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domingo, 20 de setembro de 2009

A questão principal

O caso das escutas de Belém suscita a mais preocupante das perguntas: terá este jornal uma agenda política oculta?

Na primeira ocasião (em Que-
rença) Ca-
vaco não foi confrontado com a per-
gunta que devia ser feita, sobre a sua res-
ponsabilida-
de política no caso


Na sequência da última crónica do provedor, instalou-se no PÚBLICO um clima de nervosismo. Na segunda-feira, o director, José Manuel Fernandes, acusou o provedor de mentiroso e disse-lhe que não voltaria a responder a qualquer outra questão sua. No mesmo dia, José Manuel Fernandes admoestou por escrito o jornalista Tolentino de Nóbrega, correspondente do PÚBLICO no Funchal, pela resposta escrita dada ao provedor sobre a matéria da crónica e considerou uma “anormalidade” ter falado com ele ao telefone. Na sexta-feira, o provedor tomou conhecimento de que a sua correspondência electrónica, assim como a de jornalistas deste diário, fora vasculhada sem aviso prévio pelos responsáveis do PÚBLICO (certamente com a ajuda de técnicos informáticos), tendo estes procedido à detecção de envios e reenvios de e-mails entre membros da equipa do jornal (e presume-se que também de e para o exterior). Num momento em que tanto se fala, justa ou injustamente, de asfixia democrática no país, conviria que essa asfixia não se traduzisse numa caça às bruxas no PÚBLICO, que sempre foi conhecido como um espaço de liberdade.

A onda de nervosismo, na verdade, acabou por extravasar para o próprio mundo político, depois de o Diário de Notícias ter publicado anteontem um e-mail de um jornalista do PÚBLICO para outro onde se revelava a identidade da presumível fonte de informação que teria dado origem às manchetes de 18 e 19 de Agosto, objecto de análise do provedor. A fuga de informação envolvia correspondência trocada entre membros da equipa do jornal a propósito da crónica do provedor. O provedor, porém, não denuncia fontes de informação confidenciais dos jornalistas – sendo aliás suposto ignorar quem elas são –, e acha muito estranho, inexplicável mesmo, que outros jornalistas o façam. Mas, como quem subscreve estas linhas não é provedor do DN, sim do PÚBLICO, nada mais se adianta aqui sobre a matéria, retomando-se a análise suspensa há oito dias.

Em causa estavam as notícias dando conta de que a Presidência da República estaria a ser alvo de vigilância e escutas por parte do Governo ou do PS. O único dado minimamente objectivo que a fonte de Belém, que transmitiu a informação ao PÚBLICO, adiantara para substanciar acusação tão grave no plano do funcionamento do nosso sistema democrático fora o comportamento “suspeito” de um adjunto do primeiro-ministro que fizera parte da comitiva oficial da visita de Cavaco Silva à Madeira, há ano e meio. As explicações eram grotescas – o adjunto sentara-se onde não devia e falara com jornalistas –, mas aceites como válidas pelos jornalistas do PÚBLICO, que não citavam qualquer fonte nessa passagem da notícia (embora tivessem usado o condicional).

A investigação do provedor iniciou-se na sequência de uma participação do próprio adjunto de José Sócrates, Rui Paulo Figueiredo, queixando-se de não ter sido ouvido para a elaboração da notícia, apesar de Tolentino de Nóbrega ter recolhido cerca de seis meses antes a sua versão dos factos. O provedor apurou que na realidade Tolentino de Nóbrega, por solicitação de um dos autores da notícia, o editor Luciano Alvarez, já compulsara no Funchal, logo após a visita de Cavaco Silva, e enviara para a redacção informações que convergiriam com aquilo que Rui Paulo Figueiredo lhe viria a afirmar um ano depois (e que o correspondente entendeu não ter necessidade de comunicar a Lisboa, convencido de que o assunto morrera). Esses dados, contudo, não haviam sido utilizados na notícia (foi por tê-lo dito na crónica que o provedor recebeu de José Manuel Fernandes o epíteto de mentiroso, não tendo recebido entretanto as explicações que logo lhe pediu). O provedor inquirira José Manuel Fernandes e Luciano Alvarez sobre as razões dessa omissão mas não obtivera resposta.

Quanto ao facto de não se ter contactado o visado para a produção da notícia, como preconiza o Livro de Estilo do PÚBLICO (“qualquer informação desfavorável a uma pessoa ou entidade obriga a que se oiça sempre ‘o outro lado’ em pé de igualdade e com franqueza e lealdade”), respondeu Luciano Alvarez ao provedor: “Ao fim do dia da elaboração da notícia, eu próprio liguei para Presidência do Conselho de Ministros, para tentar uma reacção de Rui Paulo Figueiredo, mas ninguém atendeu. Cometi um erro, pois deveria ter, de facto, ligado para São Bento, pois sabia bem que era aí que Rui Paulo Figueiredo habitualmente trabalhava, já que uma vez lhe tinha telefonado para São Bento para elaboração de outra notícia”.

Numa matéria desta consequência, em que se tornaria crucial ouvir o principal protagonista, o provedor regista a aparente escassa vontade de encontrar Rui Paulo Figueiredo, telefonando-se ao fim do dia (em que presumivelmente já não estaria a trabalhar) e para o local que o jornalista sabia ser errado. A atitude faz lembrar os métodos seguidos num antigo semanário dirigido por um dos actuais líderes políticos (que por ironia tinha por objectivo destruir politicamente Cavaco Silva, então primeiro-ministro), mas não se coaduna com a seriedade e o rigor de que deve revestir-se uma boa investigação jornalística. Se o jornal já possuía a informação há ano e meio, porquê telefonar à figura central pouco antes do envio da edição para a tipografia? É um facto que Rui Paulo Figueiredo, segundo afirmou ao provedor, estava então de férias, mas isso não desculpa a insignificância do esforço feito para o localizar.

Também José Manuel Fernandes reconheceu ao provedor “o erro de tentar encontrar Rui Paulo Figueiredo na Presidência do Conselho de Ministros e não directamente na residência oficial do primeiro-ministro”, acrescentando porém: “Tudo o mais seguiu todas as regras, e só lamentamos que os recados deixados a Rui Paulo Figueiredo não se tenham traduzido numa resposta aos nossos jornalistas, que teria sido noticiada de imediato, antes no envio de uma queixa ao Provedor – a resposta não impediria que se queixasse na mesma, mas impediu-nos de noticiar a sua posição e de lhe fazer mais perguntas”.

O provedor considera porém que nem “tudo o mais seguiu todas as regras”. As notícias do PÚBLICO abalaram os meios políticos nacionais, e o próprio primeiro-ministro as comentou considerando o seu conteúdo “disparates de Verão”. O assunto era pois suficientemente grave para o PÚBLICO, como o jornal que lançou a história, confrontar a sua fonte em Belém com uma alternativa: ou produzia meios de prova mais concretos acerca da suposta vigilância de que a Presidência da República era vítima (que nunca surgiram) ou teria de se concluir que tudo não passava de um golpe de baixa política destinado a pôr São Bento em xeque. Não tendo havido qualquer remodelação entre os assessores do Presidente da República nem um desmentido de Belém, era aliás legítimo deduzir que o próprio Cavaco Silva dava cobertura ao que um dos seus colaboradores dissera ao PÚBLICO. Mais significativo ainda, o PÚBLICO teria indícios de que essa fonte não actuava por iniciativa própria, mas sim a mando do próprio Presidente – e essa era uma hipótese que, pelo menos jornalisticamente, não poderia ser descartada. Afinal de contas, o jornal até podia ter um Watergate debaixo do nariz, mas não no sentido que os seus responsáveis calculavam.

No prosseguimento da cobertura do caso, o passo seguinte do PÚBLICO deveria, logicamente, consistir em confrontar o próprio Presidente da República com as suas responsabilidades políticas na matéria. Tendo o provedor inquirido das razões dessa inacção, respondeu José Manuel Fernandes: “O PÚBLICO tratou de obter um comentário do próprio Presidente, mas isso só foi possível quando este, no dia 28 [de Agosto], compareceu num evento em Querença previamente agendado, ao qual enviámos o nosso correspondente no Algarve. Refira-se que, quando percebemos que não conseguiríamos falar directamente com o Presidente para a sua residência de férias, verificámos a sua agenda para perceber quando ia aparecer em público, tendo notado que a notícia saíra da Casa Civil exactamente antes de um período relativamente longo em que o Presidente não tinha agenda pública”.

Em Querença, Cacaco Silva limitou-se porém a invocar “os problemas do país” e a apelar para “não tentarem desviar as atenções desses problemas”, tendo faltado a pergunta essencial: como pode o Presidente fazer declarações altruístas sobre a situação nacional e ao mesmo tempo caucionar (se não mesmo instigar) ataques abaixo da cintura lançados de Belém sobre São Bento? E, como qualquer jornalista político sabe, havia muitas maneiras de confrontar a Presidência da República com a questão e comunicar ao público a resposta (ou falta dela), não apenas andando atrás do inquilino de Belém.

Do comportamento do PÚBLICO, o provedor conclui que resultou uma atitude objectiva de protecção da Presidência da República, fonte das notícias, quanto aos efeitos políticos que as manchetes de 18 e 19 de Agosto acabaram por vir a ter. E isto, independentemente da acumulação de graves erros jornalísticos praticados em todo este processo (entre eles, além dos já antes referidos, permitir que o guião da investigação do PÚBLICO fosse ditado pela fonte de Belém), leva à questão mais preocupante, que não pode deixar de se colocar: haverá uma agenda política oculta na actuação deste jornal?

Noutras crónicas, o provedor suscitou já diversas observações sobre procedimentos de que resulta sempre o benefício de determinada área política em detrimento de outra – não importando quais são elas, pois o contrário seria igualmente preocupante. Julga o provedor que não é essa a matriz do PÚBLICO, não corresponde ao seu estatuto editorial e não faz parte do contrato existente com os leitores. É pois sobre isso que a direcção deveria dar sinais claros e inequívocos. Não por palavras (pois a coisa mais fácil é pronunciar eloquentes declarações de isenção), mas sim por actos.

Publicada em 20 de Setembro de 2009

domingo, 13 de setembro de 2009

Subitamente neste Verão

Apesar de recolhido pelo jornal, faltou o contraditório a uma notícia que agitou o mundo político

Omitiu-se a versão enviada pelo correspon-
dente no Funchal sobre a visita de Cavaco à Madeira


O curso habitual da política nacional foi perturbado no transacto 18 de Agosto com a manchete do PÚBLICO: “Presidência suspeita estar a ser vigiada pelo Governo”. A notícia, assinada por São José Almeida, citava um membro não identificado da Casa Civil do Presidente da República para informar que “o clima psicológico que se vive no Palácio de Belém é de consternação [,] e a dúvida que se instalou foi a de saber se os serviços da Presidência da República estão sob escuta e se os assessores de Cavaco Silva estão a ser vigiados”. Tudo isto para reagir a declarações de dirigentes socialistas criticando a participação de assessores presidenciais na elaboração do programa eleitoral do PSD (participação que aliás a fonte de Belém não desmentia).

No dia seguinte, em nova manchete, o PÚBLICO reincidia, alegando que “a origem das suspeitas [da Presidência da República] remonta a uma viagem [presidencial] à Madeira, há um ano e meio, na qual um adjunto [do primeiro-ministro] teve comportamentos que levaram colaboradores de Cavaco Silva a apertar o circuito da informação para evitar fugas”. Segundo a nova notícia, elaborada por São José Almeida e pelo editor Luciano Alvarez, esse adjunto de José Sócrates, Rui Paulo Figueiredo, teria sido incluído na comitiva presidencial “sem nenhuma explicação natural”, e os autores descreviam o seu comportamento no arquipélago como de um penetra, que abusivamente “ter-se-á sentado, sem ser convidado, na mesa de outros membros da comitiva, violando as regras protocolares”, e até “multiplicado os contactos e as trocas de informação com alguns jornalistas do continente que se deslocaram à Madeira”. Rui Paulo Figueiredo não foi ouvido para a redacção do texto: o PÚBLICO, dizia a notícia, tentara “sem êxito” contactá-lo de véspera na Presidência do Conselho de Ministros.

A segunda manchete motivou o envio ao provedor de uma reclamação de Rui Paulo Figueiredo com os seguintes tópicos (recomenda-se a leitura da documentação integral do caso no blogue do provedor): “Foi com enorme surpresa e consternação que li esta ‘notícia’. (...) Não só pelo seu conteúdo, que reputo de fantasioso e totalmente falso, mas também pelo facto de não ter sido citado o meu desmentido (...), em obediência às mais elementares regras deontológicas de audição e publicação do contraditório. De facto, em tempo, fui abordado pelo jornalista do PÚBLICO Tolentino de Nóbrega [correspondente no Funchal] sobre este tema (...). Tive oportunidade de negar completamente tudo aquilo com que fui confrontado. E de lhe referir que ele, como testemunha de toda a visita (...), poderia comprovar facilmente o que eu lhe estava a afirmar. Esclareci-o que estive oficialmente na visita e que o meu nome constava no livro oficial da visita elaborado pela Presidência da República. E que o motivo da minha presença justificava-se (...) pelo facto de, entre outras funções, acompanhar temas relacionados com as Regiões Autónomas. Aliás, já não era a primeira vez que, nesse âmbito, me deslocava à Região Autónoma da Madeira assessorando membros do Governo da República (...). Estive presente somente nos actos para os quais a minha presença estava prevista no referido programa. (...) Referi-lhe que, ao longo dos seis dias que durou a visita do Presidente da República (...), me desloquei nas viaturas que me foram indicadas, me sentei nas mesas que me foram destinadas e com as companhias, das mais diversificadas, que estavam previstas pela organização de cada evento. (...) Não perceb[o] a que se referem quando invocam contactos com jornalistas do Continente. Tive apenas conversas de circunstância com alguns, do Continente e da ilha, enquanto esperávamos que alguns eventos terminassem. Como aconteceu com o próprio Tolentino de Nóbrega (...). Fiquei igualmente estupefacto com a afirmação de ‘que o PÚBLICO tentou, sem êxito, contacta[r-me] na Presidência do Conselho de Ministros’. Não só porque não tenho indicação nenhuma dessa nova tentativa de contacto como pelo facto de ter sido ignorado o contacto efectuado por Tolentino de Nóbrega. Já não falando no facto de o meu local de trabalho ser S. Bento e não a Presidência do Conselho de Ministros”.

Este caso não só se reveste de enormes implicações, por estar em causa a relação entre dois órgãos de soberania, como suscita diversas questões relacionadas com a prática jornalística, o que levou o provedor a aprofundar a sua investigação muito para lá da queixa do adjunto governamental, abrangendo todo o procedimento do PÚBLICO no processo.

O provedor pôde concluir que o contacto inicial de um membro da Presidência da República com o jornal para se queixar da “espionagem” de S. Bento sobre Belém, e até da possibilidade de escutas telefónicas, se deu há cerca de 17 meses, pouco após a visita de Cavaco Silva à Madeira. Mas ao longo deste quase ano e meio a mesma fonte não apresentou qualquer indício palpável da existência dessas escutas, pelo que a possibilidade de termos aqui um Watergate luso, como chegou a ser aventado entre as inúmeras reacções que a notícia desencadeou, é no mínimo um insulto a Bob Woodward e Carl Bernstein, os jornalistas que denunciaram o caso original.

Salvo melhor prova, tudo não passa de um indício, sim, mas de paranóia, oriunda do Palácio de Belém. Só que tal manifestação é em si já notícia, porque revela a intenção deliberada de alguém próximo do Presidente da República minar a relação institucional (ou a “cooperação estratégica”) com o governo.

O que dá toda a razão de ser à manchete inicial publicada pelo jornal. O provedor apenas estranhou a demora: se o elemento da Casa Civil falou ao PÚBLICO há quase ano e meio, porquê só agora, quando nada mais foi entretanto adiantado? Respondeu o director, José Manuel Fernandes: “Há ano e meio que o PÚBLICO, através de vários jornalistas e de contactos estabelecidos por mim próprio, procurava recolher elementos para sustentar as informações dispersas que chegavam ao jornal relativas à existência de uma tensão entre Belém e São Bento que tinha ultrapassado o patamar da divergência política normal para se situar no da desconfiança sobre os métodos seguidos pelo gabinete do primeiro-ministro. (...) Nunca estivemos em condições de o noticiar, pois consideramos que não devemos utilizar fontes anónimas quando os visados desmentem em on as informações e não possuímos provas materiais. (...) Na véspera da saída da primeira notícia, um membro da Casa Civil do Presidente da República confirmou formalmente ao PÚBLICO uma das várias informações de que há muito tínhamos conhecimento. (...) Como jornalistas a nossa opção só podia ser uma: no dia em que uma fonte autorizada da Casa Civil do Presidente da República assume que no Palácio de Belém se suspeita de que o Governo montou um sistema para vigiar os movimentos do Presidente, essa informação tem uma tal importância e gravidade que só podia ter o destaque que teve. Pessoalmente acompanhei este processo e, como o Livro de Estilo prevê, (...) inteirei-me da fiabilidade das fontes e dei luz verde à publicação da notícia”.

Pelo que o provedor percebeu, só há uma fonte, que é sempre o mesmo colaborador presidencial que tomou a iniciativa de falar ao PÚBLICO em 2008, mas este milagre da multiplicação das fontes é uma velha pecha do jornalismo político português, e não vale a pena perder agora mais tempo com ela. Vale sim a pena dizer que essa fonte falou não só das escutas como da história de adjunto de Sócrates na Madeira, na tentativa de corroborar a tal operação de espionagem.

Claro que uma acusação dessa natureza deveria ser comprovada, e foi o que acertadamente começou por fazer Luciano Alvarez, ao pedir na altura a Tolentino de Nóbrega que confirmasse in loco a atitude do abelhudo Rui Paulo Figueiredo retratado pela fonte da Casa Civil. Interpelado pelo provedor, relatou Tolentino de Nóbrega: “No final de Abril de 2008, alguns dias após a visita do Presidente da República à Madeira (...) fui contactado pelo editor Luciano Alvarez no sentido de apurar localmente dados para confirmar ou desmentir a suspeita de que o Presidente da República teria sido espiado pelo gabinete do primeiro-ministro. O suposto espião seria um adjunto do primeiro-ministro que na visita se teria introduzido indevidamente na comitiva, nomeadamente em actos e em almoços e jantares oficiais, em mesas de assessores de Belém, para as quais não estaria convidado. Após difíceis diligências (...), concluí que: os preparativos da visita, rodeada de exageradas medidas de segurança, foram controladissimos pela Casa Civil da Presidência da República; (...) Rui Paulo Figueiredo integrava a comitiva oficial do Presidente da República, constando o seu nome na lista de convidados para os diferentes actos oficiais e da comitiva restrita presente às audiência do Presidente da República com representantes das associações empresariais locais (...); Rui Paulo Figueiredo integrava igualmente a lista de convidados para os almoços e jantares oficiais, distribuídos pelas mesas sob prévia indicação dos serviços da Presidência da República (...) Destas minhas conclusões dei conhecimento a Luciano Alvarez, que, face aos dados apurados, deixou cair o assunto das suspeitas”.

O contacto que Tolentino de Nóbrega teve com Rui Paulo Figueiredo ocorreu um ano depois: “Dada a sua presença no Funchal quando da visita do primeiro-ministro à Madeira (15 de Maio de 2009), confrontei-o pessoalmente com a situação, na tentativa de validar ou não as informações anteriormente por mim colhidas. As respostas dadas nada acrescentaram ao que eu próprio apurara um ano antes, e de que dera conhecimento a Luciano Alvarez no início de Maio de 2008. Desde então nunca mais abordámos este assunto nos contactos quase diários que mantemos”.

Em conversa telefónica, Tolentino de Nóbrega adiantou ao provedor não ter comunicado à redacção o resultado do seu contacto com Rui Paulo Figueiredo não só por reiterar as informações que já antes enviara mas também por pensar que, ao fim de 12 meses, o tema fora abandonado pelo PÚBLICO.

Solicitados pelo provedor a explicar por que razão os dados recolhidos há ano e meio por Tolentino de Nóbrega, e que de algum modo contrariavam a versão do assessor de Belém, não entraram na notícia sobre o “espião” de S. Bento, nem José Manuel Fernandes nem Luciano Alvarez responderam (São José Almeida disse que a parte sobre Rui Paulo Figueiredo não foi da sua responsabilidade, mas sim de Luciano Alvarez).

Como o leitor já terá intuído chegado a este ponto, estamos perante um caso que se reveste de grande complexidade e gravidade, pelo que ao provedor não é possível esgotar a sua análise numa única crónica. Voltaremos ao assunto no próximo domingo.

Publicada em 13 de Setembro de 2009

DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR:

Carta de Rui Paulo Figueiredo, adjunto jurídico do primeiro-ministro

No dia 19.08.2009, o jornal PÚBLICO publicou uma “notícia”, assinada por São José Almeida e Luciano Alvarez, intitulada “Casa Civil da Presidência da República suspeita que está a ser vigiada há ano e meio; Belém preferiu não comentar, Sócrates falou em "disparates", em que sou “visado”.

Notícia que teve ampla repercussão em todos os outros órgãos de comunicação social. Com todas as consequências, que me dispenso de caracterizar, daí inerentes.

Foi com enorme surpresa e consternação que li esta “notícia”. Enquanto “alvo” e também enquanto leitor do PÚBLICO.

Não só pelo seu conteúdo, que reputo de fantasioso e totalmente falso, mas também pelo facto de não ter sido citado o meu desmentido ao conteúdo deste texto, em obediência às mais elementares regras deontológicas de audição e publicação do contraditório.

De facto, em tempo, fui abordado pelo jornalista do PÚBLICO Tolentino de Nóbrega sobre este tema quando me contactou na tentativa de procurar confirmar uma eventual ida do Primeiro Ministro à Região Autónoma da Madeira.

As perguntas que me fez versaram os temas abordados neste texto:

a) “… Gabinete do primeiro-ministro ter incluído na comitiva presidencial um adjunto de José Sócrates, Rui Paulo Figueiredo, sem nenhuma explicação natural.”;

b) Ser “… militante do PS e autor de um livro crítico sobre os anos em que o actual Presidente foi primeiro-ministro - Aníbal Cavaco Silva e o PSD (1985-1995).”;

c) Ter-me “ … sentado, sem ser convidado, na mesa de outros membros da comitiva, violando as regras protocolares.”;

d) Ter “ … multiplicado os contactos e as trocas de informação com alguns jornalistas do continente que se deslocaram à Madeira.”; e,

e) Ter tido “ … presença inesperada nalguns locais …”.

Na conversa, embora breve, que tive com o jornalista Tolentino de Nóbrega tive oportunidade de negar completamente tudo aquilo com que fui confrontado. E de lhe referir que ele, como testemunha de toda a visita, uma vez que a acompanhou em representação do Público, poderia comprovar facilmente o que eu lhe estava a afirmar.
Esclareci-o que estive oficialmente na visita e que o meu nome constava no livro oficial da visita elaborado pela Presidência da República.

E que o motivo da minha presença justificava-se, como o próprio Tolentino de Nóbrega sabia, pelo facto de, entre outras funções, acompanhar temas relacionados com as Regiões Autónomas. Aliás, já não era a primeira vez que, nesse âmbito, me deslocava à Região Autónoma da Madeira assessorando membros do Governo da República, como o Ministro da Presidência e o Secretário de Estado Adjunto do Primeiro Ministro. Como na imprensa da Região foi público e notório.

Do mesmo modo, tive oportunidade de lhe afirmar que, em obediência a esse programa oficial da visita, estive presente somente nos actos para os quais a minha presença estava prevista no referido programa. Como seria facilmente comprovado pela consulta desse programa.

Analogamente, referi-lhe que, ao longo dos seis dias que durou a visita do Presidente da República à Região Autónoma da Madeira, me desloquei nas viaturas que me foram indicadas, me sentei nas mesas que me foram destinadas e com as companhias, das mais diversificadas, que estavam previstas pela organização de cada evento.

Aproveito, por último, para mencionar não perceber a que se referem quando invocam contactos com jornalistas do Continente. Tive apenas conversas de circunstância com alguns, do Continente e da ilha, enquanto esperávamos que alguns eventos terminassem. Como aconteceu com o próprio Tolentino de Nóbrega no Parque Temático da Madeira.

Face ao exposto, não entendo como o meu desmentido e as minhas explicações não foram publicados no dia 19.08.09, tendo em conta o contacto tido com o jornalista Tolentino de Nóbrega – que em tempo me contactou sobre o assunto e que acompanhou toda a visita.

Terá sido para se evitar a publicação das minhas declarações? Não posso crer que seja essa a prática do jornal PÚBLICO.

Apesar de no dia em causa estar de férias, fiquei igualmente estupefacto com a afirmação de ” … que o PÚBLICO tentou, sem êxito, contactar[-me] ontem na Presidência do Conselho de Ministros”. Não só porque não tenho indicação nenhuma dessa nova tentativa de contacto, como pelo facto de ter sido ignorado o contacto efectuado pelo jornalista Tolentino de Nóbrega. Já não falando no facto de o meu local de trabalho ser S. Bento e não a Presidência do Conselho de Ministros.

Assim sendo, gostaria que o Provedor dos Leitores do Público se pudesse pronunciar sobre esta situação, no prazo mais célere possível, face ao enorme impacto da “notícia”, que me parece atentatória dos mais elementares princípios deontológicos que julgo ser seu dever salvaguardar e tendo em conta o próprio estatuto editorial e Livro de Estilo do jornal PÚBLICO.

Não posso deixar de informar que dirigi uma missiva, sobre este tema, ao jornalista Tolentino de Nóbrega e pondero desencadear outro tipo de diligências, face à forma como o meu nome se viu envolvido numa notícia com base em fontes anónimas e pela omissão da minha defesa.

Rui Paulo Figueiredo

Explicações do jornalista Tolentino de Nóbrega

1- No final de Abril de 2008, alguns dias após a visita do Presidente da República à Madeira (entre 14 e 20 desse mês) fui contactado pelo editor Luciano Alvarez no sentido de apurar localmente dados para confirmar ou desmentir a suspeita de que o Presidente da República teria sido espiado pelo gabinete do Primeiro-Ministro. O suposto espião seria um adjunto do Primeiro-Ministro que na visita se teria introduzido indevidamente na comitiva, nomeadamente em actos e em almoços e jantares oficiais, em mesas de assessores de Belém, para as quais não estaria convidado.

2- Após difíceis diligências (dada a natureza da investigação sobre uma tema que exigia a máxima discrição), incluindo contactos com entidades regionais e gabinete do Representante da República na Madeira, responsável pela organização local da visita, concluí que:
2.1. os preparativos da visita, rodeada de exageradas medidas de segurança, foram controladíssimos pela Casa Civil da Presidência da República;
2.2. o referido adjunto jurídico (Rui Paulo Figueiredo) integrava a comitiva oficial do Presidente da República, constando o seu nome na lista de convidados para os diferentes actos oficiais e da comitiva restrita presente às audiência do Presidente da República com representantes das associações empresariais locais, conforme verifiquei pessoalmente em documentos da Assessoria dos Assuntos Políticos da Presidência da República a que tive acesso;
2.3. o adjunto jurídico Rui Paulo Figueiredo integrava igualmente a lista de convidados para os almoços e jantares oficiais, distribuídos pelas mesas sob previa indicação dos serviços da Presidência da República.

3- Nos poucos contactos que tive com Rui Paulo Figueiredo tentei confirmar as informações dadas por um assessor de Belém, segundo o qual com esta visita o Presidente da República pretendia abrir caminho a uma deslocação do Primeiro-Ministro à Madeira, para uma cimeira com o governo regional, assunto sobre a qual fiz notícia (PÚBLICO 17/04/08). Também escrevi uma pequena nota sobre a inclusão de membros do governo da República e de um assessor do Primeiro-Ministro na comitiva presidencial (idem, 18/04/08).

4- Destas minhas conclusões dei conhecimento ao editor Luciano Alvarez, que, face aos dados apurados, deixou cair o assunto das suspeitas.

5- Quanto à carta de Rui Paulo Figueiredo ao Provedor do Leitor, idêntica a uma que me enviou, devo acrescentar que, dada a sua presença no Funchal quando da visita do Primeiro-Ministro à Madeira (15/05/09), confrontei-o pessoalmente com a situação, na tentativa de validar ou não as informações anteriormente por mim colhidas. As respostas dadas nada acrescentaram ao que eu próprio apurara um ano antes e de que dera conhecimento ao editor Luciano Alvarez no início de Maio de 2008. Desde então nunca mais abordámos este assunto nos contactos quase diários que mantemos.

Tolentino de Nóbrega

Explicações da jornalista São José Almeida

O PÚBLICO confrontou a Presidência da República com as informações que tinha. Tanto que a noticia é feita precisamente com as declarações de um membro da Casa Civil do Presidente da República.

O Livro de Estilo do PÚBLICO permite que, na posse de uma informação relevante, o jornalista a use assumindo o anonimato das fontes. Mas, neste caso concreto, havia um membro da Casa Civil que falava nessa condição, embora sem nome, pelo que era uma informação no mínimo oficiosa.

Por sua vez, o Presidente e os serviços da Presidência da República não desmentiram a notícia.

A noticia foi confirmada por outros orgãos de informação, como a SIC, o Diário de Notícias e o i.

O Presidente da República quando falou sobre o assunto, pela primeira vez, na sexta dia 29 de Agosto, não desmentiu a noticia. Antes falou em "matérias com conotações político-partidárias", "factos e acontecimentos".

A noticia inicial, no primeiro dia (18 de Agosto), é de facto minha. No dia 19, trabalhei em conjunto com o Luciano Alvarez. As informações referentes ao autor da carta [Rui Paulo Figueiredo], foram tratadas e escritas pelo Luciano, que é co-autor da noticia comigo. Não detenho assim conhecimento de como se processou o tratamento dessa informação, pelo que não posso responder sobre o assunto.

São José Almeida

Explicações de Luciano Alvarez, editor da secção Portugal do PÚBLICO

Há cerca de ano e meio que o PÚBLICO tem informações de que a presença de Rui Paulo Figueiredo causou desconforto e levantou desconfianças junto de alguns elementos da comitiva do Presidente da República na sua visita à Madeira. O facto de não termos podido, na altura, comprovar essas informações cruzando várias fontes levou-nos a nada publicar. Contudo, nunca abandonámos a investigação sobre esta matéria. Investigação que estava a ser feita por vários jornalistas do PÚBLICO, a maioria em Lisboa, um na Madeira, o nosso correspondente Tolentino de Nóbrega.

Mais tarde, no âmbito da elaboração de outra notícia, o mesmo Tolentino de Nóbrega falou com Rui Paulo Figueiredo e questionou-o sobre a visita à Madeira. Como da conversa não resultaram novos dados que nos permitissem fazer a notícia sobre as referidas desconfianças, Tolentino de Nóbrega não me deu sequer conta da conversa que tinha tido com Rui Paulo Figueiredo.

Contudo, na sequência da notícia do PÚBLICO (18/08/09) em que um membro da Casa Civil da Presidência da República levantava suspeitas de que assessores do Presidente da República estariam a ser vigiados, o PÚBLICO conseguiu por fim fazer o cruzamento de fontes e confirmar a desconfiança que algumas atitudes de Rui Paulo Figueiredo tinham causado a várias pessoas, nomeadamente a membros da Casa Civil do Presidente da República, mas não só, como se comprovou nos dias seguintes.

De facto, no dia seguinte à nossa notícia que referia Rui Paulo Figueiredo, a 20/08/09, as informações que editámos foram confirmadas on, conforme foi noticiado em vários órgãos de comunicação social, por Alberto João Jardim, que disse ter considerado "estranho" o facto de, aquando da visita de uma semana do Presidente da República à Madeira, a comitiva do ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, que acompanhou Cavaco Silva, incluir um adjunto do primeiro-ministro, "uma pessoa que tem um nome que consta das listas da Maçonaria publicadas".

"Nunca desconfiei de nada", disse, adiantando ter considerado "estranho" que o referido adjunto tivesse permanecido na região mesmo quando o ministro da Presidência regressou a Lisboa.

"Ele ficou por aí e foi indo a tudo, não acuso o senhor, embora tenha prática de sociedades ditas secretas, não me passa pela cabeça que andasse a espiar o que eu dizia, porque o que digo é para todos ouvirem, não é segredo", afirmou ainda.

Recordo que a notícia do PÚBLICO referia o desconforto dos assessores do Presidente perante as deambulações de Rui Paulo Figueiredo.

Sobre contactos com Rui Paulo Figueiredo:

Ao fim do dia 18/08/08, dia da elaboração da notícia, eu próprio liguei para Presidência do Conselho de Ministros, na Rua Gomes Teixeira, para tentar uma reacção de Rui Paulo Figueiredo, mas ninguém atendeu. Cometi um erro, pois deveria ter, de facto, ligado para São Bento, pois sabia bem que era aí que Rui Paulo Figueiredo habitualmente trabalhava, já que uma vez lhe tinha telefonado para São Bento para elaboração de outra notícia. Admito esse erro.

Ainda assim, no dia seguinte, durante uma conversa com um assessor do PS, Ricardo Pires, a referida notícia do PÚBLICO veio à conversa e o assessor revelou conhecer bem Rui Paulo Figueiredo. Como continuava a tentar falar com ele, pedi ao referido assessor o favor de entrar em contacto com Rui Paulo Figueiredo para que soubesse que o PÚBLICO queria falar com ele. O referido assessor ficou de o fazer e eu disse-lhe que, devido às horas de fecho do jornal, me informasse entre as 20h30 e as 21h00. Por volta das 20h30, Ricardo Pires informou-me que não o tinha conseguido contactar e não abordámos mais o assunto. Rui Paulo Figueiredo também não tentou contactar-me.

Nos dias seguintes, vários jornais revelaram que também não tinham conseguido entrar em contacto com Rui Paulo Figueiredo.

Luciano Alvarez

Explicações do director do PÚBLICO

De forma o mais sintética possível, sem repetir o que está dito pelos três jornalistas do PÚBLICO que já responderam:

1. Há ano e meio que o PÚBLICO, através de vários jornalistas e de contactos estabelecidos por mim próprio, procurava recolher elementos para sustentar as informações dispersas que chegavam ao jornal relativas à existência de uma tensão entre Belém e São Bento que tinha ultrapassado o patamar da divergência política normal para se situar no da desconfiança sobre os métodos seguidos pelo gabinete do primeiro-ministro.

2. Apesar dos muitos elementos recolhidos pelo PÚBLICO - muito mais do que os noticiados até ao momento -, nunca estivemos em condições de os noticiar, pois consideramos que não devemos utilizar fontes anónimas quando os visados desmentem em on as informações e não possuímos provas materiais. Isso não significa que deixemos de confiar nas nossas fontes, mas que só podemos avançar com as notícias se estas também as assumirem. Mesmo estando convictos da falsidade de alguns "desmentidos".

3. Na véspera da saída da primeira notícia, um membro da Casa Civil do Presidente da República confirmou formalmente ao PÚBLICO uma das várias informações de que há muito tínhamos conhecimento. Pense-se o que se pensar sobre o que levou esse membro da Casa Civil a confirmar essa informação, como jornalistas a nossa opção só podia ser uma: no dia em que uma fonte autorizada da Casa Civil do Presidente da República assume que no Palácio de Belém se suspeita de que o Governo montou um sistema para vigiar os movimentos do Presidente, essa informação tem uma tal importância e gravidade que só podia ter o destaque que teve.

4. Pessoalmente acompanhei este processo e, como o Livro de Estilo prevê, na sequência de práticas introduzidas em jornais como The New York Times e The Washington Post após casos como o de Jason Blair, inteirei-me da fiabilidade das fontes e dei luz verde à publicação da notícia.

5. No dia seguinte outros órgãos de informação confirmaram a notícia do PÚBLICO (SIC, Diário de Notícias e i).

6. Também no dia seguinte o PÚBLICO contactou o gabinete do primeiro-ministro para obter uma reacção, algo que conseguiu quando ficou claro que a nossa notícia não seria desmentida por Belém.

7. O PÚBLICO tratou de obter um comentário do próprio Presidente, mas isso só foi possível quando este, no dia 28, compareceu num evento em Querença previamente agendado ao qual enviámos o nosso correspondente no Algarve. Refira-se que, quando percebemos que não conseguiríamos falar directamente com o Presidente para a sua residência de férias, verificámos a sua agenda para perceber quando ia aparecer em público, tendo notado que a notícia saíra da Casa Civil exactamente antes de um período relativamente longo em que o Presidente não tinha agenda pública. Durante esse intervalo de tempo apareceu, de surpresa, na praia Maria Luísa, aquando do desastre que aí ocorreu, mas antes de o nosso jornalista ter chegado ao local. Nessa altura não encontrei registo de que tivesse feito qualquer declaração pública sobre o caso.

8. No dia seguinte à primeira notícia, o PÚBLICO insistiu junto da Casa Civil para poder noticiar a história relativa a Rui Paulo Figueiredo, uma das várias que conhecíamos e que já nos levara a tentar reconstituí-la nos termos relatados pelo Luciano Alvarez e pelo Tolentino de Nóbrega. No processo foi cometido o erro de tentar encontrar Rui Paulo Figueiredo na Presidência do Conselho de Ministros e não directamente na residência oficial do primeiro-ministro. Tudo o mais seguiu todas as regras, e só lamentamos que os recados deixados a Rui Paulo Figueiredo não se tenham traduzido numa resposta aos nossos jornalistas, que teria sido noticiada de imediato, antes no envio de uma queixa ao Provedor - a resposta não impediria que se queixasse na mesma, mas impediu-nos de noticiar a sua posição e de lhe fazer mais perguntas.

9. No mesmo dia o PÚBLICO voltou a contactar diferentes fontes - as que conseguiu encontrar, pois estávamos a meio de Agosto -, de forma a obter autorização para noticiar outros elementos que considerámos relevantes para enquadrar a génese da desconfiança assumida pela Casa Civil do Presidente da República. Não conseguimos porém ir muito mais longe do que já sabíamos e era insuficiente para, sem que outras fontes assumissem a informação, nós noticiarmos com o grau de confiança e fiabilidade exigível.

10. Para o PÚBLICO este não é um episódio encerrado e muito menos um sillygate, razão pela qual os nossos jornalistas continuam a trabalhar para reunirem a documentação e/ou os testemunhos que nos faltam para sustentar as outras informações que possuímos mas que ainda não estão em condições de serem reveladas pois não passaram por todos os crivos da prova e contra-prova.

José Manuel Fernandes

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Notícia e interpretação

Levantar questões quando os factos o permitem é apanágio de um jornalismo que procura evitar o conformismo e a resignação

É um dado objectivo que o FCP só conseguiu vencer após as duas substitui-
ções no V. Setúbal (Lisandro e Raul Meireles celebram um dos golos)


Os protestos mais arrebatados recebidos pelo provedor costumam incidir na área do desporto. Em regra, os leitores reclamam contra um suposto tratamento desfavorável dos seus clubes como se disso dependesse o futuro da humanidade. O clubismo é uma conhecida doença que afecta a psique nacional, e não raro vemos na TV pessoas sensatas, equilibradas, racionais e bem educadas a perderem as estribeiras para defender as cores da sua equipa, sem hesitarem em recorrer aos argumentos mais destemperados.

O provedor compreeende pois a nota prévia de Jorge Miguel Matias, editor de Desporto deste jornal, à explicação sobre o caso aqui abordado: “Apesar de a maior parte dos comentários acusar os jornalistas da editoria de Desporto do PÚBLICO de clubismo, seja ele de que cor for, garanto que é muito maior o clubismo de quem nos acusa do que daqueles que trabalham nesta casa. Prova disso, aliás, é o facto de suceder, com alguma regularidade, um mesmo texto ser encarado como de um benfiquismo doentio por uns ou de um sportinguismo demente por outros. E sublinho: um mesmo texto”. (O ideal para o provedor seria não haver clubismo da parte de quem no jornal escreve sobre desporto, não que fosse apenas menor do que o dos reclamantes, mas adiante...).

O que não obsta à apreciação das queixas recebidas, como se de quaisquer outras se tratasse. O assunto já tem meses, mas, como já regressaram os jogos semanais da Liga, mantém-se actual. O desafio FC Porto-Vitória de Setúbal do anterior campeonato, disputado em 26 de Abril, foi coberto pelo jornalista Luís Octávio Costa com uma reportagem no PUBLICO.PT e na edição em papel do dia seguinte cujo título era “O estranho caso do minuto 58” e que começava assim: “Minuto 58 do FC Porto-Vitória de Setúbal. De uma assentada, Leandro Lima e Bruno Gama foram substituídos por dois colegas de equipa. Coincidência ou não, Leandro Lima e Bruno Gama, jogadores emprestados pelo FC Porto ao Setúbal, estavam a ser os dois jogadores mais perigosos dos sadinos. Coincidência ou não, o jogo que estava empatado ganhou outra vida quatro minutos depois com o primeiro de dois golos de Lisandro (2-0). O tiro no pé de Carlos Cardoso deu uma segunda vida ao campeão nacional. Alguém quer explicar a substituição? Pontaria de Carlos Cardoso, que na véspera até vaticinara uma ‘gracinha’? Sorte de Jesualdo Ferreira, que via o placard a andar para trás?”

Os protestos não se fizeram esperar. “Objectivamente é uma insinuação torpe, mais um vil envenenamento do futebol e da sociedade portuguesa (que paga a mediocridade e o ‘triunfo’ fácil em que vivemos)”, escreveu o leitor Joaquim Pinto da Silva. “Um jornalista não pode lançar na lama o nome de um treinador (do Vitória) e do seu clube só porque na sua análise considera que os dois jogadores substituídos estavam a ser os melhores (ainda por cima, profissionais do clube adverso) e que isso foi feito para facilitar a vida à equipa vitoriosa. Não há nem verdade nem opinião naquela forma de escrever. Há desonestidade intelectual, maldade, inveja e facciosismo gritantes. Um jornal que queira ser referência não pode ter jornalistas destes”.

“Ao ler o resumo do jogo, em vez de encontrar um relato sobre o acontecido, encontrei uma série de especulações, a começar no titulo e a desenvolver-se no conteúdo”, opinou, por seu turno, Nuno Leal, a partir de Angola. “‘Coincidência ou não’ não é coisa que um jornalista escreva, é coisa para um jornaleiro! Ou o jornalista tem provas e cabe-lhe denunciar, ou não tem e cabe-lhe relatar, pelo menos na minha modesta opinião. E a minha modesta opinião – parcial, eu sei, que sou portuense e portista – é que o treinador tirou esses dois jogadores porque quis defender ainda mais o resultado, sabendo que na última meia-hora o FC Porto iria intensificar o ataque. É uma opção válida. Se tivesse resultado, que escreveria o jornaleiro, perdão, jornalista? (...) Quando quero ler esse tipo de coisas compro o Jogo, a Bola ou o Record. No PÚBLICO habituei-me a ler boas análises aos jogos, coisa que aqui apenas acontece em dois curtos parágrafos”.

João Oliveira disse-se “chocado” com o relato, onde julgou detectar um “teor faccioso”, e um leitor anónimo perguntou: “Luís Octávio Costa escreveu uma notícia ou um artigo de opinião sobre o jogo? Se se trata de notícia, o título e o tendenciosismo do texto seguem os critérios do PÚBLICO no que respeita a isenção e objectividade da informação sobre eventos de qualquer natureza? Esses critérios não se aplicam em notícias de desporto? Por que motivos? Se se trata de artigo de opinião, por que não vem referenciado como tal? E, assim sendo, qual o motivo por que não existe uma notícia sobre o mesmo tema?”

Por último, Albino Costa anunciou até um gesto radical: “Comunico que a partir de hoje contam com pelo menos um leitor/cliente. O artigo publicado sobre o jogo do FCP-Setúbal (...) foi a gota de água num copo já a transbordar. Espero que a minha atitude se multiplique, caso não haja retractação”.

Solicitado pelo provedor, Jorge Miguel Matias respondeu pela matéria publicada: “Discordo da interpretação dada pelos leitores. [Luís Octávio Costa], na crónica, limita-se a constatar factos. O resultado estava 0-0; os dois melhores jogadores do V. Setúbal foram substituídos (o que não deixa de ser estranho, pois não é normal os melhores serem substituídos, mas sim os que estão a ter piores desempenhos) e, de seguida, o FC Porto marcou. Quem faz as interpretações posteriores são os leitores. No texto são relatados os factos.

Os próprios jogadores em causa foram questionados em relação à sua substituição no final da partida por diversos jornalistas e, eles mesmos, confessaram a sua estranheza com o facto, dizendo que não tinham percebido a opção técnica (as declarações foram públicas e transcritas por diversos órgãos de comunicação social)”.

O provedor não acha que Luís Octávio Costa se tenha limitado a relatar factos. Também questiona muito directamente a opção do director do V. Setúbal, mas levantar questões e colocar dúvidas quando os factos o podem permitir é apanágio de um jornalismo que procura evitar o conformismo e a resignação, como corresponde à matriz editorial do PÚBLICO. No caso vertante, é aceitável que o jornalista tenha sublinhado o sucedido no minuto 58, já que é um dado objectivo (não relevando pois do domínio da opinião) que a vitória portista apenas foi conseguida após as duas substituições na equipa adversária. Luís Octávio Costa não emite opinião, mas procura lançar pistas que permitam interpretar o que poderá ter acontecido. Ora, a interpretação, que vai para além do relato seco dos factos, impregnando o jornalismo de maior vivacidade, é admitida e até estimulada pelo Livro de Estilo do PÚBLICO: “A notícia não se reduz, no PÚBLICO, ao [já inexistente] telex de agência (...). A notícia não dispensa o enquadramento básico dos factos no contexto em que eles ocorrem (...). E esse enquadramento pressupõe, naturalmente, a capacidade de interpretar aquilo que é mais relevante e significativo para uma apresentação rigorosa e sugestiva dos factos, [o que] implica um juízo de valor que é da responsabilidade do jornalista e do jornal, devendo ser feito com critérios de imparcialidade e neutralidade. (...) Na reportagem (...) a interpretação dos factos encontra uma expressão mais desenvolvida. (...) Interpretar não é julgar, mas explicar o porquê e o como das situações”.

Em conclusão, Luís Octávio Costa explorou a margem de interpretação que o Livro de Estilo lhe concede. Nas cartas dos leitores, apenas parece pertinente a chamada de atenção, feita por Nuno Leal, para a necessidade de se admitir a hipótese de o treinador do V. Setúbal, com as duas substituições, tentar defender um empate no estádio do FC Porto, táctica que fracassou mas seria compreensível. Mas mesmo isso Luís Octávio Costa, interpelado a esse respeito pelo provedor, diz que fez: “Claro que admito. Por isso, no final do jogo, e apesar da pressão para enviar o texto para a redacção minutos depois, desci à sala de imprensa para ouvir os dois treinadores sobre a substituição dupla. A resposta, que também está no texto, foi a seguinte. ‘Com a saída dos dois jogadores, o FC Porto passou a ter mais espaço e mais linhas’, respondeu Jesualdo’. Já não atacavam com a mesma intensidade, justificou Carlos Cardoso’.

CAIXA:

Discriminação horária

“Queria mostrar o meu desagrado pela maneira como o PÚBLICO trata a conquista do oitavo campeonato consecutivo de hóquei em patins pelo FC do Porto”, escreveu Hélder Alves em 7 de Agosto. “Será assim uma notícia tão menor que mereça ter o destaque medíocre que o jornal lhe dá? (...) Poderia pensar-se que as notícias eram tantas que assim se justificaria o sucedido... Mas além do grande destaque para a vitória do Benfica no basquetebol é dado destaque a notícias como ‘Benfica venceu em Ovar e está a uma vitória do título’, notícia já recessa, ou como ‘Sérgio Ramos renova pelo Benfica’, certamente mais importante que um clube ganhar oito campeonatos consecutivos. (...) Isenção, equidistância e profissionalismo precisam-se!”

Responde Jorge Miguel Matias: “A explicação para, por norma, existirem poucas notícias no jornal sobre o hóquei em patins é simples. Infelizmente, a esmagadora maioria dos jogos são nocturnos e começam muitas vezes para lá das 21h. (...) E como a informação demora a ser disponibilizada seja pela Federação, seja pelos próprios clubes, seja pela Lusa (agência à qual recorremos para conhecer os resultados), na maior parte dos casos só muito tarde (demasiado tarde quando em confronto com a hora de fecho do jornal) é possível saber o desfecho dos jogos. (...) É difícil, se não mesmo impossível, esperar até tão tarde. E basta olhar para os outros jornais deste género para perceber que a informação sobre hóquei em patins é muito rara”.

Publicada em 6 de Setembro 2009

DOCUMENTAÇÂO COMPLEMENTAR:

Cartas de leitores sobre a reportagem de Luís Octávio Costa:

Já algum tempo que o PÚBLICO vem a perder qualidade, optando por um jornalismo que em nada dignifica a imprensa e o país, na minha modesta opinião. Pelo que comunico que a partir de hoje contam com pelo menos um leitor/cliente. O artigo hoje publicado sobre o jogo do FCP-Setúbal, "escrito" pelo sr. Luís Octávio Costa, foi a gota de água num copo já a transbordar. Esperando que a minha atitude se multiplique, caso não haja retractação,

Albino Costa

Solicito a sua intervenção em relação ao artigo de Luís Octávio Costa sobre o jogo Porto-Setúbal). Objectivamente é uma insinuação torpe, mais um vil envenenamento do futebol e da sociedade portuguesas (que paga a mediocridade e o "triunfo" fácil em que vivemos). Um jornalista não pode lançar na lama o nome de um treinador (do Vitória) e do seu clube só porque na sua análise considera que os dois jogadores substituídos estavam a ser os melhores (ainda por cima, profissionais do clube adverso) e que isso foi feito para facilitar a vida à equipa vitoriosa. Nao há nem verdade nem opinião naquela forma de escrever. Há desonestidade intelectual, maldade, inveja e facciosismo gritantes. Um jornal que queira ser referência não pode ter jornalistas destes.

Joaquim Pinto da Silva

Apesar de estar a trabalhar em Angola há mais de dois anos, o PÚBLICO continua a ser a minha leitura de referência e o meu modelo de qualidade para o jornalismo. No entanto, para além de achar que o caso "Fripor" anda muito mal relatado nas primeiras páginas (concordo em absoluto com Pacheco Pereira na sua análise ao "situacionismo" e acho que o PÚBLICO está com "medo"), agora deparo com uma não-noticia. Ao ler o resumo do jogo do FC Porto, em vez de encontrar um relato sobre o acontecido, encontrei uma série de especulações, a começar no titulo, "o estranho caso" e a desenvolver-se no conteúdo. "Coincidência ou não" não é coisa que um jornalista escreva, é coisa para um jornaleiro! Ou o jornalista tem provas e cabe-lhe denunciar, ou não tem e cabe-lhe relatar, pelo menos na minha modesta opinião. E a minha modesta opinião - parcial, eu sei, que sou portuense e portista - é que o treinador tirou esses dois jogadoes porque quis defender ainda mais o resultado, sabendo que na última meia-hora o FC Porto iria intensificar o ataque. É uma opção válida. Se tivesse resultado, que escreveria o jornaleiro, perdão, jornalista? Não estou habituado, leitor que sou desde o nº1 do PÚBLICO, a ver este tipo de jornalismo aqui. Quando quero ler esse tipo de coisas, compro O Jogo, A Bola ou o Record. No PÚBLICO habituei-me a ler boas análises aos jogos, coisa que aqui apenas acontece em dois curtos parágrafos. O resto são histórias de encher a caixa e especulações...

Nuno Leal

Sou um assíduo leitor, na vossa nova secção de desporto, entre outras, das crónicas da Liga Portuguesa de Futebol. Fico chocado com o teor faccioso da vossa ultima cronica da vitória do FC Porto sobre o Vitória de Setúbal. Numa altura em que o País esta como está, e já se duvida de tudo, continuar a tentar retirar credibilidade e seriedade às notícias é terrível. Admiro imenso o vosso jornal pela sua imparcialidade e seriedade, e prezo para que a vossa nova secção de desporto continue nas mesmas linhas o que é a imagem do vosso jornal.

João Oliveira

O "jornalista" Luís Octávio Costa escreveu uma notícia ou um artigo de opinião sobre o jogo FC Porto-Vitória de Setúbal? Se se trata de uma notícia, o título e o tendenciosismo do texto seguem os critérios do PÚBLICO no que respeita a isenção e objectividade da informação sobre eventos de qualquer natureza? Esses critérios não se aplicam em notícias de desporto? Por que motivos?

Se se trata de um artigo de opinião, por que não vem referenciado como tal? E, assim sendo, qual o motivo por que não existe uma notícia sobre o mesmo tema e apenas é publicado um artigo de opinião?

Leitor anónimo

Carta do leitor Hélder Alves

Queria mostrar o meu desagrado pela maneira como o PÚBLICO trata a conquista do oitavo campeonato consecutivo de hóquei em patins pelo FC Porto... Será assim uma notícia tão menor que mereça ter o destaque medíocre que o jornal lhe dá? Na página principal do Desporto, aparece nas "Outras Notícias", e quando se abre o separador das "Modalidades", onde o destaque poderia ser feito com outra amplitude, pasme-se, a notícia aparece novamente em "Outras Notícias"!

Poderia pensar-se que as notícias eram tantas que assim se justificaria o sucedido... Mas além do grande destaque para a vitória do Benfica no basquetebol é dado destaque a notícias como "Benfica venceu em Ovar e está a uma vitória do título", notícia já recessa, ou como "Sérgio Ramos renova pelo Benfica", certamente mais importante que um clube ganhar oito campeonatos consecutivos...

Fico na dúvida se estou a ler o PÚBLICO ou o Record!

Isenção, equidistância e profissionalismo precisam-se!

Hélder Alves

domingo, 9 de agosto de 2009

Moscas por arames

No PÚBLICO não parece um principio válido impedir que a verdade estrague numa boa metáfora

O Belenenses só mobiliza
“duas dezenas de velhinhos” ou é “dos clubes que mais adeptos levam ao estádio”?


O provedor iniciava a sua última crónica, “Os ‘velhinhos’ do Restelo”, mencionando mosquitos por cordas devido ao texto “Um festival sem festa”, do crítico e colaborador do PÚBLICO João Bonifácio, saído no P2 de 20 de Julho. Pois com a crónica do provedor houve mosquitos por cordas e moscas por arames.

O debate estendeu-se por cartas de leitores, artigos de opinião e a blogosfera (incluindo o blogue do provedor), e em discordância com as ideias defendidas na crónica alegou-se estar ameaçada a liberdade de expressão, haver sinais de nova tendência censória e assistir-se ao “fim da crítica tal como a conhecemos”. João Bonifácio foi mesmo tido como uma espécie de papa da crítica, porventura infalível, em todo o caso insusceptível de, ele próprio, ser sujeito a crítica (embora as observações do provedor se dirigissem sobretudo às opções editoriais do PÚBLICO – ou à falta delas).

O provedor congratula-se com a saudável polémica desencadeada, mas, dado o rumo hiperbólico dos argumentos, gostaria de descer um pouco à Terra, já que não antevê qualquer catástrofe ou sequer a mudança de seja que paradigma for – e, à maneira de Mark Twain, acha o anúncio da morte da crítica levemente exagerado.

É forçoso esclarecer que a sua actuação se enquadra num conjunto de referências escritas das quais a essencial é o Livro de Estilo do PÚBLICO. As conclusões a que chegou decorreram, tão só e apenas, da interpretação que fez das normas contidas nesse documento, ao qual se obrigam todos os jornalistas e colaboradores regulares do jornal, como é o caso de João Bonifácio.

Uma das principais regras impõe uma separação crucial: “Informação e opinião têm espaços claramente demarcados no PÚBLICO”, diz-se no capítulo do Livro de Estilo sobre “Critérios, géneros e técnicas”, para logo depois se reiterar: “A diferenciação entre textos noticiosos e textos de opinião tem de ser clara aos olhos dos leitores”.

Sucede que o texto de João Bonifácio, sobre um festival de música rock realizado no Estádio do Restelo, em Lisboa, era apresentado não como artigo de opinião mas como matéria noticiosa, consistindo porém num híbrido de reportagem, crónica e crítica à actuação dos músicos. Esta circunstância criou equívocos e acabou por baralhar alguns leitores, que reclamaram dizendo que o autor devia ater-se ao relato do sucedido e não a apreciações pessoais.

Admite-se um lapso na apresentação de um texto, o que para o provedor não é dramático desde que o jornal o venha a corrigir. O director adjunto Nuno Pacheco fê-lo duas vezes em editorial, a 23 de Julho e quarta-feira última, invocando “um erro de paginação” do trabalho em causa. Mas, com a resposta recebida de João Bonifácio na semana passada, pareceu ao provedor que a ambiguidade fora premeditada, logo contrária ao estabelecido no Livro de Estilo. Explicou o autor: “Devido à sua natureza, os festivais de Verão podem ser motivo não apenas de crítica mas também de reportagem, pelo que se opta por um modelo de reportagem e crítica. Isso não invalida que os textos dedicados a festivais sejam invariavelmente textos críticos. O facto de (...) não estarem encabeçados como ‘Crítica’ pode de facto induzir em erro os leitores, visto um texto crítico (...) ter uma amplitude de registos, recursos formais e uma vertente opinativa bastante diferentes dos de reportagem. É este o caso. Presumo que isto responda a quem afirma que eu devia ter-me limitado a reportar factos.”

Ora, assumir-se num texto assim apresentado que se gosta ou não do grupo sobre o qual se escreve, como aconteceu com João Bonifácio, não é muito diferente de um jornalista político declarar as suas preferências partidárias numa reportagem de campanha eleitoral. O próprio João Bonifácio tinha consciência dessa limitação, ao reconhecer na resposta ao provedor: “O Livro de Estilo não me permite escrever ‘não gosto’”. Mas foi pior a emenda do que o soneto, pois, sobre as canções do grupo The Killers, que actuou no Restelo, acabou por escrever no colectivo: “Não gostamos nem um bocadinho”. Tal declaração podia ser lida como a posição do próprio PÚBLICO sobre a banda, em violação da regra do distanciamento dos factos preconizada no Livro de Estilo. Explicou João Bonifácio ao provedor que se tratava apenas do recurso alternativo ao plural majestático – o que, convenhamos, pode adequar-se a um papa da crítica mas não contorna a limitação que o próprio encontrara no Livro de Estilo.

Na polémica havida, os textos de opinião a publicar na imprensa foram defendidos como matéria sacrossanta e inviolável, como se qualquer interferência constituísse um atentado à liberdade de expressão. Este é um mito que não encontra aplicação em nenhuma parte do mundo. As regras do bom funcionamento de uma publicação implicam a leitura prévia, pelos seus responsáveis, de todo o tipo de artigos, para prevenir situações de natureza penal ou cível (sobretudo quanto à reputação de pessoas e instituições e à intimidade da vida privada), de incorrecção factual ou mesmo, eventualmente, de incompatibilidade com o estilo do periódico. O próprio Livro de Estilo do PÚBLICO alarga a norma aos textos de opinião, com a lógica concordância dos autores: “Os textos de opinião estão também sujeitos ao respeito pela linguagem não insultuosa e não panfletária a que se obriga o PÚBLICO. (...) Em qualquer caso, toda a intervenção do jornal num texto de opinião só é admissível com prévia autorização do autor”.

Estando a situação prevista no regulamento do jornal, o provedor não percebe a indignação causada pela sua sugestão de que os editores procurassem, em articulação com João Bonifácio, alterar uma passagem do seu texto que os adeptos do Belenenses (o clube de futebol que joga no Restelo) poderiam considerar insultuosa – para mais tratando-se de questão formal, sem nada a ver com a essência da crítica. Afinal foi essa frase (“O Belenenses joga e há duas dezenas de velhinhos nas bancadas, nem uma palha bule, é um sossego”) que deu origem a toda a controvérsia.

Não que seja ofensa grave (se é que é ofensa, o que só um tribunal decidiria), mas nenhuma falange de apoio a um clube desportivo, cuja natureza reside no culto do vigor físico, aceitará de ânimo leve tão redutora descrição. Para mais, tratou-se, ao que tudo indica, de erro factual: João Bonifácio admitiu ao provedor que o Belenenses “pode ser dos clubes que mais adeptos levam ao estádio em termos brutos”, nem todos pertencendo certamente ao mesmo escalão etário. Para um jornal como o PÚBLICO, não parece um principio válido impedir que a verdade se intrometa numa boa metáfora.

Houve quem reclamasse por o provedor não levar em linha de conta o carácter eventualmente insultuoso das reacções de muitos adeptos do Belenenses, assim como da sua própria direcção em carta enviada ao PÚBLICO. Poder-se-ia responder que um insulto postal não possui o carácter de outro difundido num meio de comunicação de massas, ou até que um insulto em reacção a outro não torna este virtuoso – mas o ponto não é esse. O provedor é o defensor dos leitores do PÚBLICO, não dos seus jornalistas e colaboradores, pelo que a forma como os cidadãos usam a palavra para reagir às matérias publicadas pelo jornal é absolutamente indiferente ao exercício do seu múnus.

Este é o normativo que enforma a acção do provedor. Poderiam ser outras as regras? Evidentemente. Para felicidade de todos nós, que vivemos em liberdade de imprensa, há publicações de toda a forma e feitio – e para mais todos podem hoje publicar na internet tudo o que lhes vier à cabeça. Mas para isso o PÚBLICO deveria possuir outro estatuto editorial, outro Livro de Estilo e outro contrato com os leitores – e, já agora, outro provedor.

CAIXA:

Não há artigos grátis

“Compro o PÚBLICO diariamente desde que foi lançado”, escreve a leitora Maria Pires. “Durante muitos anos, por o considerar um óptimo jornal. No últimos, infelizmente, já apenas por o considerar o menos mau dos jornais portugueses. [Na edição de] sábado 1 de Agosto, com chamada à primeira página e indicação de ‘Grátis em Agosto’, vem ‘O Melhor das nossas reportagens’ do caderno P2. Acho indecente a repetição das reportagens (que só faria sentido num carderno especial) e inacreditável a ‘lata’ do ‘grátis’. (...) Para quem compra o jornal diariamente, em vez de grátis, é pagar duplamente pela mesma coisa. E vou deixar de adquirir o PÚBLICO de sábado durante Agosto, pois sinto-me defraudada (...) com um caderno que, em vez de novos artigos e reportagens, traz reportagens que eu já li em edições anteriores”.

Sobre esta operação de reciclagem de matérias, explica o director do PÚBLICO: “A decisão de publicar um best off (...) surgiu na sequência da solicitação de muitos leitores, que mesmo tendo lido um ou outro texto não os tinham guardado. Outros não tinham lido, pois a maioria (...) não lê o jornal todos os dias. Ao reeditarmos esses textos num papel melhor e com melhor qualidade de impressão, oferecendo esse bónus sem cobrar mais pela edição de sábado (apesar dos custos acrescidos), sentimos que não era excessivo falar de oferta ‘grátis’, até porque recompilações deste tipo, habituais em jornais um pouco por todo o mundo, costumam ser vendidas à parte”.

O provedor considera pertinente a reclamação, já que esta opção editorial despreza os leitores mais leais ao PÚBLICO, que pagam duas vezes pelo que já leram e em contrapartida não têm direito a novos conteúdos no P2. Poder-se-ia falar em “bónus” se o prato de comida requentada se somasse a outro acabado de confeccionar. Mas, ao substituí-lo e exigir aos leitores o mesmo dinheiro, não há nada de grátis neste almoço espiritual (sendo a maioria indiferente à qualidade do papel e impressão).

Não se estará por isso a dar menos com a ilusão de que se dá mais? José Manuel Fernandes responde: “Não se está a dar menos, pois dão-se mais páginas. É verdade que alguns leitores, ou mesmo muitos, terão lido já parte daqueles conteúdos, mas para a esmagadora maioria não é ‘menos’. Sendo que há no P2 especial conteúdos novos, os das páginas fixas [passatempos e listas de programas de TV, espectáculos e farmácias de serviço]. Mas a razão essencial é que, com os recursos que temos num mês como Agosto, produzir dois P2 num mesmo dia não era possível humana e financeiramente. Na melhor das hipóteses faríamos um misto de P2 normal e P2 especial, (...) nem carne, nem peixe. (...) Todo o feedback que recebemos dos leitores foi positivo, (...) à excepção dessa mensagem que foi só para o provedor”.

Publicada em 9 de Agosto de 2009

DOCUMENTAÇÂO COMPLEMENTAR:

[Ler aqui as explicações de João Bonifácio enviadas na semana passada ao provedor]

Carta da leitora Maria Pires

Compro o PÚBLICO diariamente desde que foi lançado. Inicialmente, e durante muitos anos, por o considerar um óptimo jornal. No últimos anos, infelizmente, já apenas por o considerar o menos mau dos jornais portugueses, pois, em minha opinião, o jornal tem vindo a piorar em quase todos os aspectos.

Mas esta minha comunicação refere-se concretamente ao jornal de sábado 1 de Agosto de 2009. Com chamada à primeira página e indicação de “Grátis em Agosto” vem “O Melhor das nossas reportagens” do caderno P2.

Acho indecente a repetição das reportagens (que só faria sentido num carderno especial) e inacreditável a “lata” do “grátis”. Talvez seja “grátis” para quem só compra o jornal em Agosto... Para quem compra o jornal diariamente em vez de grátis é pagar duplamente pela mesma coisa.

E vou deixar de adquirir o PÚBLICO de sábado durante o mês de Agosto, pois sinto-me defraudada ao adquirir o jornal com um caderno que, em vez de novos artigos e reportagens, traz reportagens que eu já li em edições anteriores.

Maria Pires

Explicação do director do PÚBLICO

É um ponto de vista, que respeitamos, mas a decisão de publicar um best off, impresso num papel de melhor qualidade, surgiu na sequência da solicitação de muitos leitores, que mesmo tendo lido um ou outro texto não os tinham guardado. Outros não tinham lido, pois a maioria dos leitores de diários (e o PÚBLICO não é excepção) não lêem o jornal todos os dias.

Ao reeditarmos esses textos num papel melhor e com melhor qualidade de impressão, oferecendo esse bónus sem cobrar mais pela edição de sábado (apesar dos custos acrescidos), sentimos que não era excessivo falar de oferta "grátis", até porque recompilações deste tipo, habituais em jornais um pouco por todo o mundo, costumam ser vendidas à parte.

José Manuel Fernandes

Segunda resposta do director

Não se está a dar menos, pois dão-se mais páginas. É verdade que alguns leitores, ou mesmo muitos leitores, terão lido já parte daqueles conteúdos, mas para a esmagadora maioria não é "menos". Sendo que há no P2 especial conteúdos novos, os das páginas fixas.

Mas a razão essencial é que, com os recursos que temos num mês como Agosto, produzir dois P2 num mesmo dia não era possível humana e financeiramente. Na melhor das hipóteses, faríamos um misto de P2 normal e P2 especial, solução que nos pareceu que não seria nem carne, nem peixe.

Entre um compromisso "estranho" e a troca em cinco sábados do P2 normal por uma edição best of, optámos pela segunda.

Todo o feedback que recebemos dos leitores foi positivo, pelo menos que eu saiba, à excepção dessa mensagem que foi só para o provedor.

José Manuel Fernandes

domingo, 2 de agosto de 2009

Os "velhinhos" do Restelo

Um jornal que ambiciona ter uma função federadora em relação à população dever cuidar de não alienar os diversos grupos sociais

Não é curial que o jornal envie para criticar um espectáculo quem a priori assume a sua aversão aos artistas


Nos últimos dias houve mosquitos por cordas devido ao texto “Um festival sem festa”, de João Bonifácio, publicado na pág. 8 do P2 de 20 de Julho (e na véspera no PUBLICO.PT). Tratava-se do relato crítico de um concerto do grupo norte-americano The Killers, dito de “rock alternativo”, realizado no Estádio do Restelo, em Lisboa, que é também o campo do clube de futebol Os Belenenses. O provedor recebeu uma revoada de críticas ao artigo, numa rara convergência colectiva de leitores contra um trabalho saído no PÚBLICO. As reclamações dividiam-se em duas categorias: as que discordavam das pouco abonatórias considerações de João Bonifácio sobre o espectáculo e as que se insurgiam contra o paralelismo que o autor fazia entre as actuações da equipa e da banda no local: “O Belenenses joga e há duas dezenas de velhinhos nas bancadas, nem uma palha bule, é um sossego. (...) O povo esteve manso. (...) Foi a festa possível e foi escassa como os fins de tarde futebolísticos no Restelo costumam ser”.

João Bonifácio é crítico musical do PÚBLICO. Embora não aparecesse apresentado como tal, este texto consistia na crítica ao espectáculo. Houve portanto um lapso que terá concorrido para alguns equívocos. O erro na correcta identificação do artigo foi já assumido, no editorial de 23 de Julho, por Nuno Pacheco, director adjunto do jornal. Fora essa questão, existe inteira liberdade de crítica no PÚBLICO, pelo que o provedor não se pronuncia (nem para tal possui competência) sobre as conclusões musicais extraídas por João Bonifácio, remetendo para o seu blogue tanto as queixas dos leitores nesse domínio como a resposta que entretanto o crítico entendeu dar-lhes.

Mas, a este respeito, é forçoso chamar a atenção para um pormenor (não tão pequeno como isso): João Bonifácio assume no seu artigo que não é apreciador da banda cuja actuação analisou (“Por muito que não gostemos dos Killers – e não gostamos nem um pouco –, ao menos têm um espectáculo tão bem ensaiado que, por um instante, quase acreditamos que estamos num festival de Verão”). Alguns leitores salientaram esse aspecto, como um apenas identificado como Francisco: “Trata-se de exercício fastidioso de quem por obrigação profissional teve de ir fazer a cobertura de um evento sem a mínima motivação (...). Qualquer dia arriscamo-nos a ter jornalistas vegetarianos a fazer crítica gastronómica a uma steakhouse... Claramente não pode dar bom resultado…”

Pelo contrário, João Bonifácio assume-se como “honesto” ao confessar a antipatia pelo grupo: “O leitor fica a saber que, apesar de não ter apreço estético pelo que ouvi, reconheço qualidade ao espectáculo, o que me parece elogio maior que o de quem já está convencido à partida. E escrevo ‘não gostamos’ (no plural) porque o livro de estilo não me permite escrever ‘não gosto’. Estou convencido de que o gosto e a honestidade do crítico são importantes numa crítica”.

Ao provedor, porém, não parece curial que o jornal envie para criticar um espectáculo quem a priori assume a sua aversão aos artistas. Não é crível que um crítico com tal parti pris consiga manter o mesmo tipo de abordagem e distanciamento que terá perante intérpretes que aprecie ou lhe sejam indiferentes. Tal atitude prejudica a igualdade de tratamento que o PÚBLICO deveria dar a todos os intervenientes nos eventos que cobre, como jornal cujo estatuto editorial defende o recurso aos “indispensáveis mecanismos da objectividade”.

Quanto às apreciações de João Bonifácio sobre o clube do Restelo e o seu público, os protestos foram mais violentos. “Os Belenenses não merecem estas palavras vindas de ninguém, muito menos de um jornal como o PÚBLICO”, escreve João Carlos Silva, que, feito sócio do clube há 28 anos, quando era um garoto, rejeita o epíteto “velhinho”. E diz José Manuel Anacleto, após anunciar ter deixado de ler o PÚBLICO por causa desta crítica: “A maneira como (...) se permitiram achincalhar um dos maiores clubes portugueses (...) e as suas largas de dezenas... de milhares de sócios e adeptos – nos quais me incluo –, não me permite olhar para o vosso jornal sem um sentimento de profunda repulsa”. Outro anónimo é ainda mais duro: “Nem mesmo com pedido de desculpas do PÚBLICO voltarei a comprar esse ‘jornal’, que permite ter jornalistas como João Bonifácio”. O sócio Tiago Pinho proclama: “Não pactuamos com desconstrutores da moral e exigimos que João Bonifácio se renda à clara e expressiva grandeza social e histórica da instituição que, infelizmente, ofendeu”. Finalmente, entre outros, um sócio antigo, Álvaro Lopes da Cruz: “Tenho 74 anos e devo ser um dos ‘velhinhos’ a quem de forma tão mal educada esse senhor se dirige. Seria boa ideia que respeitasse os mais idosos e conhecesse a história do grande Belenenses, clube com 90 anos e por onde têm passado milhares e milhares de crianças e jovens”.

Alguns destes protestos, incluindo um da própria direcção do clube, foram também enviados à direcção do jornal, e no editorial já referido Nuno Pacheco admitia que “o Belenenses, pela sua história, actividade e prestígio, merece um público e sincero pedido de desculpas”, reassalvando porém que “a independência da crítica, desde que assinalada como tal, continuará a ser respeitada no PÚBLICO”.

O assunto poderia ser aqui encerrado, mas entretanto João Bonifácio, na resposta à solicitação do provedor para se pronunciar sobre os protestos, reivindica para si toda a razão. Só essa resposta, bastante minuciosa, não caberia nesta página, e por isso a sua integralidade é remetida para o blogue do provedor, salientando-se aqui apenas os tópicos fundamentais: “Comparei o festival com o futebol do Belenenses pela razão óbvia: (...) os resultados do Belenenses nos últimos dois campeonatos foram fracos, e o festival que ali decorreu idem (na minha opinião). (...) Querer impedir que se façam comparações inesperadas num exercício crítico é querer impedir o humano de ser humano. (...) O Belenenses (...) é dos clubes com o estádio mais vazio. E é apenas a esse facto a que a frase ‘há duas dezenas de velhinhos nas bancadas’ se refere. (...) Não há nenhum insulto, antes uma brincadeira que eu diria mesmo carinhosa: o Belenenses é o meu segundo clube, desloco-me ao Restelo três ou quatro vezes por ano e na bancada central encontro sempre grande predominância de adeptos mais idosos. Se eu usasse a expressão coloquial ‘meia-dúzia de adeptos’ já não seria ofensivo? (...) Haverá a mínima possibilidade de me concederem que pessoalmente considero a expressão ‘velhinhos’ carinhosa (...)? Será que a idade é ofensiva? (...) É óbvio que não há apenas duas dezenas de velhinhos no Restelo, mas alguém, por um segundo, não percebe o sentido da frase? (...) Não é por se tratar de cultura massificada que devemos ser condescendentes, apesar de ser essa a prática corrente. (...) Qualificar de ofensa o meu texto é pelo menos abusar da interpretação. (...) Lamento que o meu texto tenha ofendido alguns leitores, porém parece-me que não só é preciso aceitar toda uma diversidade de opiniões diferentes como também toda uma diversidade de registos. (...) Ao pedir desculpas a uma instituição que me chamou, numa carta em que se treslê o que escrevi, ‘boi’ e ‘cobarde’, o PÚBLICO está a vincular-se a esses insultos?”

Como o provedor já considerou noutras ocasiões, o PÚBLICO, que ambiciona claramente ter uma função federadora em relação à população portuguesa, deveria cuidar de não alienar os diversos grupos sociais com considerações gratuitas ou de mau gosto, eventualmente ofensivas. A responsabilidade não é de João Bonifácio, mas de um editor que deveria ter feito a leitura prévia do texto e chamar-lhe a atenção para uma passagem mais desprimorosa para os adeptos de um clube. Na esmagadora maioria dos casos, o redactor cai em si, muda o que tiver de ser mudado e o texto cumpre na mesma a sua função.

CAIXA:

Uma foto perversa

O antetítulo da crónica de José Pacheco Pereira publicada na edição de 11 de Julho dizia que, “no actual estado de degradação das estruturas partidárias, os partidos são verdadeiras escolas de tráfico de influência”, enquanto o título inquiria: “Os partidos são responsáveis pelos crimes dos seus dirigentes?” O texto fazia alusão a diversos casos suspeitos de confirmar as teses do articulista, mas não comprovados: Freeport, BPN, abate ilegal de sobreiros, aquisição de submarinos, venda do prédio dos CTT de Coimbra. Como ilustração, era usada uma fotografia do Freeport de Alcochete. Reclamou o leitor José Alberto Tomé: “O caso parece-me grave e demonstrativo da falta de ética de quem terá sido responsável pela composição/edição da coluna. (...) A associação feita entre ‘crimes de dirigentes partidários’ e ‘Freeport’ é escandalosa, e julgo que passível de processo criminal (ou será que algum dirigente partidário – e todos sabemos a quem aquela associação título/foto se refere – já foi julgado e condenado sem que o PÚBLICO o tenha noticiado?)! (...) Não esperava tanta desfaçatez!”

Explicações de José Vítor Malheiros, editor responsável pela página: “Fui eu que pedi a foto que ilustra o texto, ainda que não a tenha visto antes da publicação (por ter chegado quando eu já tinha saído). Como o texto referia vários casos sob investigação – entre os quais o BPN e o Freeport –, pedi foto de uma dessas empresas (...). O comentário do leitor é compreensível, mas a foto, nestes casos, apenas pretende ilustrar o texto, e é natural que ‘fale’ daquilo que o texto ‘fala’. (...) Devido a problemas deste tipo (...) seria conveniente que os artigos de opinião não fossem ilustrados por fotografias, a exemplo aliás do que acontece em muitos outros jornais. A maquete dessas páginas no PÚBLICO, porém, obriga à sua inclusão”.

Na opinião do provedor, a maquete faz uma associação perversa entre o caso Freeport e os “crimes” de “dirigentes partidários” mencionados em título (sabendo-se que muitos leitores só lêem os títulos e vêem as imagens), pelo que, a bem da linha editorial do PÚBLICO, dever-se-ia ter encontrado outra solução gráfica, para mais quando estamos perante casos tão sensíveis na actual política portuguesa.

Publicada em 2 de Agosto de 2009

DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR:

Cartas de leitores sobre o texto de Josão Bonifácio “Um festival sem festa”

É com surpresa que leio o que li a respeito das palavras escritas do Sr. Bonifácio. É mau de mais para acreditar, gostava de entender o que levou esse senhor a escrever tais palavras. Quem tem algum dom para a escrita deve facilmente entender que existe algo de muito estranho na ideia do Sr. Bonifácio.

Os Belenenses não merecem estas palavras vindas de ninguém, muito menos de um jornal como o PÚBLICO. É uma mancha, uma nódoa dificil de retirar, mas sai... Lá diz o ditado "No melhor pano cai a nódoa".

Sobre o Festival ou a "Toirada dos mansos", não fazem qualquer sentido as críticas desse senhor, os jornais não são para desabafos infundados e tolos, são para gente séria que respeita o opinião dos outros. Não sei que idade tem este senhor, mas para escrever para um jornal desta forma devia ter a suficiente da do juizo.

Este País não precisa de gente como o Sr. João Bonifácio, dizer as verdades é uma coisa, dizer disparates e tolices é outra. Que cada palavra minha lhe doa na alma, porque as suas já me marcaram.

João Carlos Silva, sócio do CFB há 28 anos, tenho 38 não
sou velhinho, como pode notar

Venho por este meio, e usufruindo da "ferramenta" existente, apresentar o meu total desagrado e desalento pela noticia publicada no dia 20/07/2009 na edição digital do jornal, na área de Cultura, tendo como título "Super Bock Super Rock: Um festival sem festa", de João Bonifácio.

Devo, primeiramente, confessar que estive presente no evento e que de facto é notório que não foi o melhor ano para o festival Super Bock Super Rock. Contudo não é de factos que a notícia publicada trata, mas de mera expressão de uma opinião sem conteúdo e com pouco rigor.

Quando li a notícia senti-me ofendida e senti que não enquandrava no parâmetro informativo ao qual me habituei no PÚBLICO. Sempre equacionei o vosso rigor, a vossa capacidade informativa e também a vossa genialidade crítica. Contudo, o artigo/notícia escrito é uma anulação, uma discrepância face aos valores/padrões aos quais me habituaram.

Constato que a mesma se encontra pouco objectiva e sem qualidade de redação. Não percebemos o que se passou naquele festival naquela noite, porque o que o jornalista diz automaticamente desdiz: "Quase acreditamos que estamos num festival de Verão, em que a juventude se entrega ao hedonismo e ao exagero próprios da saúde que tem. (Apesar de isso não ter acontecido.)" Estavam cerca de 32 mil pessoas em que a maioria era jovens, grupos de jovens entusiamados, festivos e rendidos a mais um festival de Verão. "Ganham pontos extra por tentarem fazer barulho, por terem um trompete e por terem coristas. Perdem esses pontos por não terem canções."

Ao lermos uma notícia queremos saber o que aconteceu, onde, como, quando, porquê... Não espero nem procuro a opinião do jornalista: "Por muito que não gostemos dos Killers (e não gostamos nem um pouco)".

Se por outro lado lermos um artigo de opinião, uma crítica, queremos saber os aspectos negativos, mas também os positivos; queremos saber a realidade com adjectivos, mas nunca com acusações, ofensas ou metáforas ocas: "Todas as canções têm riffs óbvios que desaguam em refrões invariavelmente em crescendo, a base rítmica é sempre funk-deslavado ou disco-sound reciclado, todo o motivo melódico tem de ter um carácter épico e há sempre um sintetizador piroso para convencer os nostálgicos dos anos 80".

Para lá da falta de qualidade, da incorrecta escolha de palavras o jornalista "ofendeu", abordando temáticas desnecessárias, o clube, o local escolhido, inúmeras pessoas que trabalham e que se associam ao Beleneses: "O Belenenses joga e há duas dezenas de velhinhos nas bancadas, nem uma palha bule, é um sossego. Portanto a ideia de fazer um festival de música popular naquele mesmo estádio quase parece uma acção de beneficência."

Por tudo isto e por muito mais que poderia argumentar, demonstro o meu desagrado e produnda descrença neste trabalho editorial. O SBSR não foi noticiado no vosso jornal, foi antes criticado, completamente desvalorizado/desqualificado.

E, se a liberdade de expressão existe, há que fazer uso da mesma, há que expressar o que ocorre não manipulando nem degradando o trabalho dos outros. Assim, reitero tudo acima escrito e confirmo, novamente, o meu total desalento perante esta vossa opção.

Liliana Costa

Venho por este meio apresentar para análise a seguinte notícia:
Super Bock Super Rock: Um festival sem festa. 20.07.2009 - 09h31 João Bonifácio

Como leitor do PÚBLICO, impressiona-me que seja possível que uma reportagem possa ser totalmente preenchida com opinião do autor. Ao escrever sobre o festival, João Bonifácio não informou sobre o número de pessoas presentes, sobre os problemas que os "festivaleiros" tiveram, como por exemplo falta de casas de banho e filas de hora e meia para comer.

Pretendeu, apenas, usar as páginas do jornal onde escreve para dar uma opinião pessoal sobre o que viu e sobre o que não viu.

Que João Bonifácio não goste das bandas que tocaram no estádio do Restelo, que não goste do clube que joga no estádio do Restelo, nada contra. Que o transmita no texto que publica no jornal PÚBLICO já me surpreende mais. Não tanto por ser o senhor Bonifácio, sim por ser o PÚBLICO.

Refere-se aos adeptos do Belenenses como meia dúzia de "velhinhos" e ao ambiente do estádio como calmaria tal que "nem uma palha bule, é um sossego".

Conclui a ideia com esta barbaridade: "Portanto a ideia de fazer um festival de música popular naquele mesmo estádio quase parece uma acção de beneficência."

Deixando os velhinhos atrasadinhos mentais do Belenenses para trás, vamos então ofender os leitores. Afinal, pelo que leio no PÚBLICO, o comportamento de quem gosta de música rock num concerto é primário e culpa dos tempos de mudança, pelo menos na cabeça do sr. Bonifácio.

"Estavam entre mil a duas mil pessoas a vê-los, que gritavam quando as guitarras se levantavam. Mas bastava olhar para aquela juventude para notar ao que vinham: tinham t-shirts dos Killers, o nome The Killers desenhado nos braços, cartazes com a inscrição The Killers. Gritavam quando as guitarras explodiam porque foi isso que a música dos The Killers lhes ensinou: quando o volume explode, há que berrar".

Ou seja, os Killers ensinaram os burrinhos que ouvem rock há anos, que devem saltar e berrar (fazer, portanto, o festival que o senhor Bonifácio entende que não existiu - contraditório). Lamentável!

Mostrando falta de respeito pelo trabalho da cantora Brandi Carlile, Bonifácio distraiu-se e falou do concerto: "Brandi Carlile devia ter mais um ou dois pares de milhares de almas a assistir. Desde o Sudoeste de 2007, esta é a quarta vez que Carlile vem a Portugal, tudo graças a um trecho épico de uma canção num anúncio de cerveja. Carlile podia ter optado por tocar apenas esse trecho, mas preferiu fazer desfilar um sem-número de variações anódinas de rock adulto, em que invariavelmente a sua voz ia aos agudos com a fé dos devotos, assim estragando qualquer possibilidade de um final de tarde tranquilo. Fez uma data de versões, todas elas óbvias: dos Radiohead foi buscar "Creep"; de Cash "Folsom Prison Blues"; e de Cohen "Hallelujah". Carlile não gosta de música, gosta da hora de ponta da rádio FM".

Ah, espera. O fim do comentário tinha de ser jocoso e ofensivo - quer para Carlile quer para quem a ouve e, no caso, compra o PÚBLICO e fica a saber que não gosta de música, pela pena de um jornalista.

Segue-se outra banda. Mando Diao: "Mais uns milhares de almas depois, os Mando Diao subiram ao palco com guitarras barulhentas, um percussionista que também tocava trompete e duas coristas. Ganham pontos extra por tentarem fazer barulho, por terem um trompete e por terem coristas. Perdem esses pontos por não terem canções".

Pronto, os Mando Diao não têm canções. O que eu ouvi foi apenas barulho. Obrigado pela informação. Dizer que músicas os Mando Dia tocaram, partindo do princípio de que quem lê a notícia e compra o jornal tem interesse em saber o que aconteceu, isso o senhor Bonifácio não fez. Houve barulho. Nomes de canções tocadas é que não.

E agora a revelação do ano: músico que não anda nesta vida por causa da droga é caso raro. Pelo menos a julgar pelas palavras do sr. Bonifácio: "E assim se chegou a Duffy, que tem óptimas canções, mas poucas. Envergando um belo vestido com pintas pretas, ofereceu três quartos de hora de soul à antiga, a que só faltou uma secção de metais. A mais-valia desta moça de extraordinária voz é a sua crença pura: percebe-se que ela não está ali pelo cool ou pela droga. Ela gosta daquilo e enche as canções com uma alma rara. Fez muitas famílias e casalinhos felizes e merece a mesma felicidade ou mais ainda."

Curiosamente, o jornalista não referiu o facto de a maior parte dos espectadores estarem à hora deste concerto nas filas de hora e meia para comerem. Tão pouco noticiou (talvez não tenha reparado, ou até presenciado, já que podia/devia estar a jantar na tenda de imprensa/vip) que Duffy saiu de palco sem sequer se despedir do público.

O cabeça de cartaz, que colocou 30 mil aos saltos - algo que, já se viu antes, o sr. Bonifácio desaprova -, também teve direito a pérolas: "Às 23h30, os Killers subiram ao palco para espalhar o seu charme gongórico. Era basicamente por eles que a maior parte das pessoas ali estava, e fizeram sabê-lo reagindo entusiasticamente a cada movimentação de Brandon Flowers, o frontman"

Pelos vistos, as pessoas reagiram entusiasticamente a cada movimentação! Não quererá isso dizer... festa? (a tal que não houve no festival, segundo o título da notícia?)

"Por muito que não gostemos dos Killers (e não gostamos nem um pouco), ao menos têm um espectáculo tão bem ensaiado que, por um instante, quase acreditamos que estamos num festival de Verão, em que a juventude se entrega ao hedonismo e ao exagero próprios da saúde que tem. (Apesar de isso não ter acontecido.)"

Ou seja: o jornalista não gosta nem um pouco de Killers, mas reconhece que eles têm um espectáculo bem ensaiado. Depois, nesta frase desdiz a anterior. Se as pessoas reagiram entusiasticamente a cada movimentação, como raio é possivel dizer que não se entregaram ao hedonismo e ao exagero...?

Depois, uma análise à carreira dos Killers e não ao concerto. Menção a músicas tocadas? Mais uma vez... quase nada: "Todas as canções têm riffs óbvios que desaguam em refrões invariavelmente em crescendo, a base rítmica é sempre funk-deslavado ou disco-sound reciclado, todo o motivo melódico tem de ter um carácter épico e há sempre um sintetizador piroso para convencer os nostálgicos dos anos 80".

Mas... espera... afinal diz uma música. Para dizer mal, claro, e ainda para criar uma imagem agressiva e incómoda para o leitor - já para não referir o mau gosto: "A meio de 'All this things that I've done' (toalhas de órgãos berrantes, canto épico), ocorre-nos que eles estão a meio caminho entre os Def Leppard e o pior de Bruce Springsteen e quase ficamos à espera do momento em que vamos ouvir cantar uma versão fatela de 'Born in the USA' sob um fundo disco-sound enquanto a câmara foca um baterista com um só braço".

Depois de se rir com a imagem criada - e de, possivelmente, a ter divulgado rapidamente a todos os seus amigos, para que estes lhe tecessem loas -, a estocada final. Julgava, porventura, o sr. provedor que o sr. Bonifácio se tinha deixado de piadas de mau gosto ao CF os Belenenses? Pois então fique com esta, para analisar:
"Foi a festa possível e foi escassa como os fins de tarde futebolísticos no Restelo costumam ser".

Além do mau gosto, um fim de semana futebolístico não pode ser escasso. Pode ter escassa qualidade de jogo, pode até ter poucos jogos. Se queria insultar, é pena ter falhado o português. Mais: é pena que não saiba português, apesar de procurar palavras rebuscadas.

Nuno

Venho por este meio mostrar o meu desagrado pelo patético artigo que o senhor João Bonifácio teve a infelicidade de publicar.

Por momentos durante a leitura do artigo fiquei um pouco confusa... não sabia se aquilo fazia parte de um jornal ou do diário privado desse tal senhor. Que falta de ética.

Anónima

Venho por este meio manifestar a minha profunda indignação para com o artigo da autoria de João Bonifácio sobre o Festival Super Bock Super Rock, onde insulta directamente todo o universo de adeptos, associados (como eu) e clube em si (Clube de Futebol "Os Belenenses") directamente.

Não será a função do sr. jornalista relatar os factos de forma isenta e sem ofensa a ninguém? Se na sua opinião o tal festival não correspondeu às suas expectativas, tem todo o direito de o dizer, agora ofender de uma forma clara e indecorosa os adeptos de "Os Belenenses" é que não!

Assim gostaria de ver esse senhor a realizar um pedido de desculpas aos adeptos, associados e clube, bem como a direcção do seu jornal, tido como um dos melhores no panorama jornalístico português.

Anónimo

Fui durante cerca de 20 anos leitor quase diário do vosso jornal. Deixei de o ser ontem.

A maneira como num artigo que deram à estampa se permitiram "achincalhar" um dos maiores clubes portugueses, o Clube de Futebol "os Belenenses", e as suas largas de dezenas... de milhares de sócios e adeptos - nos quais me incluo -, não me permite olhar para o vosso jornal sem uma sentimento de profunda repulsa. Tal só mudará com um público pedido de desculpas e reposição da verdade, com o mesmo destaque que o artigo teve.

Como é grande a ignorância em tudo o que não diga respeito a três clubes, junto umas pequenas notas sobre os 90 anos de Belenenses, despedindo-me com cumprimentos que não podem ser especialmente cordiais, para ser sincero.

José Manuel Anacleto

Pode agradecer ao sr. João Bonifácio (artigo do Super Bock Super Rock) o facto de o PÚBLICO perder mais um cliente.

Nem mesmo com pedido de desculpas do PÚBLICO o voltarei a comprar esse "jornal", que permite ter jornalistas como o Bonifácio.

Anónimo

Em meu nome e em nome de toda a minha família, toda ela associada e adepta do C.F Os Belenenses, venho condenar de forma veemente as atoardas digitadas de forma irresponsável no PÚBLICO.

É de lamentar o teor ofensivo e desrespeitoso com que o senhor João Bonifácio confrontou e ofendeu toda a família belenense.

Assim, numa revolta geral suportada por quem ama a instituição CF os Belenenses, venho exigir da parte do jornal PÚBLICO, e em especial ao Sr. João Bonifácio, um sincero e arrependido pedido de desculpa.

Não pactuamos com desconstrutores da moral e exigimos que o Sr. Bonifácio se renda à clara e expressiva grandeza social e histórica da instituição que, infelizmente, ofendeu.

Tiago Pinho, sócio 3931 do Clube de Futebol "Os Belenenses"

Deixo um link para uma reportagem publicada em vosso site e deixo a vosso cargo uma interpretação, sem expressar nenhum outro comentário, pois tal nem é merecido.

É um "texto" digno de crónica, nada mais que isso. Como deixam tais coisas serem "publicadas"?

O leitor (cada vez menos) atento,
André Gonçalves

Venho demonstrar o meu desapontamento para com a notícia "Um festival sem festa". Chamar notícia àquele texto constitui por si só um elogio do mesmo, que não pretendo fazê-lo...

Trata-se de exercício fastidioso de quem por obrigação profissional teve de ir fazer a cobertura de um evento sem a mínima motivação para o fazer – frases como "Por muito que não gostemos dos Killers (e não gostamos nem um pouco)".

Um exercício de pseudo-intelectualismo, de crítica contra tudo e todos, que faz pensar a quem não foi que o que se passou no estádio foi algo de penoso. Talvez o único que penou tenha sido o jornalista João Bonifácio, que despejou a ira em consecutivos parágrafos de maledicência.

Com isto queria dizer que o jornalista deveria ter um mínimo de motivação para escrever um artigo, e deveria identificar-se minimamente com o mesmo, ou qualquer dia arriscamo-nos a ter jornalistas vegetarianos a fazer crítica gastronómica a uma steakhouse... Claramente não pode dar bom resultado… E vai dizaer que tudo era mau, péssimo, horrível…

Francisco

Venho por este meio demonstrar a minha indignação pelo que li no artigo sobre o festival Super Bock Super Rock, escrito pelo Sr. João Bonifácio, onde constatei que é feita uma observação ao Clube de Futebol Os Belenenses em termos indignos para com o clube.

Este é o inicio do artigo: “Toda a gente que segue futebol com um mínimo de regularidade conhece a constante nudez quinzenal do Estádio do Restelo. O Belenenses joga e há duas dezenas de velhinhos nas bancadas, nem uma palha bule, é um sossego. Portanto a ideia de fazer um festival de música popular naquele mesmo estádio quase parece uma acção de beneficência”. E este é o final: “Foi a festa possível e foi escassa como os fins de tarde futebolísticos no Restelo costumam ser”.

Até parece que o jornalista em causa precisou de recorrer a este grande clube para disfarçar a “nudez” de ideias para escrever sobre o que realmente deveria ter escrito. Não necessitava certamente era de maltratar o clube e consequentemente os simpatizantes e associados, aos quais tenho a honra de pertencer.

Belém até morrer

Manuel Gomes

Não queria acreditar quando o meu filho me indicou este artigo. É inadmissivel que o Clube de Futebol "Os Belenenses" seja ofendido desta maneira no texto assinado por João Bonifácio e dedicado a um espectáculo musical. Tenho 74 anos e devo ser um dos "velhinhos" a quem de forma tão mal educada esse senhor se dirige. Seria boa ideia que esse senhor respeitasse os mais idosos e que conhecesse a história do grande Belenenses, um clube com 90 anos e por onde têm passado milhares e milhares de crianças e de jovens. A ausência de respeito demonstrada pela instituição e pelos seus associados é inqualificável.

Álvaro Lopes da Cruz

Acho completamente descabidas as palavras do senhor jornalista (?) João Bonifácio na notícia publicada no dia 20/07/2009 sobre o festival Super Bock Super Rock.

Esse senhor como jornalista devia saber que regras gerem o jornalismo, bem como o seu código deontológico, que deveria ser cumprido por ele.

Esse senhor ofendeu os adeptos do Belenenses, clube que "emprestou" a sua casa para este festival. Ofende também todos os fãs das bandas que lá estiveram, incluindo os cabeças de cartaz, The Killers. Eu, como fã da banda, e como cidadão livre, venho repudiar todo o artigo de opinião (supostamente reportagem), sim, porque não é uma reportagem mas um desabafo de um senhor que não percebe daquilo que está a falar, bem como não tem decência jornalística, só falta de critério e conhecimento da realidade internacional e nacional.

As seguintes afirmações são uma falta de respeito para milhares de pessoas que lá estavam presentes, bem como todos os adeptos e simpatizantes do Belenenses. O gozo com que esse senhor escreve mostra a arrogância intelectual de alguém que não faz parte de uma sociedade com regras e actual, que tem todo o direito e liberdade de expressão sempre e quando não ofenda pessoas a título individual e grupos organizados ou não organizados, bem como os jovens, que têm o direito de passar a sua adolescência divertida, sendo fãs e devotos, já que todos nós passamos por isso, compreendemos isso:

"O Belenenses joga e há duas dezenas de velhinhos nas bancadas, nem uma palha bule, é um sossego."; "...apesar de ser um festival, de música e ainda por cima popular, o Super Bock Super Rock teve pouca festa, música que ai Jesus e o povo esteve manso."; "Mas bastava olhar para aquela juventude para notar ao que vinham: tinham t-shirts dos Killers, o nome The Killers desenhado nos braços, cartazes com a inscrição The Killers. Gritavam quando as guitarras explodiam porque foi isso que a música dos The Killers lhes ensinou: quando o volume explode, há que berrar. "; "Por muito que não gostemos dos Killers (e não gostamos nem um pouco), ao menos têm um espectáculo tão bem ensaiado que, por um instante, quase acreditamos que estamos num festival de Verão, em que a juventude se entrega ao hedonismo e ao exagero próprios da saúde que tem. (Apesar de isso não ter acontecido.)"

Esta última afirmação feita pelo jornalista do vosso jornal mostra toda a verborreia bem como a tomada de partido numa reportagem que mais parece um artigo de opinião. Isso não se faz, já que toma um decisão por parte de todos os que trabalham no vosso órgão de comunicação social.

Tal como diz o ponto 1 do Código Deontológico do Jornalista: "O jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público."

Gostaria de ver este caso exposto à chefia do PÚBLICO, já que é uma falta de respeito do pseudo-jornalista para uma imensidão de pessoas que acredita em e lê o vosso jornal, que cada vez mais perde qualidade, tornando-se um espaço de "novelas da vida real" feitas por alguns jornalistas que servem a vossa "casa".

Anónimo

Já fui um leitor assiduo do PÚBLICO. Por motivos que não têm a ver com o jornal, continuo a comprá-lo à sexta-feira e sigo com alguma tristeza as perdas de leitores que tem vindo a registar.

Fiquei triste com a saida de alguns jornalistas, tais como Miguel Sousa Tavares e Laurinda Alves, entre outros, mas contínuo a considerar o PÚBLICO um jornal de referência, e não o comparo com jornais que têm muito mais leitores.

Por isso considero de grande coragem a atitude da empresa SONAE, que nunca ganhou um cêntimo com o jornal mas contínua a achar que é importante haver opiniões de qualidade.

Sou adepto do Belenenses e fiquei deveras chocado com uma opinião de um vosso jornalista (?) que acerca de um concerto de rock teceu comentários grosseiros, em relação aos quais penso que a direcção do PÚBLICO até esta data não procedeu como devia.

Por isso gostaria de expor o seguinte:
- Alguns dos colaboradores do jornal que lhe davam qualidade foram dispensados, o jornal perde leitores todos os dias e um seu colaborador fala como se estívesse a falar de um jornal líder de audiências; por haver uma partidarização do desporto é que todos os outros clubes em Portugal são sufocados pelos três grandes clubes portugueses.
- Ficarei triste se um dia Portugal ficar apenas com dois ou três jornais e todos os outros ficarem pelo caminho.
- Acaso o dito Bonifácio, além de ler as revistas especializadas e escrever sobre esse tema, saberá quantos jovens o Belenenses movimenta em todas as suas modalidades? Certamente mais do que os leitores do dito.

Cada um é livre de dizer o que lhe apetece, ofender um clube condecorado com a medalha de mérito desportivo é que penso ser algo que não esperava num jornal dito de referência.

É bom que em Portugal continuem a existir clubes pequenos, médios e grandes, tal como é um bom haver jornais bons como o PÚBLICO.

Fico a aguardar uma reparação da direcção do jornal.

Anónimo

É lamentável o estado a que chega o vosso jornal, que já foi para mim uma referência. Os vossos jornalistas pensam que são cronistas de pacotilha, e num só texto conseguem ofender e muito uma instituição como o Clube de Futebol os Belenenses. É triste.

Lamentável a situação do jornal... Espero que muitos dos vossos bons profissionais não sofram as consequências anunciadas, e muito por culpa de Bonifácios que envergonham a classe.

Anónimo

Fiquei bastante admirado com o teor da introdução de uma notícia a respeito de um festival de música que teve lugar no Estádio do Restelo. Enquanto sócio com lugar cativo, sou testemunha de que o afirmado pelo sr. jornalista não corresponde à realidade. Porém, a minha indignação prende-se mais com as palavras escolhidas, as quais não me parecem ser muito felizes.

Deixo uma das frases que considero pouco elegantes: "O Belenenses joga e há duas dezenas de velhinhos nas bancadas, nem uma palha bule, é um sossego"

L.S.O.

É com enorme indignação que venho por este meio demonstrar o meu desagrado com o péssimo, creio eu, jornalismo exercido pelo sr. João Bonifácio na sua peça "Super Bock Super Rock: Um festival sem festa".

Uma peça que deveria ser informativa e relatar o que se passou num festival de música, não passou mais do que mera opinião pessoal do jornalista em causa, denegrindo inúmeras bandas bem como as pessoas que foram lá assistir, já para não falar da metáfora futebolística que o jornalista tentou colocar no seu texto, mas que, salvo melhor opinião, não teve muita piada.

Estou em crer que não fui o único que escreveu ao sr. provedor, e como é visivel na caixa dos comentários da "notícia" a estupefacção é geral.

Eu compreendo que alguém não goste de estar a trabalhar num sábado à noite, mas chegar ao ponto de debitar "ácido" em cada palavra colocada no seu texto é realmente constrangedor.

Esta peça é tudo menos uma peça jornalistica, talvez uma "peça blogueira", mais do que qualquer outro género.

Trinta mil pessoas estiveram erradas na noite de sábado... tudo porque o sr. Bonifácio assim o entendeu.

"Por muito que não gostemos dos Killers (e não gostamos nem um pouco)...": gostaria de saber por quem está a falar o jornalista! Pela redacção?! O sr. provedor também não gosta dos The Killers?!... Ficamos sem saber, mas para a notícia não creio que seja necessário saber que o PÚBLICO não gosta da banda nem um pouco.

Nuno Ferreira

Ao consultar a edição online do PÚBLICO verifiquei que no artigo "Um festival sem festa", da responsabilidade de João Bonifácio, existem referências ao Belenenses, ao seu estádio (onde se realizou o evento) e ao seu público habitual que são - no meu entender - absolutamente ofensivas relativamente a um clube que cumpre no próximo mês de Setembro 90 anos de vida, e que muito deu e dá ao desporto nacional.

Assim, como leitor diário do PÚBLICO (edições online e em papel), venho pedir a sua intervenção junto da direcção do jornal no sentido de serem evitadas situações semelhantes no futuro, sobretudo em peças jornalísticas que têm como objecto não o futebol do Belenenses nem o perfil dos assistentes aos seus jogos mas antes o evento cultural.

Penso que perante esta situação se impõe um pedido de desculpas formal ao Belenenses e aos seus associados.

Rui Vasco Silva

Explicações de João Bonifácio

O texto em questão é um artigo de opinião, de crítica. No PÚBLICO os concertos de música popular são alvo de crítica no P2, estando devidamente assinalados enquanto crítica. Devido à sua natureza, os festivais de Verão podem ser motivo não apenas de crítica mas também de reportagem, pelo que se opta por um modelo de reportagem & crítica. Isso não invalida que os textos dedicados a festivais sejam invariavelmente textos críticos.

O facto de estes textos de festivais não estarem encabeçados como “Crítica” pode de facto induzir em erro os leitores, visto um texto crítico (com ou sem pormenores de reportagem) ter uma amplitude de registos, recursos formais e uma vertente opinativa bastantes diferentes dos de uma reportagem. É este o caso. Presumo que isto responda a quem afirma que eu devia ter-me limitado a reportar factos.

Para que o que se passou fique claro e apenas a bem de uma leitura desprovida de interpretações avulsas, vou tentar demonstrar como o meu texto foi lido de forma não muito correcta. Apelo ao Provedor que leia os comentários online de fio a pavio para verificar que o tipo de comentários que menciono como pertencendo a fãs de Killers foram efectivamente feitos.

Os fãs dos Killers dizem que ao contrário do que reporto, foi um grande concerto. Reenvio o sr Provedor para o meu texto, onde se escreve “[Os The Killers] têm um espectáculo tão bem ensaiado que, por um instante, quase acreditamos que estamos num festival de Verão, em que a juventude se entrega ao hedonismo e ao exagero próprios da saúde que tem”.

Quanto às acusações de não ter transmitido o furor que se instalou com a chegada dos Killers, aconselho a leitura completa da seguinte frase: “Era basicamente por eles [The Killers] que a maior parte das pessoas ali estava e fizeram sabê-lo reagindo entusiasticamente a cada movimentação de Brandon Flowers, o frontman”. Presumo que o “reagiram entusiasticamente” seja suficientemente explícito.

Note-se que quem fez a legenda da foto que acompanha o texto não teve problemas em interpretar o meu texto, visto ter escrito, e passo a citar: “Nem Duffy serviu para enlouquecer as gentes e os Killers foram os únicos a entusiasmar o povo”.

É explícito que, ao contrário do que foi escrito centenas de vezes, critico positivamente o espectáculo dos Killers, para mais não gostando do reportório da banda em questão. Sendo um texto crítico, não vejo qualquer problema em analisar o reportório em questão, com recurso aos mais variados registos de escrita.

Para mais, sou honesto ao escrever “não gostamos nem um bocadinho [das canções dos Killers]”: o leitor fica a saber que apesar de não ter apreço estético pelo que ouvi, reconheço qualidade ao espectáculo oferecido, o que me parece elogio maior que o de quem já está convencido à partida. E escrevo “não gostamos” (no plural) porque o livro de estilo não me permite escrever “não gosto”. Estou convencido de que o gosto e a honestidade do crítico são importantes numa crítica.

Sou igualmente acusado de não reportar factos relativos ao festival, o que manifestamente não é verdade: as bandas presentes são mencionadas, a música que fazem é descrita, bem como a reacção que provocaram.

Isto serve apenas para demonstrar que há, da parte de muitos comentadores do online, descuidos de leitura.

Na carta que a direcção de Os Belenenses enviou ao jornal PÚBLICO e que insto o Provedor a ler para que verifique a forma como os ofendidos trataram esta questão, afirma-se que eu terei aludido a, e passo a citar, “'um “público manso' – sendo que, por tradição e convicção popular, o adjectivo 'manso' é normalmente aplicado aos bois”.

Não me cabe tentar perceber se o autor da carta interpretou mal o texto ou se quis deliberadamente manipulá-lo. (Note-se que no resto da carta o autor da mesma empenha-se em constantes trocadilhos com o meu nome, visando chamar-me “boi”. Igualmente me chamam “cobarde”. Relembro que foi em resposta a esta carta da instituição Os Belenenses que o PÚBLICO pediu desculpa.)

Mas insinuar que eu tentei insultar os presentes no mencionado festival ao dizer que “o povo esteve manso” é uma deturpação (deliberada ou não) do sentido do texto tão grande que não só atenta ao meu bom nome como também atropela a língua portuguesa. E que serve, para todos os efeitos, como mentira grosseira.

Manso significa quieto, brando, sossegado, tranquilo, sereno, plácido, etc. Basta ler o texto para se perceber que apenas estava a dizer que durante a maior parte do tempo a reacção do público foi, até ao concerto dos Killers, apenas moderada. A frase “o povo esteve manso” vem na sequência de toda uma introdução acerca da pacatez do festival, e que culmina em “o Super Bock Super Rock teve pouca festa (…)”.

Os adeptos de Os Belenenses sentem-se ofendidos com a comparação entre música e resultados futebolísticos, patente na frase “Foi a festa possível e foi escassa como os fins de tarde futebolísticos no Restelo costumam ser”.

Comparei o festival com o futebol do Belenenses pela razão óbvia: porque o festival decorreu no estádio onde o clube disputa os seus jogos de futebol, os resultados do Belenenses nos últimos dois campeonatos foram fracos, e o festival que ali decorreu idem (na minha opinião).

Como irei demonstrar, é da mais simples natureza do exercício analítico fazer comparações que usam elementos alheios à esfera do objecto visado, e querer impedir que se façam comparações inesperadas num exercício crítico é querer impedir o humano de ser humano.

Aliás, não é a primeira vez que os resultados futebolísticos do Belenenses são usados fora desse contexto em artigo de opinião publicado no PÚBLICO. A 6 de Maio de 2008, Rui Tavares começava assim uma crónica:

“Acho sempre um piadão quando ouço que é importante o PSD ultrapassar esta crise porque 'faz falta à democracia portuguesa'. Faz-me lembrar a descida do Belenenses à 2ª divisão do Campeonato Nacional: o clube não podia ser despromovido porque 'fazia falta ao futebol português'”.

Mais à frente Tavares escreve: “Quanto a Manuela Ferreira Leite, ouvi-a lamentar-se sobre 'a falta de respeito com que nos tratam'. Mas fiquei muito seriamente na dúvida de se ela está disposta a fazer o que é necessário para ganhar esse respeito, ou se quer simplesmente um tratamento à Belenenses quando está prestes a descer de divisão”.

Caso isto não seja suficiente para acabar com a questão, eu continuo.

Os adeptos também se sentem ofendidos por eu ter escrito – num artigo de opinião – que “O Belenenses joga e há duas dezenas de velhinhos nas bancadas”.

O Belenenses é o quinto clube com pior aproveitamento do estádio em termos de assistência na primeira divisão. Pode ser dos clubes que mais adeptos levam ao estádio em termos brutos, mas a média de aproveitamento é das mais baixas, o que significa que é dos clubes com o estádio mais vazio.

E é apenas a esse facto que a frase “O Belenenses joga e há duas dezenas de velhinhos nas bancadas” se refere: o facto de por norma aquele estádio estar quase vazio.

Não há nenhum insulto, antes uma brincadeira que eu diria mesmo carinhosa: o Belenenses é o meu segundo clube, desloco-me ao Restelo três ou quatro vezes por ano e na bancada central encontro sempre uma grande predominância de adeptos mais idosos.

Se eu usasse a expressão coloquial “meia-dúzia de adeptos”, já não seria ofensivo? É mais ofensivo por serem “velhinhos”? O que é que há de ofensivo na expressão “velhinhos”? Haverá a mínima possibilidade de me concederem que pessoalmente considero a expressão “velhinhos” carinhosa, ou o simples facto de haver umas centenas de adeptos a interpretarem mal a expressão automaticamente obriga-nos a todos a acatar essa forma curiosa de ler o meu texto? Será que a idade é ofensiva?

Aliás, isto faz parte da cultura popular: há uma velha piada que diz que “o maior estádio do mundo é o do Belenenses porque nunca enche”. Não posso ser acusado de humor infundado: é óbvio que não há apenas duas dezenas de velhinhos no Restelo, mas alguém por um segundo, não percebe o sentido da frase?

Leia-se o que escreveu Pacheco Pereira no seu blogue Abrupto a 28 de Janeiro de 2006: “(…) gente que acha (e bem) que na política há compadrio e favores passa rósea pelo mundo literato, que tem, face à política, muito menos escrutínio crítico, muito menos conhecimento dos meandros que se movem”.

Pacheco continua: “E não é só na literatura, mas no mundo 'cultural' no sentido lato, agora muito colado ao entretenimento, onde também há dadores de emprego, grupos de interesses, jogos de editoras, produtoras, programas de televisão, encomendas e serviços. Onde é que eu posso ler sobre isso? Em sítio nenhum. Só vejo exercícios de elogios mútuos, protecções de grupo, reputações que se sustentam em amigos e não em livros, trabalho, obra”.

A minha opinião é a mesma de Pacheco Pereira: é preciso estar atento à cultura de entretenimento. Não é por se tratar de cultura massificada que devemos ser condescendentes, apesar de ser essa a prática corrente. Pelo que julgo que qualificar de ofensa o meu texto é pelo menos abusar da interpretação.

Não sei o que se pretende fazer da crítica, mas julgo que um crítico tem direito a ser duro, corrosivo, e a estar isolado nas suas opiniões que isso não o obriga a pedir desculpas. Mais: desde que não ofenda o bom nome de outrem, desde que não levante falsos testemunhos, etc., a crítica pode ir onde muito bem quiser.

Por vezes a crítica usa mesmo do vernáculo. Exemplifico novamente com Pacheco Pereira: no seu texto de 11 de Maio de 2007 no Ípsilon sobre o livro Século Passado, de Jorge Silva Melo, Pacheco diz que o livro está impregnado de “memória, a forma agressiva da memória dos cultos, presa a mil e uma referências, mil e um olhares no écrã, no palco, absolutamente fundida pelos livros, apetece dizer, de forma grossa e completamente verdadeira, fodida pelos livros”.

Nunca, em mais nenhum texto, li Pacheco usar este tipo de termos, mas aqui há uma história da crítica literária que lhe permite usá-lo.

E portanto também numa crítica a um festival de Verão podemos levar a linguagem mais longe que numa notícia.

(Nota: não pretendo comparar a minha escassa mão proletária ao talento da voz dos cronistas mencionados, apenas demonstrar que há leituras erróneas do meu texto.)

Tanto quanto sei, ainda é possível usar humor numa crítica, como aliás qualquer outra instância humana. O humor, o sarcasmo e a ironia são tão necessários quanto a compaixão, a simpatia, etc. Dizer que uma crítica não é séria porque usa humor é recusar a amplitude das emoções humanas.

Lamento que o meu texto tenha ofendido alguns leitores, porém também me parece que não só é preciso aceitar toda uma diversidade de opiniões diferentes como também toda uma diversidade de registos.

Mas para aceitar é preciso não fazer interpretações abusivas. Ainda mais grave que as interpretações abusivas é tornar, por força de uma repetição massificada e incapaz de diálogo, essas mesmas interpretações erróneas numa espécie de versão de leitura oficial do meu texto, rasurando impiedosamente o que escrevi.

Pelo que pergunto ao Provedor: ao pedir desculpas a uma instituição que me chamou, numa carta em que se treslê o que escrevi, “boi” e “cobarde”, o PÚBLICO está a vincular-se a esses insultos? Está a aceitar essas leituras erradas independentemente do que escrevi?

João Bonifácio

Adenda:

acrescento aqui uma série de textos de intelectuais portugueses que não só defenderam o meu ponto de vista como foram um pouco mais longe nas conclusões:

Pedro Mexia e José Mário Silva;
Luís Miguel Oliveira, crítico de cinema do PÚBLICO;
Henrique Raposo, cronista de política do Expresso;
Francisco José Viegas;
Pedro Sales, assessor de imprensa do BE;
João Lisboa, crítico do Expresso;
Tiago Mota Saraiva;
Bruno Sena Martins.

Há muitos outros, mas não vale a pena ser exaustivo.

João Bonifácio

Carta do leitor José Alberto Tomé

Embora sendo leitor do PÚBLICO desde o primeiro momento, sempre mantive uma atitude crítica em relação à linha editorial do mesmo, o que me levou a escrever muitas "cartas ao director", a maioria das quais não publicada (por coincidência, sempre que punha de algum modo em questão aspectos relacionados com o próprio jornal ou com o seu director - lembro-me, a propósito, de uma impagável fotografia cuja legenda chamava a atenção para o grupo de "personalidades" nela retratado e de que fazia parte, para além do Engenheiro Belmiro, o próprio director do PÚBLICO!).

Desta vez, porém, o caso parece-me bem mais grave e demonstrativo da falta de ética de quem terá sido responsável pela composição/edição da coluna de Pacheco Pereira da semana passada! O título da coluna referia "Crimes de dirigentes partidários" e, acompanhando a coluna, havia uma bem visível foto do empreendimento "Freeport" com o nome bem destacado! Bem sei que na sua coluna o próprio Pacheco Pereira referia, misturados como pertencendo a um mesmo conjunto de processos desonestos, o Freeport, os submarinos, os sobreiros e o BPN, o que já denota uma falta de sentido ético do colunista (ou pelo menos falta de correção), uma vez que estes processos são bem diversos e estarão, juridicamente, em fases bem diferentes. Mas a associação feita entre "Crimes de dirigentes partidários" e "Freeport" é escandalosa e julgo que passível de processo criminal (ou será que algum dirigente partidário - e todos sabemos a quem a referida associação título/foto se refere - já foi julgado e condenado sem que o PÚBLICO o tenha noticiado?)!

Sinceramente não esperava tanta desfaçatez!

José Alberto Tomé

Explicações do editor José Vítor Malheiros

Fui eu que pedi a foto que ilustra o texto, ainda que não a tenha visto antes da publicação (por ter chegado quando eu já tinha saído). Como o texto referia vários casos sob investigação - entre os quais o BPN e o Freeport -, pedi uma fotografia de uma dessas empresas, que são dois dos casos de maior visibilidade dos referidos no artigo de Pacheco Pereira.

O texto ipsis verbis do meu pedido à fotografia foi: "BPN ou Freeport - (texto é sobre partidos envolvidos em casos judiciais) - PB" (PB significa "preto e branco"). Penso que a foto escolhida satisfaz o meu pedido.

O comentário do leitor é compreensível, mas a foto, nestes casos, apenas pretende ilustrar o texto e é natural que "fale" daquilo que o texto "fala". Penso que é isso que acontece neste caso. Como não seria possível fazer uma amálgama de várias imagens representativas dos vários casos referidos, naturalmente que se escolheu um deles.

Um comentário adicional: devido a problemas deste tipo (um texto que refere x casos, acompanhado por uma foto de apenas um deles, o que lhe confere maior visibilidade; fotos que convidam a ou permitem interpretações que não constam do texto; em casos-limite, fotos inadequadas e que introduzem informação que prejudica ou altera de forma sensível a leitura dos artigos, etc.), seria conveniente que os artigos de opinião não fossem ilustrados por fotografias, a exemplo aliás do que acontece em muitos outros jornais. A maquete dessas páginas no PÚBLICO, porém, obriga à sua inclusão.

José Vítor Malheiros