Ao fim de dois anos a falar para os leitores, o provedor despede-se dirigindo a última crónica à redacção
Enfrentem a realidade: o público está a emigrar em massa para a informação via digital e não irá fazer marcha atrás
Sei o que sentiram. Não é agradável para um jornalista escrever com alguém a vigiar por sobre o seu ombro. E certamente perguntaram: “Porquê ele?” Que autoridade tinha eu, jornalista como vocês, para mais sem a cultura do PÚBLICO, para me pôr a criticar o vosso trabalho? Será que não pratiquei também erros idênticos enquanto exerci a profissão? Como me atrevia agora a apontar-vos o dedo?
Confesso que muitas vezes me coloquei no vosso lugar, ao denunciar faltas que eu no passado podia ter cometido ou deixado cometer. Imaginei-me aliás, em caricatura, na pele de Walter Burns, o obstinado director de jornal que na versão fílmica assinada por Billy Wilder da comédia The Front Page (Primeira Página, 1974), após um percurso repleto de golpes baixos para bater a concorrência na obtenção da cacha ou do exclusivo, acaba a sua carreira a ensinar ética jornalística na universidade.
Mas uma das vantagens do lugar de provedor é que podemos aprender com a função, obrigando-nos a assentar ideias sobre matérias acerca das quais, na lufa-lufa do quotidiano profissional, pouco havíamos ainda reflectido. E quanto à assunção do cargo confiei em quem em mim confiara ao convidar-me, detectando-me de algum modo perfil para o papel (espero que não tenha ficado desiludido). Verifiquei afinal, com agrado, que, na esmagadora maioria, vocês entenderam também dar-me o benefício da dúvida, já que, com raríssimas excepções, quiseram colaborar comigo dando resposta às questões que vos fui colocando (e podiam não o ter feito). Por isso vos estou grato, já que se tratou de uma ajuda preciosa para o desempenho do lugar.
Claro que houve atritos entre nós – mas sem eles eu consideraria insatisfatória a minha actuação como provedor. Entendo aliás ser inerente à actividade a diferença de pontos de vista entre escrutinador e escrutinado. Não reivindico ter tido sempre razão – considero até que não se trata tanto de ter razão, mas sim de encarar de formas diferentes a prática jornalística e o reforço da sua credibilidade (e não, nesta área do mercado o cliente nem sempre tem razão).
Posso mesmo, numa ou noutra ocasião, ter sido desmedido no grau de exigência ou praticado excesso de zelo – admito-o. Não percebi logo, por exemplo, a especificidade do jornalismo desportivo, reclamando um tratamento da arbitragem idêntico ao que os media independentes devem dar aos magistrados judiciais, sem aceitar que a observação directa ou o vídeo permitem com frequência o julgamento sumário do acerto das decisões arbitrais – a mão de Thierry Henry que levou a França à fase final do Mundial na África do Sul será sempre mão, mesmo que o juiz da partida não a tenha assinalado, e os jornalistas nunca a poderão escamotear (não abordei a questão na altura, é apenas um exemplo).
Mas, no caso que acabou por marcar este mandato de provedor agora no fim – a questão das notícias acerca da alegada vigilância de S. Bento sobre Belém –, continuo a julgar ter dito o que devia dizer: lançar um sério aviso sobre o que, procurando decidir em total independência e autonomia, entendi como desvio aos valores editoriais em que se fundou este jornal, um copo que eu via cheio há já algum tempo e que transbordou com essa enorme gota de água. Sei que muitos de vós se sentiram ofendidos no brio profissional quando questionei a existência no jornal de uma agenda oculta, mas não se tratava de pôr em causa toda a redacção. Só que numa orquestra afinada basta um dos seus elementos perder o tom (para mais numa posição de chefe de naipe ou de concertino), para que todo o conjunto desafine (imagine-se então se é o maestro a dirigir com outra partitura).
Tendo estudado com alguma profundidade o PÚBLICO ao longo destes dois anos e auscultado os anseios dos seus leitores, permito-me deixar-vos uma apreciação resumida dos principais problemas que detecto no jornal, condensados num conjunto de cinco recomendações apresentadas com a pretensão de contribuir, embora modestamente, para a sua evolução:
1. Pensar nos leitores antes de decidir a publicação de cada matéria. Julgo o PÚBLICO afectado por certo grau de presunção. Muitas das suas matérias e da sua linguagem são elaboradas em função da superioridade intelectual que os seus jornalistas julgam de bom tom manter, mas será que se interrogam por um momento sobre se estão a comunicar para o público generalista que é o conjunto de leitores do jornal (e que desejavelmente deveria alargar-se a camadas mais vastas)? Fará sentido ocupar três e quatro páginas com certos temas de reportagem ou entrevistas que pouco ou nada dirão à esmagadora maioria? Percebo que os fundadores do jornal tenham querido inscrever na sua matriz uma atitude vanguardista, capaz de se distinguir do convencionalismo de outra imprensa e de contribuir para o desenvolvimento cultural da sociedade portuguesa (e concordo até que esse seja um dos mais nobres objectivos dos media), mas será que uma vanguarda não acompanhada pela massa cumpre a sua missão? Acho que sim num projecto artístico ou literário, mas não num jornal diário, investimento demasiado dispendioso para se dar ao luxo de alienar o público que é a razão de ser da sua existência e da sua viabilidade económica. Nesse sentido deve também ouvir-se os leitores e incrementar a sua participação nas páginas do jornal, sobretudo agora que se tornou obrigatória a interactividade entre o público e os media de grande expansão.
2. Dosear a agenda entre temas de interesse público e de interesse do público. Esta recomendação decorre da anterior. O jornal pensa muito no que julga ser em prol da comunidade, mas pouco no que pode cativar a curiosidade dos leitores. Reflexo disso é, por exemplo, a escassa atenção concedida aos casos de polícia, entendidos como matéria sensacionalista excluída de investigação e desenvolvimento. O crime, momento extremo da condição humana, inspiração de monumentos que vão de Dostoieveski a Raymond Chandler, passando pos alguns dos momentos supremos do cinema, é tido pelo PÚBLICO como actividade menor. Não se trata de abordar ou não abordar, mas de como abordar. E nada do que é humano deve ser estranho a um diário generalista.
3. Cumprir as regras da produção jornalística, atender ao rigor dos factos e respeitar a língua. As normas profissionais não existem por capricho, mas porque reforçam a credibilidade dos jornalistas e dos respectivos órgãos de informação. Os factos consagrados (como os acontecimentos históricos, as datas, os nomes e os números) devem ser respeitados. Quanto à qualidade do vocabulário e sintaxe idiomáticos, os media podem ser o último reduto na sua defesa (embora entendida num sentido dinâmico e não estático), pelo que nesse campo cabem especiais responsabilidades aos jornalistas. Senti porém como baldados os esforços que procurei desenvolver nestas áreas. No domínio da técnica jornalística, preocupa-me sobremaneira o desrespeito pelas normas da citação de fontes de informação. O Livro de Estilo do PÚBLICO contém directivas que conviria respeitar melhor, mas dever-se-ia também pensar na sua própria actualização.
4. Considerar também a fotografia como elemento de informação. A edição fotográfica do PÚBLICO utiliza muitas vezes a imagem de forma conceptual (um detalhe, uma silhueta, uma sombra, uma mancha, uma forma geométrica, uma sugestão, um enigma), que terá tudo a ver com estética mas pouco com jornalismo. Não se devia desperdiçar tanto e tão precioso espaço para pouco ou nada informar os leitores. E também as legendas deveriam ser mais explícitas, dando conta das circunstâncias específicas das fotos a que dizem respeito.
5. Entender o PÚBLICO não como um jornal em papel com um site agregado mas como uma marca de informação englobando os mais diversos suportes. Enfrentem a realidade: os jornais generalistas estão sob ameaça de morte, e eventualmente já condenados. O público está a emigrar em massa para a informação via digital e não irá fazer marcha atrás. É certo que o PÚBLICO investiu já consideravelmente no PUBLICO.PT, mas não o suficiente, na medida em que, na estrutura organizativa da redacção e até em grande parte nos conteúdos, o site continua a ser tributário da edição em papel. Basta constatar que o próprio modelo gráfico do jornal, com títulos e fotos estendidos por páginas duplas, não se adequa ao seu visionamento através da internet. Teria de ser maior a aposta no on-line, pois reside aí o futuro. E não só: também noutros suportes digitais, já criados ou a criar. O PÚBLICO deveria por isso deixar de estar associado basicamente ao papel para se tornar, com toda a credibilidade que possui, numa fiável marca multimédia. A democracia precisará sempre do jornalismo, mas vai deixar de precisar dos jornais.
Considero que a minha actuação visou sobretudo procurar ajudar-vos a reflectir sobre vossa própria prática profissional. Se em alguma coisa contribuí para a sua melhoria, valeu a pena.
Votos de bom trabalho, em prol de um PÚBLICO cada vez melhor, e até sempre.
CAIXA:
2.500 reclamações
Findo o seu mandato (não renovável por compreensível exigência do respectivo estatuto), este provedor cessará funções no próximo dia 31, sendo esta, por conseguinte, a sua derradeira crónica. Não tendo sido possível atender directamente cada uma das cerca de 2.500 reclamações recebidas dos leitores ao longo destes dois anos, o provedor procurou deixar no seu blogue referência a todas aquelas que considerou pertinentes sem as abordar nesta página. Até ao fim de Dezembro, o blogue continuará activo, e os leitores poderão continuar, se o desejarem, a comunicar com o provedor.
A todos os que participaram e deram fundamento a esta função, o provedor agradece da mais penhorada das formas. E expressa também um sincero reconhecimento aos restantes, pela atenção que deram às suas considerações, fosse nesta coluna, fosse no blogue. O seu maior desejo é que cada um se reveja cada vez mais no PÚBLICO como o seu órgão de informação.
Publicada em 27 de Dezembro de 2010
domingo, 27 de dezembro de 2009
Carta aos jornalistas do PÚBLICO
à(s)
11:36
2
comentários
Secção: Crónicas
domingo, 20 de dezembro de 2009
Quem pergunta quer resposta
NOTA: Por lapso esta crónica não foi colocada na devida altura no blogue, o que se faz agora. A crónica hoje publicada pode ser lida mais abaixo.
Nas respostas aos jornal, deve prevalecer não o formalismo legal mas dar aos leitores esclarecimentos tão cabais quanto possível
O TGV é uma das principais polémicas que hoje agitam o país, e sempre foi apanágio do PÚBLICO dar o máximo de contributos aos debates cruciais
“Lista de perguntas a que era bom dar resposta” - assim se intitulava o editorial de José Manuel Fernandes saído no PÚBLICO de 17 de Junho, elencando uma série de questões a que “era bom que, ao menos, [o ministro das Obras Públicas] Mário Lino e a sua equipa pudessem responder (...) para esclarecer algumas das muitas dúvidas que o projecto do TGV levanta”. As perguntas básicas eram seis, mas, à maneira das bonecas russsas, casa uma encerrava outras, pelo que no total o director do PÚBLICO endereçava às autoridades governamentais 22 questões sobre os planos relativos ao comboio de alta velocidade.
No final, José Manuel Fernandes rematava: “Poder-se-ia continuar indefinidamente, multiplicando as questões a que não responde a muita papelada distribuída pela RAVE [Rede Ferroviária de Alta Velocidade, S.A., a empresa de capitais públicos à qual compete a implantação do TGV] e pelo ministério. Sendo assim, quem assina por baixo?”
Pelo menos uma pessoa resolveu assinar por baixo, o administrador da RAVE Carlos Fernandes, que dois dias depois remetia a José Manuel Fernandes uma carta onde respondia às 22 perguntas suscitadas. O jornal não tomou a iniciativa de publicar a carta, alegando que era demasiado longa (12.500 mil caracteres – sendo que a crónica desta página tem um tamanho médio de 10 mil caracteres), pelo que explicou José Manuel Fernandes ao provedor: “[Uma secretária da direcção do PÚBLICO] entrou em contacto com uma secretária da administração da RAVE, que a passou a alguém que não sabe identificar pela função, mas que presumo ser do departamento de comunicação. Colocou oralmente o problema de um artigo com aquela dimensão, para além de chegar em papel e não por mail, o que coloca problemas de composição (não temos ninguém para essas funções), ser impossível de paginar no P1. Indicou-lhe a dimensão ideal do texto e ele ficou de dizer qualquer coisa”.
O provedor não conseguiu apurar se o PÚBLICO recusou taxativamente a publicação da resposta. A regra que José Manuel Fernandes enunciou é o seguinte: “Habitualmente o que fazemos é sugerir que se reduza para o tamanho de um texto de opinião (que, com raras excepções, não deveriam ultrapassar os 5 mil caracteres)”.
“Recusa” ou “sugestão”, a verdade é que a empresa aceitou a atitude do jornal como imposição inapelável, e formulou nova carta, dentro do espaço exigido/sugerido, esclarecendo incluir apenas “as respostas aos três primeiros grupos de perguntas, sendo informados os leitores do PÚBLICO de que o conteúdo integral do esclarecimento às questões colocadas pelos jornal pode ser lido no site da RAVE: www.rave.pt”. Na carta, a RAVE historiava também o atribulado processo de resposta ao editorial de José Manuel Fernandes: “O senhor director do PÚBLICO entendeu que, para ser publicada, essa resposta não deveria exceder 5 mil caracteres. Obviamente, se o que se pretende é, acima de tudo, contribuir para um bom esclarecimento público, não é possível responder de forma minimamente completa e clara a 22 perguntas sobre temas complexos nesse espaço (...). Pelos vistos, não é esse o entendimento [de José Manuel Fernandes], vendo-se assim a RAVE limitada no seu legítimo direito de resposta às perguntas colocadas no referido editorial”.
A nova resposta foi publicada na secção “Cartas do Director” de 4 de Julho, mas com uma nota onde José Manuel Fernandes dizia: “Sugere-se nesta carta que o PÚBLICO teria limitado à RAVE o direito de esclarecer os nossos leitores. O PÚBLICO limitou-se a dizer que as dimensões da carta não permitiam que esta fosse publicada, na íntegra, na edição em papel, e deu como referência o tamanho do texto a que ela respondia, fazendo-o nos termos da lei. A RAVE preferiu ocupar quase um terço desse espaço a atacar a decisão do PÚBLICO em vez de responder a mais uma das 22 questões.”
A empresa entendeu então queixar-se ao provedor, em carta assinada pelo mesmo administrador, onde se concluía: “Pelas razões expostas, a RAVE reafirma que se considera limitada no seu legítimo direito de resposta às perguntas colocadas no editorial de 17 de Junho”.
A questão não escapou também ao leitor João Garcia, que reclamou junto do provedor: “Não posso deixar passar o que considero mais uma machadada no direito à informação dos leitores do PÚBLICO. (...) Afinal José Manuel Fernandes queria respostas às suas perguntas ou apenas levantar poeira para os olhos dos leitores? Afinal José Manuel Fernandes queria informar os leitores ou apenas formá-los em função das suas opções? Será que o PÚBLICO tem medo do contraditório? Sinceramente não tenho, ainda, uma opinião formada acerca da construção do TGV, pelo que estou aberto a toda a informação a favor ou contra. O PÚBLICO prestaria um bom serviço ao publicar toda a informação disponível. O argumento ridículo de que não tinha espaço para a publicação da resposta não faz qualquer sentido. Na mesma edição, são gastas oito páginas, com chamada a metade da 1ª página, com propostas utópicas para o Terreiro do Paço (...). Não estou contra esta iniciativa, mas remeter a discussão da linha de alta velocidade para uma mera ‘carta ao director’, como se de um assunto menor se tratasse, é não respeitar o direito à informação dos leitores. Mais grave, ainda, é a nota do director: criticar a RAVE por fazer um enquadramento da sua resposta e, portanto, não responder às suas 22 questões é, no mínimo, de uma petulância e um despudor que não vão bem com um jornal que se pretendia de referência”.
Respondeu José Manuel Fernandes à interpelação do provedor sobre este caso: “Se a RAVE fazia questão numa explicação mais detalhada podia ter feito o mesmo que nós fizemos: pegar no telefone e propor, por exemplo, a publicação em duas partes, ou na internet. Alguém teria falado comigo ou com alguém da direcção, como sucedeu dezenas de vezes no passado tendo-se chegado à melhor solução (e atenção que esse tipo de negociações até já envolveu textos de ex-Presidentes da República, por exemplo). A RAVE não disse mais nada e voltou a enviar a resposta por carta, que teve de ser passada para computador por uma secretária. Face a esta resposta à nossa sugestão oral, demos o assunto por encerrado e publicámos a carta mais curta”.
O provedor entende dever criticar a atitude do PÚBLICO. Evidentemente que a RAVE “fazia questão numa explicação mais detalhada”, se não não teria enviado a primeira carta. É sabido de que uma resposta, em regra, é mais longa do que a pergunta que a motiva. Se o provedor perguntar qual é a receita do bacalhau à Gomes de Sá, não espera obviamente que lhe respondam com o mesmo número de palavras com que se designa o prato. E quem pergunta de boa fé quer obter uma resposta. Logo, o jornal deveria não só congratular-se pela resposta da RAVE às 22 questões de José Manuel Fernandes como procurar maneira de a acomodar na sua edição em papel. Isto é, deveria ter uma atitude pró-activa, propondo à RAVE a solução que o director acha que competia à empresa.
Para mais, está-se perante uma das principais polémicas que hoje agitam a sociedade portuguesa, e sempre foi apanágio editorial do PÚBLICO dar o máximo de contributos aos debates cruciais para o país, não varrê-los para debaixo da carpete.
Argumentos como o PÚBLICO não ter pessoal para teclar as cartas da RAVE são de mau pagador e nem deviam ser invocados. Se não tem, que arranje (até arranjou). O provedor também passa ao computador as cartas de leitores que lhe chegam em papel (felizmente poucas), e não pede suplemento de honorários por isso. Aliás, no caso da RAVE, bastou-lhe pedir à empresa que enviasse por e-mail toda a longa correspondência antes recebida por carta, o que logo foi feito, pelo que a alegação de José Manuel Fernandes não possui qualquer razoabilidade e evidencia até alguma má vontade perante quem reclama.
Também não colhe invocar “os termos da lei” para rejeitar a publicação da primeira carta da RAVE, como fez o director na resposta à segunda. A questão não se colocava na circunstância, porque a RAVE não havia respondido ao abrigo do direito de resposta, e o provedor entende que em situações idênticas o que deve prevalecer não são os formalismos legais mas sim fornecer aos leitores esclarecimentos tão cabais quanto possível. Aliás, José Manuel Fernandes nem deveria ter comentado a forma como a RAVE geriu o seu “direito” aos 5 mil caracteres, já que a empresa é inteiramente livre de o fazer.
A RAVE andou bem neste caso, o PÚBLICO não.
CAIXA:
A fasquia dos 20 por cento
"Pela primeira vez em Portugal, a 7 de Junho os partidos à esquerda do PS obtiveram juntos mais de 20 por cento dos votos” – assim iniciava São José Almeida a sua crónica semanal da passada sexta-feira, intitulada “Os nós da esquerda”. “O pior é que muitos comentadores, editorialistas e redactores de notícias têm escrito semelhante falsidade, como se não fosse essencial, quando se escreve uma coisa, verificar se ela é verdadeira perante os factos”, comenta o leitor João Carlos Lopes. “Quem se habituou à exigência de rigor do PÚBLICO não entende como os seus jornalistas não se põem a coberto de erros desta natureza. Acontece que nas eleições de 1975, os partidos à esquerda do PS obtiveram 20,59% dos votos. Nas legislativas de 1979, o seu peso eleitoral ascendeu a 23,5% (só a APU [coligação comunista] teve 18,8%). No ano seguinte, 1980, tiveram 21,2%., com a APU a fixar-se, sozinha, nos 16,8. Não vale a pena procurar mais casos. Somam-se, nestas contas, os votos de todos os pequenos partidos, os de extrema-esquerda. Mas são partidos. E São José Almeida fala de partidos. (...) Convinha que o PÚBLICO não deixasse de ser um jornal com memória, isto é, que legitimasse o que nele se escreve em argumentos sólidos de respeito pela verdade”.
Explica a jornalista: “O que o leitor diz é verdade e é rigoroso, mas o que eu digo também é verdade e rigoroso. Como é percebido por quem ler o texto, trata-se de partidos com expressão parlamentar. Eu não falo do MEP ou do MRPP e dos outros partidos que concorrem às eleições. E cito os valores percentuais em causa do PCP e do BE, o que torna claro do que estou a falar”.
O provedor lamenta desiludir São José Almeida, mas só um dos dois é rigoroso, e trata-se do leitor: em 1979, os votos da APU e da UDP (que elegeu um deputado) totalizaram 21%.
Publicada em 16 de Agosto de 2009
à(s)
14:52
0
comentários
Secção: Crónicas
Notícias em néon
NOTA: Por lapso esta crónica não foi colocada na devida altura no blogue, o que se faz agora. A crónica hoje publicada pode ser lida mais abaixo.
Seria desejável que as notícias do PÚBLICO não se confundissem com marketing, mas às vezes acontece
Se a jornalista considera o Kindle vantajoso é admissível que o reconheça sem constran-
gimentos
A chamada da pág. 1 dizia: “Leitor de e-books. Cuidado, o novo Kindle vicia”. A capa do P2 anunciava: “Rendidos ao Kindle 2, o novo leitor de livros electrónicos”. E a entrada do artigo propriamente dito, nas págs. 4-6 do P2 de 30 de Junho, relatava que a autora, a jornalista Isabel Coutinho, “está completamente rendida pelo leitor de livros electrónicos da Amazon [empresa de venda de livros online]”. O texto não deixava lugar a dúvidas: “Quando se tem um Kindle nas mãos mais do que cinco minutos fica-se apaixonado por ele (...). Não queremos mais saber de outros leitores de e-books. (...) Foi isso que me aconteceu”.e
O leitor Nuno Brandão não apreciou esta linguagem: “À medida que ia lendo o artigo já não sabia se se tratava de um texto publicitário ou jornalístico, tal o tom elegíaco adoptado por quem assina. Passagens há que se assemelham à ficha técnica do produto (...). Contava que no final se escrevesse qualquer coisa como ‘viagem patrocinada pela Amazon’, mas nem isso aparece”. E questionou: ”O teor deste artigo coaduna-se com os deveres de isenção e de distanciamento comercial? Deveres esses que, presumo, são impostos pela deontologia jornalística e seguramente constam do Livro de Estilo do PÚBLICO”.
Numa primeira impressão, o provedor sentiu o mesmo desconforto do leitor, com todas as setas de néon, desde a primeira página, a apontarem para a excelência de um produto comercial. Mas Isabel Coutinho esclareceu-o: “Que fique muito claro que no final de Maio fui aos Estados Unidos de férias (viagem paga do meu bolso), comprei um Kindle 2 através do site da Amazon (pago do meu bolso) e nunca tive nenhum contacto com qualquer director de marketing ou com seja quem for da Amazon para fazer este trabalho. O texto (...) é um relato na primeira pessoa da minha experiência com o Kindle que comprei por minha iniciativa. Não é a primeira vez que no PÚBLICO escrevo sobre o Kindle ou outros aparelhos que servem para ler livros electrónicos. Mas foi a primeira vez que escrevi sobre este aparelho depois de o usar diariamente. Tenho aliás um outro aparelho para ler livros em formato electrónico, um Sony Reader, que também comprei (pago com dinheiro do meu bolso), e por isso tenho termo de comparação. Sei quais são as vantagens do Kindle em relação aos seus concorrentes e quais as desvantagens na óptica do utilizador. (...) Apesar do meu entusiasmo – que é genuíno – , vou referindo essas desvantagens no meu texto (...). Na minha coluna Ciberescritas (...) tenho escrito sobre estes aparelhos (alguns desses textos estão acessíveis no blogue Ciberescritas). Em 1 de Dezembro de 2007, escrevi o tema de capa do suplemento ‘Digital’ onde se discutia ‘se o futuro do livro passa pelo Kindle’ e fazia uma cronologia sobre todos os outros leitores de e-books (vantagens e desvantagens). Quem acompanha o meu trabalho sabe as reservas que sempre tive em relação ao Kindle, mas depois de o comprar e utilizar todos os dias mudei de opinião”.
Mais do que uma opinião, o provedor considera o artigo, na verdade, um testemunho de quem testa um produto comercial e fornece um ponto de vista individual sobre as suas virtudes e os seus defeitos (no caso vertente, mais aquelas do que estes). Sendo assim, é admissível que, se a jornalista considera o produto vantajoso, o possa reconhecer sem constrangimentos e sem perder a isenção, no âmbito do registo pessoal utilizado.
Ao contrário do que pressupõe o leitor, nem o Livro de Estilo do PÚBLICO nem o Código Deontológico dos jornalistas portugueses contêm disposições limitando este estilo de escrita, que alguns considerarão “promocional” se a apreciação for positiva, mas que poderá ser demolidora se o jornalista achar o teste decepcionante.
É claro que existem disposições sobre objectividade jornalística (“pluralidade das fontes, investigação cuidada” – estipula o Livro de Estilo) e que o artigo em causa se baseia sobretudo na subjectividade da repórter, que não confronta a sua experiência com a de outros utilizadores do aparelho. Mas, aplicada à letra, essa regra eliminaria o género de jornalismo testemunhal que pode enriquecer os media. O tema não se esgota no texto de Isabel Coutinho, e o PÚBLICO poderá cumprir tal desiderato procurando outros pontos de vista e acompanhando a evolução do sector.
De um artigo extenso para uma notícia de um parágrafo, mantém-se o risco de se confundir marketing e jornalismo. É o caso da nota não assinada inserida na pág. 15 de 3 de Julho anunciando que "a Visão Junior, da Impresa, única revista nacional dedicada à faixa etária 6-14 anos, é a primeira publicação periódica a integrar o Plano Nacional de Leitura [PNL]". Para a leitora Claudia S. V., a notícia “está completamente errada”, por três razões: “1. Esta revista não é nem nunca foi a única revista nacional dedicada ao público infanto-juvenil; posso pelo menos mencionar seis títulos, dedicados ao mesmo target (...). 2. Por mais abrangente que se queira ser (...), quem é que não acha estranho que uma revista seja direccionada a um target de 6 aos 14 anos? (...) Os interesses em comum entre estas idades são zero (...). 3. Lamento informar, mas esta revista não é a primeira publicação periódica a ter o apoio do PNL. Acredito que seja bom querer passar a mensagem de que foram os primeiros, mas outros (...) já o fizeram anteriormente. A primeira publicação periódica foi um suplemento do jornal O 1º de Janeiro, ‘O Janeirinho’, dirigido a crianças, e das revistas (...) foi a Giggle, para o target juvenil”.
Ana Fernandes, que editou a notícia, explica que se tratava de um versão sintética da que fora difundida na véspera pelo PUBLICO.PT: “Como tive de a reduzir muito (...), cortei um dado essencial, como se pode ver comparando com o original: ‘Única revista nacional de informação dedicada à faixa etária 6-14 anos’. Este dado muda muito (...). O erro foi meu, assumo-o e lamento. (...) Em relação aos outros dois pontos, não me parece que a leitora tenha razão – o target é definido pela Visão Júnior, não temos nada a ver com isso (lembro-me que a Tintin se apresentava como uma revista para um público dos 7 aos 77) (...)”.
Quanto ao suposto pioneirismo da revista visada, esclarece Ana Machado, a autora das duas notícias (online e papel): “Sobre o facto de ser a primeira, é verdade, uma vez que a tal Giggle é uma publicação exclusivamente electrónica, dedicada a crianças e famílias, coisa que a leitora não refere. E sobre o ‘Janeirinho’ não é uma revista, é um suplemento”.
Se toda a gende lesse notícias pelo Kindle, talvez o problema não se colocasse, já que se dispensava o resumo da notícia. De todo o modo, tanto na versão electrónica como na impressa o provedor detecta dois problemas: assume-se como facto que a revista se destina mesmo ao público dos 6-14 anos (o que não passará de um slogan comercial, tal como os 7-77 da antiga Tintin) e não existe a necessária menção à fonte ou fontes que transmitiram os dados, o que salvaguardaria melhor a posição do jornal.
CAIXA:
A síndrome da bica
Por que será que, tão amiúde, os jornalistas não acertam na concordância entre sujeito e predicado em casos de género (masculino/feminino) e quantidade (singular/plural)? Parece que suspenderam a frase a meio para tomar um café ou fumar um cigarro e, no regresso, continuaram a escrever sem ler o que estava atrás. Casos recentes do PÚBLICO: “a forma como reagiu ontem (...) às notícias sobre as trapalhadas do recenseamento eleitoral mostram que mantém o estilo” (13 de Julho, pág. 32); “A derrota dos socialistas nas eleições para o Parlamento Europeu levaram o secretário-geral do PS, José Sócrates, a tomar uma decisão inédita” (6/7, pág. 1); “A leitura das primeiras páginas desse livro lembraram-lhe a descrição da Belém do Pará” (P2, 6/7, pág. 4); “O mediatismo à volta das acções da mãe de Martim podem ter pesado” (legenda, 1/7, pág. 6); “As imagens do vaivém Atlantis a ser transportado por um avião no Centro Espacial Kennedy chocou o Vaticano” (Inimigo Público, 11/6, pág. 6); “o alargamento definitivo dos passeios e a redução do trânsito na Praça do Comércio tem sido elogiada” (2/6, pág. 23); “os Verdes, presididos por Daniel Cohn-Bendit, que reforçaram fortemente a sua presença no PE com 52 deputados, defendeu pelo contrário uma frente ‘anti-Barroso’” (9/6, pág. 9); “BPN e envolvimento do PSD volta em força ao discurso socialista” (título, 2/6, pág. 8); “O paradigma da sociedade da abundância e do desperdício, do consumo fácil, (...) não trouxeram a felicidade” (P2, 15/5, pág. 3); “Críticas à lei do financiamento incomoda socialistas” (título, 7/5, pág. 6); “A intensificação dos atentados e o aumento significativo do número de vítimas mortais da violência em Abril no Iraque mostra um regresso em força da insurreição sunita” (4/5, pág. 12); “Suspeitas de maus tratos e de alegada negligência médica leva Ministério Público a levantar corpo da urna” (entrada, 18/4, pág. 18); “o cariz de intervenção e alerta social marcaram sempre presença” (15/4, pág. 6); “Novas regras de colocação de professores faz crescer procura de diplomas de Espanhol” (título, 30/3 pág. 7); “O primeiro-ministro José Sócrates, acompanhado pelo ministro da Economia Manuel Pinho, visitaram ontem a Energie” (P2, 25/3, pág. 2); “Cada vez mais o nosso destino pessoal e de nossos filhos (...) estão da dependência do Estado” (26/3, pág. 33); “Os julgamentos na praça pública, feitos através da comunicação social que dá voz apenas aos intervenientes que decide defender, tornou-se um hábito em Portugal” (26/3, pág. 34); “Livre-trânsito de 23 quadros de serviço de informações foram reproduzidos num sistema acessível a centenas de pessoas” (entrada, 14/2, pág. 6); “as reacções do treinador a cada um dos falhanços dos avançados mostrava a todos os que seguiam o jogo o estado de espírito dominante” (P2, 13/2, pág. 2); “A Media Capital viu os seus lucros cair 36 por cento” (13/2, pág. 33); “para ver se algum voto de protesto e o prestígio local de muitos presidentes de câmara safa o partido” (13/2, pág. 37); “o apelo, em campanhas eleitorais, ao voto emanadas de organizações religiosas” (P2, 12/2, pág. 3); “manjava conquilhas com um à-vontade que fariam James Bond parecer um matarruano” (10/2, pág. 35). Mas que fazer, se o próprio Livro de Estilo do jornal está afectado da mesma síndrome: “A capa dos suplementos e da Pública não incluirão publicidade” (pág. 172)?
Publicada em 19 de Julho de 2009
à(s)
14:24
0
comentários
Secção: Crónicas
Ter ou não ter (carteira profissional)
É jornalista quem vive da produção regular de informação noticiosa. O resto é burocracia
É mais inócuo ser pago para escrever sobre o Festival de Avignon do que sobre um campeonato de póquer
Considerou um leitor identificado, mas sob anonimato: “Muito me espanta (...) que o Ípsilon de 7 de Agosto tivesse apresentado várias páginas sobre o Festival de Avignon assinadas por Tiago Bartolomeu Costa e com a seguinte referência: ‘O jornalista viajou a convite do Festival de Avignon’. Julgo que a pessoa em causa não é jornalista: apenas a leio quando escreve críticas a obras de dança. Procurei no site da carteira Profissional de Jornalista e não encontrei o seu nome. Pode o PÚBLICO manter esta ambiguidade sobre quem é ou não jornalista? E a ética? E os deveres profissionais dos jornalistas? Qualquer um assina artigos no PÚBLICO? Como sei se estou a ler opinião ou artigos imparciais?”
O provedor pediu explicação ao então director do PÚBLICO, mas dado que entretanto se formalizou a sua saída não houve resposta formal. Ao abandonar o cargo, José Manuel Fernandes enviou porém a correspondência interna trocada sobre o tema, permitindo a sua abordagem.
A nota sobre o convite seguiu a regra de sempre revelar quando uma reportagem se faz a convite e não por iniciativa do jornal. É uma atitude a favor da transparência (nem sempre praticada noutros media), mas, a latere, o provedor reitera que acha preocupante o crescimento na imprensa portuguesa de reportagens “pagas”, que nunca existiriam por não integrarem as prioridades editoriais dos respectivos periódicos, mas que se elaboram de bom grado como oferta de quem quer conquistar espaço e referências em jornais e revistas de forma muito mais eficaz do que a simples colocação de anúncios. Quem não reparou já na recente divulgação do póquer nas páginas da nossa imprensa (incluindo o PÚBLICO), com a cobertura de campeonatos internacionais por repórteres da escrita e da fotografia? Todas essas viagens (algumas a Las Vegas, que não ficam propriamente por uma pechincha) têm sido suportadas por uma empresa promotora da modalidade, que espera lucrar na tentativa de conquistar mais pessoas para gastarem o seu dinheiro em apostas no jogo. E os jornalistas cumprem ordeiramente o objectivo. Na semana que passou, um elemento de uma empresa multinacional de comunicação e marketing revelou ao provedor que, de todos os periódicos portugueses de expansão nacional, apenas um (não obviamente o PÚBLICO) recusa o pagamento alheio de viagens aos seus jornalistas – e é crucial que o público esteja disso avisado, para não consumir gato por lebre.
Mas relativizemos: escrever sobre um certame cultural como um reputado festival internacional de teatro é mais inócuo do que apresentar uma prova de póquer como evento global. Além do mais, não constituirá falta particularmente grave cair-se no automatismo de dizer que “o jornalista viajou a convite de...” quando Tiago Bartolomeu Costa não possui carteira de jornalista e tem intervindo nas páginas do PÚBLICO sobretudo como crítico. Aliás, o provedor foi informado de que não está registada a profissão de crítico, apesar de a Associação Internacional de Críticos de Teatro atribuir aos membros cartões identificativos, assinalados até com a palavra “PRESS”. Tiago Bartolomeu Costa possuirá esse cartão há cinco anos, assim como, desde a mesma ocasião, o do próprio PÚBLICO.
Acresce ainda que, além de críticas e outros texto de opinião, Tiago Bartolomeu Costa tem também assinado reportagens e entrevistas, pelo que é reconhecida pelos responsáveis do PÚBLICO a sua capacidade jornalística (incluindo o cumprimento das respectivas normas éticas e profissionais). O jornal podia aliás ter já promovido a sua inscrição na comissão da carteira de jornalista, e só não o terá feito por inércia. O provedor considera, de resto, que essa inscrição é apenas um formalismo que não transforma por artes mágicas o detentor do título profissional no jornalista que antes não era. Diz a Constituição portuguesa que o direito a informar é universal, não dependendo pois da posse de carteira profissional. É jornalista todo aquele que vive da produção regular de informação difundida através de um órgão de comunicação social, possua ou não o correspondente certificado. O resto é mera burocracia.
Na anterior crónica, o provedor considerou “um excesso” ter a notícia relativa à manchete de 6 de Novembro (“Refer deixou prescrever acção contra empresário do Face Oculta”) falado em prescrição. Não encontrou na notícia, baseada num acórdão do Tribunal da Relação do Porto, uma citação da sentença falando em prescrição, tendo assim alegado “alguma falta de rigor” num texto que no resto julgou correcto. Mas afinal a falta de rigor foi sua, já que, conforme o alerta que recebeu depois, o acórdão conclui precisamente pela ideia da prescrição. Aliás, no direito de resposta da Refer saído no PÚBLICO em 11 do mesmo mês, reconhece-se que a decisão judicial tem “fundamento em prescrição” (que a empresa contesta).
Assim sendo, nenhuma objecção existe quanto à notícia em causa, não tem fundamento o direito de resposta exercido pela Refer (a não ser para esclarecer que apresentou recurso do acórdão para o Supremo Tribunal de Justiça) e são desprovidas de sustentação, neste particular, as críticas dos dois leitores que diziam constituir esse direito de resposta um desmentido cabal ao que o jornal publicara. Por essa razão, cumpre ao provedor pedir desculpa aos autores da notícia, António Arnaldo Mesquita e Luísa Pinto.
Este é o problema da direito de resposta tal como está regulamentado, conforme aliás já salientara a directora do PÚBLICO, solicitada a comentar tais situações: a imprensa é obrigada a publicá-lo sempre que “qualquer pessoa singular ou colectiva, organização, serviço ou organismo público, bem como o titular de qualquer órgão ou responsável por estabelecimento público, (...) tiver sido objecto de referências, ainda que indirectas, que possam afectar a sua reputação e boa fama”, independentemente do fundamento das respectivas notícias. Como escreveu também o provedor quanto a este caso, o jornal adicionou ao direito de resposta uma nota esclarecendo que a notícia se baseara no acórdão da Relação, mas sem rebater a Refer. Porém, o PÚBLICO devia ser mais afirmativo na defesa dos seus créditos, para evitar ambiguidades como a que levou à queixa dos leitores.
A história não acaba aqui. A Refer enviara um primeiro direito de resposta, assinado pelo seu director de Comunicação, que a direcção do PÚBLICO rejeitou, não reconhecendo ao autor capacidade de representação da sociedade. Queixou-se desse facto ao provedor a administração da empresa, e nesse ponto com razão: é um excesso de zelo, revelando má vontade na publicação do direito de resposta, considerar que o responsável de comunicação de uma instituição não está mandatado para responder à imprensa.
Na mesma queixa, a empresa pública que explora a infra-estrutura ferroviária reclamava por ter sido contactada para comentar a manchete de 6 de Novembro apenas às 17h23 da véspera, através de um e-mail de Luísa Pinto em que se “agradecia a celeridade da resposta” mas sem se dizer que a notícia sairia no dia seguinte. Também este procedimento não parece correcto ao provedor, já que pode ser entendido no sentido de fugir à publicação de uma reacção da empresa, permitindo escrever, como se fez na notícia, que “o PÚBLICO não conseguiu obter por parte da actual administração da Refer uma justificação”. Um contacto atempado esclareceria que a Refer recorrera do acórdão da Relação e esvaziaria o recurso ao direito de resposta.
CAIXA:
Os que sobem e os que descem
À beira do fim do mandato (não renovável), o provedor apresenta algumas contas finais de dois anos de “Sobe e desce”, dado que, como já antes considerou, esta secção pode reflectir alguma orientação editorial não assumida por parte do jornal.
O campeão de referências é Teixeira dos Santos, com 67 setas. O ministro das Finanças foi porém alvo de 37 setas negativas e apenas 11 apontando para cima (sendo as restantes 19 para o lado, que não aquecem nem arrefecem). A seguir, com menos uma seta no total, vem José Sócrates (que estava à frente quando o provedor fez a mesma estatística em Maio passado), mas o primeiro-ministro é também imolado com 35 setas para baixo e apenas 15 positivas. Aliás, esse é o percurso global do seu governo de maioria absoluta, de que alguns dos membros foram dos mais referidos: Alberto Costa (quatro para cima e 14 para baixo), Ana Jorge (11-18), Jaime Silva (0-15), Manuel Pinho (2-17), Maria de Lurdes Rodrigues (3-28), Mário Lino (3-22), Rui Pereira (1-19). O facto é que Sócrates remodelou cinco deles.
Em contrapartida, das 45 referências a Cavaco Silva, 24 foram abonatórias e nove críticas, não se alterando um milímetro, apesar da crise das “escutas de Belém” (iniciada neste jornal), a proporção que o Presidente já tinha em Maio (16-6). A mais recente líder da oposição, Manuela Ferreira Leite, com 12-18, apresenta por seu turno um balanço negativo, mas melhor que Sócrates.
O terceiro lugar da classificação geral cabe porém a Barack Obama, com 60 menções. O presidente dos EUA esteve em estado de graça no PÚBLICO (como junto da opinião pública mundial), com 48 setas positivas e apenas sete negativas. Já o seu antecessor, George W. Bush, recolheu um score de 2-21. Se este jornal publicou editoriais a apoiar a invasão do Iraque e outras tropelias neoconservadoras, tal ousadia não teve acolhimento no “Sobe e desce”. Outros líderes além-fronteiras mais referidos foram Ahmadinejad (2-18), Berlusconi (1-24), Durão Barroso (12-4), Gordon Brown (10-22), Mugabe (0-19) e Sarkozy (10-17).
De resto, com idêntica quantidade de presenças, apenas Vítor Constâncio (11-10) e três figuras do desporto: Cristiano Ronaldo (20-2), Jesualdo Ferreira (30-5) e Paulo Bento (16-15). Jorge Jesus está com 11-1, mas já pontuava positivamente quando era treinador do Sp. Braga.
Refira-se que compensa ser cronista do PÚBLICO: Vital Moreira e Pacheco Pereira surgiram este ano na tabela com 3-0 e 2-0 respectivamente, apesar de as suas recentes intervenções políticas não terem sido um sucesso.
Conclusões? Cabe ao leitor tirá-las.
Publicada em 20 de Dezembro de 2009
à(s)
04:23
0
comentários
Secção: Crónicas
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
A verdade em construção
A publicação de um direito de resposta não significa forçosamente que a respectiva notícia não tenha fundamento
O desmentido de Joaquim Oliveira era “pessoal e confidencial”, pelo que nunca foi dado à estampa
A anterior crónica do provedor (“A verdade a que temos direito”), acerca da publicação por este jornal de cartas ao abrigo do “direito de resposta” que desmentem notícias do PÚBLICO, motivou mensagens de insatisfação de dois leitores perante o que um deles designa como as “observações condescendentes” expostas como conclusão (as mensagens podem ser lidas na íntegra no blogue do provedor).
Em questão estava a reputação do jornal perante os seus leitores, que ficariam sem saber a que dar mais crédito: se às notícias, se aos respectivos desmentidos. A directora explicou o modo de funcionamento do direito de resposta, nunca reconhecendo que nos três casos em análise, todos relacionados directa ou indirectamente com o processo Face Oculta, o jornal havia errado na informação transmitida, mas admitindo a hipótese de mais tarde se voltar a abordar o mesmo tema nestas páginas. O provedor considerou aceitáveis as explicações de Bárbara Reis, adiantando também que “quando o jornal nada mais publica após um desmentido, reconhece implicitamente que o reclamante tem razão ou que não possui dados que o contradigam”.
Reagiu Vasco Almeida, o leitor que antes havia suscitado o problema: “O PÚBLICO pode não ver ‘grande vantagem no exercício de justificar notícias correctas’ [palavras de Bárbara Reis], mas há notícias e notícias. E quando uma delas se reporta a um caso de apaixonado interesse nacional, o PÚBLICO não só tem o dever de justificar como de demonstrar a veracidade daquilo que reporta, sob pena de não poder ser considerado de ‘referência’ na sua prática”.
Acrescentou por outro lado Augusto J. Franco de Oliveira: “Nos três exemplos (...) a conclusão inevitável é que a notícia publicada foi cabalmente desmentida e o desmentido foi aceite como bom pela direcção do PÚBLICO. Estamos a falar, portanto, de notícias reconhecidas como falsas pela direcção do jornal (...). Pelo menos duas das notícias envolvem a honorabilidade de pessoas, a qual é posta em causa frontal mas falsamente. Muitas pessoas só lêem as capas dos jornais, nos escaparates e bancadas dos quiosques e papelarias, e nunca terão oportunidade de ler os desmentidos ou até as eventuais admissões de erro por parte do jornal. Fica assim feito o mal de maneira irremediável. Tratando-se de casos com implicações judiciais, tais notícias falsas acabam por colocar em causa a credibilidade das investigações e favorecer os eventuais culpados, se os houver (...). Não é isso que mais me preocupa, mas sim o eventual prejuízo moral a pessoas que mereciam a presunção de inocência e o simples facto de estarmos em presença de um mau jornalismo que não verifica previamente a veracidade dos alegados factos relatados em casos como os presentes”.
O provedor esclarece que a intenção da sua crónica não era analisar especificamente os casos em si, mas sim, genericamente, os mecanismos e as implicações do exercício do direito de resposta, tendo sido nesse sentido que considerou razoáveis as explicações adiantadas por Bárbara Reis.
Há contudo que reconhecer que as objecções levantadas pelos dois leitores são pertinentes, pelo que os casos merecem ser mais bem esmiuçados. Em primeiro lugar, sublinhe-se a efectiva responsabilidade social do jornalismo, e, nessa medida, as implicações que sempre existem quando uma notícia lança uma suspeição de ilegalidade ou irregularidade sobre um cidadão ou uma instituição. Por muitos desmentidos que se façam ou mesmo que um tribunal condene o jornalista, haverá uma mácula que nunca se apagará totalmente. Daí a necessidade de ponderar cautelosamente a publicação desse tipo de notícias, através da comprovação dos dados por fontes seguras e credíveis e da audição dos visados. Isto quando se pretende praticar um jornalismo “exigente e de qualidade”, “orientado por critérios de rigor” e que tenha “como limiar de existência a sua credibilidade pública”, como estabelece o Estatuto Editorial do PÚBLICO.
Por ordem cronológica, no primeiro caso, relativo à manchete de 6 de Novembro (“Refer deixou prescrever acção contra empresário do Face Oculta”), a empresa visada, no seu direito de resposta, publicado cinco dias depois, afirmou que “não deixou prescrever o prazo para apresentação de acção cível em tribunal”. O jornal adicionou uma pequena nota esclarecendo que a notícia em causa fora baseada num acórdão do Tribunal da Relação do Porto, sem porém rebater a alegação da Refer. Terá existido da parte do PÚBLICO, de facto, algum descuido no tratamento da informação: não foi posto em causa o parágrafo inicial da notícia (“A Refer precisou de mais de três anos para intentar uma acção cível contra uma empresa do universo de Manuel José Godinho, o único detido do processo Face Oculta”), mas houve um excesso quando se viu nisso uma prescrição que não terá existido. Admita-se por isso alguma falta de rigor, que porém não tem equivalência com o desmentido cabal de que falam os leitores – na sua essência (exceptuando a questão da prescrição), a notícia pareceu correcta aos olhos do provedor.
A segunda notícia, “BCP renegociou em Março dívida de [Joaquim] Oliveira”, publicada em 8 de Novembro na pág. 8, suscitou da parte deste empresário da comunicação social um direito de resposta, publicado oito dias depois, onde dizia: “Tal notícia traduz-se numa republicação de factos falsos que haviam sido publicados pelo PÚBLICO em 11 de Março de 2009. Tal republicação é particularmente censurável uma vez que os pretensos factos foram objecto de desmentido formal em carta de 19 de Março de 2009, enviada para o anterior director do PÚBLICO”.
A ser assim, o caso parecia assumir gravidade, uma vez que o jornal reincidia numa informação já antes desmentida pelo visado, sem o contactar e sem se mencionar esse desmentido. Mas, pelo que o provedor soube agora, a carta enviada em Março ao director do PÚBLICO pelo proprietário do grupo Controlinveste possuía a chancela “pessoal e confidencial”, pelo que o desmentido nunca foi dado à estampa. A jornalista autora da mais recente notícia terá por isso tomado por boa a informação publicada há nove meses. O facto de entretanto ter havido mudança de director no PÚBLICO eliminou a última instância de controle que poderia existir.
Mas isto não serve de desculpa à actuação do jornal. Na verdade, o problema residiu na notícia publicada em 11 de Março, que não invocou uma só fonte sequer e muito menos mencionou qualquer tentativa de contacto com o empresário – duas falhas incompreensíveis. Apenas se recorria, no penúltimo parágrafo, à fórmula “Segundo o PÚBLICO apurou...”, método já reiteradamente criticado pelo provedor nesta coluna.
Por fim, a notícia “Chefe do fisco que ajudava Godinho foi promovido com três directores-gerais”, saída em 18 de Novembro na pág. 8, motivou um direito de resposta do director-geral de Impostos, publicado em 22 de Novembro, onde se afirmava que “o funcionário em causa não foi alvo de qualquer promoção após ter sido nomeado chefe de Finanças” numa data em que “em que não havia qualquer condenação em processo-crime a impedir a sua nomeação” (apenas “meras suspeitas”). Lendo-se a notícia, para cuja elaboração foi ouvido um dos ex-directores-gerais, percebe-se que o jornalista considerou promoções as transferências do visado para chefiar serviços em zonas mais populosas, sem que isso, em rigor, representasse uma subida no escalão hierárquico.
Nesse aspecto, pode considerar-se ter havido mais uma vez um excesso, sendo que, contudo, o essencial dos factos descritos na notícia estava certo. Aliás, três dias depois da publicação do desmentido, o PÚBLICO noticiava a exoneração do protagonista do caso (“Direcção-Geral de Impostos afasta das funções o chefe da repartição de Finanças de S. João da Madeira”), o que terá ocorrido na véspera de o Tribunal de Aveiro lhe ter imposto, como medida de coacção na qualidade de arguido do caso Face Oculta, a suspensão de funções.
Na base das três notícias, houve por conseguinte erros jornalísticos que deviam ter sido evitados, mas a publicação dos direitos de resposta não significou, ao contrário da interpretação feita pelos leitores, que elas tivessem falta de fundamento ou que pusessem em causa qualquer presunção de inocência. Vale porém a sua interpelação como chamada de atenção para a necessidade de maior rigor por parte dos jornalistas do PÚBLICO.
CAIXA:
Mortes de 1ª e mortes de 2ª
O PÚBLICO de 30 de Novembro noticiava na primeira página o assassínio a tiro de uma mulher pelo marido em Montemor-o-Velho. A chamada remetia para a página 4, inteiramente ocupada com uma reportagem sobre o tema. Só no seio do texto interior o leitor descobria que o homicida teria assassinado na mesma altura um soldado da GNR, sem que essa informação tivesse sido dada na primeira página ou no antetítulo, título, entrada ou legenda da pág. 4.
O leitor José P. Costa até reparou na discrepância com que o assunto foi tratado: “No primeiro parágrafo aparece 'O atirador, que a seguir terá morto um elemento da GNR' e já no fim da notícia 'ele sacou de um revólver e baleou dois militares, um dos quais morreu'. Esta é uma notícia dinâmica: 'terá morto' e depois 'morreu'.”
Mas o que o provedor gostaria de sublinhar é que, no cumprimento de uma qualquer agenda politicamente correcta, a vida de um membro da GNR parece estar bem menos valorizada do que a de uma vítima de violência doméstica. Quantos mais mortos terá o assassino de uma mulher que fazer para que possam merecer idêntica atenção do jornal?
Aliás, no PÚBLICO da última quarta-feira, o assassínio, também a tiro, de um homem pela mulher, em S. Bartolomeu de Messines, mereceu apenas uma nota de quatro linhas, enquanto nas duas edições seguintes os casos de duas mulheres baleadas pelos maridos, em Vila do Conde e em Sintra (aqui fatalmente) foram objecto de notícias a quatro colunas. O título desta última anunciava até que “Mulher de 34 anos é a 28º vítima [este ano] de violência doméstica”, estatística onde não foi incluído o homem de S. Bartolomeu de Messines.
A questão, afinal, é que os membros dessa classe opressora que são os homens não são julgados dignos da mesma consideração quando morrem em incidentes de violência doméstica.
Publicada em 13 de Dezembro de 2009
à(s)
18:13
0
comentários
Secção: Crónicas
domingo, 6 de dezembro de 2009
A verdade a que temos direito
O jornalismo funciona muitas vezes pelo método de aproximações sucessivas ao rigor dos factos
A Refer desmentiu que favorecesse Manuel Godinho e o jornal não reagiu. Preferiu esquecer?
Que devem os leitores pensar do exercício do direito de resposta, que por lei os jornais são obrigados a publicar? Dão mais crédito às notícias ou aos desmentidos que provocaram?
A pertinente questão foi suscitada pela reacção de Vasco Almeida à publicação de três direitos de resposta relacionados com o caso Face Oculta. Numa carta inicial, constatava o leitor: “O PÚBLICO socorreu-se de um título de primeira página [‘Refer deixou prescrever acção contra empresário do Face Oculta’, manchete de 6 de Novembro] para noticiar um pretenso favorecimento do principal suspeito no caso [Manuel Godinho] por parte da Refer. Passados poucos dias [11 de Novembro], a Refer respondeu, de forma aliás bastante detalhada. A direcção do jornal não fez então, nem desde então, qualquer comentário à resposta da Refer: à espera do esquecimento? Há menos dias ainda [16 de Novembro], foi publicada uma carta do Sr. Joaquim Oliveira negando categoricamente qualquer favor de crédito por parte do BCP e insurgindo-se contra a repetição de uma notícia [‘BCP renegociou em Março dívida de Oliveira’, 8 de Novembro, pág. 8] publicada no PÚBLICO em Março passado, e também desmentida. A direcção não fez publicar qualquer posição que contrariasse o desmentido. Note-se que este facto foi inclusivamente usado pela nova estrela incandescente do comentadorismo nacional [Pedro Lomba], na sua primeira crónica para o PÚBLICO [‘Cronologia de um golpe’, 12 de Novembro]. A direcção acha que não tem de justificar as ‘notícias’ que dá? Os factos já não são factos?”
Seguiu-se nova carta do mesmo leitor: “Ainda a tinta não tinha secado e logo dei conta de outro desmentido suscitado por uma notícia do PÚBLICO, segundo a qual um inspector de finanças também envolvido no caso Face Oculta teria sido promovido várias vezes nos últimos anos [‘Fisco promoveu chefe com quatro condenações’, 19 de Novembro, pág. 1]. Notícia também cabalmente desmentida pelo organismo oficial envolvido [na edição de 22], e mais uma vez sem reacção da Direcção. Em que ficamos: os leitores não têm o direito de saber o grau de veracidade (total ou parcial) dos factos publicados?”
O provedor colocou estas questões à directora, que respondeu defendendo o direito de os leitores saberem o grau de veracidade das notícias: “Como regra, quando os factos publicados não são verdadeiros, o jornal corrige a informação na secção ‘O PÚBLICO errou’ logo no dia seguinte. Mas nos casos levantados pelo leitor não é disto que estamos a falar. A questão é que qualquer pessoa referida numa notícia, directa ou indirectamente, de forma que ‘possa afectar a sua reputação e boa fama’, tem direito a apresentar a sua versão dos factos aos leitores – o direito de resposta previsto na lei. O direito de resposta não existe para pôr em causa a veracidade das notícias, mas para os visados poderem apresentar a sua visão dos factos. Infelizmente, a lei permite que instituições, mesmo estatais, não prestem informações pedidas pelos jornalistas – por vezes insistentemente durante semanas e semanas – mas venham logo a seguir à publicação da notícia pôr em causa o seu rigor. A lei é aliás particularmente protectora dos protagonistas das notícias. Por exemplo, o jornal não pode recusar a publicação de um direito de resposta argumentando que o seu conteúdo não é verdadeiro, mas só se o texto não tiver relação directa com a notícia publicada ou se contiver ‘expressões desproporcionadamente desprimorosas’. A lei também diz que quando o direito de resposta é publicado, ‘só é permitida à direcção do periódico fazer uma breve anotação à mesma, da sua autoria, com o estrito fim de apontar qualquer inexactidão ou erro de facto contidos na resposta ou rectificação’. Além desta limitação legal, desde sempre que o PÚBLICO entende não ser correcto o jornal querer ter sempre a última palavra e desmentir o que vem na carta do direito de resposta. E por isso as notas da direcção escritas no fim dos direitos de resposta são, por regra, poucas e minimalistas. O nosso silêncio, nesses momentos, nada tem a ver com estar ‘à espera do esquecimento’ dos leitores, como o leitor sugere”.
Como estabelecer, então, a verdade dos factos o mais rigorosamente que seja possível? Continua Bárbara Reis: “Nenhuma destas duas questões (a lei e a nossa filosofia) impede que, após a publicação do direito de resposta, o jornal regresse ao tema (claro está que poderá haver novo direito de resposta como resultado dessa segunda notícia, e por aí fora). Foi aliás o que aconteceu, por exemplo, já depois de o direito de resposta do director-geral de Impostos ter sido publicado, em que voltámos a escrever sobre o chefe das Finanças envolvido no caso Face Oculta (‘Direcção-Geral de Impostos afasta das funções o chefe da repartição de Finanças de S. João da Madeira’, 25 de Novembro, pág. 8)”.
Conclui Bárbara Reis: “O leitor pergunta se ‘a direcção do jornal acha que não tem de justificar as ‘notícias’ que dá’. De facto, o PÚBLICO não vê grande vantagem no exercício de justificar notícias correctas. O PÚBLICO publica as notícias que considera prontas a serem publicadas e corrige-as a seguir caso contenham erros. Noto ainda que, muitas vezes, os direitos de resposta, mesmo quando têm apenas factos totalmente verdadeiros, só na aparência – e às vezes nem isso – desmentem as notícias publicadas. A metodologia é a mesma para o direito de rectificação, sobre ‘referências de facto inverídicas ou erróneas’ que digam respeito à pessoa que o exerce”.
Do modo de produção da informação jornalística resulta, com efeito, que nem sempre a verdade definitiva, rigorosa e absoluta fique estabelecida numa única notícia – embora esse deva ser sempre o objectivo a alcançar pelo seu autor. Os desenvolvimentos, as reacções, as rectificações e os desmentidos fazem parte desse processo contínuo e permanente, em que se procura atingir a tal verdade muitas vezes por um método de aproximações sucessivas (o que significa que, quando o jornal nada mais publica após um desmentido, reconhece implicitamente que o reclamante tem razão ou que não possui dados que o contradigam). Nessa medida, parecem ao provedor aceitáveis as explicações da directora.
CAIXA:
Déjà vu
O texto de opinião intitulado “O (des)processo civilizacional: a Suíça e os minaretes”, de Paulo Mendes Pinto, publicado na pág. 36 da edição da passada terça-feira era reproduzido tal qual (excepto um pequeno corte) nesse mesmo dia na secção “Blogues em papel”, do P2, sob o título “Onde estão as luzes?”. Situação insólita, revelando que o artigo não era original e já circulava na internet, que levou o provedor a solicitar uma explicação à directora
Assumindo o “erro” do jornal, Bárbara Reis esclareceu: “Paulo Mendes Pinto, que aliás já anteriormente tinha publicado artigos de opinião no jornal, enviou-nos o texto com pedido de publicação no mesmo dia em que colocou esse mesmo texto no seu blogue. Nunca imaginámos que o texto não fosse inédito. É aliás raríssimo publicarmos textos de opinião no dia em que nos chegam. Uma série de circunstâncias levou a que tivéssemos espaço suficiente nesse dia. Por azar e coincidência totais, quando o P2 pesquisou posts sobre o referendo suíço que proibiu os minaretes, encontrou o referido texto, colocado no blogue Religare nesse dia. Ao percebermos que o texto saíra duas vezes na mesma edição, contactámos o autor do artigo, que admitiu tê-lo colocado no blogue por engano”.
Bárbara Reis enviou ao provedor o pedido de desculpas apresentado por Paulo Mendes Pinto ao jornal, onde explica: “Deu-se uma falha que é apenas da minha responsabilidade. Normalmente, como não sei exactamente quando o artigo sai no PÚBLICO, coloco o texto no blogue (na parte invisível) para apenas sair uma semana depois (se entretanto sair no jornal, torno-o visível, sempre com a indicação da publicação original). Neste caso, devo ter clicado mal na data e escolhido a semana em que estava e não a semana seguinte”.
Deve dizer-se que esta repetição não é caso único, e que poderia evitar-se se o jornal tivesse um responsável pela sua coordenação global – a velha figura do chefe de redacção, infelizmente extinta na maior parte dos órgãos de informação.
Desde que, em 10 de Dezembro do ano passado, o PÚBLICO repetiu a mesma notícia (“Jay Leno fica na NBC”, na pág. 15, e “Afinal Jay Leno fica na NBC”, na pág. 11 do P2), o provedor tem vindo a tomar nota da algumas redundâncias nas páginas do jornal. É o caso da notícia sobre a morte de Lux Interior, líder da banda The Cramps, dada na pág. 20 e na pág. 13 do P2 de 6 de Fevereiro, das notícias de 23 de Setembro “Proibição de fumar em locais públicos pode evitar até um terço dos enfartes” (pág. 14) e “Proibição de fumar em público diminui ataques cardíacos” (pág. 21) ou da informação de que o actor norte-americano Morgan Freeman chegou a acordo para indemnizar a mulher que se sentava a seu lado depois de ter tido um acidente de viação, saída na secção “Pessoas” em 7 e em 9 de Setembro. Até um direito de resposta, relativo à notícia “Confederação do Comércio exige suspensão da nova lei do licenciamento comercial”, de 27 de Janeiro, saiu, ipsis verbis, duas vezes na edição de quatro dias depois, a primeira, na pág. 35, como sendo da Secretaria de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor, e a segunda logo na página seguinte, atribuída à assessora de imprensa do Ministério da Economia e da Inovação.
Até sucede que a mesma informação possa ser publicada no mesmo texto, como na notícia “Detido suposto violador de enfermeira do Amadora-Sintra”, na pág. 31 de 3 de Outubro, em cujo primeira parágrafo se falava em “uma enfermeira do Hospital Fernando Fonseca, na Amadora, que foi abordada no parque de estacionamento daquela unidade de saúde” e no segundo parágrafo que “a enfermeira, de 25 anos, foi abordada pelo alegado violador no parque de estacionamento”.
Publicada em 6 de Dezembro de 2009
à(s)
09:20
0
comentários
Secção: Crónicas
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
O Nobel de Llosa, as sonatas de Mahler, o homem que morreu quatro vezes e outras ficções
Os erros de informação que deviam ser logo corrigidos, mas por uma ou outra razão algumas rectificações ficam no tinteiro
Os leitores foram mantidos quatro meses na ignorância quanto ao facto de Llosa, afinal, nunca ter ganho o Nobel
Leitores atentos avisam regularmente o provedor para a publicação de certas pérolas de cultura no PÚBLICO. São erros que deviam ser logo corrigidos, mas por uma ou outra razão essas rectificações ficam por vezes no tinteiro.
Entre tais razões figuram circunstâncias que não parecem ao provedor justificáveis. O leitor José P. Costa reclamou por o PÚBLICO ter fornecido diversas datas para a recente morte do antropólogo Claude Lévi-Strauss, sem esclarecer qual era, afinal, a verdadeira: “Em 4 de Novembro, na primeira página, 'C. Lévi-Strauss [...] morreu ontem', na pág. 15, em texto de Clara Barata, é escrito que 'morreu domingo' [1 de Novembro]. A 8 de Novembro, na pág. 8 do P2, Filipe Verde diz que 'morreu em 30 de Outubro' e na pág. 8 da 'Pública' aparece: 'morreu na madrugada de sábado' [31 de Outubro]”.
Qual das quatro versões é a autêntica? Explica Clara Barata: "Só posso responder pelo texto de 4 de Novembro, na pág. 15, em que dizia que morreu no domingo; a chamada à primeira página não fui eu que a fiz e está nitidamente errada. Os outros textos são pequenas variações sobre o mesmo tema, ele terá morrido na madrugada de sábado para domingo, o que daria de 31 para Outubro para 1 de Novembro. Mas a morte dele foi mantida em segredo durante vários dias (...), e por isso mesmo diria que não é de surpreender que surjam algumas ambiguidades".
Quando o provedor perguntou à assistente da direcção coordenadora da publicação das correcções por que não se imprimiu um esclarecimento sobre a matéria, foi-lhe respondido que no dia 3, quando se pensou fazer sair o respectivo “O PÚBLICO errou”, o director de fecho entendeu em sentido contrário, porque para essa edição já estavam previstas três outras rectificações. Não parece ao provedor que seja salutar a imposição de uma quota para o reconhecimento de erros por parte do PÚBLICO: deve-se publicar o necessário para que a reputação e a credibilidade do jornal fiquem asseguradas.
Mais para trás, escreveu-se reiteradamente numa edição do PÚBLICO que o escritor de origem peruana Mario Vargas Llosa era detentor do Prémio Nobel da Literatura, o que colocou o leitor José Monteiro de sobreaviso: “Acalentei a esperança de que, enfim, o PÚBLICO, via Provedor, iria informar os seus leitores de que, de facto, Mario Vargas Llosa não é Prémio Nobel da Literatura, ao contrário do que, por três vezes, se afirma na edição de 31 de Maio, a págs. 19 e 40. Seguramente a correcção não veio no ‘PÚBLICO errou’ do dia seguinte e também nunca a detectei depois. (...) Aliás, creio que, oficialmente, Mario Vargas Llosa deixou de ser peruano... e adquiriu a nacionalidade espanhola. (...) Erro inadmissível em qualquer circunstância, e muito menos no que se diz um jornal de referência”.
O provedor demorou a publicar o reparo, mas ele aqui está: Llosa nunca ganhou o Nobel. Os leitores, porém, só puderam sabê-lo, e indirectamente, em 23 de Setembro, quando o jornal disse na pág. 9 do P2 que “o peruano Mario Vargas Llosa” figurava entre “os nomes de quem mais se fala insistentemente” para o Nobel de 2009 (o qual, mais uma vez, lhe escapou). Esclareça-se já agora que o autor de Conversa na Catedral possui dupla nacionalidade, tendo há anos adquirido a espanhola sem renunciar à de origem.
O leitor João Brandão detectou na edição de 28 de Outubro duas coisas inexistentes: a referência a “20,8 milhões de litros cúbicos” num artigo da pág. 16 sobre acusações da Aministia Internacional a Israel (“santa ignorância – estaremos num espaço a nove dimensões?”) e um título na pág. 8 do P2 dizendo que “Orquestra do Porto vai interpretar a integral das sonatas de Mahler" (tratava-se, evidentemente, das sinfonias do compositor austríaco, como vinha depois no texto – mesmo que ele tivesse composto sonatas, o que não é o caso, essas obras musicais não são tocadas por orquestra, mas em solo ou por conjuntos de câmara).
Notou outro leitor (não identificado) que na “Pública” de 25 de Novembro se mencionava Clara Petacci, a amante do ditador italiano Benito Mussolini, como “a mesma que foi enforcada ao seu lado em Abril de 1945”, acrescentando: “O direito à ignorância também pode ser exercido pelos jornalistas, mas não deve, dado que se considera que devem informar e que eles próprios se arrogam a posição de justiceiros, educadores do povo e outro delírios. E eis como Mussolini e a Claretta de fuzilados passaram a enforcados”. (Talvez o facto de os dois amantes, depois de executados, terem sido pendurados por cordas, de cabeça para baixo, numa praça de Milão tenha levado o jornalista a pensar falsamente em enforcamento).
Protestou José Manuel Beirão em 18 de Novembro: “A jornalista Isabel Coutinho, ontem no P2 [pág. 8], errou com a informação de que haja [em 2009] a primeira exposição na Alemanha ‘dedicada a Sandro Botticelli’. No ano 2000 havia uma exposição em Berlim com 125 obras de Botticelli expostas”. O provedor não encontrou referência a uma exposição em Berlim, em 2000, de 125 obras do pintor renascentista, mas nesse ano houve de facto a apresentação na capital alemã de 92 desenhos coloridos produzidos por Botticelli para ilustrar a Divina Comédia, de Dante. A jornalista não falha inteiramente, porquanto ao falar-se da obra do italiano se pensa imediatamente em quadros a óleo, mas de qualquer modo o texto careceria de um esclarecimento acerca da exposição de 2000.
Por fim, salienta-se a apertura da crónica de Teresa de Sousa na pág. 4 de 8 de Outubro: “Costuma dizer-se que o hábito faz o monge”. O provedor sempre ouviu o contrário: “O hábito não faz o monge”.
CAIXA:
A biografia de um cientista racista
Uma reportagem de Teresa Firmino publicada na pág. 18 de 7 de Novembro, sobre uma conferência dada pelo Nobel da Medicina James Watson, de nacionalidade norte-americana, na Fundação Calouste Gulbenkian, a convite da Fundação Champalimaud, motivou a seguinte reclamação de Jorge Perestrelo Botelheiro: “A noticia (...) é omissa em relação ao afastamento do James Watson de todas as instituições cientificas norte americanas de referência a que esteve associado até Outubro de 2007. As [suas] declarações [que levaram a esse afastamento], facilmente acessiveis numa busca de imprensa, referiam existirem dados cientificos que apontariam para a propensão genética da raça negra para uma menor inteligência. Penso que também deixou nessa altura de receber qualquer financiamento público ou empresarial (em Outubro de 2007 o país de James Watson ainda estava com administração republicana, e ainda não se tinha qualquer indicação segura de que o candidato democrata seria um negro). (...). Possivelmente a Fundação Champalimaud entendeu por bem valorizar as descobertas cientificas relevantes de James Watson e trazê-lo a Portugal, assumindo, por razões ideológicas ou de relacionamento pessoal, um convite que muito provavelmente não teria sido produzido por outra entidade (aliás depreende-se que, estando James Watson afastado da comunidade cientifica, o interesse da iniciativa será essencialmente para um público ‘não-cientifico’), mas o estatuto público da Fundação e a natureza marcante das declarações de James Watson sobre ‘a inteligência da raça negra’ obrigavam o PÚBLICO a um tratamento jornalistico de um elemento relevante do percurso público de James Watson, para já não mencionar a oportunidade de questionar conceitos como ‘raça’.” O mesmo leitor precisaria mais tarde: “A omissão do percurso cientifico recente de James Watson é tão mais relevante quanto se trata não apenas de um palestrante convidado mas do presidente em funçoes da Fundação Champalimaud. O PÚBLICO atribuiu facilmente a eminência cientifica a James Watson, que actualmente apenas parece ser reconhecida pela Administraçao da Fundação Champalimaud”.
Esclarece Teresa Firmino: “As declarações polémicas de James Watson sobre a inteligência dos negros, que levaram ao seu afastamento do conselho de administração do Laboratório de Cold Spring Habor, foram amplamente noticiadas pelo PÚBLICO na altura (por sinal, em artigos da minha autoria). Na pesquisa que fiz, identifiquei cinco peças jornalísticas então publicadas: “O Nobel James Watson diz que os negros são menos inteligentes” (P2, 18 de Outubro de 2007); “Palavras racistas de James Watson recebidas com chuva de críticas” (secção Mundo, 19 de Outubro de 2007); “James Watson foi suspenso do seu laboratório e pediu desculpa por comentários racistas” (Mundo, 20 de Outubro de 2007); “O Nobel James Watson deixa o seu laboratório” (Mundo, 26 de Outubro de 2007); “Afinal, o Nobel James Watson tem genes negros” (Mundo, 11 de Dezembro de 2007). Parece-me que estes artigos esgotaram a polémica. James Watson é um nome incontornável da história da ciência, por ter sido um dos descobridores da estrutura da molécula de ADN. Esse é o seu grande feito, que lhe valeu um Nobel, e é isso que leva muita gente a querer ouvi-lo, como aconteceu aliás agora em Portugal. Estar sempre a relembrar as suas declarações infelizes sobre os negros, ou sobre as mulheres, como também já fez, não me pareceu vir agora a propósito”.
Dado o relevo de tais declarações na recente biografia de James Watson, ao provedor não chocaria, antes pelo contrário, que fossem referidas num entre-virgulas no texto agora publicado.
Publicada em 29 de Novembro de 2009
DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR:
Cartas do leitor Jorge Perestrelo Botelheiro
A noticia hoje [7 de Novembro] publicada sobre a deslocação de James D. Watson a Portugal, a convite da Fundação Champalimaud, é omissa em relação ao afastamento do Professor Watson de todas as instituições cientificas norte-americanas de referência a que esteve associado até Outubro de 2007. As [suas] declarações [que levaram a esse afastamento], facilmente acessíveis numa busca de imprensa, referiam existirem dados científicos que apontariam para a propensão genética da raça negra para uma menor inteligência. Penso que também deixou nessa altura de receber qualquer financiamento público, ou empresarial (lembra-se que, em Outubro de 2007, o país do Professor James D. Watson, ainda estava com administração republicana, e ainda não se tinha qualquer indicação segura de que o candidato democrata seria um negro).
Em termos jornalísticos, o tratamento informativo da palestra para um auditório de 700 pessoas do investigador associado à descoberta do DNA omite um outro facto mais actual e relevante, até por ser organizado por uma fundação portuguesa, oriunda de um legado privado mas com estatuto de utilidade publica, e presidida por uma personalidade que procura apresentar um percurso de serviço público.
Possivelmente a Fundação Champalimaud, entendeu por bem valorizar as descobertas científicas relevantes do Professor Watson e trazê-lo a Portugal, assumindo a Fundação Champalimaud, por razões ideológicas ou de relacionamento pessoal, um convite que muito provavelmente não teria sido produzido por outra entidade (aliás depreende-se que estando Watson afastado da comunidade cientifica o interesse da iniciativa seria essencialmente para um público "não-cientifico"), mas o estatuto público da fundação, e a natureza marcante das declarações de Watson sobre "a inteligência da raça negra", obrigavam o PÚBLICO a um tratamento jornalístico de um elemento relevante do percurso público de Watson, para já não mencionar a oportunidade de questionar conceitos como "raça" (Lévi-Strauss, falecido esta semana, escreveu, salvo erro a pedido da UNESCO, Raça e História).
Jorge Perestrelo Botelheiro
A omissão do percurso científico recente de Watson é tão mais relevante quanto se trata não apenas de um palestrante convidado mas do presidente em funçoes da F. Champalimaud.
O PÚBLICO atribuiu facilmente a eminência cientifica a Watson, que actualmente apenas parece ser reconhecida pela administração da F. Champalimaud.
Jorge Perestrelo Botelheiro
à(s)
14:07
0
comentários
Secção: Crónicas
domingo, 22 de novembro de 2009
Que farei eu com estas escutas?
A liberdade de imprensa não está apenas sujeita ao articulado legal, já que se trata também de uma questão de civilização
Os jorna-
listas de-
vem poder publicar quando o interesse público pesa mais do que o direito à privacidade
Tem-se equacionado que atitude deve um jornalista assumir se tiver acesso às escutas das ligações telefónicas entre Armando Vara e José Sócrates realizadas pelas autoridades judiciais no âmbito da investigação do processo “Face Oculta”. O provedor gostaria de interromper a sua análise de casos pretéritos do PÚBLICO para se debruçar sobre esta circunstância eventualmente vindoura, neste ou noutro órgão de informação.
O ambiente é de enorme pressão psicológica sobre os jornalistas no sentido de que devem abster-se de qualquer referência ao conteúdo das escutas, porquanto: a) constituem intromissão na vida privada dos protagonistas; b) o titular de um órgão de soberania deve ter direitos de confidencialidade superiores aos de outros cidadãos; c) trata-se de uma violação do segredo de justiça e de fugas de informação cirurgicamente dirigidas; d) as superiores instâncias judiciais declararam a invalidade e até a destruição dessas gravações, que terão sido efectuadas ilegalmente por carecerem da adequada caução judicial; e) e, para reforçar, o Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República aprovou na semana que findou um parecer impedindo o acesso dos jornalistas às escutas em processos judiciais. Sucessivos políticos (sobretudo da área governamental, mas não só), comentadores e até especialistas em ética jornalística têm antecipado a catástrofe na revelação das escutas a Vara e Sócrates, como se representasse a destruição do Estado de direito. Nessa argumentação, questões processuais como as garantias dos arguidos ou a preservação do segredo de justiça sobrelevam o apuramento da corrupção que parece minar o Estado, do tráfico de influências entre políticos e empresários ou da apropriação perversa dos negócios públicos para enriquecimento particular ou partidário – matérias apresentadas mesmo como “comezinhas”. A mensagem subliminar dos políticos aos jornalistas é clara: portem-se com juízo, se não caímos em cima de vocês com todos os meios ao nosso dispor (e, ao que parece, retirando também a colocação de publicidade estatal). O respeitinho, na nossa sociedade, ainda continua a ser uma coisa muito bonita.
Mas afinal que têm os cidadãos direito a saber? A liberdade de imprensa (no sentido lato de liberdade de informação) está definida, na sua amplitude e nos seus limites, por uma série de articulados legais que variam de país para país, mas antes disso trata-se de um conceito filosófico que representa uma aquisição da nossa civilização. Nos casos-limite em que se julga eventuais abusos de liberdade de imprensa, a margem de entendimento e decisão dos magistrados é extremamente ampla e subjectiva, e muitas vezes nem sequer consensual entre eles. A jurisprudência interna está mais vocacionada para fazer uma leitura literal da letra da lei, mas existe hoje a instância supranacional do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, que atribui ao conceito a categoria filosófica atrás referida, tendo já revogado diversas sentenças dos tribunais portugueses tomadas contra jornalistas ou outros cidadãos fazendo uso da sua liberdade de expressão.
Isto não obsta a que a classe política em Portugal, desde que disponha do poder necessário, se sinta atraída por tomar medidas limitativas da liberdade de informação. Basta analisar os estatutos da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, aprovados em sede parlamentar pelos partidos do chamado arco governativo (PS, PSD e CDS/PP). E o PS foi particularmente agressivo neste campo quando dispôs da anterior maioria absoluta. Sem fazer um processo de intenções às restantes forças parlamentares (BE e PCP), o elenco de formações políticas ou regimes além-fronteiras que apoiam ou a que habitualmente estão ligados não permite concluir que possuam melhor entendimento deste valor.
É claro que a liberdade de imprensa não é absoluta, total e ilimitada. Na sua decisão de informar, o jornalista tem de colocar muitas vezes num prato da balança os direitos individuais (sobretudo o direito à reputação e ao bom nome e o direito à preservação da intimidade da vida privada) e no outro o direito colectivo ao conhecimento das matérias de interesse público. A opção final terá de ser sempre do próprio jornalista, já que não pode consultar um tribunal para cada notícia que publica, e é óbvio que por vezes envolve um risco. Mas quem não quer correr riscos no jornalismo deve mudar de profissão. Ao longo da sua carreira de jornalista, este provedor foi processado judicialmente quase duas dezenas de vezes (inclusive por violação do segredo de justiça), mas nunca foi condenado, sequer em primeira instância. Rotina profissional, apenas.
Recuemos no tempo, até 1971. Em 13 de Junho desse ano, o diário norte-americano The New York Times começou a publicar uma série de artigos dando a conhecer o conteúdo de um estudo confidencial do Departamento de Defesa norte-americano sobre o envolvimento dos EUA na guerra da Indochina, com a revelação de estratégias bélicas antes mantidas secretas. Para lá do escândalo político que se desencadeou, falou-se em “traição nacional”, já que os americanos continuavam envolvidos em combates no Vietname. Os próprios advogados do New York Times estavam divididos sobre se o jornal deveria ou não divulgar documentos com o carimbo “top-secret” e tanto o Presidente (Richard Nixon) como o Attorney General (um misto de ministro da Justiça e Procurador Geral da República) tentaram debalde convencer o diário a suspender a saída dos artigos, para depois obterem uma injunção judicial forçando a sua interrupção, que foi acatada. A cena repetiu-se logo a seguir com The Washington Post, que porém não obedeceu à ordem de suspensão emitida pelo tribunal. A querela dos dois jornais subiu à apreciação do Supremo Tribunal de Justiça, que em 30 de Junho, por maioria (6-3), deliberou que as injunções judiciais eram inconstitucionais, já que constituíam uma limitação à liberdade de imprensa. (Mais do que o Watergate, que ocorreria pouco tempo depois, o caso dos “documentos do Pentágono” é considerado o acto fundador do moderno jornalismo de investigação).
Em nome do direito dos cidadãos a serem informados, o jornalismo pode revestir-se por vezes de aspectos que têm a ver com a desobediência civil. Voltando às escutas de Sócrates, os jornalistas, na opinião do provedor, só teriam uma coisa a fazer: destacar, se existem, os aspectos em que, no seu entender, o interesse público pesa mais do que a privacidade dos protagonistas, e trazê-los ao conhecimento da opinião pública. A mensagem aos políticos devia ser igualmente clara: esta é parte da verdade sobre a governação, que a todos os cidadãos diz respeito e que por isso têm o direito de conhecer; se quiserem, processem – veremos quem ganha.
CAIXA:
A favor do pluralismo
Assumindo a condição de assessor da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, dependente do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES), José Mariano Gago, escreve João Palhoto Matos, “meramente a título pessoal”, sobre uma nota assinada pelas jornalistas Bárbara Wong e Teresa Firmino, na pág. 7 da edição de 1 de Novembro, acerca do novo mandato governamental de Gago: “São citadas opiniões de duas pessoas: José (sic, presumo que de facto João) Cunha Serra, sindicalista bem conhecido, e Frederico Carvalho, investigador aposentado (...), que expõem opiniões sobre o trabalho futuro do MCTES. Opiniões estimáveis, quer se concorde ou não (...), e não questiono a sua relevância per se. O que me parece espantoso é que não há outras, e um minuto de pesquisa mostra que são duas pessoas nitidamente conotadas com as posições políticas do PCP nas áreas do Ensino Superior e da Ciência respectivamente. (...) Como é que (...) escolheram estas duas opiniões como exemplificativas? Há aqui objectividade? (...) É justificável que opiniões apareçam em forma que aparenta não ser uma citação? O resultado parece-me demasiado enviesado, e de forma que ilude informação para o leitor”.
O provedor, que se absteve de pedir cartão partidário aos entrevistados, solicitou explicações às duas jornalistas, sendo que cada uma escolhera uma fonte. Sobre Cunha Serra respondeu Bárbara Wong, que também diz ignorar a sua filiação política ou sequer se a possui: “Não escolhi uma pessoa ao acaso. É dirigente da Federação Nacional dos Professores, defende os interesses da sua classe. Mas é também um homem (...) que já citei, noutras ocasiões, a reconhecer o bom trabalho de Mariano Gago. É natural que João Palhoto Matos não concorde; [...] verifico que o seu endereço de email é do próprio ministério. O texto expressa a opinião de João Cunha Serra, ou seja, da estrutura sindical que representa (...). Quem acompanha a área (...) sabe que é também a opinião do Sindicato Nacional do Ensino Superior, e, no que diz respeito ao financiamento, o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas também assina por baixo – aliás, no texto faço referência aos reitores”. E acrescenta Teresa Firmino: “O investigador que surge a comentar a área da ciência reflecte há muitos anos sobre o sistema científico português (...). Este é, aliás, o tipo de artigo em que quem é ouvido expressa a sua opinião e, nesse sentido, a pessoa está identificada”.
Embora seja desejável o pluralismo numa situação destas, o provedor acha que a circunstância de as jornalistas terem, ao que afirmam, actuado autonomamente e não se conhecer identificação política clara dos dois intervenientes torna compreensível a sua argumentação.
Publicada em 22 de Novembro de 2009
DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR:
Carta do leitor João Palhoto Matos
A minha assinatura abaixo deve dar a informação de que não sou parte neutra no assunto que venho a expor (poderia ter colocado outra que me identifica como professor no IST, que seria igualmente verdadeira). No entanto esta mensagem é enviada meramente a título pessoal e de nenhuma forma envolve a instituição em que me encontro a trabalhar de momento. Deixei ficar a assinatura exactamente para contrapor à prática que questiono.
O PÚBLICO de 1 de Novembro apresenta a partir da página 7 um artigo, "Dezasseis Ministros à Procura de um Governo". Há um pedaço do artigo dedicado ao ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior [MCTES], Mariano Gago. São citadas opiniões de duas pessoas: José (sic, presumo que de facto João) Cunha Serra, sindicalista bem conhecido, e Frederico Carvalho, investigador aposentado do ITN [Instituto de Tecnologia Nuclear], que expõem opiniões sobre o trabalho futuro do MCTES.
Opiniões estimáveis quer se concorde ou não com elas (eu não concordo, mas pouco vem ao caso) e não questiono a sua relevância per se. O que me parece espantoso é que não há outras, e um minuto de pesquisa mostra que são duas pessoas nitidamente conotadas com as posições políticas do PCP nas áreas do Ensino Superior e da Ciência, respectivamente. As perguntas: como é que B.W. e T.F., que assinam o pedaço da peça, escolheram estas duas opiniões como exemplificativas? Há aqui objectividade? Qual seria a boa prática numa notícia como esta? É justificável que opiniões apareçam em forma que aparenta não ser uma citação?
O resultado parece-me demasiado enviesado, e de forma que ilude informação para o leitor, para o tipo de artigo em causa.
João Palhoto Matos
Assessor da Direcção para a área de informática Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Explicação da jornalista Bárbara Wong
Eu tenho a "pasta" do ensino superior e a Teresa tem a da ciência. É por essa razão que assinamos o texto em conjunto, uma vez que o que nos foi pedido pelo editor do Portugal Tiago Luz Pedro foi o seguinte:
"Amigos,
O destaque de 1 de Novembro será uma antecipação do que se conseguir reunir até lá do programa de Governo e das estratégias de governação que nos esperam nos próximos anos. O essencial será feito pela Política, mas pedem-nos textos sectoriais (ouvindo especialistas) que avaliem ministério a ministério os desafios/prioridades de cada um e as medidas previstas para concretizá-las. É importante que todos os textos reflictam também se o respectivo ministério ganha ou perde importância política na estrutura do Governo (ex: o Ambiente perdeu os fundos estruturais para a Economia, logo...). "
O pedido também apontava o tamanho de cada texto: dois mil caracteres. Pelo menos de quatro em quatro anos, eu e a Teresa Firmino fazemos estes textos em conjunto. Por isso, dividimos irmãmente os caracteres, mil para cada.
Portanto, eu não escolhi uma pessoa ao acaso. O que eu fiz foi ouvir uma pessoa que está identificada: é um dirigente da Federação Nacional dos Professores, portanto, defende os interesses da sua classe. Mas é também um homem que está há muito neste sector e que o conhece bem e que já citei, noutras ocasiões, a reconhecer o bom trabalho de Mariano Gago.
É natural que o professor João Palhoto (que não conheço) não concorde, como haverá milhares de pessoas que podem não concordar. Quando digo que é natural é porque, apesar de não conhecer o professor em questão, verifico que o seu endereço de email é do próprio ministério. O texto expressa a opinião de João Cunha Serra, ou seja, da estrutura sindical que representa e que vem bem identificada. Quem acompanha a área como eu sabe que é também a opinião do Sindicato Nacional do Ensino Superior e, no que diz respeito ao financiamento, o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas também assina por baixo - aliás, no texto faço referência aos reitores.
Segundo estas três organizações, os últimos quatro anos não foram fáceis para o ensino superior porque os orçamentos de universidades e politécnicos foram constantemente cortados. Além disso, o ónus do pagamento da caixa geral de aposentações (11 por cento) foi passado para essas mesmas instituições. Por isso se fala tanto de sub-financiamento deste sistema, ele é real. Na anterior legislatura, o Governo apostou forte na ciência em detrimento do ensino superior, e isso é reconhecido por todos, mesmo pelo próprio primeiro-ministro, que se reuniu com os reitores e presidentes dos politécnicos e agradeceu-lhes o esforço feito.
Tudo isto já foi escrito no PÚBLICO.
Bárbara Wong
Explicação da jornalista Teresa Firmino
Queria apenas acrescentar ao que a Bárbara Wong escreveu o seguinte: o investigador que surge a comentar a área da ciência reflecte há muitos anos sobre o sistema científico português, razão por que foi ouvido agora, tal como já aconteceu para outros artigos no passado. Este é, aliás, o tipo de artigo em que quem é ouvido expressa a sua opinião, e, nesse sentido, a pessoa está identificada.
Teresa Firmino
à(s)
07:18
0
comentários
Secção: Crónicas
domingo, 15 de novembro de 2009
Da transparência no jornalismo
Há por vezes peças jornalísticas onde parece querer-se pré-formatar o raciocínio do público
Assume a notícia, sem citar fontes, que o governo de Sócrates “é bem aceite” pelo seu “equi-
líbrio”
Na semana em que o vírus da berlusconização infectou o Estado português e o jornalismo parece a última trincheira da luta pela transparência do sistema democrático e da acção dos seus agentes, merece a pena dizer que o próprio jornalismo só reforça da sua credibilidade se também souber ser transparente perante os cidadãos.
Vem isto a propósito de um texto intitulado “Surpresa: uma equipa metade política e metade técnica”, acerca da formação por José Sócrates do actual elenco governativo, assinado pela jornalista Leonete Botelho na pág. 2 da edição do PÚBLICO de 23 de Outubro. O provedor tem por norma não retomar críticas já divulgadas no espaço público, mas abriu uma excepção por achar estimulante para o debate o comentário que nesse mesmo dia Gabriel Silva fez ao artigo de Leonete Botelho num post publicado no blogue Blasfémias. “Leonete Botelho (...) recorre à técnica dos ‘recados para alguém’. Para o leitor é que não é (...). ‘Enganaram-se os comentadores que apostavam que o novo Governo teria um cariz exclusivamente político’ – Quais comentadores? ‘Um executivo que é bem aceite por esse equilíbrio’ – Bem aceite por quem? ‘Alguns socialistas ouvidos pelo PÚBLICO não escondem a estupefacção’ – Quem? De que grupo? Escondem nome mas o recado já passou, certo? ‘Certo é que se trata de um ministério de relevo na hierarquia, mas sem grande exposição pública’ – Perdão? Isso quer dizer o quê? ‘…a escolha de Jorge Lacão é bem acolhida pela experiência que...’ – quem acolhe bem? ‘Mesmo assim, havia quem esperasse ver no cargo alguém...’ – Exacto, quem? ‘…ainda que haja quem critique baixinho a exclusão de socialistas ministeriáveis que dariam mais garantias de sucesso’ – Quem? ‘Baixinho’ não, está no artigo principal do jornal. Foi alguém que ficou de fora? Enfim. Recados e mais recados. Não parece ser isso que o consumidor pretende ler ao comprar o jornal”.
Não sendo o texto de Leonete Botelho encimado pelas palavras “análise” ou “comentário”, presumirá o leitor que se trata de matéria noticiosa. Por isso o provedor solicitou à autora uma explicação face às observações de Gabriel Silva. A jornalista começa por dizer ter achado o comentário “de uma enorme injustiça, uma vez que a notícia estava construída sobre depoimentos em on, com pessoas devidamente identificadas, e só lateralmente havia aquelas expressões retiradas do texto para construir o post e deturpar totalmente o conteúdo da peça”.
Leonete Botelho justifica depois o tom do seu artigo: “Como é hábito do PÚBLICO e prática dos jornais de referência, pretendia-se dar pistas de interpretação aos leitores sobre as escolhas feitas pelo primeiro-ministro, (...) que no dia seguinte já seriam conhecidas e já tinham sido escalpelizadas por televisões e rádios (...). Procuraram-se, entre as 18 e as 20 horas (tempo útil desde a divulgação dos nomes dos novos ministros e a dead-line para escrever), politólogos e políticos disponíveis para dar conta da sua apreciação sobre o novo governo. Focámo-nos sobretudo no PS, por supostamente ser onde se conheciam melhor as pessoas escolhidas, mas também para perceber até que ponto o partido de suporte do Governo se revia nas escolhas. Foi nesse contexto que foram ouvidos e aceitaram ser citados o politólogo André Freire e os socialistas Manuel Alegre e Fonseca Ferreira, (...) assim como Osvaldo Castro e Vitalino Canas, ambos deputados e com cargos de relevo na última legislatura (...).Outros contactos foram feitos mas as pessoas em causa não quiseram ser citadas (...). Estes contactos foram tidos em conta para o tom geral do texto, mas não para o seu enfoque principal nem para fazer citações de quem não quer ‘dar a cara’.”
A jornalista explica então, um a um, os destaques seleccionados por Gabriel Silva:
“‘Enganaram-se os comentadores’. Todos os que, desde a noite das eleições legislativas, escreveram (...) e falaram (...) sobre a necessidade de o novo governo ser hiperpolítico, no sentido de ser composto quase maioritariamente por quadros políticos preparados para o combate no Parlamento e na sociedade, combate que inevitavelmente espera um governo minoritário. Eram essas as expectativas criadas por analistas, politólogos, jornalistas, cidadãos, enfim, comentadores que – sim – se enganaram. As expectativas foram defraudadas. José Sócrates não correspondeu à análise política generalizada. Não consigo compreender a crítica do autor do post.
‘Um executivo que é bem aceite por esse equilíbrio.’ Basta ler o texto: todos os citados se referem ao equilíbrio entre políticos e técnicos. O mesmo em relação à ‘escolha de Jorge Lacão [ser] bem acolhida’ (...).
’Alguns socialistas ouvidos pelo PÚBLICO’; ‘Havia quem esperasse ver no cargo’; ‘haja quem critique baixinho’. Aqui de facto as fontes não são citadas. Repare-se: nenhum socialista citado faz críticas em on. Lanço mesmo o desafio de se procurar, para além de Alegre, um outro militante socialista com algum cargo político que tenha feito críticas em on a José Sócrates nos últimos seis meses, para não ir mais longe. Quer isto dizer que um jornalista deve fingir que não ouve as críticas que são feitas ao líder do PS? Quer isso dizer que um jornalista parlamentar, sobretudo quem acompanha determinado partido, seja ele qual for, deve ignorar todo o ambiente político que sabe existir nesse partido e não dar conta aos seus leitores dessa realidade? Se assim fosse, aí sim, estaria a mentir, porque passaria para os seus leitores a imagem de um partido unânime, onde não há crítica e onde ninguém tem opiniões e ideias diferentes do líder. O que, obviamente, não é verdade.
Ora, é precisamente em nome do rigor da informação, em nome da verdade, em nome dos deveres deontológicos do jornalista que a referência a fontes anónimas tem de ser um recurso à disposição desta profissão, depois de esgotadas todas as possibilidades de conseguir depoimentos ‘assinados’. Um ambiente psicológico como aquele de que se deu conta com aquelas expressões não pode ser aferido ouvindo uma única pessoa, nem duas ou três. Mas para quem acompanha um partido diariamente, para quem conversa todos os dias com muitos socialistas e conhece as sensibilidades e quem as representa, é possível com alguma rapidez aferir, com alguns telefonemas ou conversas, a ‘temperatura’ desse partido em determinado momento em relação a determinado facto. Foi o que se fez.
‘Certo é que se trata de um ministério de relevo na hierarquia, mas sem grande exposição pública’. Quer dizer simplesmente que o cargo de ministro da Defesa é o quarto da hierarquia do Governo, indiscutivelmente de relevo, mas que obviamente não tem a mesma exposição pública que o cargo de ministro dos Assuntos Parlamentares, que Augusto Santos Silva anteriormente ocupava (...). Que falta perceber? É preciso explicar que o Ministério da Defesa exige a quem o tutela um maior grau de discrição no tipo de intervenções que faz? Que lidar com os militares é diferente de lidar com os partidos da oposição?”
Por último, a resposta de Leonete Botelho à questão dos “recados”: “Não poderão chamar-se recados às incontáveis afirmações que fazem os políticos uns contra os outros (para falar só de política) em entrevistas, debates, notícias em que são citados? Não compreendo o preconceito, não compreendo onde o autor do post vê recados neste texto, como não compreendo o que esse consumidor pretende ler ao comprar o jornal”.
O que Leonete Botelho fez foi seguir uma prática mais ou menos institucionalizada no jornalismo português de dar por aquiridos consensos formados nas redacções e consagrados em letra de forma como o “politicamente correcto”. Nem todos os sublinhados feitos por Gabriel Silva são do mesmo teor. É uma realidade que houve comentadores a enganarem-se na antevisão do novo governo, que deverá haver socialistas críticos quanto a este executivo e que em tempo de paz a pasta da Defesa talvez seja menos exposta do que a dos Assuntos Parlamentares (o que porém Santos Silva não está a confirmar). Mas, quanto às restantes frases, Leonete Botelho não as atribui a quaisquer fontes, anónimas ou não anónimas (muito menos do PS), sim a uma espécie de pensamento único, socialmente consolidado. Será apenas uma questão de formulação, mas é dos tais casos em que forma e conteúdo estão indissoluvelmente ligados. Por esta forma, parece querer-se pré-formatar o raciocínio do leitor. O provedor não tem a pretensão de saber com rigor o que o consumidor pretende ler ao comprar o jornal, mas duvida que procure uma lavagem ao cérebro.
CAIXA:
“Just for the record”
Esta expressão inglesa equivale à nossa “para que conste”, o registo rigoroso de um facto, para memória futura. O método é especialmente importante num jornal de referência, que costuma ser visto como uma crónica fiel dos acontecimentos da sua época. Para que conste, o jornal deve ter a preocupação de comunicar factos confirmados ou, logo que verifique não ser o caso, fazer a sua correcção. O provedor escolheu este título devido ao caso suscitado pelo leitor Sérgio Nunes a propósito da seguinte passagem da crónica de Santana Castilho da passada quarta-feira: “Foram idênticas preocupações para não ferir a sensibilidade dos emigrados que terão levado os ingleses a retirarem dos livros escolares qualquer alusão ao holocausto". Escreve o leitor: “Esta ideia tem por base um persistente boato falso que o próprio governo britânico já desmentiu por diversas vezes. Parece ser um boato muito ‘cativante’, uma vez que já o vi mencionado por diversas vezes na imprensa nacional (...). Mesmo que o PÚBLICO não seja proactivo e preventivo na identificação destes erros factuais, parece-me fundamental a identificação e divulgação destas situações depois de encontradas”.
O provedor não possui qualquer jurisdição sobre textos de opinião, mas já esclareceu que se reserva o direito de chamar a atenção para a existência neles de erros factuais não corrigidos pelo jornal, como é o caso. Para que conste.
Publicada em 15 de Novembro de 2009
DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR:
Post de Gabriel Silva no blogue Blasfémias
Explicações da jornalista Leonete Botelho
Li essa “blasfémia” no dia em que foi publicada e achei de uma enorme injustiça, uma vez que a notícia estava construída sobre depoimentos em on, com pessoas devidamente identificadas, e só lateralmente havia aquelas expressões retiradas do texto para construir o post e deturpar totalmente o conteúdo da peça.
1. Trata-se da peça de abertura do destaque sobre o novo Governo, e como é hábito do PÚBLICO e prática dos jornais de referência, pretendia-se dar pistas de interpretação aos leitores sobre as escolhas feitas pelo primeiro-ministro, escolhas essas que no dia seguinte já seriam conhecidas e já tinham sido escalpelizadas pelas televisões e rádios durante várias horas. Procuraram-se, entre as 18 e as 20 horas (tempo útil desde a divulgação dos nomes dos novos ministros e a dead-line para escrever), politólogos e políticos disponíveis para dar conta da sua apreciação sobre o novo governo. Focámo-nos sobretudo no PS, por supostamente ser onde se conheciam melhor as pessoas escolhidas, mas também para perceber até que ponto o partido de suporte do Governo se revia nas escolhas.
2. Foi nesse contexto que foram ouvidos e aceitaram ser citados o politólogo André Freire e os socialistas Manuel Alegre e Fonseca Ferreira, que representam duas correntes de opinião dentro do partido, assim como Osvaldo Castro e Vitalino Canas, ambos deputados e com cargos de relevo na última legislatura: presidente da comissão parlamentar de Direitos, Liberdades e Garantias e porta-voz do PS, respectivamente.
3. Outros contactos foram feitos mas as pessoas em causa não quiseram ser citadas, porque se limitaram a fazer análises críticas sobre um ou outro aspecto da equipa governativa e não querem problemas no partido. Estes contactos foram tidos em conta para o tom geral do texto, mas não para o seu enfoque principal nem para fazer citações de quem não quer ‘dar a cara’. Mas ajudaram a perceber que a opção de José Sócrates, ao abrir o Governo a independentes em detrimento dos quadros políticos do partido, não é pacífica no PS. O que, aliás, deu origem a um outro texto, publicado hoje (sábado 24) sob o título: “José Sócrates, o pragmático, passou ao lado das sensibilidades do PS nas escolhas”.
4. Passemos agora às ‘críticas’ do Blasfémias:
i. “Enganaram-se os comentadores”. Quais? Todos os que, desde a noite das eleições legislativas, escreveram nos jornais e nos blogues e redes sociais, e falaram nas rádios e nas televisões, sobre a necessidade de o novo governo ser hiperpolítico, no sentido de ser composto quase maioritariamente por quadros políticos preparados para o combate no Parlamento e na sociedade, combate que inevitavelmente espera um governo minoritário. Eram essas as expectativas criadas por analistas, politólogos, jornalistas, cidadãos, enfim, comentadores que – sim – se enganaram. As expectativas foram defraudadas. José Sócrates não correspondeu à análise política generalizada. Não consigo compreender a crítica do autor do post.
ii. “Um executivo que é bem aceite por esse equilíbrio – por quem?” – Basta ler o texto: todos os citados se referem ao equilíbrio entre políticos e técnicos. O mesmo em relação à “escolha de Jorge Lacão [ser] bem acolhida”: é-o pelos citados, claro, basta ler o texto.
iii. “Alguns socialistas ouvidos pelo PÚBLICO”; “Havia quem esperasse ver no cargo”; “haja quem critique baixinho”: aqui de facto as fontes não são citadas. Repare-se: nenhum socialista citado faz críticas em on. Lanço mesmo o desafio de se procurar, para além de Manuel Alegre, um outro militante socialista com algum cargo político que tenha feito críticas em on a José Sócrates nos últimos seis meses, para não ir mais longe. Quer isto dizer que um jornalista deve fingir que não ouve as críticas que são feitas ao líder do PS? Quer isso dizer que um jornalista parlamentar, sobretudo quem acompanha determinado partido, seja ele qual for, deve ignorar todo o ambiente político que sabe existir nesse partido e não dar conta aos seus leitores dessa realidade? Se assim fosse, aí sim, estaria a mentir, porque passaria para os seus leitores a imagem de um partido unânime, onde não há crítica e onde ninguém tem opiniões e ideias diferentes do líder. O que, obviamente, não é verdade.
iv. Ora, é precisamente em nome do rigor da informação, em nome da verdade, em nome dos deveres deontológicos do jornalista que a referência a fontes anónimas tem de ser um recurso à disposição desta profissão, depois de esgotadas todas as possibilidades de conseguir depoimentos ‘assinados’. Um ambiente psicológico como aquele de que se deu conta com aquelas expressões não pode ser aferido ouvindo uma única pessoa, nem duas ou três. Mas para quem acompanha um partido diariamente, para quem conversa todos os dias com muitos socialistas e conhece as sensibilidades e quem as representa, é possível com alguma rapidez aferir, com alguns telefonemas ou conversas, a “temperatura” desse partido em determinado momento em relação a um determinado facto. Foi o que se fez.
v. “Certo é que se trata de um ministério de relevo na hierarquia, mas sem grande exposição pública” – Quer dizer simplesmente que o cargo de ministro da Defesa é o quarto da hierarquia do Governo, indiscutivelmente de relevo, mas que obviamente não tem a mesma exposição pública que o cargo de ministro dos Assuntos Parlamentares, que Augusto Santos Silva anteriormente ocupava e que o colocava no centro da exposição parlamentar e pública, pelas intervenções que fazia enquanto tal. Que falta perceber? É preciso explicar que o Ministério da Defesa exige a quem o tutela um maior grau de discrição no tipo de intervenções que faz? Que lidar com os militares é diferente de lidar com os partidos da oposição?
vi. “Enfim. Recados e mais recados. Não parece ser isso que o consumidor pretende ler ao comprar o jornal” – Há de facto um recado na peça em causa e está devidamente assinalado como tal e em on: É o “aviso à navegação” feito por Fonseca Ferreira no fim do artigo. Sobre os “recados”: não poderão chamar-se recados às incontáveis afirmações que fazem os políticos uns contra os outros (para falar só de política) em entrevistas, debates, notícias em que são citados? Não compreendo o preconceito, não compreendo onde o autor do post vê recados neste texto, como não compreendo o que esse consumidor pretende ler ao comprar o jornal.
Leonete Botelho
à(s)
11:31
0
comentários
Secção: Crónicas