidosa fiabilidade. Ou seja, nunca deviam ter sido publicadas.
Ou será que elas ganhariam um grama que fosse de credibilidade, se os seus autores tivessem recorrido ao subterfúgio comum nestes casos (do tipo: “fonte digna de crédito”, “fonte segura”ou “fonte próxima de”)?
Já agora: e os respectivos autores acaso ficariam mais desresponsabilizados aos olhos dos seus leitores?
à(s)
16:22
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Secção: Crónicas